DRÁCULA - A SOMBRA DA NOITE

Vampiros em estilo mangá, numa pequena pérola esquecida dos quadrinhos brasileiros

Artigo originalmente publicado no site Universo HQ

Já foi dito que para estar na moda não é necessário ficar obsessivamente antenado às tendências dominantes, basta manter os seus gostos pessoais, interesses e convicções, pois, em algum momento, a moda acabará por alcançá-lo.

Um dos casos mais recentes são as histórias sobre zumbis. Quem imaginaria, cerca de cinco anos atrás, que os mortos-vivos popularizados pela - até então - trilogia cinematográfica do genial George Romero (A Noite dos Mortos Vivos, Despertar dos Mortos e Dia dos Mortos) estariam hoje na "crista da onda", quase em vias de saturação da fórmula? Por toda parte pipocam filmes, quadrinhos e até livros sobre o tema. Desde a brilhante HQ Os Mortos-Vivos (publicada no Brasil pela HQM), de Robert Kirkman, até bizarrices como Zumbis Marvel, do mesmo autor, em que os super-heróis são os zumbis canibais famintos.

Para quem nunca deixou de cultuar o gênero, essa superexposição provoca sentimentos ambíguos. Por um lado, é fascinante assistir ao surgimento de uma legião de novos fãs, bem como aproveitar à facilidade de acesso a obras raras que voltam a ser lançadas no mercado graças ao (com perdão do trocadilho inevitável) ressuscitado interesse geral. Por outro, não há como não se sentir meio "invadido", como se um bando de desconhecidos entrasse na sua casa sem a menor cerimônia e mexesse nos seus brinquedos mais antigos e queridos. Ranhetice? Sim, sem dúvida… mas com algum fundamento. Afinal, não é nada agradável para um fã com um mínimo de conhecimento histórico testemunhar certas distorções e injustiças típicas das ondas de modismo. Há quem tenha classificado Terra dos Mortos, aguardado retorno do bom e velho Romero ao gênero que ajudou a sedimentar, como "mais um filme de zumbis". "É uma imitação de Madrugada dos Mortos", este escriba já teve o desprazer de ouvir. Claro que o herege que falou essa bobagem ignora que o popular filme de Zack Snyder nada mais é que um remake do clássico (ainda) insuperável Despertar dos Mortos, de Romero.

Cruel, não?

E é ainda mais triste constatar que enquanto remakes, variações e até pastiches gozam de popularidade e lucro, os filmes originais são raramente vistos, pois são produções de baixo orçamento, assumidamente underground, que não contam com as milionárias campanhas de marketing dos grandes estúdios, sendo facilmente confundidas com filmes trash pelo público leigo.

Mas o que todo esse preâmbulo tem a ver com vampiros (que, em termos de popularidade, deixam os pobres comedores de carne humana no chinelo)? Voltaremos a esse ponto mais adiante

A série Drácula - A Sombra da Noite, de Ataíde Braz e Neide Harue, lançada em 1985 pela editora Nova Sampa, reconta a imortal saga do príncipe dos vampiros sob um prisma romântico deliciosamente sensual e com desenhos com forte influência do estilo japonês.

Note que trata-se de dois pilares da cultura pop atual: vampirismo e mangá, cuja penetração no imaginário do público jovem já foi muito além do simples modismo. Uma HQ combinando ambos tem, atualmente, enormes chances de sucesso comercial, mesmo que seja mal produzida e não tenha mais ambições além do lucro fácil, o que não foi, nem de longe, o caso deste Drácula. Entretanto, vale a pergunta: caro leitor, por acaso alguma vez já ouviu falar dessa série?

Não se envergonhe de dizer não. No início da pesquisa para este artigo, uma busca no Google não revelou mais do que uma dúzia de links, a maioria de sebos virtuais anunciando a edição encadernada publicada posteriormente.

De fato, foi apenas por meio da consulta direta ao criador e escritor da série, o pernambucano Ataíde Braz, que foi possível descobrir mais detalhes sobre sua gênese e publicação. No gigantesco emaranhado de dados da internet, Drácula - A Sombra da Noite permanece quase sumariamente esquecida. Este artigo é uma tentativa de remediar tal injustiça.

Hoje parece inacreditável, mas o fato é que, até o final dos anos 80, ninguém dava muita trela para vampiros ou mangás por aqui. Claro que, devido à tradição do terror nos quadrinhos nacionais, histórias dos seguidores de Drácula sempre foram produzidas, mas não chegavam a ser mais populares do que os demais monstros que infestavam os gibis do período, sem contar o fato de que o gênero passava por um franco declínio.

Quanto ao mangá, com exceção do best-seller Akira e de algumas tímidas tentativas de publicação de cults, como Lobo Solitário e Crying Freeman, era um estilo praticamente desconhecido pelos brasileiros, chamando a atenção apenas de um público mais bem informado, porém insuficiente para garantir a permanência em banca.

Falar em "mangá brasileiro" num contexto assim seria algo próximo do absurdo, e nem era essa a intenção da desenhista Neide Harue, esposa de Ataíde Braz. As características orientais eram apenas parte de seu estilo pessoal, que chegou a ser criticado, na época, por ser semelhante demais ao mangá e não ter um caráter mais "brasileiro". Quem diria, não? Eram realmente outros tempos.

Polêmicas à parte, o importante é que, mesmo apresentando algumas fragilidades técnicas nos primeiros capítulos, o traço oriental de Harue imprimia um charme irresistível aos personagens e combinava perfeitamente com o romantismo assumido do texto. Vale ressaltar, inclusive, que se por um lado esse não foi o primeiro "mangá nacional", ao menos foi o primeiro quadrinho brasileiro inteiramente ilustrado por uma mulher. Um fato raramente mencionado.

Mas se o visual japonês foi apenas incidental, o mesmo não se pode dizer da tentativa de reformulação do mito do vampiro empreendido por Ataíde Braz. Totalmente na contramão das tendências da época, o autor apresentou aos leitores (e editores) um vampiro jovem, bonito, elegante, de temperamento intempestivo e audacioso, que questionava a imortalidade e sofria com a solidão melancólica de séculos de uma existência vazia, ainda que orgulhoso de sua linhagem nobre e com energia suficiente para continuar sua busca por vitalidade e amor. Algo muito diferente do paradigma do "monstro maligno sugador de sangue", estilo Tumba de Drácula, cuja estética permeava praticamente todas as produções do gênero.

A trama, narrada originalmente em cinco edições de periodicidade irregular, seguia a seqüência de eventos do romance de Bram Stoker, porém adaptando livremente os detalhes, sentidos, pontos de vista e caracterizações, além de introduzir novos plots e personagens.

O resultado, para todos os efeitos, era uma nova história, com identidade própria, na qual o terror moralista vitoriano de Stoker foi substituído propositalmente pela aventura romântica, com um casal de protagonistas tão cativante quanto divertido.

Momentos clássicos do livro, como o aprisionamento de Jonathan Harker no castelo da Transilvânia, a vampirização e morte de Lucy Westenra, a formação do grupo de destemidos caçadores de vampiros liderados pelo Prof. Van Helsing, a transformação de Mina Murray em noiva de Drácula, tudo isso marca presença na série, porém com um caráter diferente.

Aqui, Harker é um jovem ingênuo e moralista, cujo terror parece muito mais fruto de sua sexualidade travada do que de alguma ameaça real por parte do conde, que mais parece zombar da afetação do rapaz. Lucy nada mais é do que uma nova tentativa do vampiro de encontrar uma companheira, assim como as três noivas no castelo, com a agravante de ser muito parecida (ao menos fisicamente) com Catherine, sua primeira esposa. Van Helsing é um senhor gentil e de coração puro que, apesar de acreditar que Drácula precisa ser destruído, é permanentemente tomado por dúvidas quanto à moralidade de sua cruzada cristã. Os caçadores de vampiros ganham personalidades muito mais marcantes e bem definidas do que no livro, com destaque para um insuportável Lord Arthur Holmwood, que rouba a cena como o nobre pedante e covarde.

Mas é Mina Murray que detém o coração da HQ. Com seus cabelos curtos e atitudes pouco apropriadas para uma mulher de respeito no século XIX, a impulsiva e geniosa Mina de Ataíde Braz encanta os leitores tanto quanto o orgulhoso conde.

A dinâmica do casal segue a tradição clássica de amor/ódio estilo …E o Vento Levou, com duelos verbais ferinos temperados com astutas provocações sensuais, culminando no tórrido desfecho da edição # 3 (um dos melhores momentos da série), em que a moça se entrega à paixão pelo conde e aceita seu destino como uma nova sombra da noite. Uma cena inteiramente diferente do estupro simbólico cometido no livro, em que Drácula obriga a moça a beber o sangue de uma ferida em seu peito.
E aqui cabe uma pausa. Um leitor atento já deve ter percebido as semelhanças entre a HQ e o filme Drácula de Bram Stoker, que também segue de perto a história do romance, mas modifica o sentido original das cenas, especialmente em momentos como o encontro vampírico/sexual de Drácula e Mina. No longa-metragem, ao invés de ser forçada a beber o sangue amaldiçoado, Winona Ryder suga voluptuosamente, e de bom grado, o peito de um relutante e extasiado Gary Oldman.

De fato, existem ainda mais semelhanças entre as duas obras. Da segunda edição até o final da série, a trama principal alterna-se com flashbacks revelando o passado humano de Vladmir Drácula, suas origens guerreiro/aristocráticas, a guerra sangrenta contra os magiares, a paixão por sua primeira esposa Catherine e sua transformação em vampiro após a morte dela. Praticamente uma versão ampliada do prólogo da película de Francis Ford Coppola. O fato interessante, todavia, é que o filme foi lançado em 1992, sete anos depois de Drácula - A Sombra da Noite ser publicado.

Não seria exagero afirmar que a série foi precursora de um novo paradigma do gênero. Ataíde Braz não apenas ajudou a resgatar a dignidade da então desgastada figura do Conde Drácula, como arriscou lançar mão de uma série de idéias que, posteriormente, se tornariam muito populares. Duas delas merecem ser destacadas aqui:

1) Além de belos e atraentes, os vampiros têm uma existência física bastante concreta, diferente dos seres indefinidos e ectoplásmicos do livro de Stoker, que os velhos filmes, como os da produtora inglesa Hammer, ajudaram a popularizar. Depois da inebriante noite de amor, Mina ouve o coração de Drácula batendo, uma prova de que ele não é um cadáver ambulante ou um espectro, mas sim um imortal num corpo concreto de carne e sangue.

(Ainda assim, o conde é capaz de se transformar em morcego ou lobo, algo desnecessário para a trama, mais parecendo uma concessão às velhas histórias.)

2) Há uma clara tentativa de desvincular o vampirismo da religião. Na série, Drácula não renunciou a Deus, não fez pacto com o demônio, nem mesmo foi o primeiro dos vampiros. O conde desconhece as origens da maldição, tudo o que sabe é que foi transformado pela traiçoeira Maria, uma misteriosa vampira estrábica (!) responsável por uma conspiração para tomar seu reinado e seu coração. Com a morte dela, Drácula teve que aprender sozinho os mistérios do vampirismo, acabando por atingir um nível de poder considerável com o passar dos séculos.

(Aqui também há um tipo de concessão, uma vez que os vampiros da série - particularmente os mais jovens e fracos - mostram-se vulneráveis a crucifixos, porém Ataíde Braz apresenta a idéia de que é a "essência não maculada pelo ódio" do portador da cruz que realmente afeta o vampiro, não o símbolo religioso em si. Uma outra forma de dizer que talvez seja preciso ter fé para que funcione, mas ainda assim uma abordagem pouco comum na época.)

Essas idéias (evidentemente em formas mais desenvolvidas e lapidadas) são elementos importantes da mitologia criada pela escritora Anne Rice na sua série de romances Crônicas Vampirescas, uma mitologia que se tornou a base da "cultura vampírica", como a conhecemos hoje.

Novamente, a HQ chegou antes, pois embora o romance original Entrevista com o Vampiro tenha sido lançado em 1976, foi somente a partir da publicação de Vampiro Lestat (1985) e Rainha dos Condenados (1988) que a popularidade dos livros começou a se espalhar por outras mídias e alcançar proporções de culto.

Paralelamente, Coppola produzia sua "versão definitiva" de Drácula, logo seguida pela vitoriosa adaptação para as telas do próprio Entrevista com o Vampiro (dirigida por Neil Jordan em 1994) além do surgimento de um dos mais bem-sucedidos jogos de RPG da década de 1990, Vampiro - A Máscara (1991), cujo sistema de regras conseguia a proeza de unificar todas as subespécies vampíricas que a imaginação humana já concebeu num bizarro sistema de castas, permitindo ao jogador vivenciar um vasto universo underground, bem ao estilo dos romances de Rice.

De um gênero decadente do cinema de horror, nos anos 70, o vampirismo adentrou a década de 1990 como um "estilo de vida alternativo", uma subcultura urbana que movimenta uma indústria que abarca filmes, livros, quadrinhos, RPGs, jogos eletrônicos, vestuário, casas noturnas e outros itens não tão facilmente imagináveis.

Naturalmente, uma parcela significativa dessa produção é de qualidade bastante discutível, mas a existência de um público colecionador fiel é suficiente para manter os investimentos se movimentando, seja para artistas ou oportunistas (ou ambos).

No começo dos anos 80, entretanto, não foi nada fácil para Ataíde Braz convencer alguma editora a publicar sua série. Veterano dos quadrinhos nacionais, ele já havia abordado novas facetas do vampirismo numa história publicada no número # 5 da saudosa revista Spektro (uma edição especial só com HQs de vampiros), em que o protagonista se sacrificava por amor.

Uma segunda tentativa, entretanto, foi rejeitada pela editora Vecchi e não chegou sequer a ser desenhada. O curioso é que a descrição de Ataíde Braz para essa história tem tudo o ver com o modelo vampírico pós-Anne Rice: "Era sobre um vampiro atormentado por um fantasma. Toda madrugada, antes de o sol nascer, ele recebia a visita deste fantasma, ele mesmo quando ainda era mortal. Era um vampiro que questionava a imortalidade. Que se angustiava ao ver todas as suas referências, sua época, tudo desaparecendo, mudando. E sentia saudades da sua vida como mortal. De quando a vida o surpreendia. E, no fim, o fantasma o convence a permanecer na janela e ver o sol nascer e assim se juntar aos que ele amava e que já tinham partido."

O primeiro número de Sombra da Noite, na esperança de conseguir ser publicado, propositalmente abriu o máximo de concessões possíveis ao esquema dos quadrinhos de horror da época, com direito ao conde sendo expulso de uma igreja por um padre gritando "Vade retro, Demônio!" e outras amenidades do tipo.

Finalmente a Nova Sampa topou a empreitada, dando aos autores a liberdade de continuar a história sem interferências e sem um número pré-definido de edições. O resultado foi uma trama sólida, construída lentamente em capítulos de 60 páginas progressivamente mais cativantes, sendo as edições # 3, # 4 e # 5 as mais bem acabadas, tanto nos roteiros quanto nos desenhos cada vez mais seguros de Neide Harue.

Mas como azar pouco é bobagem, o primeiro número foi pego em cheio pelo famigerado Plano Cruzado, tendo seu preço de capa congelado por um ano, o que complicou muito as chances de continuidade.

Com tiragens pequenas, distribuição limitada e temática tão desacreditada, a série tinha poucas chances de ser conhecida, mas surpreendentemente vendeu bem e obteve uma resposta satisfatória, em especial do público feminino.

Ainda assim, os custos e as dificuldades para lançar cada número deixavam claro que a coisa não poderia prosseguir por muito tempo. E Drácula acabou sendo encurralado por seus inimigos (de maneira similar ao livro de Stoker), vindo a morrer juntamente com sua amada Mina, no desfecho da edição # 5, frustrando as esperanças de muitos leitores que escreviam para a redação pedindo um final feliz.

Ou não? Algum tempo depois do final da série, a Nova Sampa lançou a edição especial O Retorno de Drácula - Um Vampiro no Ragtime, trazendo o conde de volta a vida em plenos anos 20.

Seguindo a mesma estrutura de 60 páginas, a revista foi uma maravilhosa promessa tristemente não cumprida. O início de uma nova trama em que Drácula, livre dos caçadores de vampiros já falecidos, inicia uma busca pelo corpo desaparecido de Mina, ao mesmo tempo em que se envolve com novos e fascinantes personagens.

Mais seguros depois da boa recepção da série original, os autores criaram uma história ainda mais envolvente e bem executada, com ganchos suficientes para várias edições, agora sem a obrigação de seguir a trama do livro.

Entre os novos personagens estava a fogosa francesinha Anne, criada sob medida para virar a cabeça do mulherengo conde, e o jovem Holt, um personagem homossexual sem estereótipos e com uma visível queda pelo vampiro, uma ousadia rara para qualquer mídia na época, especialmente o conservador mercado de quadrinhos brasileiro.

Fazia parte dos planos de Ataíde Braz que a nova série girasse em torno da rede de desejos formada entre Drácula, Anne, Holt e as ressuscitadas Maria e Mina (um plot que também teria antecipado os jogos de sedução bissexuais dos vampiros de Anne Rice) e culminaria na vinda de Drácula para o Brasil!

Infelizmente, os problemas econômicos acabaram decretando o fim da empreitada e Um Vampiro no Ragtime não passou dessa primeira edição. Mas a aventura do conde em São Paulo chegou a ser publicada… mas não no Brasil. Os roteiros inéditos foram adaptados e resumidos na forma de um álbum de 48 páginas lançado na França, Bélgica e Holanda.

Os fãs brasileiros nunca puderam saber como a história terminaria, tendo que se contentar apenas com tímidas tentativas de reedição da série original. No finzinho dos anos 80, a Nova Sampa republicou os dois primeiros números, mas mesmo com belas novas capas de Neide Harue (com um Drácula claramente inspirado no ator Christopher Lambert) aparentemente as vendas não compensaram uma continuidade.

Tempos depois, chegou às bancas uma edição encadernada contendo a série completa (menos Um Vampiro no Ragtime). Era um encalhe com páginas borradas que manchavam as mãos de tinta. Ainda assim, esse volume continua sendo a melhor chance para os interessados conhecerem a obra, pois aparece ocasionalmente em sebos virtuais. Já as edições originais são tão raras que nem mesmo os autores têm uma cópia.

"Mas se a série é tão boa não seria viável reedita-la hoje?", alguém pode perguntar. Bom, aí é que está. Isso nos leva de volta aos zumbis de George Romero e a quem chamou Terra dos Mortos de "imitação".

Talvez fosse viável um relançamento de Drácula - A Sombra da Noite para essa geração tão obcecada por vampiros e mangás, mas é difícil não se sentir como aquele ranheta que não gosta da idéia de ver seus queridos velhos brinquedos sendo grosseiramente manuseados por mãos pouco carinhosas.

Seria trágico ver a série ser confundida com bobagens como Drácula 2000 e suas seqüelas. Ou ver os desenhos serem colocados no mesmo patamar das "emulações" de mangá que infestam as gibiterias. E seria triste demais ouvir o roteiro ser chamado de antiquado (devido ao que conserva das velhas tradições do gênero) ou acusado de seguir a onda da abundante literatura vampírica brasileira pós-Anne Rice. Enfim, a falta de conhecimento (e interesse) histórico poderia facilmente levar a série a ser menosprezada pelos fãs das mesmas tendências da qual foi precursora.

Com todos os seus acertos e erros, a obra de Ataíde Braz e Neide Harue tem sua força e sua fraqueza no contexto em que foi criada, como um "elo perdido" entre dois paradigmas do mito do vampiro, além de ter apontado caminhos para a crise que os quadrinhos de horror brasileiros atravessavam.

Só isso já seria suficiente para merecer mais do que meia dúzia de entradas no Google e ter seu lugar garantido entre os mais significativos trabalhos da história editorial dos quadrinhos no Brasil.

* Agradecimentos especiais a Ataíde Braz, pela disposição em esclarecer as dúvidas tanto do autor deste artigo quanto do garotinho que um dia encontrou o número cinco de Drácula - A Sombra da Noite numa banca de gibis usados em São Paulo e passou anos tentando descobrir de onde aquilo tinha vindo. E também a Neide Harue, por ter estimulado os sonhos eróticos/românticos desse mesmo menino com suas mulheres espevitadas de rostinhos redondos.

6 comentários:

Mirtha disse...

Conheci Dracula A Sombra da Noite na época que foram publicados. Consegui completar a coleção do 1 ao 5. Mais o único número do Retorno de Drácula - Um Vampiro no Ragtime. Me apaixonei pela estória, pelos desenhos e pelo vampiro charmoso. Porém, emprestei a coleção a um amigo e o número 4 nunca mais voltou porque ele perdeu. Fiquei muito triste! Mesmo depois de anos não me conformava com minha coleção incompleta. As revistas que restaram guardei a 7 chaves. Somente hoje procurei na internet uma forma de comprar o n°4. Até agora não encontrei. Mas encontrei este texto que li e adorei. Em alguns trechos me fizeram lembrar exatamente os mesmos sentimentos que tive na época em que conheci Dracula A Sombra da Noite de Ataide Braz e Neide Harue. Se tiver uma dica para eu conseguir o n°4 ficarei muito feliz. Não precisa ser original, pode ser cópia. Um grande abraço!

Lorde Velho disse...

Não querendo desanimar, mas vai ser bem difícil encontrar essa edição na internet. Pra você ter uma ideia, eu mesmo não tenho a coleção original, nunca sequer tive as revistas em mãos, só conheço as capas porque o autor me enviou as imagens. O único número que eu tenho é o 5. Os números 1 e 2 eu tenho a reedição, mas só li a série completa quando comprei a edição encadernada. Eu sugiro que você tente achar o encadernado, talvez no Estante Virtual, acho mais provável de aparecer pra vender. Na época que eu escrevi esse artigo, o Ataíde me disse que nem ele tinha cópias das edições originais, mas você pode tentar entrar em contato com ele também: http://ataidebraz.wordpress.com/

Desculpe não poder ajudar mais. É o grande problema de emprestar quadrinhos. Até Shakespeare já dizia: "Nunca empreste ou peça emprestado, porque quem empresta perde o objeto e o amigo e aquilo que é emprestado nunca volta melhor". =)

Cleciopegasus disse...

Texto excelente

Alicia Jaramillo disse...

Apesar dos anos, Drácula ainda é lembrado por muitos um personagem, especialmente como um clássico do gênero horror. Eu amo tudo o que tem a ver com isso e agora estou vendo Penny Dreadfull Temporada 2 disfrutado muito de um remake do Drácula, eu convido você para ver o show e julgar por si mesmo o adapatción de Drácula neste proposta TV

Kelly Freitas disse...

Li uma das revistas quando era adolescente , 14/15 anos , não tenho certeza, mas me apaixonei pela estória .
Se alguém tiveres revistas em pdf ficaria muito feliz em poder lê-las novamente !
Abraços

Viviane Silva disse...

Comprei a versão encadernada lá pelos idos de 90, em plena praça da Sé, aqui em SP. Amei a história desde a primeira vez que a li. Este hq sempre foi meu xodó em meio a meus Conans, Sandman do Neil Gaiman, Manara entre outros. E que bom saber que foi escrita antes do Dracula de Bram Stoker! Parabéns por escrever um texto tão bom sobre uma hq tão bacana feitas por um pernambucano e desenhada por uma mulher. �� Valeu!! E que bom revisitar o passado em um tempo onde tudo é delivery e a arte parece que só serve a nostálgicos.

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