sexta-feira, 29 de maio de 2026

Por que cobras venenosas nos fascinam tanto?🐍


Como é que se escolhe um filme para assistir de madrugada? Bom, se você for uma pessoa normal, pode gastar uma infinidade das suas horas zapeando inutilmente até desabar de sono sem conseguir escolher qualquer coisa num serviço de streaming. Agora, se você for um esquisito como eu, que gosta de caçar novidades no passado, a jornada pode ser um tantinho mais tortuosa. Por exemplo, tava lá eu, outro dia, dando uma olhadinha no making of de um dos meus filmes favoritos da vida, o The Blood on Satan's Claw, de 1976, e comecei a me perguntar o que mais o Piers Haggard teria dirigido na vida? Aí fui lá fuçar na filmografia do homem no IMDb, e me deparei com um título que eu já tinha visto várias vezes nos blogs e fóruns de pirataria raridades por aí, mas que nunca tinha me chamado muita atenção. Um tal de Venom, de 1981. Não, nada a ver com aquela merda da Marvel. Esse Venom era um thriller que, a julgar pelo cartaz, tinha alguma coisa a ver com cobras, e essa era a única coisa que eu sabia. Dessa vez, eu dei uma olhada mais cuidadosa e descobri que o Tobe Hopper, de O Massacre da Serra Elétrica, tinha sido o co-diretor dessa bagaça. Achei curioso. Um americano e um britânico? Como teria sido isso? Abri a página do filme para pesquisar melhor, e li a sinopse sobre os dois bandidos que se dão mal numa tentativa de sequestro, e acabam encurralados num grande sobrado, com uma mamba-negra à solta em algum lugar. Tá, beleza. Bati o olho no elenco, Nicol Williamson, Susan George, Oliver Reed, Klaus Kinski...

Susan George, no pôster italiano
de Venom (1981).
Parei! Como é que é? Oliver Reed... e Klaus Kinski!?

Jisuis, Maria e José!😱

Quem foi o diretor de elenco sem noção que achou que era uma boa ideia botar Oliver Reed e Klaus Kinski no mesmo filme?!

Se você tá boiando, deixe-me resumir da seguinte maneira: Oliver Reed é o cara que a Bette Davis, certa vez, definiu como "o homem mais odioso que eu já conheci na vida". E o Kinski, bom, digamos que quando o diretor alemão Werner Herzog resolveu fazer um documentário sobre a sua relação de trabalho tumultuada com Kinski durante uma série de cinco filmes, ele achou que "Meu Melhor Inimigo" seria um título bastante apropriado.

Pegou a ideia?

Estamos falando aqui de dois dos atores mais notoriamente intratáveis da história do cinema. Famosos por explosões de fúria ao menor desentendimento, por abandonar os sets de filmagem no meio do processo, antagonizar os diretores e colegas de elenco, e basicamente tornar a vida de todo mundo um verdadeiro inferno. Sem contar coisas mais propriamente criminosas nas suas respectivas vidas pessoais. Contratar um cara desses para o seu filme poderia até valer a pena no resultado final (não são poucos os títulos que devem boa parte de seu impacto à intensidade insana das suas performances), mas que é um pesadelo logístico, isso é. Agora, os dois... no mesmo filme?! Aí já é coisa de demente!

Imagina se a sessão da madrugada não estava decidida?😅

Susan George, fazendo o que pode pra ser notada num filme que tem
o Klaus Kinski e o Oliver Reed tocando o terror (nos bastidores).😅

Claro que um filme assim não é pra ser avaliado de uma forma meramente objetiva (se é que tal coisa é possível). Como cinema, creio que é ponto pacífico afirmar que Venom promete muito e entrega pouco. Há uma bela construção de suspense, um encadeamento engenhoso de circunstâncias improváveis (mas não inverossímeis), que vai resultar naquele já citado impasse dos dois sequestradores encurralados pela polícia, com uma cúmplice, dois reféns, e uma serpente venenosa à solta pela casa. Mas conforme a situação vai se prolongando, começa a ficar claro que não tem tanta coisa assim que possa acontecer. A cobra pode matar alguém (fácil antecipar quem), pode dar um ou dois sustos, mas se a coisa for muito além disso já começa a ficar repetitivo (e até meio ridículo). Para funcionar de verdade, um filme desses teria que se apoiar mais na dinâmica do elenco, mas qualquer interação mínima entre Kinski e Reed deve ter sido um suplício pra fazer. Verdade seja dita, não é sempre que isso transparece em tela. Ponto pro Sr. Haggard, que notoriamente teria afirmado que "a mamba-negra era o sujeito mais legal do set". Boto fé! Nem precisei pesquisar pra deduzir que Tobe Hopper tinha tido um treco (um colapso nervoso, no caso) com um ou dois dias de filmagem, tendo de ser substituído às pressas por Haggard. Venom era uma catástrofe pedindo para acontecer, e o fato de ter resultado num filme interessante, ocasionalmente até impactante, pode ser considerado quase como um pequeno milagre.

Briga de cachorro grande.
Klaus Kinski vs. Oliver Reed
Ainda que seja uma diversão... mórbida. Meio como desacelerar na rodovia pra ver o acidente de tráfego. A gente até que se envolve com a trama (que, repito, em boa parte funciona), mas presta mais atenção na linguagem corporal dos dois tonhos se estranhando em cena, do que no enredo propriamente dito. Óbvio que se odiaram logo à primeira vista. E o Reed, que, apesar da fama ruim, sempre foi significativamente menos odioso que Kinski, não demorou a assumir o papel do valentão "zuera" que resolve que vai botar aquele alemão metido a besta no seu devido lugar. Não que seja o caso de escolher um lado, esse é um caso perfeito de "torcer pela briga", mas se fosse pra escolher, Reed ao menos era conhecido por ter um lado amoroso, de defender seus "parceiros de copo" até a morte, se fosse preciso. Duvido que alguém (com um mínimo de noção) já tenha descrito Kinski como "amoroso". Werner Herzog até tenta, em nome do contraditório, retratar um lado mais "humano" do sujeito no seu documentário, talvez mais pra se auto justificar, ou até pra tentar entender porque sempre acabava voltando a ele, depois de cada processo masoquista de filmagem. Mal consegue se convencer, quanto mais a nós. A despeito de uma ou outra cena de arquivo, tipo o Kinski aplicando curativos na mão de um cinegrafista ferido num acidente no set de Fitzcarraldo, ou ocasionais elogios, como os das atrizes Eva Mattes e Claudia Cardinale (que o descreveu como "tímido e respeitoso em sua presença"), a imagem que nos fica é a do egomaníaco esbravejando contra os colegas de equipe no meio da Amazônia, atingindo a cabeça de um figurante com uma espada de verdade em Aguirre, ou que, nas palavras do próprio Herzog, começava a procurar pretextos para um ataque de fúria completamente gratuito sempre que tinha a impressão de que não era mais o centro das atenções do set. A própria Cardinale admite ter testemunhado um desses ataques logo após uma cena romântica em Fitzcarraldo. Causada, ao que tudo indica, porque Kinski se irritou com o filhote de jaguatirica que aparece na cena. Coincidência ou não, no close dá pra notar uma ferida na cabeça do animal.😠

Um momento com Susan George que dá mais
calafrio do que quando contracena com a cobra.
Não tem como. Herzog pode se demorar à vontade naquela borboleta que "se recusa" a deixar Kinski na cena final de Mein liebster Feind, um momento estranho e misterioso, sem dúvida, mas tudo o que eu consigo pensar ao vê-lo, é nas histórias sobre as atrizes abusadas em produções menores e não tão bem fiscalizadas. Para cada Cardinale ou Mattes, ou mesmo Debora Caprioglio, uma jovem atriz que o Kinski "pegou pra criar", como se diz, quando ela tinha 18 anos, e ele 62, durante as filmagens de Nosferatu a Venezia, de 1988, e que ainda tinha coisas "fofas" a dizer sobre o "noivado" dos dois no recente documentário Creation is Violent, há pelo menos uma Barbara De Rossi, ou Elvire Audray, ambas abusadas e agredidas ao contracenar com o Kinski no set do mesmo filme. É até irônico pensar, nos tempos de hoje, em que, muitas vezes, basta uma acusação, nem sempre convincente ou bem embasada, pra que alguém seja cancelado e perca tudo do dia pra noite, que um cara como o Kinski tenha literalmente violentado as atrizes em cena, na frente da equipe e das câmeras, e simplesmente saído livre, leve e solto! Com direito até a documentário sobre o assunto! Eu queria acreditar, sendo muito sincero, que isso significa que vivemos tempos melhores, mas tendo a achar que isso só confirma o quanto a marreta moral tende a acertar mais a quem simplesmente não é esperto o bastante para se esquivar dela, independente de merecer ou não, e não passa nem perto dos monstros de verdade. Sem contar o detalhe de que, via de regra, quando o braço que gira a marreta cansa (e ele sempre cansa), o troço quase sempre cai no pé.😒


Tipo agora, quando me dou conta de que estou tomando como pauta um filme que tem como o maior (único?) foco de interesse o fato de ter dois desses monstros se digladiando nele. Mea culpa, mea maxima culpa, como se diz. E não vou mentir, nem ficar fazendo sinalização de virtude, negando que eu me diverti assistindo. Uma diversão, como já disse, mórbida, mas inequívoca. E, de certo modo, adequada para o tipo de reflexão que muitas vezes nos toma de assalto em madrugadas malditas como essas. Afinal, o que tanto nos atrai nesse tipo de coisa? O que há de errado conosco? O que dá na cabeça de um diretor de elenco (só pra repetir a pergunta de uma forma não irônica) pra achar que isso era uma boa ideia para um filme? Será que o Herzog não poderia ter feito seus clássicos com outros atores? Ele tenta nos convencer que não. Que, de algum modo, e apesar de todos os perrengues, tinha que ser o Kinski! De novo, não nos convence, e seus reais motivos (se é que existem, se é que são definíveis) ficarão por aí, pairando eternamente nos interstícios de seu documentário. Em Venom, ouso dizer que, de fato, não dá pra negar que Kinski é um puta vilão! Que basta um olhar dele para o menininho e a gente já tem calafrios. A questão é: isso é atuação?

Oliver Reed, fazendo o que sabia
fazer de melhor... fora atuar.😉
Peguemos o Reed. Não que eu esteja tomando o lado do cara, mas... Quer saber, dane-se! Estou tomando o lado do cara! Reed era um ator! Ele era bronco, bêbado, machista para um caralho, um verdadeiro cavalo... mas era um ator. Posso ver isso nos filmes dele. No Plutão divertidíssimo de As Aventuras do Barão Munchausen. No pai de família sucumbindo às influências malignas da casa assombrada, de Mansão Macabra. No irreverente Athos, de Os Três Mosqueteiros e A Vingança de Milady. Sem contar o meu licántropo favorito de todos os tempos, em A Maldição do Lobisomem da Hammer Films. O berço que Reed nunca deixou de celebrar em toda a sua carreira, chegando a narrar os episódios da saudosa série World of Hammer no começo dos anos 90. Caramba, Oliver Reed é simplesmente o cara que lutou luta greco-romana pelado com o Alan Bates no Mulheres Apaixonadas do Ken Russell! Claro que nada disso “perdoa” as suas merdas off-camera, mas preserva a sua arte. Você não as verá “transparecendo” em tela se não souber de nada sobre a vida pessoal do artista. Não creio que dê pra dizer o mesmo do Kinski.

Pola Kinski sobre os filmes do pai:
"Quando conseguia ver um deles, pensava:
'ele é exatamente assim em casa'
".
Em Creation is Violent (e, em menor medida, Mein liebster Feind) fica claro que se não fosse literalmente obrigado por um diretor no mínimo tão casca grossa quanto ele, Kinski só interpretaria a si mesmo. E essa é uma constatação de peso para um cara cujo maior (único?) diferencial de carreira eram os papéis de sociopatas, egomaníacos e canalhas. Nas raríssimas ocasiões em que não é vilão, Kinski simplesmente não convence. Não importa o quanto eu reveja A Doppia Faccia, sempre fico na espera de alguma reviravolta no final que revele que o verdadeiro assassino era ele, de tão difícil que é olhar pra aquela cara e engolir que seja a vítima! Não orna! Chega um ponto que ninguém mais sequer cogitaria escalá-lo pra qualquer outra coisa, e a década de 80, em especial, é cheia de filmecos que se valem da imagem do “artista demente” para vender sua mediocridade. E, na maioria, Kinski não faz nada além de pontas, o que era o máximo que um diretor “normal” conseguiria arrancar de um sujeito que dava chiliques até pra ficar no enquadramento da câmera! E dá-lhe equipes irritadas, e colegas de elenco traumatizadas no processo. E, novamente, me pergunto, isso é atuação?

No making of de Fitzcarraldo dá pra ver umas cenas deletadas bem marcantes com o Jason Robards ainda no papel principal. Não era pra ser, Robards ficou doente, e não conseguiria continuar de qualquer forma, mas é o bastante para que todos nós nos perguntemos: e se não fosse o Klaus Kinski? Fitzcarraldo teria sido menor? Menos clássico? Eu olho para o Robards em cena e fico viajando...🤔 Não teria sido o mesmo filme, isso é certo, mas, sinceramente, acho que poderia ter sido até melhor. Fitzcarraldo foi o personagem mais “benigno” que Herzog botou o Kinski pra fazer, não é à toa que não foi sua escolha inicial. E ainda que “funcione” (Herzog definitivamente era o cara que melhor sabia domar o Kinski), quando vejo o Robards, nada me tira da cabeça que ele teria sido um Fitzcarraldo melhor. Com mais nuances, mais gentileza, mais humanidade. Kinski só conseguia expressar a obsessão. As demais facetas eram reduzidas ao “modo emburrado” com que ele encarava o diretor que o mantivesse em rédea curta. Aquela carranca de despeito para com a equipe, a audiência, o mundo. Há quem expresse respeito por isso. À uma suposta “integridade” do artista. Eu tenho preguiça. E novamente penso: por que essas cobras nos fascinam tanto?


Em tempo, também não sei se Oliver Reed daria um Fitzcarraldo melhor. Atores funcionam mais em certos papéis do que outros, e até aí beleza, não é esse o problema. O lance é que eu duvido muito que mesmo o Reed chegasse ao ponto de levar os figurantes nativos a se oferecerem para matá-lo, se o Herzog assim quisesse (e ele queria, mas precisava terminar o filme). Não me parece que obra-prima alguma justifique tal coisa. Acho que poderíamos muito bem ter nos virado com outro Aguirre, outro Cobra Verde, o Nosferatu mesmo tá aí pra provar. E ainda que (de novo) eu admita que guarde tranquilamente um filme cheio de cobras como Venom na minha coleção, me parece ao menos sensato que as circunstâncias que tornaram tais filmes possíveis não seja mais algo tão naturalizado quanto já foi um dia. Barry Hickey, que trabalhou com Kinski no arruinado A Vingança das Estrelas Roubadas, nos diz, em Creation is Violent, que “Kinski jamais trabalharia hoje, ele daria problemas demais no set, assédio e coisas assim, era um homem de seu tempo, e não funcionaria hoje.” Como já disse, eu tenho minhas dúvidas... mas um brinde a isso!🍷 E deixemos que a palavra final sobre o assunto fique para uma outra atriz alemã, que, em seu tempo, também teve fama de ser “difícil” e “intratável”, mas, diferente do Sr. Kinski, e do Sr. Reed, teve que pagar o preço por isso, e sem sequer ter direito a um documentário para imortalizar a sua “excentricidade”. Tenha a bondade, Sra. Eva Renzi.😌


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P.S. A quem porventura (ainda) esteja prestando atenção, sim, eu já não dou mais conta de fazer as tais postagens semanais, que até que consegui manter em 2025. Meus olhos andam (literalmente) cansados demais, e o tempo de tela precisa ser reduzido. Nada que me impeça de manter o velho blog vivo, não apenas com artigos novos, ainda que mais esporádicos, mas também corrigindo e aperfeiçoando as postagens antigas (a eterna vantagem do texto em relação ao áudio e ao vídeo😜). Os comentários, é claro, me dão ânimo pra continuar, especialmente quando dialogam de fato com os artigos, mas são os PIX, não nego, que me animam ainda mais, e ajudam a pagar a conta do oftalmologista.

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