Como é que se escolhe um filme para assistir de madrugada? Bom, se você for uma pessoa normal, pode
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| Susan George, no pôster italiano de Venom (1981). |
Jisuis, Maria e José!😱
Quem foi o diretor de elenco sem noção que achou que era uma boa ideia botar Oliver Reed e Klaus Kinski no mesmo filme?!
Se você tá boiando, deixe-me resumir da seguinte maneira: Oliver Reed é o cara que a Bette Davis, certa vez, definiu como "o homem mais odioso que eu já conheci na vida". E o Kinski, bom, digamos que quando o diretor alemão Werner Herzog resolveu fazer um documentário sobre a sua relação de trabalho tumultuada com Kinski durante uma série de cinco filmes, ele achou que "Meu Melhor Inimigo" seria um título bastante apropriado.
Pegou a ideia?
Estamos falando aqui de dois dos atores mais notoriamente intratáveis da história do cinema. Famosos por explosões de fúria ao menor desentendimento, por abandonar os sets de filmagem no meio do processo, antagonizar os diretores e colegas de elenco, e basicamente tornar a vida de todo mundo um verdadeiro inferno. Sem contar coisas mais propriamente criminosas nas suas respectivas vidas pessoais. Contratar um cara desses para o seu filme poderia até valer a pena no resultado final (não são poucos os títulos que devem boa parte de seu impacto à intensidade insana das suas performances), mas que é um pesadelo logístico, isso é. Agora, os dois... no mesmo filme?! Aí já é coisa de demente!
Imagina se a sessão da madrugada não estava decidida?😅
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| Susan George, fazendo o que pode pra ser notada num filme que tem o Klaus Kinski e o Oliver Reed tocando o terror (nos bastidores).😅 |
Claro que um filme assim não é pra ser avaliado de uma forma meramente objetiva (se é que tal coisa é possível). Como cinema, creio que é ponto pacífico afirmar que Venom promete muito e entrega pouco. Há uma bela construção de suspense, um encadeamento engenhoso de circunstâncias improváveis (mas não inverossímeis), que vai resultar naquele já citado impasse dos dois sequestradores encurralados pela polícia, com uma cúmplice, dois reféns, e uma serpente venenosa à solta pela casa. Mas conforme a situação vai se prolongando, começa a ficar claro que não tem tanta coisa assim que possa acontecer. A cobra pode matar alguém (fácil antecipar quem), pode dar um ou dois sustos, mas se a coisa for muito além disso já começa a ficar repetitivo (e até meio ridículo). Para funcionar de verdade, um filme desses teria que se apoiar mais na dinâmica do elenco, mas qualquer interação mínima entre Kinski e Reed deve ter sido um suplício pra fazer. Verdade seja dita, não é sempre que isso transparece em tela. Ponto pro Sr. Haggard, que notoriamente teria afirmado que "a mamba-negra era o sujeito mais legal do set". Boto fé! Nem precisei pesquisar pra deduzir que Tobe Hopper tinha tido um treco (um colapso nervoso, no caso) com um ou dois dias de filmagem, tendo de ser substituído às pressas por Haggard. Venom era uma catástrofe pedindo para acontecer, e o fato de ter resultado num filme interessante, ocasionalmente até impactante, pode ser considerado quase como um pequeno milagre.
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| Briga de cachorro grande. Klaus Kinski vs. Oliver Reed |
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| Um momento com Susan George que dá mais calafrio do que quando contracena com a cobra. |
Tipo agora, quando me dou conta de que estou tomando como pauta um filme que tem como o maior (único?) foco de interesse o fato de ter dois desses monstros se digladiando nele. Mea culpa, mea maxima culpa, como se diz. E não vou mentir, nem ficar fazendo sinalização de virtude, negando que eu me diverti assistindo. Uma diversão, como já disse, mórbida, mas inequívoca. E, de certo modo, adequada para o tipo de reflexão que muitas vezes nos toma de assalto em madrugadas malditas como essas. Afinal, o que tanto nos atrai nesse tipo de coisa? O que há de errado conosco? O que dá na cabeça de um diretor de elenco (só pra repetir a pergunta de uma forma não irônica) pra achar que isso era uma boa ideia para um filme? Será que o Herzog não poderia ter feito seus clássicos com outros atores? Ele tenta nos convencer que não. Que, de algum modo, e apesar de todos os perrengues, tinha que ser o Kinski! De novo, não nos convence, e seus reais motivos (se é que existem, se é que são definíveis) ficarão por aí, pairando eternamente nos interstícios de seu documentário. Em Venom, ouso dizer que, de fato, não dá pra negar que Kinski é um puta vilão! Que basta um olhar dele para o menininho e a gente já tem calafrios. A questão é: isso é atuação?
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| Oliver Reed, fazendo o que sabia fazer de melhor... fora atuar.😉 |
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| Pola Kinski sobre os filmes do pai: "Quando conseguia ver um deles, pensava: 'ele é exatamente assim em casa'". |
No making of de Fitzcarraldo dá pra ver umas cenas deletadas bem marcantes com o Jason Robards ainda no papel principal. Não era pra ser, Robards ficou doente, e não conseguiria continuar de qualquer forma, mas é o bastante para que todos nós nos perguntemos: e se não fosse o Klaus Kinski? Fitzcarraldo teria sido menor? Menos clássico? Eu olho para o Robards em cena e fico viajando...🤔 Não teria sido o mesmo filme, isso é certo, mas, sinceramente, acho que poderia ter sido até melhor. Fitzcarraldo foi o personagem mais “benigno” que Herzog botou o Kinski pra fazer, não é à toa que não foi sua escolha inicial. E ainda que “funcione” (Herzog definitivamente era o cara que melhor sabia domar o Kinski), quando vejo o Robards, nada me tira da cabeça que ele teria sido um Fitzcarraldo melhor. Com mais nuances, mais gentileza, mais humanidade. Kinski só conseguia expressar a obsessão. As demais facetas eram reduzidas ao “modo emburrado” com que ele encarava o diretor que o mantivesse em rédea curta. Aquela carranca de despeito para com a equipe, a audiência, o mundo. Há quem expresse respeito por isso. À uma suposta “integridade” do artista. Eu tenho preguiça. E novamente penso: por que essas cobras nos fascinam tanto?
Em tempo, também não sei se Oliver Reed daria um Fitzcarraldo melhor. Atores funcionam mais em certos papéis do que outros, e até aí beleza, não é esse o problema. O lance é que eu duvido muito que mesmo o Reed chegasse ao ponto de levar os figurantes nativos a se oferecerem para matá-lo, se o Herzog assim quisesse (e ele queria, mas precisava terminar o filme). Não me parece que obra-prima alguma justifique tal coisa. Acho que poderíamos muito bem ter nos virado com outro Aguirre, outro Cobra Verde, o Nosferatu mesmo tá aí pra provar. E ainda que (de novo) eu admita que guarde tranquilamente um filme cheio de cobras como Venom na minha coleção, me parece ao menos sensato que as circunstâncias que tornaram tais filmes possíveis não seja mais algo tão naturalizado quanto já foi um dia. Barry Hickey, que trabalhou com Kinski no arruinado A Vingança das Estrelas Roubadas, nos diz, em Creation is Violent, que “Kinski jamais trabalharia hoje, ele daria problemas demais no set, assédio e coisas assim, era um homem de seu tempo, e não funcionaria hoje.” Como já disse, eu tenho minhas dúvidas... mas um brinde a isso!🍷 E deixemos que a palavra final sobre o assunto fique para uma outra atriz alemã, que, em seu tempo, também teve fama de ser “difícil” e “intratável”, mas, diferente do Sr. Kinski, e do Sr. Reed, teve que pagar o preço por isso, e sem sequer ter direito a um documentário para imortalizar a sua “excentricidade”. Tenha a bondade, Sra. Eva Renzi.😌
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P.S. A quem porventura (ainda) esteja prestando atenção, sim, eu já não dou mais conta de fazer as tais postagens semanais, que até que consegui manter em 2025. Meus olhos andam (literalmente) cansados demais, e o tempo de tela precisa ser reduzido. Nada que me impeça de manter o velho blog vivo, não apenas com artigos novos, ainda que mais esporádicos, mas também corrigindo e aperfeiçoando as postagens antigas (a eterna vantagem do texto em relação ao áudio e ao vídeo😜). Os comentários, é claro, me dão ânimo pra continuar, especialmente quando dialogam de fato com os artigos, mas são os PIX, não nego, que me animam ainda mais, e ajudam a pagar a conta do oftalmologista.
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