A Trilogia Yokai Monsters - Alguns comentários livres...

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(Devidamente resgatados do abismo sem fundo do feed do instagram,
postados originalmente entre 04/12 e 06/12 de 2021)

E quando menos se espera, eis que cai na rede a trilogia Yokai Monsters (1968-1969), completinha e em alta definição!😍

Sempre piso em ovos pra falar do cinema de horror japonês. O que sei de cultura japonesa, ainda mais dos anos 60, não vai muito além das Wikipédia da vida e a barreira do idioma continua sendo um problema, mesmo na era do google translator (para algo mais aprofundado, recomendo os dois artigos da Biblioteca Noturna). Mas, afinal, a ideia das "reminiscências" sempre foi focar nas impressões pessoais e, nesse aspecto, a própria inefabilidade do conceito de yokai contribui muito no impacto que esses filmes têm sobre mim. Pra quem não sabe, yokais são... bem, "aparições estranhas" (é sério, tá lá no Wikipedia!😅), entidades do folclore japonês que parecem se caracterizar, acima de tudo, pela esquisitice. Cinematograficamente falando, caem como uma luva tanto nos kaidan-eiga (histórias de fantasmas) quanto tokusatsu, dando margem para os mais fantásticos desvarios com animações, bonecos, fantasias, trucagens e outras técnicas "mágicas" de efeitos práticos old school. Tem mulheres que esticam o pescoço (ou com boca atrás da cabeça), feiticeiras gigantes assombrando leitos de rio, fantasmas sem rosto nas encruzilhadas, monstros de um olho só emboscando viajantes e até guarda-chuvas beijoqueiros😳, simplesmente não há limite pras bizarrices que vão se sobrepondo numa estrutura de "causos" dentro de "causos" narrados à luz de velas! Escrito assim, pode até soar meio engraçado (e é!) mas não se surpreenda se, depois da sessão, se flagrar tendo sobressaltos com sons estranhos e aparentes movimentos na penumbra do quarto.😉

À propósito, recomendo baixar o quanto antes, enquanto os torrents ainda têm seeds. Os velhos DVDrips eram quase impossíveis de achar, mesmo em fóruns especializados e nada indica que os BRrips não vão seguir o mesmo padrão, no máximo em alguns meses. E lembrem-se: só uploaders vão pro céu (especialmente os que não enchem o saco por créditos😜).

(Re)Assistindo: 100 Monsters AKA Yôkai Hyaku Monogatari (1968) de Kimiyoshi Yasuda
com Miwa Takada, Mikiko Tsubouchi, Shinobu Araki, Jun Fujimaki, Ryutaro Gomi, Jun Hamamura, Ikuko Môri


O segundo filme da trilogia Yokai Monsters aparenta ter uma proposta um tanto diferente de seu antecessor. A ideia, pelo visto, era ser um filme mais "família", quase um "Turma do Pererê" nipônico, com as entidades folclóricas do Japão unindo forças para deter um terrível demônio babilônico(!?) que assumiu a identidade de um poderoso daimiô da região. No primeiro filme os yokai eram retratados de forma no mínimo ambígua. Ainda que aparentassem certa preferência de perseguir malfeitores e vingar injustiças cometidas pelos que se julgam donos do poder, em nenhum momento suas aparições deixavam de ser também assustadoras. No limite, era mais conveniente evitar cruzar o caminho deles sempre que possível, só por via das dúvidas. Aqui a única criatura realmente malvada é o big boss forasteiro mesmo, as entidades japoneses são todas fofas, boazinhas, patrióticas(!)... e amigas de todas as crianças...

...mas juro que se tivesse assistido esse negócio quando EU era criança teriam que me benzer (de novo) pra voltar a dormir de luz apagada!😱😅🖤

Mas deixando de lado, por agora, a superioridade do cinema infantil de antigamente,😜 uma das coisas mais legais desse segundo filme é a chance de conhecer um pouco melhor as entidades folclóricas que, nos outros dois filmes, só aparecem de forma bem an passant. Seres como o Kappa (o diabinho das águas), a Futakuchi Onna (a mulher de duas caras), o Kasa Obake (o impagável "yokai guarda-chuva"), a Rokurokubi (a mulher que estica o pescoço), o Abura Sumashi (um tipo de versão original do Yoda que lidera o bando) e o Nuppeppō (hmm... talvez seja melhor não perguntar sobre esse🤔). Particularmente eu prefiro a pegada mais kaidan-eiga (histórias de fantasma) do filme anterior, mas se você for fã dos monstros gigantes dos kaidan-eiga e dos "super-heróis" bizarros dos tokusatsu esse aqui tem tudo pra virar o seu filme de referência... e do coração.😉

(Re)Assistindo: Yokai Monsters: Spook Warfare AKA The Great Yokai War AKA Yōkai Daisensō (1968) de Yoshiyuki Kuroda
com Yoshihiko Aoyama, Hideki Hanamura, Chikara Hashimoto, Hiromi Inoue, Mari Kanda, Takashi Kanda, Akane Kawasaki, Gen Kimura, Hajime Kimura, Ikuko Môri


É difícil não reagir com uma certa frieza ao último filme da trilogia Yokai Monsters na primeira vez que a gente assiste. Depois daquele verdadeiro show yokai no filme anterior, a série meio que mete o pé no freio com uma história muito mais contida, até em relação ao primeiro filme. Os yokais voltam a ser pouco mais que vislumbres, aparecendo em pouquíssimas cenas. Pra todos os efeitos, o filme funciona mais como um filme de samurai (ou, mais especificamente, Chambara) com alguns toques de kaidan-eiga e tokusatsu. Isso não seria necessariamente ruim, mas no contexto acaba soando decepcionante. Guardadas as devidas proporções, é meio como na franquia Alien em que, no primeiro filme, você tem um monstro escondido nas sombras, no segundo um show de monstros e no terceiro... um monstro escondido nas sombras. Inevitável que a primeira impressão seja de um passo atrás.🤔

Porém (da mesma forma que rolava com Alien 3), a proposta começa a fazer mais sentido nas revisões. É como um recuo estratégico depois de um passo que, por mais que na época tenha feito sentido, no fim acabou se revelando um tanto além da perna, praticamente mudando o caráter e até mesmo o gênero da série. O que fazer depois disso? Seguir em frente e seja o que Buda quiser? Ou tentar resgatar a proposta original? Independente do que se possa pensar, não há respostas certas aqui. A opção escolhida foi pela volta às origens e é nessa chave que a audiência deve modular as expectativas. Dito isso, há momentos arrepiantes com as entidades (re)apresentadas na sua forma mais ambígua e sinistra e, por mais que não tenha como resgatar o impacto do primeiro filme (e alguns momentos de humor pastelão também pareçam bem deslocados), não deixa de ser um encerramento digno para uma das séries mais inusitadas do horror japonês naqueles loucos (e maravilhosos) anos 60.🥰

(Re)Assistindo: Yokai Monsters: Along With Ghosts AKA Tôkaidô Obake Dôchû (1969) de Yoshiyuki Kuroda & Kimiyoshi Yasuda
com Kôjirô Hongô, Pepe Hozumi, Masami Burukido, Mutsuhiro, Yoshito Yamaji, Bokuzen Hidari, Shinjiro Akatsuki, Saburô Date, Ryûtarô Gomi, Kazue Tamaki, Mutsuhiro Toura



Não há nada por aí como o Carnacki original...

Um comentário:

Das ironias de ser um colecionador: tantos e tantos anos esperando por uma edição brasileira de Carnacki, the Ghost Finder, de William Hope Hodgson, e agora que finalmente tenho nas mãos o Carnacki: Detetive do Oculto da Editora Corvus passo dias enrolando entre um conto e outro porque, bem... SÓ TEM SEIS!😱 Eu não quero que acabe!😭 Mas é impressionante, não? Que uma série tão curta tenha sido capaz de influenciar tão profundamente a ficção gótica e a cultura pop em geral. Nos relatos do Sr. Carnacki ao seu seleto grupo de camaradas ao redor da lareira (lindamente retratada acima pelo Gary Gianni) a gente vai reconhecendo as sementes de tudo quanto é técnica e procedimento de investigação paranormal que vimos sendo usadas ad nauseam não só pelos Mulders e Winchesters da ficção, mas toda aquela infinidade de autointitulados "caçadores de fantasma" de mockumentary que tanto ajudaram a enterrar a credibilidade dos outrora tão respeitados gigantes da TV a cabo, como o Discovery e o History Channel. Faltou assimilar o senso de ironia e esquisitice de Hodgson, que nunca me pareceu lá muito interessado em mera verossimilhança ao conceber doideiras tipo uma enorme mão fantasma ou um quarto que tem boca e assovia!😳 De fato, se as histórias de Carnacki não te demonstrarem todo o diferencial da chamada Weird Fiction em relação à literatura de horror em geral, nada mais o fará.😅 Tabuleiro ouija? Bah! Amadores! O lance aqui é o pentáculo elétrico! E quem precisa do exorcismo católico romano quando temos o Saaamaaa Ritual que o próprio Christopher Lee achou por bem aprender a recitar? Além de eficiente, ajuda a prevenir um certo viés cristão que atravessa muitas dessas franquias de detetives do oculto modernos, de Supernatural até o Conjuring Universe (esse chega quase a resvalar no fundamentalismo às vezes). O fato é que não há nada como o Carnacki original por aí. Não de verdade. O que torna ainda mais triste que Hodgson tenha morrido na I Guerra Mundial sem ter tido chance de escrever mais umas histórias. Ao menos ainda restam três, publicadas postumamente, que a Corvus (sei lá por que) deixou de fora de sua coletânea.🤨 Mas é bom ter algo pelo que esperar, né?😜

Revisitando as Sombras - Pensamentos Livres sobre o Ciclo de Horror de Val Lewton na RKO dos anos 40

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(Devidamente resgatados do abismo sem fundo do feed do instagram,
postados originalmente entre 30/10 e 13/11 de 2021.)

 
Tava eu aqui, nessa quase véspera de Dia das Bruxas, matutando como o pequeno ciclo de filmes de horror que Val Lewton, produziu para a RKO Pictures nos anos 40 bem que poderia ser considerado a A24 de sua época.🤔

Sim, claro que a comparação é anacrônica (até um tanto frívola), mas não deixa de ser sugestiva. Ambos ganharam fama ao rejeitar os clichês e fórmulas manjadas de seus respectivos períodos (tipo os intoleráveis jumpscares de hoje em dia, ou a obrigatoriedade de ter um "monstro" em cada filme como na Universal Studios) em prol de um cinema de horror mais sofisticado e perturbador, que não subestima a inteligência da plateia ou sua disposição em esperar do gênero algo mais que mera diversão ligeira, ainda que isso envolva o risco de melindrar aquela parte (significativa) da audiência que só se interessa mesmo em consumir aquilo pelo que pagou ("Ah, esse filme não dá susto!" ou "Ah, esse filme não tem monstro!").

Tá certo que as semelhanças meio que morrem aí. A24 é uma empresa conscientemente voltada para um mercado de nicho, enquanto que o departamento de Lewton na RKO era por si só um nicho, pouco mais que mão de obra contratada pra surfar o máximo possível na onda dos Monstros da Universal com metade dos orçamentos da concorrente. A A24 tem toda a liberdade de promover seus filmes de forma coerente com sua lógica estética, enquanto Lewton sequer podia escolher os títulos e artes promocionais pré-definidos pelos marqueteiros do estúdio. A despeito, porém, de tudo isso (ou até por isso mesmo) obtiveram êxito em elevar um gênero recém nascido a um novo patamar de maturidade artística, algo que, na real, a A24 apenas resgatou depois de décadas de infantilização deliberada dos anos 80 em diante. No fim, se um dia houve algo que pudesse ser chamado de "Pós-Horror" (ao menos naquele contexto) foi o que Lewton e seus diretores criaram para o cinema de horror dos anos 40.

O que, ironicamente, incluía a invenção do jumpscare em Sangue de Pantera. Quem diria, não?😅

(Re)Assistindo: Cat People (1942) de Jacques Tourneur

E ainda estamos aqui...

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É até estranho rever A Casa do Terror (1974) em tempos de Pânico (2022). Já na época do Pânico (1996) eu me espantava com os paralelos conceituais entre a obra de Wes Craven e o estranho encerramento da fase serial killer de Vincent Price na Inglaterra, mas agora que a tendência auto-referencial da nossa hipertrofiada cultura da nostalgia já parece ter chego ao ponto de voltar-se sobre si mesma, o modesto e aparentemente despretensioso filminho de Jim Clark se torna ainda mais fascinante e, de certo modo, quase profético. Hoje em dia, que praticamente todo produto pop é sobrecarregado de citações autoconscientes, metalinguagem e fanservice, talvez nem pareça assim tão especial, mas nos anos 70 era um animal estranho que, não por acaso, nunca foi lá muito bem visto pela crítica. O uso de cenas dos clássicos do Ciclo Poe de Price como supostos filmes do Dr. Death (com direito a créditos de "participação especial" aos falecidos Boris Karloff e Basil Rathbone) tendia a ser visto mais como oportunismo do que homenagem e os bizarros paralelos entre o roteiro e a situação real atrás das câmeras chega a ser quase inacreditável! Reparem na cara de nojo do tio Price diante de Robert Quarry, que a AIP cotava como seu possível "substituto". Atuação?! De fato, vê-lo estrelar um filme sobre um envelhecido e decadente astro de horror sendo obrigado a retornar ao papel que o consagrou talvez seja o aspecto mais perturbador da coisa toda. Não há dúvida de que é um filme nostálgico, mas o sentido da palavra era bem diferente do que entendemos hoje. Madhouse é um filme crepuscular, uma espécie de Crepúsculo dos Deuses do horror gótico, fazendo a transição para as abordagens mais explícitas e violentas do horror setentista e do slasher que logo eclipsariam figuras como Price e Peter Cushing. Nesse sentido, a célebre entrevista de bastidores com os dois parceiros é um complemento pra lá de precioso, pleno de melancolia e reminiscências. Afinal, o que é nostalgia, senão uma forma de lidar com o fato de que seu tempo já passou? De que o fim JÁ veio, mas ainda estamos aqui, imaginando o que isso teria a nos dizer sobre nossa atual cultura pop... ao menos até o trailer de Pânico 6 cair na rede.

A Sessão Corujão por excelência das velhas Madrugadas Malditas...

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Desde que me conheço por gente eu ouço falar de A Casa da Noite Eterna. Sem exagero. Tenho lembranças claras de infância dos parentes mais velhos contando histórias cabulosas sobre o filme. Sobre dormir com a luz acesa, não conseguir tirar certas cenas da cabeça e outros superlativos. Havia um tio em particular que não cansava de repetir que era o filme mais assustador que já tinha visto, e isso até recentemente! No fim, eu mesmo só tive chance de assistir há poucos anos (quando o BRrip caiu na rede) e claro que não foi TÃO assustador assim (nunca é, se você já virou macaco velho no gênero😉). Mas, como eu sempre digo, ser ou não ser assustador é algo muito relativo e nem é o mais fundamental. Independente de dormir com luz acesa ou apagada, The Legend of Hell House (1973) é um dos filmes de horror britânicos mais interessantes dos anos 70, uma espécie de elo perdido entre o antigo estilo gótico inglês e a pegada mais bruta e "realista" que começava a aflorar no horror setentista americano. É um filme violento e sexy, as vezes quase lascivo (ainda que o roteiro de Richard Matheson atenue bastante o conteúdo BDSM de sua novela), mas ao mesmo tempo hipercolorido e extravagante, com toda a teatralidade dos velhos filmes da Hammer. Diferente do que costuma rolar nesse tipo de premissa, não há personagens leigos ou céticos, ninguém com quem a audiência possa (em teoria) "se identificar". São todos, em princípio, Detetives do Oculto, usando as terminologias e procedimentos "corretos" da parapsicologia e reagindo aos fenômenos da "Casa do Inferno" com aquele misto de tensão e frieza de quem é "profissa" no assunto. Isso tudo sustentado pelo tom cuidadosamente over das performances de Roddy McDowall, Pamela Franklin, Gayle Hunnicutt e Clive Revill. O resultado é um certo distanciamento que, longe de alienar a plateia (como um coach de roteiro esperaria), intensifica a atmosfera geral de "esquisitice", de um microcosmo gótico onde tudo pode acontecer (até aquele final deliciosamente absurdo). No fim, dá pra entender o impacto psicológico que teve nos meus tios. John Hough acabou criando uma espécie de Sessão Corujão ideal para madrugadas malditas. E que Belasco o abençoe por isso!🙏