Anarquistas, quando morrem, viram vampiros... What?!

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E lá estava eu, no acalanto da concha fantasmagórica da minha luminária na cabeceira da cama, lendo randomicamente alguns dos contos raros de vampiro publicados no excelente Herdeiros de Drácula e tentando esquecer um pouco de mim mesmo e da realidade cada vez mais sinistra do devastado Brasil pós-golpe, quando um determinado trecho do conto "Um Dedo Morto" me faz arregalar os olhos, perder o sono de vez e soltar um "WTF?" no meio da madrugada. O trecho em questão é uma fala do personagem Sr. Square, apresentado pelo narrador do conto como um engenheiro elétrico (profissão pioneira em 1897, quando o conto foi publicado) e como o homem mais sábio, integro e espiritualmente elevado que o narrador já conhecera, um personagem que irá ocupar no conto o papel clássico do detetive do sobrenatural que, por fim, conseguirá vencer e capturar o vampiro da história. Ei-lo:
"— Darei um exemplo, para mostrar as grandiosas possibilidades da eletricidade, usada de forma bruta. Em determinada cidade grande bem no oeste dos Estados Unidos, um lugar avançado também, mais do que Nova York, tinham bondes elétricos pelas ruas para cima e para baixo, para todo canto. Os sindicalistas trabalhando para a companhia exigiram que os não sindicalizados fossem dispensados. Mas a companhia não providenciou. Em vez disso, dispensou os sindicalistas. Tinha na reserva números suficientes dos outros, então preencheu todas as vagas de uma vez. Os sindicalistas não gostaram disso e combinaram que em determinada hora de determinado dia todos os fios deveriam ser cortados. A companhia soube disso por meio de espiões e descarregou, especialmente para eles, três vezes a energia em todos os fios. No momento combinado, os grevistas subiram nos postes para cortar os cabos e desceram dezenas de vezes mais rápido do que subiram, aposto. Então, seguiram as chamadas para os hospitais de todos os cantos para que mandassem maqueiros para carregar os homens aleijados, alguns com pernas quebradas, braços, costelas. Dois ou três quebraram o pescoço. Acredito que a companhia tenha sido incrivelmente misericordiosa, não colocou força o suficiente para transformá-los em cinzas ali mesmo. Talvez a opinião pública não gostasse disso. Mas parou a greve, isso sim. Grande efeito moral, tudo feito pela eletricidade." (grifos meus)
Minha primeira reação, confesso, foi rir.

Mas uma certa deprê não demorou a bater.

Cão Negro (Penelope Lively) - Feminismo e Shagfoals Suburbanos

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John Case chegou em casa numa noite de verão e encontrou sua mulher encolhida no canto do sofá com as cortinas da sala de estar fechadas. Ela disse que havia um cão negro no jardim, que ficava olhando-a pela janela...
Essas primeiras frases do conto Cão Negro, da escritora inglesa Penelope Lively, capturaram minha atenção de imediato enquanto folheava meu (naquele momento) recém adquirido Grande Livro de Histórias de Fantasmas, publicado a alguns anos pela Suma das Letras. Para quem não conhece, é um dos livros mais recomendados para apreciadores e pesquisadores de ficção de horror britânica porque, apesar do título não deixar tão claro quanto deveria, trata-se de uma coletânea inteiramente dedicada a mulheres, as tão negligenciadas autoras que (também) fizeram parte da história da literatura gótica no Reino Unido. A edição da Suma é uma tradução do volume organizado pelo literário Richard Dalby (o mesmo da coletânea Herdeiros de Drácula) para a editora inglesa especializada em escritoras Virago Press, e se já era um lançamento importante por lá, aqui no Brasil, onde a maioria delas nunca teve um conto sequer traduzido, torna-se indispensável.

Indispensável para apreciadores e pesquisadores
do gótico britânico.
Dos 31 contos presentes na coletânea, Cão Negro me pegou de uma forma um tanto mais pessoal, o que me motivou a destaca-lo aqui, dando continuidade à sessão Beijos no Escuro. A premissa já se torna clara na própria citação acima: Brenda Case é uma dona de casa que, de uma hora pra outra, passa a se recusar a abrir portas e janelas ou sair sozinha porque tem medo de um cachorro preto que a observa do jardim. Nem preciso dizer que ninguém mais (a princípio) consegue ver o tal cachorro, fazendo com que a família toda comece a se preocupar com o estado de saúde mental da mãe.

De imediato isso nos coloca diante do dilema mais fundamental (e, por vezes, rasteiro) da literatura fantástica, quando o leitor precisa decidir se o fenômeno é uma manifestação sobrenatural real e objetiva e a protagonista está mesmo sendo assombrada, ou se tudo é uma alucinação resultante de um estado mental alterado. Nesse caso com uma forte sugestão (por parte da reação dos demais personagens) de que a imagem de um cão preto fantasma poderia ser um símbolo contundente da depressão.

Um Motivo para Assistir a Versão Estendida de "Halloween 6" (1995)

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Depois de muitos e muitos anos, finalmente as circunstâncias (e minha paciência) se harmonizaram pra que eu tivesse chance de conferir a tal "versão do produtor" do famigerado Halloween 6 - The Curse of Michael Myers (agora disponível com qualidade HD nos melhores sites de torrent).

"Versão do produtor"?! WTF? Pois é, bizarro, não? Acredito que seja o único caso em que a versão estendida de um filme é um producer´s cut, não um director´s cut. Afinal, normalmente são os produtores que fazem lambança nos filmes por razões mercenárias e os diretores usam os director´s cut para ter a chance de restaurar suas obras mutiladas (exceto nos casos picaretas, claro). Mas Halloween 6 foi uma produção tão absurdamente tumultuada, tão cheia de tretas internas que acabou gerando não um, mas dois filmes-frankenstein. É uma longa história que pode ser encontrada com mais detalhes em sites gringos, mas por agora basta dizer que a "versão do produtor" (no caso Moustapha Akkad, "dono" da franquia até sua morte em 2005) tem fama de ser infinitamente melhor do que a catastrófica versão de cinema, que quase enterrou de vez a saga do primeiro grande psicopata imortal do cinema, Michael Myers.

Halloween 6 era, de fato, indefensável, por mais boa vontade que o espectador tivesse. E olha que eu tenho um fraco por filmes que se convenciona tachar como ruins a priori (até curto o Halloween 5, que a maioria dos fãs odeia), mas nesse caso não tem como: o filme é uma zona sem pé de cabeça na sua tentativa bizarra de transformar um simples slasher numa rocambolesca trama de conspiração mística druida como forma de "explicar" a imortalidade de Michael, algo que obviamente nunca precisou de explicação. Parece que o roteirista, Daniel Farrands, até tinha boas intenções, era mega fã da série e meio que tentou costurar todos os elementos disparatados que foram sendo introduzidos pelo caminho (incluindo, me parece, até as doideiras druidas de Halloween 3, que a princípio nada tinha a ver com o resto da série) naquilo que, pretensamente, seria uma conclusão épica. Farrands alegou que seu roteiro sequer chegou a ser filmado na íntegra, mas desconfio que não teria feito tanta diferença. Na maioria das vezes, fãs apenas acham que sabem o que é melhor para seus objetos de culto.

E, afinal, o producer´s cut é mesmo melhor? Não, é tão ruim quanto a versão dos cinemas... mas é diferente. Na verdade não se trata de uma simples versão estendida ou mesmo uma remontagem de cenas: a última meia hora de filme é completamente diferente nas duas versões. O problema é que nenhuma delas funciona, nem como filme independente e muito menos como um pretenso desfecho de uma saga. A producer´s cut ao menos é mais bem amarrada e a trama faz mais sentido do que a versão de cinema, dá pra sacar aonde queriam chegar, mas continua senso insatisfatória, a despeito da fama quase mítica que foi ganhando com o tempo.

Mas então qual é o tal motivo para assistir essa versão do produtor? Simples: Donald Pleasence.

Vampiros de Olhos Dourados - The Toho´s Bloodthirsty Trilogy

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A sequencia de abertura de Lake of Dracula, de 1971, serve praticamente como carta de intenções para toda essa trilogia dirigida por Michio Yamamoto. Estamos numa praia rochosa, diante de um céu de cores magníficas e irreais, que nos remete (intencionalmente ou não) aos cenários pintados estilizados e oníricos de Kwaidan (1964) e outros kaidan-eiga dos anos 60 e 70. A pequena Akiko é avisada pelas outras crianças para não ficar sozinha na praia, mas o cachorro foge e a menina, claro, corre atrás dele. Os dois entram através de uma passagem no paredão rochoso que desemboca numa trilha, levando-os até, pasmem, uma mansão gótica no estilo inglês vitoriano! 😳

Lake of Dracula (1970)
A essa altura já bem desconcertados, continuamos seguindo a menina que, curiosa, se aproxima da mansão, até ser surpreendida por um velho sinistro que surge do meio das folhagens. A menina se assusta e foge pra dentro da mansão. A câmera subjetiva faz um arco que nos (re)apresenta ao decrépito cenário do salão gótico, com escadarias cheias de teias de aranha e até uma armadura medieval (européia!) antes de nos revelar um piano onde está sentada de costas uma moça usando camisola branca. Sim, a tradicional dama etérea da literatura gótica. A menina se aproxima e toca a moça, que se vira lentamente revelando um rosto tão lindo quanto pálido, para então desabar no chão. Ouve-se um guincho medonho, a menina olha pra trás e vê nas escadarias, olhando pra ela, um homem horrendo, vestido de preto, com o rosto inteiramente branco e sangue escorrendo dos lábios: o vampiro! Num corte rápido temos um hiper-close do olho dele que, ao contrário do tradicional vermelho sangue, é dourado, como se emulasse o Sol.