The Babadook - O Horror da Ser Mãe




Penso que há muito horror por explorar pelo facto de a voz feminina estar ausente (do cinema de horror). As mulheres conhecem o medo. Nós vivemos com ele. Não quero retratar as mulheres como vítimas, mas há medo em ser mulher. É diferente do medo que os homens sentem. Por isso, sim: penso que é interessante tornar esta arena mais equilibrada. Há muitas histórias por contar nesse espaço. (Jennifer Kent - Entrevista)
(LEVES SPOILERS) The Babadook é um filme de horror que só poderia ter sido realizado por mulheres. Explora medos intrínsecos a experiências às quais apenas mulheres se vêem submetidas, tanto no sentido biológico quanto no de lugar social. Não por acaso, boa parte do público masculino não está sacando muito bem do que se trata realmente essa produção australiana, por vezes comprometendo uma avaliação crítica. As resenhas em geral falam do livro infantil amaldiçoado, da criatura tipo bicho-papão que espreita no escuro, da criança em perigo e tecem comparações com outros filmes e autores que lidam com "horror para crianças", como Neil Gaiman Guilermo Del Toro. Esses elementos fazem parte da mistura, com certeza, mas não são o foco, nem os protagonistas. Ironicamente, foi Gaiman que escreveu no clássico conto "Histórias na Areia", em Sandman #09, que "Há histórias que as mulheres contam umas as outras, em uma língua própria que nunca é ensinada aos meninos e que os homens mais velhos são sábios demais para aprender."



The Babadook é uma dessas histórias de mulheres, narrada numa mídia em que quase todos os contadores de histórias são homens. Escrito e dirigido por Jennifer Kent (sua estréia na direção de longas), aborda um tipo de horror que nós meninos podemos até intuir, tentar imaginar, mas jamais compreender: o horror da maternidade. Soa terrível para quem (ainda) acredita no mito do amor incondicional materno ou na balela de que uma mulher só se realiza sendo mãe, e talvez isso explique porque tanta gente tem rejeitado o filme, exorcizando a própria perturbação com críticas negativas, mas mesmo esses não tem como negar a coragem da diretora e da atriz Essie Davis (da excelente série Miss Fisher's Murder Mysteries) em abraçarem um tema tão tabu.

O marido de Amelia morreu no dia do nascimento do primeiro filho. A jovem mãe se viu de repente com a responsabilidade de criar a criança sozinha, preparara ou não. Não tarda a descobrir que por mais que parentes e amigos se disponham alegremente a ajudar a segurar a barra, a ajuda sempre míngua quando os problemas de verdade começam a aparecer. Ao fim e ao cabo, a barra é sempre individual. Aos sete anos, o pequeno Samuel começa a se reconhecer como uma criança sem pai (que, na ausência, ganha uma aura de perfeição que a mãe de carne e osso não tem como competir) e acaba desenvolvendo sérios problemas emocionais que se manifestam em explosões de carência, teimosia, agressividade e aquelas técnicas infantis incrivelmente irritantes para chamar a atenção (o tipo de criança que, antigamente, a gente chamava de "ardido", gritos agudos seja pra chorar ou pra rir). Cada mal comportamento do moleque em público acaba se revertendo na forma de olhares acusadores em direção à mãe, silenciosa e constantemente acusada de negligência por todos.


Amelia se vê tomada por sentimentos ambíguos e incomunicáveis que, certamente, muitas mulheres irão reconhecer: uma perturbadora (mas inegável) raiva da cria que, como um pequeno vampiro, parece consumir toda a sua força vital. Como lidar com essa mistura dilaceradora de amor e ódio? Como compartilha-la, se nem mesmo outras mães dariam conta de admitir sentimentos semelhantes? Como aceitar essa dualidade em si mesma? O que fazer com a culpa de não conseguir sentir o que supostamente deveria pela criança problemática à qual está presa pelo resto da vida? Como de praxe, a primeira saída é a tentativa desesperada de negar os sentimentos, racionaliza-los, submergi-los, o que não tem a menor chance de funcionar, é claro.

Nesse contexto, o surgimento de um bizarro livro infantil - que Amelia não sabe como veio parar na casa - sobre uma criatura horrenda que espreita crianças é um acontecimento que sequer chega a ser misterioso. Espectadores perspicazes vão logo perceber que o sinistro Babadook (um anagrama de "A Bad Book") não é a fonte do horror da história, mas sim um efeito, uma corporificação de sentimentos terríveis demais para serem aceitos ou expressos, mas que estão lá, presentes, incontroláveis, não irão desaparecer apenas pela negação. Amelia acaba se vendo numa trajetória perigosa, entre o insanidade e o sobrenatural, que a diretora - demonstrando uma sabedoria rara no cinema de horror atual - jamais tenta fechar ou verbalizar. O Babadook ora aparece como uma ameaça contra a mãe, ora contra a criança, as vezes muito real, as vezes claramente uma alucinação, e o objetivo de toda a história acaba sendo a tentativa desesperada de uma mulher/mãe de se reconstruir enquanto pessoa.

Espectadores das antigas e fuçadores de cinema de horror old school em geral talvez tenham uma sensação de deja vu... e não estarão errados. O filme é, de fato, uma espécie de releitura de um dos últimos trabalhos de Mario Bava, o mestre italiano do macabro: Schock, de 1977. A diretora sinaliza o parentesco de forma bem evidente, não só usando imagens de outro filme do diretor, o clássico Black Sabbath, que Amelia assiste na TV num momento crucial, como também em inúmeras citações mais sutis, como as mesinhas e cadeiras de jardim praticamente idênticas nas cenas finais de ambos os filmes ou mesmo a incrível semelhança dos dois atores mirins, Noah Wiseman e David Colin Jr., tanto na aparência física quanto na atuação, sem contar os (não) cortes de cabelo super similares.

Em Schock, Daria Nicolodi também vivia uma mãe aterrorizada com a constatação de estar nutrindo sentimentos de raiva e pavor em relação ao filho de sete anos, cada vez mais convencida de que a criança manipula forças sobrenaturais na intenção de mata-la. Bava, assim como Kent, nos leva a sentir empatia pela mãe mantendo o foco narrativo na atriz durante toda a projeção. Ambos os filmes são muito hábeis em fazer o espectador partilhar não apenas a confusão, o horror e a culpa de suas protagonistas, mas principalmente experienciar de forma visceral a desorientação e a perda da noção clara de realidade, utilizando engenhosas estratégias de narrativa, enquadramentos e iluminação (Kent, pela graça de Hecate, abre mão do CGI em prol de efeitos físicos on camera, o que permite que Essie Davis realmente contracene com a criatura e vivencie a ambientação claustrofóbica na qual a casa se transforma). Porém, em Schock, o impasse é solucionado no desfecho, quando fica evidente que o menino realmente está sob influência do fantasma do pai falecido. A ambiguidade se cristaliza numa espécie de conspiração sobrenatural masculina (pai e filho aliados) para julgar e punir uma mulher por um adultério que sequer existiu, uma vez que o marido já estava morto. É uma solução forte e perturbadora, sem dúvida, mas ainda assim acaba funcionando como um tipo de alívio, pois suspende a pressão do tabu do amor materno, absolvendo a protagonista (e a platéia, identificada com ela) de qualquer julgamento, especialmente o auto-julgamento.




Kent reconheceu e resgatou esse potencial que Bava optou por não aprofundar, não permitindo uma saída tão fácil para Amelia ou para si mesma enquanto diretora. Sua intenção era explorar o tabu até o fim e descobrir o que resultaria disso. Em sua trajetória, Amelia alterna-se constantemente entre vítima e agressora e, por mais que se debata, não há como se desvencilhar dos próprios sentimentos apenas projetando toda a responsabilidade sobre o monstro. Ao contrário de Schock, não é tão fácil e garantido identificar o mal como uma força externa. Seja real ou uma alucinação, Amelia PRECISA encarar a possibilidade de que o Babadook seja uma manifestação de si mesma, por mais perturbadora que seja essa constatação, não apenas para ela, mas para a platéia. Não é de se admirar que tantos tenham rejeitado o filme. No decorrer da história nós sentimos a aversão misturada com afeto que Amelia nutre pelo filho (por mais que o público se compadeça e compreenda o comportamento do menino, é quase impossível não sentir vontade de estrangular o moleque durante seus chiliques), nós reconhecemos suas motivações,  a situação exasperante a qual ela se vê presa, sem controle ou possibilidade de escolha, lamentamos por ela, torcemos para que de algum modo ela consiga se libertar daquela pressão incessante que a sufoca de todos os lados e isso nos joga justamente onde a diretora quer: a constatação de que desejamos que a criança simplesmente desapareça, de alguma forma, o que - claro - não é uma possibilidade racional, moral e eticamente aceitável, mas nada disso faz com que os sentimentos deixem de existir, então o que fazer? Como solucionar o impasse? E é nesse ponto que nos damos conta de que a criança está em perigo, Amelia está a um passo de se tornar o monstro... e nós junto com ela. Dificilmente um filme de horror conseguiria ser mais emocionalmente incômodo. A tentação de escapulir da saia justa julgando e condenando a personagem como forma de quebrar a identificação é enorme, mas felizmente Kent tem a coragem de aceitar o risco e manter a honestidade do início ao fim. Afinal, a leitura de um filme é sempre uma prerrogativa da platéia e o maior erro que qualquer autor pode cometer é tentar forçar uma leitura, seja para impor sua visão ou escapar de um possível julgamento. Kent nos fornece todos os elementos que o tema exige para que possamos, ao menos, compreender sua personagem. A opção de julga-la ou não é apenas nossa.

Ela comporta-se de uma maneira que qualquer pessoa compreenderá, mas não ajuda muito. Por um lado, a irmã e as pessoas à volta dela não lhe dão grande ajuda. Por outro lado, ela também afasta personagens como Robbie, o tipo que trabalha com ela, ou a senhora Roach, sua vizinha. Eu vejo-a como uma mulher a afogar-se (a drowning woman). Ela vai-se agarrando a estas pequenas jangadas de salvação, mas acaba por se afundar. Sinto uma grande compaixão por uma pessoa nesta situação. Enquanto seres humanos, não temos de testemunhar actos de violência contra pessoas que amamos. Não devíamos passar por aquilo que Amelia passa, mas acabamos por passar. A minha pergunta é: como podemos sobreviver a esse terror, como o podemos olhar no rosto? Este filme, para mim, foi uma exploração disso. (Jennifer Kent - Entrevista)
O desfecho é o tipo do final que costuma fazer a galera sair urrando do cinema. Primeiro porque quebra com a tão "sagrada" verossimilhança, segundo porque nega o espetáculo (tanto da vitória apoteótica, quanto da tragédia absoluta, ambas tão distantes da experiência cotidiana de quase todos nós) e, terceiro, porque só pode ser compreendido "racionalmente" de uma forma metafórica. Mas aqueles que tiverem a honestidade de reconhecer que a vida não é verossímil, perceberão que não só é um final coerente mas também o único possível se não quisermos escapulir pela tangente (como acontece em Schock). Como nos filmes de David Lynch (que a diretora admira) o "verdadeiro" realismo, a "experiência da ordem do real" só pode ser obtida na arte pelo - aparentemente - "surreal". Se quisermos ser de fato realistas, temos que admitir que o impasse de Amelia simplesmente não tem solução. Não há como matar o monstro. Mas podemos compreende-lo, podemos negociar com ele, firmar uma trégua, tecer acordos com limites e cláusulas a manter. Podemos alimentar o monstro, trazer-lhe oferendas, tentar manter um equilíbrio entre as suas necessidades e as nossas. Nunca nega-lo, nunca fingir que ele não está lá embaixo, no escuro, porque se ele se sentir negligenciado e insatisfeito desejará, uma vez mais, escapar para a luz. Talvez seja até uma metáfora muito óbvia, mas sem dúvida honesta e não consigo ver outra forma de fechar a história que não fosse uma traição a tudo o que o filme mostrou antes.

 Não sou uma grande leitora de textos de psicologia. Mas um dos filósofos que eu realmente admiro é Jung e Jung diz: “tu não consegues matar o monstro”. Por isso, nós pagamos para que nos matam o monstro. Eu recuso matá-lo. (...) É que não é essa a minha experiência na vida. Não queria contar uma história em que a personagem encontra algo e depois ela morre no fim, que é o que acontece normalmente no cinema de terror, mas seria ridículo nesta história. Mas não é um happy ending. Não penso que ter algo de tão temível a viver na nossa própria casa seja uma coisa assim tão risonha. É uma negociação com o monstro. Não o podemos matar, por isso, o que fazer com ele? Reflecte a minha experiência na vida.(Jennifer Kent - Entrevista)

Ao me dispor a escrever esses pensamentos sobre Babadook, tive muita dificuldade de lembrar de mais nomes de diretorAs que tivessem trabalhado no gênero. A princípio só Mary Lambert me veio a mente, diretora de O Cemitério Maldito (que, diga-se de passagem, é um dos poucos filmes de horror que conseguiram me abalar emocionalmente a ponto de eu me recusar até hoje a rever o final). Na entrevista com Kent no blog À Pala de Walsh (de onde tirei alguns trechos) fiquei sabendo de Honeymoon (2014), de Leigh Janiak, que não me impactou tanto quanto Babadook, mas é um trabalho interessante. Me pergunto se a renovação que o cinema de horror atual tanto precisa não acontecerá pelas mãos de mulheres? Trazendo ao gênero aspectos, temas, estéticas, pontos de vista e histórias que os "homens são sábios demais para aprender". Se me permitem, gostaria de pedir que xs leitorxs do blog tragam mais nomes de diretorAs, tanto atuais como das antigas. Deixem as indicações nos comentários, no facebook, etc. Quem sabe não estaremos aqui criando uma listagem de precursoras do futuro do horror?

A atriz Essie Davies e a diretora Jennifer Kent

Um comentário:

LUCI LINE disse...

Resenha simplesmente perfeita, adorei seu ponto de vista, amei o blog, vou vir aki mais vezes, bjs

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