segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Lore - Uma Vela no Escuro para ir além do "Eu Quero Acreditar"

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Que bela surpresa essa série, Lore, da Amazon Studios. Me fez lembrar da passagem do clássico O Mundo Assombrado Pelos Demônios - a ciência vista como uma vela no escuro em que o saudoso Carl Sagan dava umas belas alfinetadas em Arquivo X por, segundo ele, blefar em sua premissa central. De fato, Chris Carter sempre afirmou que sua série buscava ao máximo equilibrar a credulidade de Fox Mulder com o ceticismo de Dana Scully, mas o fato é que em 99% dos episódios Scully estava sempre errada e Mulder sempre certo. Só me lembro agora de um único episódio em que o "monstro da semana" no fim era só um crocodilo e Mulder acabava com cara de criança decepcionada (inclusive, sempre me pareceu que o próprio status de Scully como uma das primeiras grandes mulheres protagonistas da história da TV acabava um tantinho maculado por ela sempre ter que ceder a razão ao colega homem).

Sagan, claro, entendia os motivos de Carter seguir esse rumo, mas lamentava o fato da série, querendo ou não, reforçar a desconfiança do americano médio em relação ao conhecimento científico e estimular a crença em superstições e pseudo-ciências. Não seria interessante, só pra variar um pouco, um seriado em que a investigação dos casos revelasse que os fenômenos aparentemente paranormais nada mais eram que embustes, más interpretações e/ou frutos de crendices e superstições? Afinal, nos anais da pesquisa científica não faltam histórias reais em que a famigerada "explicação racional" acaba sendo um plot twist muito mais surpreendente do que os desfechos meramente fantásticos da maioria dos episódios de Arquivo X. Porém, Sagan duvidava muito que alguma emissora aceitasse apostar numa série assim, muito menos que o público se dispusesse a abrir mão da fantasia tão facilmente. Mais provável seria que 99% dos espectadores terminasse cada episódio com a mesma cara de decepção do Agente Mulder e a audiência despencasse com poucos meses de exibição.

Sagan escreveu isso lá nos anos 90. Me pergunto o que ele teria achado de Lore. Embora não seja exatamente como a série que ele propunha, Lore poderia muito bem ser definida, assim a grosso modo, como uma espécie de anti-Arquivo X. Uma mistura de documentário e dramatização (e até animação) de casos macabros ocorridos em vários momentos da história, tentando ao máximo, pelo que pude apurar, se manter fiel aos fatos conhecidos e registrados, o que naturalmente acaba tendendo os episódios a uma postura cética que daria orgulho à Agente Scully. Relatos onde o horror é muito mais resultado da fé cega à crendices do que de um efetivo elemento sobrenatural (crendices nem sempre tão óbvias, é bom lembrar, como demonstra o aflitivo episódio "Echoes" que trata do surpreendentemente longo uso da lobotomia como forma "eficiente" de tratar doenças mentais!).

Baseado no famoso podcast homônimo de Aaron Mahnke (narrador na série), Lore as vezes  acaba flertando dramaturgicamente com a tendência do público a abraçar o fantástico, em particular nos dois (dos seis) episódios da primeira temporada que terminam sem nenhuma "explicação racional" para os fenômenos sobrenaturais. Mas a série atinge seus resultados mais assustadores (e satisfatórios) quando permite que os relatos falem por si mesmos, revelando o nível de absurdo e até de monstruosidade que uma crença cega pode levar. O destaque aqui vai para o angustiante episódio "Black Stockings" em que o pavor masculino diante do empoderamento feminino, numa Irlanda dividida entre o paganismo e o cristianismo, atinge uma massa crítica em meio às crenças em doppelgangers e changelings, com consequências aterradoras que o espectador não conseguirá esquecer tão cedo.

Contra intuitivamente, essa abordagem mais realista não dissipa a atmosfera gótica da série. A melancolia e os estados de decadência moral e espiritual tão de acordo com os pressupostos da abordagem gótica envolvem completamente essas histórias de pessoas assombradas por fenômenos que, ao fim e ao cabo, não seriam mais que doenças desconhecidas, circunstâncias além de seu horizonte de conhecimentos, ou convicções irracionais nublando sua capacidade de apreender a realidade de forma objetiva. "Assombradas", por assim dizer, pelos mesmos demônios de que Sagan falava lá nos anos 90. Demônios que temos aprendido da pior maneira possível que ainda continuam firmes e fortes entre nós.

Não me entendem mal. Como todo bom amante do horror e do fantástico eu também costumo ficar com cara de Mulder quando me deparo com filmes e livros em que o sobrenatural se revela como embuste ou puro folclore. Sempre tive problemas com Ann Radcliffe justamente por conta disso e é óbvio que não gostaria de verdade de um Arquivo X em que Scully estivesse certa na metade dos episódios. Mas o fato é que não há como racionalmente discordar da afirmação de Sagan, em O Mundo Assombrado Pelos Demônios, de que o slogan "eu quero acreditar" é sim um verdadeiro veneno conceitual quando deslocado da ficção para o mundo real. "Querer acreditar" é a morte da investigação, do aprendizado, da busca por conhecimento. Nesses tempos de recrudescimento do fundamentalismo religioso e negação da ciência, quando o obscurantismo chega a ameaçar abertamente a própria democracia, mais do que nunca é preciso (como Sagan defendia) "QUERER SABER", não "QUERER ACREDITAR". Os verdadeiros amantes do fantástico SABEM que lidam com arte, com símbolos, com imagens e conceitos que representam e traduzem a realidade na forma de fantasia, mas quando temos tanta gente por aí QUERENDO ACREDITAR objetivamente em supostas "verdades", por mais irracionais e perigosas que sejam, uma série como Lore torna-se mais do que oportuna, torna-se necessária! E infinitamente mais relevante do que quaisquer outras séries de estilo semi-documental que se vendem como "objetivas" e "baseadas em fatos reais", como Paranormal WitnessGhost Hunters e tantas outras.

E não deixa de ser irônico que alguns dos mais importantes colaboradores dos bons tempos de Arquivo X e Millennium, estejam agora trabalhando em Lore, como o roteirista Glen Morgan, o diretor Thomas J. Wright e os atores Robert Patrick e Kristen Cloke (ambos arrasando, aliás), todos pelo visto largando mão do velho Chris Carter de uma vez por todas depois do catastrófico (e completamente irrelevante) revival de Arquivo X. 😝

A segunda temporada de Lore já está encomendada pelo Amazon Studios. Será que Gillian Anderson toparia fazer um episódio? 😉


sábado, 18 de agosto de 2018

As Várias Versões de "O Homem de Palha"

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Fãs de cinema de horror clássico britânico com certeza já ouviram falar das lendas que cercam a produção de O Homem de Palha (The Wicker Man, 1973), clássico do folk horror setentista, com Edward WoodwardChristopher LeeBritt EklandIngrid Pitt e Diane Cilento. De como o filme foi porcamente remontado antes do lançamento oficial nos cinemas por ordem dos novos donos da British Lion, sem a participação do diretor Robin Hardy ou do roteirista Anthony Shaffer, e o negativo original foi perdido, aparentemente enterrado por engano na construção de uma estrada próxima ao estúdio! (os detalhes podem ser vistos logo abaixo, no documentário The Wicker Man Enigma, de 2001, lançado em DVD no Brasil pela saudosa London/Darkside, mas só assista se já tiver visto o filme!). Por anos e anos, conforme a fama e a lenda do filme iam crescendo mais e mais, mesmo com a versão mutilada de 88 minutos, nunca se deixou de especular a possibilidade de uma cópia completa milagrosamente ser encontrada em algum lugar. Virou praticamente uma lenda urbana, um dos vários elementos que ajudaram a tornar O Homem de Palha talvez o mais importante cult movie da história do cinema britânico.

Eis que, em 2013, começaram a surgir trailers pela internet afora anunciando que a versão completa tinha finalmente sido achada e que seria lançada com pompa e circunstância nos cinemas e em bluray. Eu, que sou mega-fã, quase surtei, mas logo a alegria esmoreceu quando percebi que a chamada "final cut" tinha 93 minutos, sendo que (supostamente) a versão original deveria ter 117. Além disso, segundo The Wicker Man Enigma, uma versão com 100 minutos já havia sido descoberta no final dos anos 90 de posse do lendário produtor/diretor Roger Corman que na época tinha iniciado negociações para distribuir o filme nos EUA, coisa que acabou não rolando. A cópia de Corman, em telecine master, estava com péssima qualidade, mas ao menos permitiu que uma nova montagem fosse feita usando a theatrical cut "oficial" como base, complementada com as cenas novas extraídas do telecine, tentando chegar o mais próximo possível do corte original perdido. Essa versão estendida saiu em DVD duplo pela Anchor Bay em 2001.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

A Tumba de Drácula - A Versão Marvel do Senhor dos Vampiros

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O Brasil, como se sabe, sempre teve uma relação muito intensa com a Marvel Comics. Mas, para além dos manjados super heróis, nunca essa relação foi tão íntima quanto com os quadrinhos de terror que a Marvel produziu nos anos 70 aproveitando o relaxamento geral da censura no período, especialmente no que se refere ao título mais celebrado dessa safra clássica: The Tomb of Dracula, de Marv Wolfman e Gene Colan. E quando digo "íntima" não estou brincando. Um leitor do começo dos anos 80, sem internet para se guiar, muitas vezes nem tinha ideia se o Conde Drácula que estava lendo era de fato desenhado por Colan ou por um dos inúmeros artistas brasileiros quase anônimos que faziam parte do staff da Editora Bloch. Ou, se as palavras eram mesmo traduções da escrita de Wolfman ou uma bizarra versão alternativa destinada a disfarçar arcos de história saltados ou referências a outros títulos, uma prática surpreendentemente comum da Editora Abril na época.

"Terror de Drácula", da Editora Abril.
Enfim, se você reclama do mercado de quadrinhos no Brasil de hoje... sabe de nada, inocente. 😉

Mas, quer saber? Apesar dos pesares a gente se divertia e comprava a preço de amendoim torradinho dúzias de revistas em formatinho por mês para acompanhar, do jeito que dava, o melhor que a linha de horror da Marvel podia oferecer. The Tomb of Dracula, Werewolf by Night, The Monster of Frankenstein, Tales of the Zombie, Supernatural Thrillers, Adventure Into Fear, todos esses títulos tiveram parte de seu material lançado no Brasil em revistas como A Tumba de Drácula, Lobisomem, Frankenstein, A Múmia Viva, Aventuras Macabras, Histórias Fantásticas, Sexta-Feira 13, Cine-Mistério, Clássicos do Pavor, todas pela Bloch, sob o lendário selo: Capitão Mistério.

O sucesso foi tão grande que quando perdeu a licença de publicação para a Editora Abril (que rapidamente lançou Terror de Drácula e espalhou outros personagens macabros por suas revistas mix, como o Motoqueiro Fantasma em Heróis da TV ou o Homem Coisa em Superaventuras Marvel), a Bloch não hesitou em dar continuidade às histórias produzindo seu próprio material do conde, emulando o melhor possível a estética adotada por Colan (daí as altas confusões que comentei acima). Apesar da picaretagem, a quantidade de material (se não bom, ao menos interessante) produzido no período é digna de respeito, com destaque para a espantosa (em vários sentidos) revista Capitão Mistério Apresenta que, entre 1982 e 1986, publicou 34 edições com uns bons 90% de histórias de Drácula inteiramente nacionais, muitas vezes trash, mas ocasionalmente surpreendentes, especialmente o material produzido pelo editor Edmundo Rodrigues, responsável, entre outras coisas, por uma belíssima adaptação do romance O Lobisomem de Paris para a edição 20 (até hoje minha favorita).

Vampiros e Kung Fu? Opa, pra Bloch valia
tudo. E se a Hammer pode...¯\_💀_/¯
(Se quiser saber mais sobre esse material da Bloch, recomendo uma passadinha no blog HQ Memória)

Toda essa intimidade obviamente criou uma gigantesca nostalgia pelo Conde Drácula ao estilo Marvel e um desejo muito natural de conhecer esse material na íntegra, na ordem correta, sem alterações e/ou condensações. Demorou décadas, mas finalmente, a partir de outubro de 2014, a Panini começou a publicar a série original no formato Coleção Histórica Marvel, no caso rebatizada acertadamente para Coleção Marvel Terror. No momento em que escrevo, A Tumba do Drácula (só implico com esse deselegante "DO", "Tumba DE Drácula" soa muito melhor 😠) já passou da metade, com oito volumes publicados, o que já permite uma avaliação crítica e uma resposta para a pergunta que não quer calar: "E aí? Era mesmo tão legal quanto nas nossas memórias nostálgicas?"

A resposta curta? "Ô! Pra caraio!"

Mas claro que, se vocês estão aqui no meu bloguinho verborrágico, é porque querem a resposta longa. Então vamos falar um pouco sobre "A Tumba de Drácula". 😉