terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Jurando Fidelidade à Drácula - Uma reflexão sobre as adaptações mais "fiéis" ao clássico

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E não é que o que o futuro tinha para nos oferecer era mais uma versão de Drácula? (além de terraplanismo, neo-fascismo, etc, mas deixemos isso de lado por agora). 2020 literalmente começou com o novo Drácula da BBC e como não poderia deixar de ser, metade da humanidade amou e metade odiou. Mas o que me chamou a atenção foi a quantidade de detratores ainda usando o argumento da não-fidelidade ao livro original de Bram Stoker (ou mesmo à sua "essência") para renegar a minissérie de Mark Gatiss e Steven Moffat. Realmente a Terra gira e gira apenas para acabar no mesmo lugar, mas ao menos isso me dá uma deixa pra tecer algumas reflexões sobre essa questão da fidelidade às obras clássicas (ou mesmo não-clássicas).

Primeira edição de Drácula, de 1897,
letras vermelho sangue sobre
o doentio amarelo decadentista.
Para muita gente (como minha amiga Gabi Ortelan 😜) uma adaptação para o cinema que ousa alterar o enredo de uma obra clássica é algo simplesmente inadmissível, especialmente quando a pessoa tem um carinho especial pelo livro em particular. Mesmo entre cinéfilos e estudantes de cinema que tendem a ter uma noção mais clara do quão óbvia é a máxima "livro é livro, filme é filme", mais cedo ou mais tarde acabam topando com algum calcanhar de aquiles, algo do tipo "não, esse livro não!". Me lembro, inclusive, de um conhecido que não tinha o menor problema em apreciar múltiplas versões das mais diversas obras primas da literatura, mas não conseguia tolerar nenhuma das adaptações de Frankenstein, nem mesmo as mais fiéis (que, pra ele, nunca eram fiéis o bastante). É um sentimento que compreendo e também sinto em maior ou menor grau (Sherlock Holmes e O Morro dos Ventos Uivantes são meus dois grandes calcanhares de aquiles), mas simplesmente não se sustenta numa análise mais fria e o velho Drácula de Stoker ajuda a demonstrar isso talvez melhor do que qualquer outro clássico.

Drácula é muito provavelmente o personagem mais adaptado para o cinema de todos os tempos. Uma busca por palavra-chave no IMDb revela impressionantes 340 títulos e é provável que haja até mais. Claro que estar em domínio público a décadas tem muita coisa a ver com isso, mas essa quantidade colossal de versões é curiosa por dois motivos fundamentais: 1) Apenas quatro de todas essas adaptações ao menos tentaram seguir o enredo do livro; 2) Por sua própria estrutura e características, Drácula de Bram Stoker é um livro em princípio impossível de ser adaptado de forma realmente fiel para o cinema ou para qualquer outra mídia.

Estou exagerando? Não sei, talvez esteja... Vamos refletir um pouco a respeito... 🧛‍♂️

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

O "Portmanteau Ideal" - Os Melhores Episódios das Antologias da Amicus Productions

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Bem mais modesta em recursos e prestígio, a Amicus Productions, de Milton Subotsky e Max Rosenberg, desde o início se apoiou em duas estratégias básicas para fazer frente ao domínio da Hammer Films no mercado britânico de cinema de horror popular de baixo orçamento nos anos 60 e 70. Primeiro a ambientação contemporânea que, além de ser muito mais econômica do que o modelo de filmes de época da concorrente, dava uma cara um pouco mais moderna para o estúdio em meio aos novos paradigmas do horror americano que começavam a ditar as regras do gênero no mundo todo. Mas o que realmente marcou a Amicus no imaginário dos fãs foi a popularização do formato que ficou conhecido como portmanteau (inspirado no clássico Dead of Night de 1945), filmes compostos de três a cinco histórias conectadas por algum tipo de narrador e/ou situação que funcionava como uma espécie de guarda-chuva temático. O sucesso foi tão grande que os portmanteaus acabaram se tornando quase indissociáveis do estúdio e até hoje o formato reaparece periodicamente no cinema de horror em geral, desde um Creepshow (1982) até um ABC da Morte (2012), embora seja muito mais comum serem chamados de "antologias". De fato, um termo tão old school quanto portmanteau (pra quem não sabe, aquelas maletas enormes que quando abertas vão revelando inúmeras subdivisórias) soa pomposo demais para se referir a qualquer outra coisa senão ao clássico cinema gótico britânico.

Primeiro portmanteau da Amicus, não muito bem
sucedido, apesar da charmosíssima performance
de Peter Cushing como "Dr. Terror". 
Por todo o seu breve período de funcionamento, entre 1962 e 1977, a Amicus produziu nada menos que sete portmanteaus, Dr. Terror's House of Horrors (1965), Torture Garden (1967), The House That Dripped Blood (1971), Tales from the Crypt (1972), Asylum (1972), Vault of Horror (1973) e From Beyond the Grave (1974). Posteriormente, Subotsky lançou ainda mais dois filmes que, mesmo tendo sido feitos em outros estúdios, costumam ser considerados como extensões da série, The Uncanny (1977) e The Monster Club (1981), esse último comumente aceito como uma espécie de último suspiro da Amicus, ainda que póstumo. Somando tudo, temos nada menos que 37 histórias de horror gótico, quase um pequeno seriado, altamente maratonável em qualquer Halloween que se preze. #FicaDica 😁🎃

Em sua série "A History of Horror", Mark Gatiss chegava a dizer que considerava o formato portmanteau ideal porque "mesmo que você não estivesse gostando de uma história em particular, em alguns minutos viria outra", sem dúvida uma forma bem "copo meio cheio" de encarar as coisas. Mas sendo cruelmente realista, o grande ponto fraco desse tipo de filme sempre foi sua irregularidade. Via de regra, cada longa tinha uma ou duas histórias realmente impecáveis que acabavam sustentando o filme nas costas e uma ou duas que só completavam a metragem regulamentar de uns 90 minutos e eram esquecidas assim que a projeção acabava. A diferença de qualidade por vezes era tão gritante que parecia inacreditável que fizessem parte de um mesmo filme. Porém, apesar da sua pollyannice, Gatiss deixava no ar uma ideia no mínimo curiosa: "sempre fiquei imaginando quão impecável seria um portmanteau formado apenas pelas melhores histórias de cada um desses filmes" e é justamente esse exercício que resolvi fazer aqui, nessa noite de Halloween: montar o meu próprio Amicus´s Portmanteau ideal, algo bem mais de acordo com os critérios habituais de escolha de pauta aqui no blog e, sem dúvida, mais eficiente para apresentar algumas considerações gerais sobre toda essa charmosa série de filmes sem cansar o leitor dissecando todas as histórias uma a uma. Então, acompanhem-me e vejam se concordam com minhas escolhas (se não concordarem, não precisamos brigar, basta usar os comentários para sugerir suas próprias seleções). 😊

Apontamentos do Lorde - Bloco 2

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Na minha conta do Instagram, sob a tag #ApontamentosDoLorde, costumo publicar textos breves e rápidos a respeito de filmes, livros e quadrinhos dentro do universo do fantástico old school que me parecem interessantes de ser destacados, mas que não chegariam a dar margem para longos e detalhados artigos. Diferente da camisa de força do twitter, a limitação de caracteres do Instagram é até bastante razoável para exercitar uma escrita mais enxuta e objetiva, perfeita para pensamentos livres, "apontamentos" de fato. Periodicamente os textos mais antigos de lá serão trazidos para o blog, para resgata-los da peculiar tendência ao esquecimento das redes sociais. 😉

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

As Mil Mortes de Jack London

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O horror é um gênero com uma curiosa tendência de gerar obsessões. Todo fã sabe disso, mesmo que você seja do tipo que fala "assisto e leio de tudo", certamente sua galera já se refere a você como "fã de horror" não deixando que se engane. Veja o caso desse singelo bloguinho que, no começo, achava mesmo que trataria de temas gerais de cultura pop (dá uma fuçada nos textos mais antigos), mas a paixão pelo horror mais cedo ou mais tarde acaba tomando tudo. Não por acaso, o horror tende a gerar artistas que acabam se identificando de tal forma com o gênero que se tornam indissociáveis dele. Escritores como Poe, Lovecraft e Stephen King, atores como Barbara Steele e Vincent Price, diretores como John Carpenter, Wes Craven ou mesmo James Wan. Figuras que, em algum momento, descobriram que quaisquer trabalhos com outros gêneros passaram a ser classificados como exceções e curiosidades, não raro avaliados à sombra de sua produção de horror. E não adianta muito lutar contra isso, como Christopher Lee tentou com mais ou menos força no decorrer de sua carreira, a "mácula" do horror é tão permanente e definitiva quanto a letra escarlate. Aceita que dói menos. 😉

Mil Mortes e Outras Histórias, de Jack London.
Disponível no site da Editora Penalux.
Por outro lado, quando autores que não tem essa identificação com o gênero se põem a produzir obras de horror sempre acabam causando um certo frisson entre os iniciados. Pois é fato, o lado ruim da "mácula" do horror é a tendência a se aferrar a fórmulas, regras e lugares-comuns, algo mais facilmente "quebrável" por autores "de fora" do que pelos especialistas, talvez habituados demais para sequer perceber que sacudidas ocasionais são desejáveis. O horror conta com algumas notáveis obras primas que, para todos os efeitos, são completas exceções nas obras de seus respectivos autores. Pense em William Friedkin, que era famoso por grandes thrillers de ação, tomando o mundo de assalto com O Exorcista em 1973. Ou o clássico O Médico e o Monstro de R.L.Stevenson que sempre foi muito mais conhecido por seus romances de aventura. Um dos contos de horror mais assustadores que já li na vida, O Quarto Vermelho, é quase uma ovelha negra em meio à produção scifi/social-política de H.G. Wells e poucos imaginariam que em meio à vasta obra de Rudyard Kipling e, veja só, Machado de Assis, haveria material suficiente para encher coletâneas específicas de contos fantásticos. Ainda que nem todo "conto fantástico" seja efetivamente horror, a leitura de A Marca da Besta ou Um Esqueleto não sairá tão cedo da cabeça até do mais ferrenho "especialista" no gênero.

E isso tudo nos leva à pequena, mas notável, coletânea da Editora Penalux: Mil Mortes e Outras Histórias, de Jack London.