Embustes do Lorde: Nosferatus (1922; 1979; 2000)

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Willem Dafoe em: Shadow of the Vampire (2000) 
A história do cinema se confunde com a história dos vampiros.

Eles estão lá, desde o início, provocando-nos com essa estranha afinidade entre o ato de capturar mecanicamente a aparência de vida em celuloide e o ato de prolongar uma não-vida sobrenatural através do roubo da vitalidade alheia.

Cineastas ou cinéfilos, somos todos vampiros.

E é claro que, entre os tantos desmortos da sétima arte, o Nosferatu reina, zombando do glamour que insistimos em injetar no arquétipo, não nos deixando esquecer que, no fim das contas, é de cadáveres que estamos falando, cadáveres animados, arrastando-se pela eternidade, tristes e vazios.

Max Schreck em Nosferatu (1922)
Três "faces" teve o Nosferatu numa espécie de "trilogia" não intencional que atravessou toda a história do cinema: Max Schreck, Klaus Kinski e Willem Dafoe, atores que, se tem algo em comum além do talento, talvez seja uma certa dose de insanidade em algum ponto entre a vida a carreira.

Atores obsessivos, diretores ainda mais.

Friedrich Wilhelm Murnau, no clássico do expressionismo alemão de 1922, estava engajado, assim como outros de sua geração, em definir as próprias bases do cinema, do mistério da criação de imagens que continuariam se movendo e agindo no mundo muito além da morte de cada ser vivente capturado pelos mecanismos da câmera, como vampiros.

Klaus Kinski em Nosferatu (1979)
Werner Herzog, no remake de 1979, encontrou em Drácula o avatar perfeito de sua permanente reflexão sobre a indiferença e imponderabilidade da natureza, o acontecimento que vai além de qualquer explicação, de qualquer sistema de saber que tentemos futilmente criar para não sermos esmagados pela consciência do não-significado da existência.

E, finalmente, em 2000, como numa espécie de arremate, E. Elias Merhige deu forma final a uma velha lenda dos bastidores do cinema: e se Max Schreck não fosse um ator? E se fosse um verdadeiro vampiro, interpretando a si mesmo diante das lentes de Murnau? E assim a metáfora do cinema como vampirismo dá um passo além na virada do milênio, quando cineastas de todas as vertentes voltavam o olhar para seu próprio fazer artístico, como tantas outras artes e ciências, e lá encontraram a face do Nosferatu, encarando de volta a câmera, em seu eterno desafio triunfante.




Os Embustes do Lorde não são críticas ou resenhas, são pensamentos livres e ligeiros sobre filmes, livros, quadrinhos, teatro, enfim, temas diversos relacionados ao universo do horror gótico e do fantástico old school, tentando seguir o princípio de, preferencialmente, destacar o que merece ser (mais) conhecido e/ou revisto e omitir o que não merece e/ou já é conhecido até demais.

Horrors of Malformed Men: Exploitation Japonês + Butoh Dance = Feiticeiros que assombram Fronteiras

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Conheço muito menos do que gostaria a respeito do cinema de horror japonês, embora adore praticamente tudo o que vejo (exceto, claro, aquelas pencas de j-horror que surgiram na onda do interesse ocidental por Ringu e Ju-On, esses é preciso saber peneirar pra achar os realmente foda). Mas faz relativamente pouco tempo que comecei a ter acesso aos grandes clássicos do "gótico" japonês como Kwaidan (em sua versão completa), O Gato Preto (Kuroneko), Ghost Story of YotsuyaOnibaba, etc., e comecei a ter uma ideia melhor do estilo, temática e diretores representativos dos kaidan-eiga, além de me familiarizar com outros subgêneros como bakeneko, yōkai, kaiju, seguindo por fim para as correntes mais extremas do exploitation japonês, com um mínimo de noção de seu contexto.

Cartaz de "Horrors of Malformed Men" (1969), com
os siameses impossíveis em destaque.
Porém... não chega a ser fácil. Tem muita informação contraditória ou simplesmente errada na internet, especialmente sobre o cinema extremo japonês mais obscuro, e o risco de acabar replicando besteira é sempre grande. Há uma forte tendência de rotular ciclos inteiros como "trash" (digo e repito, detesto essa palavrinha desgastada que já não significa mais nada) e/ou cultuar apenas sua "bizarrice" aos olhos ocidentais, o que acaba criando muitos preconceitos.

Essa era a noção que eu tinha de "O Horror dos Homens Deformados" (Kyôfu kikei ningen: Edogawa Ranpo zenshû), de Teruo Ishii, a de que se tratava de uma mera variação de A Ilha do Dr. Moreau, baseada na obra do escritor japonês Tarō Hirai, que assinava com o pseudônimo de Edogawa Ranpo (leia em voz alta e vai entender o trocadalho do carilho ). Uma variação com alta dose de esquisitices entre os "deformados" criados pelo "cientista louco", como bestialismo, um impossível casal de gêmeos siameses de sexos diferentes e uma infinidade de fetiches e imagens grotescas, enfim um caso exemplar de cinema apelativo, gore, trash e de mau gosto (os adjetivos mais usados para descreve-lo em sites e blogs internet afora).

Embustes do Lorde: Vampire Circus (1972)

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Adrienne Corri, o anão Skip Martin e o David "Darth Vader" Prowse
O circo chega numa cidade infestada pela peste. Questionada a respeito, a cigana que os acompanha não hesita em responder: "Viemos para roubar as moedas dos olhos dos mortos".

A capinha feita para NÃO vender DVD,
da London Films
Esse é apenas um dos inúmeros momentos brilhantes de Vampire Circus (conhecido no Brasil como "O Vampiro e a Cigana" e "O Circo dos Vampiros") um filme que realmente me surpreendeu.

Mesmo sendo fã incondicional da Hammer Films, eu sempre adiava assistir por puro preconceito (em parte justificado pela péssima escolha da capinha do DVD da London Films), mal sabia que acabaria se tornando meu filme favorito do estúdio.

Ok, exagerei um pouco agora (na verdade meus favoritos variam com certa regularidade) e talvez seja injusto fazer comparações, pois Vampire Circus é diferente demais de todos os outros filmes da Hammer.

Ainda que eu ame praticamente todos, aprendi a esperar deles aquela sobriedade inglesa, um certo comedimento e contenção, deixando os delírios e propostas mais escandalosas para as produções italianas e francesas do mesmo período.

Vampire Circus, entretanto, é extravagante, surreal, absurdo, carregado com uma sensualidade exuberante que eu nunca tinha visto de forma tão lasciva num filme da Hammer, nem mesmo na trilogia Karnstein e demais produções do ciclo dito como "apelativo e decadente" do estúdio nos anos 70.


Os vampiros do circo assombrado são, ao mesmo tempo, apaixonantes e perturbadores (o que é a cena de Milovan e Serena, a mulher-tigre?! Morri!), as cenas envolvendo ataques à crianças assustam e angustiam com sua forte insinuação de pedofilia, o roteiro injeta uma bem vinda ambiguidade nos personagens, onde tanto "vilões" quanto "heróis" alternam-se em momentos de calorosa simpatia ou imperdoável malignidade, mantendo o espectador permanentemente desconcertado.

Domini Blythe
Afinal, de cara testemunhamos uma criança ser oferecida ao Lorde Vampiro pelas mãos de sua amante, porém logo percebemos que a turba de linchadores que invade o castelo está usando os assassinatos como um mero pretexto. Sua real motivação é vingar o adultério e a ousadia da mulher ao exercer sua sexualidade livremente. Da mesma forma, a vingança (em parte justificável) do circo maldito não se volta de cara para os responsáveis diretos, os patronos da aldeia que outrora submeteram a esposa adúltera à tortura e ao banimento, mas sim para os inocentes, as crianças e jovens que em pleno desabrochar da sexualidade se vêem previamente condenados pelos pecados dos pais.

É um jogo perverso no qual vampiros e humanos, vítimas e algoses, realidade e sonho, se confundem e misturam num estranho e atemporal microcosmo onírico onde não há para quem "torcer" ou "se identificar", apenas se deixar perder. Acredito que somente na, já citada, trilogia Karnstein, especialmente em Twins of Evil, a Hammer ousou ser tão moralmente ambígua, mas não de forma tão desvairada quanto aqui.

Lalla Ward, uma das mais queridas companions
da série clássica do Doctor Who
A fotografia e direção são deslumbrantes, repletas de soluções cênicas não-naturalistas, exóticas e "mágicas" (a sala de espelhos, os vôos do casal de gêmeos acróbatas, as transformações, só pra citar algumas) sustentando uma atmosfera de quase conto de fadas, daqueles em que a qualquer momento o lobo pode arrancar um pedaço da Chapeuzinho com uma dentada (ou o contrário).

Datado? Sem dúvida, ainda mais com o divertidíssimo visual glam rock do conde Mitterhaus, porém, por mais que pareça cômico hoje em dia, até isso contribui para a atmosfera exótica do filme. E afinal, como todo bom cinéfilo sabe, filmes só são datados pra quem se deixou prender numa única época e numa única lógica/estética cinematográfica. Para quem se permite derivar, cinefilia não tem época. 

À quem curiosar e tiver dificuldade pra achar nos rincões bravios da internet, um belíssimo release em HD pode ser baixado aqui.

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Os Embustes do Lorde não são críticas ou resenhas, são pensamentos livres e ligeiros sobre filmes, livros, quadrinhos, teatro, enfim, temas diversos relacionados ao universo do horror gótico e do fantástico old school, tentando seguir o princípio de, preferencialmente, destacar o que merece ser (mais) conhecido e/ou revisto e omitir o que não merece e/ou já é conhecido até demais.