segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

As "Franquias" da Hammer Films: Conde Drácula

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A vida toda ouvi pessoas dizerem: "hoje em dia não se cria nada de novo no cinema de horror, só fazem continuações". No começo se referiam aos intermináveis "Sexta-Feira 13" e "A Hora do Pesadelo", depois a "Jogos Mortais" e agora não é nada incomum ouvir algo parecido em relação a "Invocação do Mal", "Annabelle" e por aí vai. Dá pra entender, mas é meio injusto porque desde que o cinema existe o horror SEMPRE abusou das continuações. Os próprios Drácula com Bela Lugosi e Frankenstein com Boris Karloff que, para todos os efeitos, inauguraram o gênero em 1931, não só tiveram várias continuações cada um como até desembocaram numa série de crossovers no final dos anos 40 (ou achava que "Freddy X Jason", "Alien X Predador" e universos compartilhados tinham algo de novidade?). Antes de repetir o clichê de "hoje em dia só tem continuação" lembre-se sempre que "voltar da morte" está nas entranhas do gênero, para o bem ou para o mal. Em algum momento do final dos anos 80 lembro de ter lido num desses almanaques de vídeo que "Freddy Krueger nada mais era do que o Drácula dessa geração" e é bem isso.

Imagem síntese de "Dracula 1972 AD",
sétimo filme da série.
Mas uma coisa é fato: os anos 80 e 90 extrapolaram na repetição exaustiva de ideias simplórias demais até para um único filme, quanto mais dúzias. Foram sequencias e mais sequencias sem maiores ambições senão repetir ad nauseum os mesmos plots dos filmes originais, com, no máximo, algum acréscimo de grana para mais efeitos. Nesse ponto, não há comparação possível entre um Jason da vida e as longas séries que a Hammer Films produziu nos anos 60 e 70. Sem a menor dúvida a Hammer foi uma empresa sem o menor pudor em explorar até o limite aquilo que hoje chamamos de "franquias". Foram NOVE filmes de Drácula, SETE do Barão Frankenstein, quatro da Múmia, três de Carmilla, sem contar as séries menores como She, Quatermass ou as infames Cave Girls. Mas mesmo que a principal motivação fosse (como sempre é) pura e simplesmente grana, as continuações da Hammer não podiam de modo algum ser taxadas como mera repetição das fórmulas dos filmes originais. Há um surpreendente frescor de originalidade na abordagem de cada roteiro que chega quase a se sobrepôr (e até contrapôr) à necessidade primária de dar continuidade às tramas anteriores. As mudanças de foco e variações inusitadas levam cada filme a ter uma identidade muito particular, com seus próprios temas e abordagens, não raro até contraditórios entre si, o que pode ser exasperante para o típico fã de "universos compartilhados" de hoje em dia, obcecado por cronologia e coerência interna, mas que pra mim torna cada um desses filmes interessante e provocativo por si só, de uma forma que nenhuma "franquia" interminável dos anos 80 e 90 jamais conseguiu (ou, sendo justo, tentou).

Para refletir um bocadinho sobre isso dou início a uma série de textos sobre as principais franquias da Hammer, começando pela mais longa e mais conhecida, o Drácula de Christopher Lee. Não se trata de "críticas", o que mais tem na internet são resenhas de todos os tipos para cada um desses filmes. O que farei aqui são algumas observações pessoais de fã passional para fã passional, tentando destacar alguns pontos que me parecem interessantes e, talvez, não tão mencionados. Sigamos, então, pela ordem...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Memórias de Madrugadas Malditas: "A Maldição de um Bebê de Natal"

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...e o menino tomou cuidado. Por um ano, talvez dois. Até que, um dia, viu um anúncio de um filme que seria exibido as 10 horas daquela noite na TV. Era um filme de terror. O menino viu e reviu o anúncio várias vezes no decorrer do dia, até que com a maior convicção que já tivera na sua breve vida, decidiu que iria convencer a avó (tarefa sempre mais fácil do que convencer a mãe) a deixa-lo ficar acordado até tarde para ver o filme. Depois de muita insistência, conseguiu. O filme era "A Maldição do Lobisomem" (The Curse of Werewolf), da Hammer Films. (Memórias de Madrugadas Malditas: "O Primeiro Medo")
Não foi fácil retomar o blog depois da tragédia das eleições de 2018. Como tentei esboçar num texto para minhas redes sociais, a constatação de que metade da população apoiava monstros reais muito piores que qualquer Drácula, Frankenstein ou Michael Myers fazia o ato de escrever sobre horror ficcional parecer algo vazio e sem sentido. Mesmo as mensagens de apoio de meus leitores salientando a importância de não abandonar nenhum tipo de espaço de arte e cultura online especialmente numa hora tão sombria foi suficiente pra recuperar o meu ânimo num primeiro momento. Foi preciso parar, refletir, encontrar mais de que uma pauta, mas algo que pudesse fazer parte de um processo de cura pessoal. O que me fez revisitar aquele que é meu texto favorito de todos os que já escrevi para o blog, O Primeiro Medo, parte da série Memórias de Madrugadas Malditas, um texto que me permitiu tratar de forma oblíqua de uma grande quantidade de temas que me são caros, algo que espero ser capaz de fazer também agora.

Seguindo, então, de onde a citação acima parou, A Maldição do Lobisomem, de 1961, foi o primeiro filme de horror que assisti do início ao fim. Mais do que isso: o primeiro filme de horror que tive intenção de assistir depois da experiência arrebatadora de topar por acaso com aquelas cenas aleatórias de Shadow of the Hawk na TV aberta, que me fizeram ter que ser "benzido" pra perder o medo de dormir sozinho a noite. Pensando retroativamente, era claro que seria só uma questão de tempo até que o "trauma", associado à constante reafirmação de meus pais de que "aquilo era um filme de horror, nunca mais veja algo assim" inevitavelmente me levaria a querer MUITO ver outro filme de horror. Mas na época, para a criança que eu era, o comercial de TV anunciando o filme tornou-se uma espécie de desafio com ares épicos, algo que não foi aceito sem uma certa hesitação. Meu raciocínio infantil era: não, não quero voltar a sentir o pavor do escuro de quando a "mulher verde" me assombrava, mas um lobisomem não é tão ruim quanto uma bruxa. Um lobisomem, pensei, pode tranquilamente ser detido por uma porta fechada ou uma bala de prata, é algo físico, delimitado, não é como o poder etéreo da "mulher verde" que podia enviar seu espectro e suas cobras fantasmas através de qualquer barreira. Enfim, resumindo, minha lógica infantil era: com um lobisomem eu posso lidar.

E foi assim que, as dez horas da noite, me sentei sozinho na frente da TV de tubo, no chão da sala na casa da minha avó, sem ter a menor noção de que estava prestes a ver um dos maiores clássicos da produtora britânica Hammer Films. Levou anos pra essa ficha cair e até hoje fico pasmo com a extraordinária coincidência de minha iniciação formal ao gênero ter calhado de rolar justamente com esse filme, que acabou por se tornar um dos momentos culminantes (como diria o senhor Moonshadow"não do meu amadurecimento, mas do meu despertar". Obviamente, não dá pra escrever sobre isso sem MUITOS SPOILERS. Então, caro leitor, se ainda não assistiu The Curse of the Werewolf, faça um grande favor a si mesmo: assista e depois volte aqui.

Pronto? Ok, vamos lá.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Lore - Uma Vela no Escuro para ir além do "Eu Quero Acreditar"

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Que bela surpresa essa série, Lore, da Amazon Studios. Me fez lembrar da passagem do clássico O Mundo Assombrado Pelos Demônios - a ciência vista como uma vela no escuro em que o saudoso Carl Sagan dava umas belas alfinetadas em Arquivo X por, segundo ele, blefar em sua premissa central. De fato, Chris Carter sempre afirmou que sua série buscava ao máximo equilibrar a credulidade de Fox Mulder com o ceticismo de Dana Scully, mas o fato é que em 99% dos episódios Scully estava sempre errada e Mulder sempre certo. Só me lembro agora de um único episódio em que o "monstro da semana" no fim era só um crocodilo e Mulder acabava com cara de criança decepcionada (inclusive, sempre me pareceu que o próprio status de Scully como uma das primeiras grandes mulheres protagonistas da história da TV acabava um tantinho maculado por ela sempre ter que ceder a razão ao colega homem).

Sagan, claro, entendia os motivos de Carter seguir esse rumo, mas lamentava o fato da série, querendo ou não, reforçar a desconfiança do americano médio em relação ao conhecimento científico e estimular a crença em superstições e pseudo-ciências. Não seria interessante, só pra variar um pouco, um seriado em que a investigação dos casos revelasse que os fenômenos aparentemente paranormais nada mais eram que embustes, más interpretações e/ou frutos de crendices e superstições? Afinal, nos anais da pesquisa científica não faltam histórias reais em que a famigerada "explicação racional" acaba sendo um plot twist muito mais surpreendente do que os desfechos meramente fantásticos da maioria dos episódios de Arquivo X. Porém, Sagan duvidava muito que alguma emissora aceitasse apostar numa série assim, muito menos que o público se dispusesse a abrir mão da fantasia tão facilmente. Mais provável seria que 99% dos espectadores terminasse cada episódio com a mesma cara de decepção do Agente Mulder e a audiência despencasse com poucos meses de exibição.