Estórias Gerais - Um Épico do Quadrinho Brasileiro

Texto originalmente publicado no Jornal Cidade de Rio Claro/SP, em 04/04/2003

Os quadrinhos nacionais dificilmente conseguem destaque no mercado editorial brasileiro. Em meio às bancas abarrotadas de títulos estrangeiros (especialmente americanos) os poucos trabalhos de artistas brazucas acabam passando despercebidos, ignorados por um público que não sabe avaliar o que está folheando, por vezes desprezando um material de ótima qualidade apenas por ser diferente do padrão americano ao qual está acostumado. Existem honrosas exceções, evidente, como a eterna Turma da Mônica, de Maurício de Souza, e os trabalhos de Angeli, Laerte e Glauco mas, no geral, os artistas nacionais acabam não conseguindo editar e distribuir suas HQs devido ao desinteresse das editoras em procurar estimular e promover esse tipo de material.

Por isso, a publicação de um álbum como Estórias Gerais, de Wellington Srbek e Flávio Colin, deve ser comemorada duplamente. Além de ser uma obra de primeira grandeza, merece destaque por ter sido publicado com a ajuda da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte, uma grande incentivadora da produção de quadrinhos. Vários projetos só conseguiram sair do papel (ou ir para ele!), graças à posição adotada pelo governo da cidade, beneficiado com a Lei Municipal nº 6498/93, de incentivo à cultura. Um tipo de iniciativa que deve ser divulgada e celebrada por todos que lutam para produzir arte no Brasil, não só quadrinhos mas em todas as áreas que, comumente, são desvalorizadas pelas autoridades, como o Teatro amador.

Estórias Gerais foi lançado em agosto de 2001, mas ainda é pouco conhecido e só pode ser encontrado em raros pontos de venda. É uma obra riquíssima, cada página dotada de uma brasilidade raramente vista nas HQs. E não era pra menos: nela encontramos Flavio Colin – falecido em 13 de Agosto de 2002 – atingindo o auge de seu estilo (único no mundo e tão pouco reconhecido), com desenhos que lembram tanto a literatura de cordel quanto a arte das xilogravuras, mesclados em seqüências cheias de ritmo que tornam a leitura uma experiência quase mágica, transportando o leitor para um universo ao qual talvez tenha muito pouca familiaridade: o sertão brasileiro, o Brasil em estado bruto, com suas crendices, lendas, aventuras e seu jeito tão peculiar de encarar a si mesmo.

Wellington Srbek
fez uma ampla pesquisa para desenvolver o roteiro, indo beber da mesma fonte onde beberam gente como Guimarães Rosa e Ariano Suassuna. Associado a Colin, cujo conhecimento da cultura brasileira era, naturalmente, profundo após décadas trabalhando com quadrinhos, Srbek simplesmente deixou fluir, na forma de “causos”, sua visão desse Brasil misterioso e quase mitológico. São seis histórias de 24 páginas que podem ser lidas isoladamente, mas que, quando vistas em conjunto, formam um épico de aventura e misticismo que traz à lembrança obras eternas como “Grande Sertão: Veredas”, “O Auto da Compadecida” e “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. O rol de personagens que desfilam pelas páginas provocam, ao mesmo tempo, familiaridade e estranhamento. São figuras típicas da cultura popular que, num primeiro momento, serão encaradas como ingenuidade por leitores acostumados ao misticismo de cinema americano, mas que logo evocam imagens arquetípicas do imaginário coletivo: o coronel que manda na região, o padre oportunista, a donzela indefesa que aprende a ser destemida, o negro pobre obrigado a sobreviver de sua esperteza, o jagunço que vende a alma ao diabo, o matador com corpo fechado, o preto-velho, cangaceiros, onças pintadas, o próprio tinhoso em suas várias formas e, claro, os contadores de causos que narram cada uma das histórias.

Acima de tudo é uma obra de extrema beleza e poesia, preservando inclusive o linguajar típico do universo que representa, e que merece ser conhecida e apreciada pelos leitores que se deixarem mergulhar em seu fascínio, que só pode ser explicado com as palavras de um de seus personagens, o repórter Ulisses de Araújo (quase um alter-ego de Wellington Srbek):

“Certamente, desconhecemos nossa própria nação. Por prepotência olhamos para ela – e para aqueles que vivem em seus campos mais distantes – com um olhar de superioridade, de estrangeiro e colonizador. Mera ilusão de ótica que não nos permite enxergar as nuances mais suaves e os matizes mais fortes que embelezam e tornam únicas nossa terra e nossa gente. Civilizada miopia que nos faz ver atraso e ignorância onde há, na verdade, a diferença, a originalidade apaixonante do que não é aquilo que somos nós. Diante do mundo pulsante que é o Brasil que desconhecemos, sentimo-nos ameaçados e reagimos erguendo nossa barreira de princípios racionais e valores civilizatórios. Mas tais escudos de mentira e preconceito se desmancham no ar, como névoa de um sonho, diante da verdade viva e arrebatadora que invade nossos sentidos. Estrangeiros somos em todo lugar e a todo momento em que nos deparamos com o mundo. Contudo, é apenas quando nos lançamos em direção ao desconhecido, despidos de nossos preconceitos e medos, que podemos, de fato, conhecer a nós mesmos. O resultado dessa incrível experiência é a vida”.
É essa redenção, pela qual passa o personagem, que os autores nos convidam a experimentar.

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