Ficção: Partes

Broken Toy by Gippo 2000
... pensando no que fazer a noite caso as paredes comecem a se estreitar demais, enquanto o reflexo levemente distorcido no espelho do elevador acrescenta umas farpas a mais na sua vaidade combalida. Por que os elevadores precisam de espelhos, afinal?...

... um segundo de respiração suspensa involuntária até o sensor de movimento acender as luzes do corredor, tempo necessário para reconhece-la como um ser animado. Suas pernas doem... nenhum senso de humor para o solitário número de malabarismo com a chave e as sacolas de compras. As luzes fluorescentes falham e piscam... talvez incertas quanto a veracidade da anima deste ser...

... o zumbido elétrico a acompanha pelo apartamento. Velho ritual do território íntimo: interruptor da copa, interruptor da cozinha, interruptor do banheiro... partes de si deixadas para trás por um corpo que mal pode suportar o peso do casaco, dos sapatos... tantas coisas atadas ao corpo... objetos inanimados presos à pele desse ser animado, enganando sensores de movimento. Seus braços doem...

... compras deixadas em seus lugares... jeans abandonados em algum ponto entre a cozinha e o banheiro... ela busca a familiaridade de outro espelho numa tentativa, talvez, de lembrar de si mesma. Olhos escuros a encaram com desconfiado reconhecimento. Sim... ainda há beleza naquele rosto jovem e cansado, naquele corpo dissimulado pela camiseta amarrotada... apesar das olheiras, da expressão grave de quem se desacostumou a sorrir, apesar dos músculos doloridos que a ducha quente tem pouco sucesso em aliviar...

... ela deixa a cafeteira fazendo seu trabalho enquanto caminha pela sala, distraída e nua, saboreando a textura do carpete nos pés descalços. O brilho eletro-fantasmagórico do celular em suas mãos parece ainda mais irreal na luz mortiça do entardecer. Uma série de ligações para uma série de pessoas, numa série de gestos automáticos. Ensaios marcados, obrigações apaziguadas, ela se pergunta em que momento tudo aquilo deixou de ser prazer para se tornar meramente... fadiga...

... deixando-se afundar no pufe, ela fecha os olhos sentindo o ventre aquecer ao sabor do café, concentrando-se nas pontadas de dor espalhadas por seus membros... resposta dos músculos às exigências físicas dos ensaios. Um despertar de potencial oculto ou desgaste cruel e degeneração precoce? Ela imagina se realmente existe uma diferença... enquanto reflete, quase inconscientemente, se deveria fazer apenas mais uma ligação... ou desejar receber uma...

... ela se deixa rolar para o carpete, espreguiçando-se, parte por parte, membro por membro... alongando-se dolorosamente, sentindo-se atada, encurtada, mesmo com o corpo livre das roupas, dos acessórios, da sujeira das ruas... ela toca a ponta dos dedos dos pés, arqueando as costas... para frente, para a direita, para a esquerda... o corpo parece estalar e ranger em protesto... todos os músculos doem...

... com cuidado, ela desatarraxa a perna esquerda, destacando-a do quadril e segurando-a diante de si com ambas as mãos, puxando e esticando até os tendões vibrarem em resposta... depois, apoiando a dobra do joelho sobre o ombro direito e deixando o peso morto da coxa pendurado nas costas, ela puxa a ponta do pé para baixo ao mesmo tempo em que o empurra de encontro ao corpo até a sola tocar seu abdome... Invertendo o movimento, ela empurra a ponta para cima, segurando a canela imobilizada de encontro ao peito... satisfeita, ela aproveita a posição para forçar um pouco as articulações do tornozelo e do joelho, dobrando, girando, fazendo-as estalar...

... deixando a perna esquerda de lado por um momento, ela desatarraxa a perna direita e repete a mesma seqüência, tomando o cuidado de sentar-se sobre o pufe para não forçar os ossos dos quadris, agora desprovidos de glúteos. Como de hábito a perna direita responde diferente ao alongamento, mais desgastada pelos hábitos destros... ela se demora nas articulações, num cuidado acentuado, e conclui com uma massagem nos músculos de ambas as pernas repousando livres no carpete à sua frente.

... relaxando sobre o pufe, ela desatarraxa o braço esquerdo e inicia a parte complicada do alongamento: apenas uma mão disponível. Seria mais fácil se ela recolocasse as pernas e as usasse como apoio, mas não queria ainda sentir o peso de volta... estava tão leve agora, sem a dor... prefere limitar-se a massagear o braço, soltando os músculos e articulações... por fim ela o recoloca no ombro e o usa para desatarraxar o braço direito, lamentando não poder retirar ambos ao mesmo tempo... se ao menos tivesse companhia essa noite...

... apoiando-se no braço restante, ela desce do pufe e se deita de costas no carpete... de olhos fechados ela contorce a coluna em movimentos serpenteantes, respirando rápida e profundamente, em intervalos regulares, tentando limpar a mente de tudo além da própria sensação de estar ali... despida... deliciosamente despojada... a noite segue alta e apenas a escassa luminosidade dos apartamentos do edifício em frente ameniza a penumbra... os sons da vida urbana noturna parecem distantes e nebulosos... rindo consigo mesma, ela decide que se sente bem...

... o toque do celular sobre o sofá a desperta do devaneio... ela se estica para alcança-lo enquanto imagina qual deles seria dessa vez: ele ou ela? O visor fantasmagórico confirma o nome feminino... a voz longínqua pergunta sobre seu dia, conversa amenidades, faz gracejos... segue-se o já esperado convite, a proposta de bebida, alegria e dança, a promessa velada de sexo... ela reflete, sem transparecer, e confirma... meia hora...

... membros rapidamente recolocados, ela escolhe roupas leves para não ocultá-los em demasia... diante do espelho do guarda-roupa ela desatarraxa o rosto marcado por olheiras e escolhe outro mais descansado... troca igualmente as mãos e os pés por pares que ela recorda que sua parceira de hoje costuma preferir e diminui discretamente o volume dos seios. Permanece em dúvida, por alguns minutos, a respeito dos cabelos, até decidir que estão adequados... acaricia o sexo... e sai para o corredor e seus sensores de movimento...

... retornando, após uma breve hesitação, apenas para deixar o coração na pia do banheiro, ao lado da escova de dente...

Dedicado à amiga que, certamente, percebeu que lhe roubei uma idéia...

8 comentários:

  1. Oi, RÔ! Passei aqui e li... e gostei muito!
    Voltarei com (alguma) frequència.
    UM BEIJO, SAUDADES.

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  2. nossa...quantos links até chegar aqui, estava atrás de coisas para pesquisa, caí num post do blog antigo (nunca vi repertório tão próximo ao da minha MATILHA/ MOvimento Apaixonado Trabalhando Incansalvelmente para Liberação de Humores Artísticos) e acabei na fruição dos teus textos
    amei
    www.enlivrescer.blogspot.com

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  3. O texto fica particularmente interessante ouvindo -se de fundo a musica pandora's box de clan of xymox

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  4. Olha, ficou vergonhoso vir comentar aqui sem soar ridícula depois de ler um texto desses. E, não, não distribuo elogios a esmo (você bem sabe, meu ego não permite hahaha). Mas quando gosto, quando gosto MESMO, sou obrigada a comentar.

    E, meu, me surpreendeu de tal forma! Comecei achando agradável, feliz com a escolha de palavras e principalmente do tema (gosto de retratos urbanos, de personagens femininas, de relatos de cansaço, de detalhes excessivos... quase sensoriais, sabe? E começou com tudo isso). Amei o trecho sobre as tantas "coisas atadas ao corpo" (ainda mais agora, numa 2a releitura), esse peso das roupas, o despir... achei realmente bem expressado. Acho que porque, de certa forma, as roupas e apetrechos são uma das minhas principais "brigas" com a sociedade hahahaha então, sei lá, consegui me sentir na pele dela... carregada assim de coisas, se sentindo mais livre ao chegar no apartamento.

    Até aí estava gostando, gostando mesmo e achando bonito. Mas quando ela começou a se desatarraxar ficou simplesmente brilhante! Da idéia à fantástica execução do relato. Incrível, original, sei lá... me surpreendeu. E olha que eu tinha visto a foto e lido o título! hahahaha deu quase para sentir e eu gosto de textos que me causam sensações... ao longo da leitura, me pareceu possível desatarraxar minhas pernas, me livrar do peso, alongá-las perto do corpo, em um outro ângulo... (ai, quem ler isso vai me achar louca, mas... vá, que se dane. Foi isso mesmo e eu acho um grande mérito, então vamos falar!).

    E como se eu não pudesse babar mais aqui, vou concluir dizendo que a última frase foi GENIAL. Puta que pariu. Queria ter escrito esse seu texto, que merda, viu... ¬¬ argh, amei. Amei, amei, amei. Parabéns!! E obrigada, meu... Estou imensamente honrada pela dedicatória! Porque, olha, estou apaixonada pelo post ♥

    (ai, até me dói elogiar tanto assim, não combina com meu ego hahahahaha mas sabe quando não se espera? E, desprevinida, gostei demais mesmo. Uau!)

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  5. Esse sem dúvida foi o melhor comentário que já recebi até hoje... ainda mais num post já um tanto antigo (no mínimo deve ser do ano passado) e que perigava ficar meio esquecido nas entranhas do blog.

    Ouvi certa vez que não se deve agradecer elogios, mas sim humildemente aceita-los. Também sei que é motivo de orgulho quando o elogio vem de alguém que respeitamos, alguém cujos méritos nós mesmos admiramos. Assim, me imagine fazendo uma mesura e saiba que me sinto feliz, Mel... e motivado a romper a inércia e voltar a escrever literatura, tirar do porão velhas idéias que poderiam ter sido alguma coisa se eu as tratasse com mais carinho.

    Suas palavras me deram uma perspectiva da minha escrita muito diferente da que eu imaginava ter, ainda que você nem tenha tido exatamente essa intenção, eu imagino, rss... Me deu muito em que pensar, insights valiosos. É bom me sentir realmente lido (frase ambígua, mas verdadeira, pois tudo o que escrevo é muito pessoal) e não apenas ganhar uma passada de olhos, rss...

    Pode esperar por mais escritos (mas não deixe de visitar os antigos). Só não espere a mesma rapidez que você tem, ok?

    Beijo, minha cara... espero que breve essa amizade possa evoluir do virtual ao físico também ;)

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  6. Aí vai um comentário mais atrasado ainda, Rodrigo.

    Não acho perfeito o acabamento do conto, mas isso é um detalhe sem muita importância. A história em si é ótima. E a frase de fecho, irretocável.

    Um abraço

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