Corto Maltese - A Balada do Mar Salgado

Resenha originalmente publicada no site Universo HQ

(Scans disponíveis aqui)

Em Janeiro de 2006 a então recém fundada editora Pixel entrou de pé direito no mercado de quadrinhos brasileiro com o lançamento de um dos mais incontestáveis clássicos da Nona Arte, a lendária primeira aventura do marinheiro Corto Maltese, principal criação do quadrinhista e aventureiro Hugo Pratt, falecido em agosto de 1995.

Desde então a editora tem prosseguido com a publicação da coleção completa dos álbuns do galante marujo, a maioria dos quais inédito em terras tupiniquins, a não ser por caríssimas edições importadas de Portugal. Uma oportunidade fantástica para os leitores conhecerem (ou reencontrarem) uma das obras mais importantes dos quadrinhos mundiais, mas ainda pouco conhecida por aqui. (ATUALIZAÇÃO: Depois do fim inglório da Pixel, a Editora Nemo assumiu a publicação dos álbuns do marujo, em luxuosas e refinadas edições de capa-dura)

Corto Maltese é o arquétipo maior de todos os aventureiros românticos, alter ego de seu autor e veículo para a tradução de uma riquíssima experiência de vida, na forma de histórias refinadas e vibrantes, magnificamente ilustradas num estilo enxuto e fortemente expressivo que inspirou artistas das mais diversas áreas, de Frank Miller a Umberto Eco, passando por Milo Manara, Guido Crepax e outros.

Mais do que meramente uma HQ de aventuras exóticas, as narrativas de Pratt, na melhor tradição de escritores errantes como Jack London, despertam sentimentos ancestrais, reacendem o chamado da aventura e do desconhecido, cada vez mais inaudível num mundo onde (quase) tudo já foi mapeado, onde as distâncias tornam-se virtuais e satélites desnudam secamente todos os recantos outrora enigmáticos do globo. Um mundo de passaportes e fronteiras, registros detalhados e vistorias de alfândegas, onde cada vez mais o indivíduo deixa de ser o senhor de sua própria sorte e quase não restam Regiões Brandas (parafraseando o título de uma das mais belas histórias de Sandman, de Neil Gaiman) onde, quem sabe, ainda possam existir dragões.

A Balada do Mar Salgado, originalmente serializada na revista italiana Sgt. Kirk, em 1967, é uma obra única em sua ressonância e poesia, podendo ser comparada apenas aos posteriores álbuns de Corto, que refinariam ainda mais as qualidades narrativas e imagéticas de seu autor. O álbum narra a aventura dos irmãos Cain e Pandora Groovesnore, jovens náufragos resgatados e mantidos como reféns por um conclave de piratas comandado por um misterioso personagem conhecido como Monge. Em meio às tentativas de fuga, conspirações e trapaças, os dois aprofundam laços com seus captores, especialmente com o carismático marujo Corto Maltese, seu principal protetor contra as crueldades de Rasputin, um patife assassino, e sequer imaginam que a verdade sobre suas próprias origens está oculta entre os enigmas da Ilha de Escondida.

Inicialmente centrada nos náufragos, a obra vai pouco a pouco dando destaque à figura do carismático marinheiro, embora o brilho dos coadjuvantes jamais esmoreça: o sinistro e talvez imortal Monge, o astuto Crânio, o maori Tarao, o imprevisível Rasputin, o capitão Slütter, mas acima de tudo é mesmo Pandora que concentra o fascínio e a sutileza da trama e a página que retrata sua despedida de Corto é um dos momentos mais belos e inesquecíveis da História das HQs.


Destaques? Difícil selecionar entre tantos numa história que atravessa tantos gêneros. Do absolutamente dramático (a tentativa de assassinato de Maltese pelas mãos do Monge) ao cômico (o desmoronar da cabana de Rasputin durante sua luta com o marujo), passando pelo suspense (a execução do capitão Slütter). Do realismo mágico (Tarao e Pandora sendo guiados pelo tubarão em pleno Pacífico) à farsa aventuresca (Corto sendo atacado pela ostra gigante). E momentos que desafiam qualquer classificação, nos quais a atmosfera e o insólito alcançam proporções fabulosas (Rasputin atirando no Monge diante do grande mar).

Quanto à edição da Pixel, pode-se dizer que é impecável. Excelente acabamento gráfico, matérias inspiradas que situam o leitor no contexto histórico e artístico da obra, uma belíssima capa em tons de verde que remetem de maneira deliciosa ao mar e seus mistérios e, acima de tudo, um preço abençoadamente acessível num mercado cada vez mais superfaturado, em que qualquer série corriqueira é posta à venda com ares de luxo e valores absurdos.

Um único porém, entretanto, em relação à antiga edição da L&PM, de 1983. Embora inferior em todos os aspectos à atual (exceto, talvez, pela tradução antiquada, porém saborosa para os mais românticos, na qual Corto se refere à Pandora não como "joiazinha romântica", mas sim como "romântica bijou"), a versão da Balada do Mar Salgado da editora gaúcha contava com um toque especial na forma da carta de um certo Obregon Carranza, sobrinho de Cain Groovesnore, que fazia as vezes de introdução para a história.

Esse texto belíssimo de certo modo comenta e fecha os acontecimentos do álbum, mas foi estranhamente omitido na edição da Pixel. Portanto, faz sentido fechar essa resenha com uma transcrição na íntegra, de modo a torna-lo acessível aos interessados:

Presadíssimo Sr. Ivaldi,
Com esta carta comunico-lhe que os manuscritos de Cain Groovesnore, meu tio, eu os confiei ao Sr. Pratt. Como também o livro de bordo do Capitão de Fragata Slütter e dois mapas marítimos que pertencem ao Capitão Galland.
Isso foi tudo o que pude encontrar entre os velhos papéis e livros de meu pai, além de uma carta da prima de meu tio, Pandora Groovesnore, que ficou comigo.
A carta em si não tem muito valor documental para a história que deseja publicar. Mas somente um valor afetivo para mim, todavia transcreverei um breve trecho que pode lhe interessar.
Diz: ...se vires Cain lembra-lhe que não se esqueça de enviar-me aqueles mapas que estou esperando. Conta-lhe que as crianças estão bem e que Pamela pergunta sempre por ele. Nós também estamos muito bem, mas tivemos uma desgraça na família, o tio Tarao morreu. Deixou um grande vazio entre nós, mas é sobretudo pelo tio Corto que agora me preocupo. Aqueles dois se compreendiam perfeitamente e eram inseparáveis. Agora, quando vejo o tio Corto sentado sozinho no jardim, com o olhar apagado diante daquele seu grande mar, sinto um aperto no coração. As crianças procuram fazer-lhe companhia, mas ele quase nem as percebe. Cain deveria vir aqui por algum tempo. A primavera já chegou e o jardim já está cheio de flores...
A carta continua ainda, mas não nos diz mais respeito. Há algumas manchas nela que parecem ser produzidas por lágrimas.
Diz-se que o último pirata foi Lafitte, mas não é verdade. O último pirata é o Monge. Costumo dizer: é... porque estou certo de que não terminou os seus dias e isso deveria surpreender, uma vez que, quando Cain Groovesnore o encontrou, estava ele já velho. Isso aconteceu em 1914, em uma zona do Pacífico Sul. Lá encontrou também Corto Maltese, o verdadeiro marinheiro, Capitão Rasputin, um maldito assassino, o Capitão de Fragata Slütter, que foi um herói obscuro, o maore Tarao, seu amigo, e, por último, Geremias, que poderia ter sido tudo e preferiu ser ninguém.
Esses foram os personagens importantes entre tantos outros e tiverem um grande peso em sua vida. Penso que quando era jovenzinho devia ter um caráter irascível, bastante preguiçoso e vazio. Certamente foram os tapas de Corto Maltese e a nobreza de Geremias que o mudaram, além das humilhações que sua prima Pandora lhe infligiu, que Deus a abençoe. Esta é uma história verdadeira e eu não a teria revelado nunca se o Sr. Pratt não tivesse insistido para que eu contasse todos esses fatos. Termino assim essa carta e o saúdo cordialmente, junto com sua família. Espero revê-lo brevemente e não se esqueça que estamos aqui a sua espera.
Seu, R. Obregon Carranza
16/6/65 Viña del Mar (Chile)

2 comentários:

  1. Realmente, uma grande aventura de um grande marinheiro!

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  2. muito bom,gosto muito das historias de Corto Maltese,e muito bom voce escrever sobre,hoje este tipo de arte e facilmente esquecida ou nunca e vista.

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