Embustes do Lorde: The Autopsy of Jane Doe (2016)

"...então abra o seu coração e deixe a luz do Sol entrar..."

The Autopsy of Jane Doe pode não ser um filme comparável às grandes revelações do cinema de horror dos últimos anos, como The Witch, It Follows e Absentia. Mas só não é por dois motivos:

1) Aparentemente não tinha pretensão de ser genial, apenas um direto, simples e honesto conto de horror, o que não é problema nenhum e nem pouca pretensão; problema mesmo é:

2) em certos momentos cai na cagada de usar clichês que a repetição excessiva tornou imperdoáveis, como o susto pelo aumento do volume da trilha ou o personagem que olha por uma fresta e, "oh, que surpresa" algo aparece de repente do outro lado. Truques tão (mas tão) manjados que, hoje em dia, só conseguem irritar e te desconectar do filme.

Dito isso, a boa notícia é que A Autópsia só cai nessas cagadas em pouquíssimos momentos e tem uns bons 80 ou até 90% impecáveis que fazem valer a pena fazer vista grossa. De fato, acabei criando um grande carinho por essa pérola britânica dirigida pelo norueguês André Øvredal, de TrollHunter. É um filme elegante, em todos os sentidos (exceto, como já disse, nas duas ou três cenas de susto clichê). O mistério sobre o cadáver da Jane Doe é de fato intrigante, mas não é isso que hipnotiza o público e o conduz até o desfecho (se o mistério não fosse solucionado - quer dizer, se é que foi - eu, sinceramente, nem sentiria falta), mas sim o arriscado equilíbrio entre o grotesco e o sublime que o diretor consegue sustentar durante quase toda a duração, a perturbadora (e, portanto, fascinante) beleza da repugnância, um uso de gore com uma finesse que eu não via a muito tempo e que tem rendido comparações com os primeiros filmes de David Cronenberg, o que faz sentido, embora a pegada explicitamente sobrenatural me faça lembrar mais dos trabalhos de Lucio Fulci nos anos 80.

A fotografia é belíssima, a trilha é arrepiante (amo subversões de músicas fofas, rss), a ambientação é deliciosamente sinistra, mas o melhor é a presença de Brian Cox como protagonista. Não que Emile Hirsch não se saia bem como o filho, mas é uma benção um protagonista sênior em meio a toda a infantilização que o gênero sofreu desde os anos 80 até hoje. Sem esquecer da performance arrepiante de Olwen Catherine Kelly, como Jane Doe (não se enganem, crianças, aquilo é sim uma atuação, e impecável). Todos esses elementos, mais a coragem de não explicar completamente os acontecimentos da trama, numa demonstração de respeito pela imaginação do público que, infelizmente, nem todo mundo sabe apreciar, tornam The Autopsy Of Jane Doe uma pequena e bela joia a se degustar. Numa palavra: lindo!

"So let the sun shine in, face it with a grin.
Smilers never lose and frowners never win.
So let the sun shine in, face it with a grin
Open up your heart and let the sun shine in."
Open Up Your Heart (And Let the Sunshine In)



Os Embustes do Lorde não são críticas ou resenhas, são pensamentos livres e ligeiros sobre filmes, livros, quadrinhos, teatro, enfim, temas diversos relacionados ao universo do horror gótico e do fantástico old school, tentando seguir o princípio de, preferencialmente, destacar o que merece ser (mais) conhecido e/ou revisto e omitir o que não merece e/ou já é conhecido até demais.

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