Júlia Kendall - Aventuras de uma Criminóloga

Série de resenhas abordando a trilogia de estréia da renomada HQ de Giancarlo Berardi, autor de Ken Parker. Resenhas publicadas originalmente no site Universo HQ


Título: JÚLIA - Aventuras de uma Criminóloga 1 (Mythos Editora) - Revista mensal
Autores: Giancarlo Berardi (roteiro) e Luca Vannini (desenhos).
Data de lançamento: Novembro de 2004

Sinopse: Os Olhos do Abismo - Ainda se recuperando de um não explicado trauma de seu passado, a Dra. Júlia Kendall, criminóloga e colaboradora eventual da polícia de Garden City, inicia uma investigação particular do assassinato de uma de suas alunas, terceira vítima de um serial killer que tem aterrorizado a cidade, dando início a uma caçada enigmática que perdurará pelas primeiras três edições da série.

Positivo/Negativo: Empolgante estréia de uma das personagens mais originais da Sergio Bonelli Editore a aportar no Brasil. Original não pela temática, claro, pois tramas policiais envolvendo assassinos psicóticos já foram exploradas à exaustão pelo cinema americano desde O Silêncio dos Inocentes (filme que, sem dúvida, serviu como fonte de inspiração para a personagem de Giancarlo Berardi) e, caso isso não bastasse, só a primeira temporada do seriado Millennium, de Chris Carter, com seu plot de "serial killer da semana", já seria suficiente para esgotar até as mais inusitadas variações sobre o tema.

(Nota posterior: Felizmente, em suas mais de 100 edições italianas, a série nunca se limitou aos serial killers, abordando com desenvoltura todos os tipos de variações do gênero policial.)
A originalidade de Júlia fica evidente no contexto dos demais heróis da editora italiana. Em meio a um universo predominantemente masculino, ela conquista os leitores exatamente por suas qualidades opostas aos eternos "machões" bonellianos.

A série em si ganha muito em força dramática graças à caracterização verossímil e coerente de sua protagonista, não caindo em armadilhas fáceis como masculinizar a heroína (tornando-a simplesmente um Nick Raider de saias) ou reduzi-la a um mero bibelô, como ocorre, infelizmente, com a maioria das personagens femininas das demais séries da editora.

Não se trata exatamente de uma crítica ferrenha ao padrão dos demais títulos (um "puxão de orelha", no máximo), pois existe um charme indiscutível nos "machões" adolescentes Tex, Zagor, Mister No, Martin Mystère e Dylan Dog, que se recusam a crescer, abandonar seus "brinquedos" e assumir uma postura mais madura com o sexo oposto, eternamente visto como uma fonte de atração e receio. Não deixa de ser uma concepção de "herói" bastante junguiana, o estado mais primário da psique em busca de sua evolução.

E (por que não ironizar?) talvez Júlia seja o mais próximo que a Bonelli consegue chegar dessa evolução sem quebrar drasticamente seu padrão editorial. Não por acaso coube ao veterano escritor de Ken Parker (certamente a mais humana e profunda série produzida pela editora) dar vida a uma heroína que rompe de maneira deliciosa com os padrões e oferece toda uma nova gama de possibilidades para o desenvolvimento das aventuras, tudo isso advindo, justamente, de sua condição verdadeiramente feminina.

Assim, no mínimo, já é possível fugir de certos clichês, como lutas, tiroteios e a conquista da gata do mês (estilo Dylan Dog), até mesmo as capas magníficas de Marco Soldi apresentam-se livres do indefectível símbolo fálico do revólver, que os heróis bonellianos insistem em portar em 90% das capas, mesmo quando a arma sequer aparece no miolo (no caso de Martin Mystère é uma pistola de raios, mas a idéia é a mesma).

O que resta? Inteligência, charme e uma inebriante suavidade e sutileza que contrastam com a extrema violência dos crimes investigados. Nesta edição de estréia já é possível sentir lampejos de tudo isso, mas a trama é bastante prejudicada pela obrigatoriedade de apresentar os personagens e estabelecer os alicerces do título. Berardi, muito sabiamente, decidiu aproveitar essas condições para fazer do primeiro número um prólogo de fato, cuja trama propriamente dita se desenvolve no decorrer das edições 2 e 3.

Os Olhos do Abismo cumpre muito bem essa função introdutória, introduzindo personagens interessantes e com enorme potencial. A maioria com feições de grandes astros do cinema, como Whoopy Goldberg e John Malkovich. A própria Júlia é a perfeita encarnação da eterna Bonequinha de Luxo Audrey Hepburn, o que se constitui numa fonte extra de carisma. Embora o desfecho em aberto acabe sendo um pouco frustrante, é inegável que ajudou a subir a expectativa pela a próxima edição, cujo desenhista, vale lembrar, é o excelente Corrado Roi, de Dylan Dog.

A Mythos se saiu bem com a edição brasileira, apesar das limitações do formatinho. Boa encadernação, layout de capa esteticamente interessante, introdução escrita especialmente para os fãs brasileiros por Giancarlo Berardi. O único senão são as páginas borradas de tinta em alguns exemplares. A revista tem tudo para se estabelecer no mercado editorial brasileiro e é um lançamento infinitamente mais interessante do que Dampyr, em todos os aspectos. Como todo título Bonelli, a série enfrentará dificuldades, especialmente na concorrência com as vistosas revistas coloridas dos super-heróis. A aposta maior será atrair um público mais selecionado e exigente em relação ao conteúdo, especialmente as mulheres que, finalmente, se vêem mais bem representadas nas páginas bonellianas.
(Nota posterior: De fato, a Mythos já conseguiu ultrapassar o número 40 e, recentemente, solicitou uma renovação do contrato com a Bonelli Editore.)
Um curioso alerta: algumas bancas por aí estão expondo a revista junto com os livrinhos românticos das séries Júlia, Bianca, Sabrina e congêneres. Confusões assim já eram previstas, não só por parte dos jornaleiros, mas dos leitores também.Por isso, não se engane e avise aos navegantes: a Júlia de Giancarlo Berardi nada tem a ver com esses livrinhos pseudo-femininos que, no fundo, conseguem ser mais machistas do que qualquer herói com pistola na mão conseguiria ser.

(Nota posterior: A confusão foi ainda pior do que se imaginava. Devido a problemas jurídicos com os detentores brasileiros da marca "Júlia", a Mythos foi obrigada a mudar o título da revista para "J. Kendall - Aventuras de uma Criminóloga", com destaque na capa para o subtítulo.)


Título: JÚLIA - Aventuras de uma Criminóloga 2 (Mythos Editora) Revista mensal
Autores: Giancarlo Berardi (roteiro) e Corrado Roi (desenhos).
Data de lançamento: Dezembro de 2004

Sinopse: Objeto de Amor - Continua a perseguição à serial killer Myrna Harrod, que conseguiu escapar da polícia na edição anterior e agora procura pistas do paradeiro de sua mãe desaparecida, deixando uma trilha de sangue atrás de si. Obcecada com o caso, a doutora Júlia Kendall alterna-se entre a investigação e seus problemas pessoais, mal percebendo que sua busca pela assassina pode acabar tornando-a seu próximo alvo.

Positivo/Negativo: Depois de uma primeira edição bastante interessante, a nova série bonelliana da Mythos ganha fôlego com uma trama ainda mais envolvente. O episódio é o segundo de uma trilogia de estréia que estabelece as bases do universo da protagonista, ao mesmo tempo em que se aprofunda na personalidade psicótica de Myrna Harrod.

A personagem, anteriormente vista como uma serial killer unidimensional e sem maiores sutilezas, começa a revelar uma profundidade insuspeitada, aumentando o nível de interesse da narrativa. Giancarlo Berardi não faz concessões ao dissecar a complexa psique da assassina e as origens de sua crescente violência.

É fascinante testemunhar a ousadia do autor de Ken Parker ao abordar temáticas ainda espinhosas nos quadrinhos, especialmente no seio de uma editora de tradição conservadora como a Sergio Bonelli.

Na verdade, o escritor correu o risco de ser considerado preconceituoso ao apresentar o lesbianismo de Myrna como parte dos desvios psicóticos de sua mente conturbada. Ainda que uma leitura atenta demonstre claramente que a atração da personagem por mulheres pouco tem a ver com a homossexualidade em si (o relacionamento bizarro que a personagem mantém com sua refém é claramente patológico, com muito mais em jogo do que simplesmente desejo sexual ou amor), seria bastante provável que leitores extremados acabassem acusando o autor de má fé, de modo muito semelhante ao que aconteceu na época do lançamento de Instinto Selvagem, com Sharon Stone. Em ambos os casos as acusações são injustas. Berardi só poderia ser acusado de não permanecer no terreno seguro do politicamente correto, mas isso é motivo de elogios, não de desprezo.

E enquanto a perseguição continua, o leitor é apresentado a novos e importantes personagens recorrentes: a problemática irmã mais nova de Julia e a avó, que a criou após o falecimento dos pais. Complexos relacionamentos familiares são insinuados: as irmãs tentam uma cautelosa reaproximação após desentendimentos no passado e a relação de Júlia com a avó, apesar de aparentemente iluminada, ganha uma conotação soturna nos pesadelos da heroína. Com certeza, ainda há muito para ser desvendado.

Na seção O Diário de Júlia, que estréia na página 4, a Mythos, oportunamente, reproduz uma entrevista com Berardi na qual, entre outras coisas, o escritor fala da importância dos coadjuvantes numa série como esta, e é exatamente isso que a leitura do episódio evidencia. Pouco a pouco os inúmeros personagens da série, tanto fixos quanto recorrentes, ganham profundidade e tridimensionalidade, tornando-se de fato vivos aos olhos do leitor, que passa a se importar com seus destinos e o universo que habitam.

Tal envolvimento ameniza muito o mais sério problema estrutural da série, já comentado no review anterior: a quase impossibilidade de criar tramas originais com um tema tão exaustivamente explorado quanto serial killers. Felizmente, o carisma da Doutora Kendall e dos personagens que a cercam é mais do que suficiente para garantir a identificação do leitor e manter o suspense durante as macabras investigações.

Este episódio ainda ganha uma valorização extra graças aos desenhos de Corrado Roi, habitual colaborador de Dylan Dog, dono de um traço belíssimo e elegantemente realista, o que aumenta ainda mais o vigor e a credibilidade dos personagens.

Mais comentários na próxima edição, quando a "trilogia Myrna Harrod" chega ao fim e uma análise mais completa das bases da HQ se tornará possível. A julgar pela capa já anunciada as coisas ainda nem começaram a esquentar.


Título: JÚLIA - Aventuras de uma Criminóloga 3 (Mythos Editora) - Revista mensal
Autores: Giancarlo Berardi (roteiro) e Gustavo Trigo (desenhos).
Data de lançamento: Janeiro de 2005

Sinopse: Na Mente do Monstro - Meses depois dos acontecimentos do número anterior, a psicótica Myrna Harrod continua foragida e ocultando-se sob uma identidade falsa. Obcecada com a criminóloga Júlia Kendall, a assassina arma um cuidadoso cerco que levará não apenas Júlia, mas também sua irmã Norma, a um definitivo e assustador confronto.

Positivo/Negativo: O episódio fecha a trilogia de estréia da nova série de Giancarlo Berardi, com uma trama tão ou mais interessante do que a do mês passado. Depois dos acontecimentos dessas três edições, a Dra. Kendall se vê de novo integrada à rotina do departamento de homicídios da cidade de Garden City; o que equivale a dizer que as bases da HQ estão estabelecidas, os personagens principais e coadjuvantes devidamente apresentados, os conflitos iniciais estabelecidos. A série começa a decolar.

O ponto forte, como já explicado nos reviews anteriores, não é a originalidade, mas sim o realismo e a tridimensionalidade dos personagens e suas relações muito bem estabelecidas por Berardi. É inegável afirmar que Júlia, em três edições, tornou-se incrivelmente real e verossímil para os leitores, com uma personalidade rica e fascinante que outros heróis da Bonelli levaram anos para desenvolver.

A identificação resultante leva ao suspense, sem necessidade de choques gratuitos ou truques sujos. Ler Júlia é uma experiência tensa, mas paradoxalmente suave, na qual o leitor se deixa mover pela história, guiado pelo puro prazer "voyeurístico" de mergulhar nas profundezas íntimas dos personagens, sejam eles os parentes da protagonista ou diabólicos psicopatas.

Berardi leva essa identificação às últimas conseqüências neste episódio. É curioso observar o crescimento de Myrna Harrod na trama. No primeiro número, ela era apenas uma presença sem rosto, como nos clássicos de horror em que o monstro apresenta-se como um ser à parte da humanidade, incompreensível e facilmente isolado como uma ameaça crua e passível de banimento e/ou destruição.

No segundo número, o leitor chega um pouco mais perto, acompanha Myrna em sua jornada de fuga, tenta entender suas motivações, se desconcerta com sua lógica aparentemente absurda e distorcida, se sente traído quando ela conquista sua simpatia e, no momento seguinte, o choca com um ato gratuito de violência.

Ela provoca, assusta e encanta ao mesmo tempo, perturbando qualquer senso de valores e deixando o fã ansioso por saber mais.

Finalmente, esse terceiro número coloca o leitor Na Mente do Monstro, literalmente. O recurso de substituir a habitual narração em off de Júlia pela de Myrna foi particularmente feliz, pois "obriga" uma identificação com uma personagem cujo código de valores é completamente pessoal e diferente do aceito pela sociedade, o que por si só é perturbador.

É como se você estivesse investigando Myrna juntamente com Júlia, se aprofundando no caso a cada etapa, cada vez mais "pensando como o assassino", descobrindo seus pontos em comum, dando uma boa olhada no abismo e deixando ele nos observar. E, claro, sentindo a famosa "simpatia pelo demônio", como já dizia Mick Jagger. Sem contar a bizarra irmandade insinuada entre heroína e vilã, obtida nas primeiras páginas, no tempo necessário para o leitor se dar conta de que, desta vez, não é Júlia, mas sim Myrna que está narrando a história; e ficar em choque ao perceber o quanto foi fácil acreditar que aquele passado medonho poderia ser da protagonista.

A única frustração é o desfecho excessivamente rápido e um tanto decepcionante, depois de um suspense cuidadosamente construído ao longo de três edições. O aguardado e temido encontro de Júlia e Myrna é muito breve e explora pouco as perturbadoras possibilidades insinuadas por quase trezentas páginas de trama. A não ser que isso também faça parte do jogo de espelhos de Berardi que, talvez, queria fazer o leitor surpreender-se quase "torcendo" para que Myrna e Júlia tivessem um confronto mais intenso, cruel... delicioso?

E o fato é que é inevitável sentir uma certa ansiedade em ver a carismática assassina retornar para uma segunda chance, o que infelizmente só vai acontecer no distante número 39 da série mensal. Resta torcer para que a estada da Dra. Júlia Kendall entre nós chegue tão longe...

(Nota posterior: Felizmente, não apenas a Mythos já publicou o número 39 - "Bem Vinda de Volta, Myrna" - como parece ter boas chances de alcançar os episódios "Myrna: A Sangue Caldo" e "Myrna: Um Affare in Famiglia", respectivamente os números 86 e 110 italianos)


Nenhum comentário:

Postar um comentário