sexta-feira, 18 de setembro de 2026

The Classic Ghosts - Exumando Joias Perdidas do Gótico Televisivo




Nada mais natural, depois de uma pequena amostra de Dark Shadows (ou até um pouquinho mais do que isso😜), ficar curioso a respeito de The Classic Ghosts. São vários os pontos de contato. A começar por Lela Swift, talvez a figura mais importante da soup opera de Dan Curtis, fora ele próprio, tendo dirigido um número impressionante de 593 episódios! Swift é a responsável pela direção dos dois melhores títulos desse box da Kino Cult, o The Haunting of Rosalind e o The Deadly Visitor, mas, fora isso, as similaridades saltam à vista. A fotografia “antiquada” em videoteipe, os cenários “teatrais” e economicamente requintados, a paleta de cores gélida, mas, de alguma forma, aconchegante, sem contar, é claro, a inspiração gótica literária e bem “raiz”. E o interesse só cresce quando constatamos que a maior parte da equipe técnica era formada por mulheres, sob coordenação da produtora Jacqueline Babbin, uma das mais indispensáveis profissionais “anônimas” do volátil e (em princípio) descartável universo da programação de TV diária americana dos anos 50 aos 70.


Mas suponho que esse pequeno feature☝ que acompanha o box servirá melhor pra nos dar um pouco do contexto histórico, embora eu deva admitir que saí dele com algumas lacunas. Tipo, não consegui entender muito bem se The Classic Ghosts foi uma série limitada, ou parte de uma sequência maior de góticos exibidos no contexto da programação do The Wide World of Mystery, da ABC. No IMDb, os cinco média-metragens são listados dessa forma, e as entrevistas do feature citam várias vezes a importância do gênero gótico para os Movies of the Week da emissora, o que dá a entender uma longa esteira de produções desse tipo, voltadas, acima de tudo, para donas de casa, insones, e trabalhadores do turno da noite (uma ideia bastante simpática, se quer saber😅). Em outras partes, fala-se dos cinco títulos como tendo sido produzidos num pacote único, durante um intenso período de seis semanas. Seja como for, uma coisa é certa: nem mesmo os responsáveis pelo arquivo da UCLA Film and Television sabiam o que tinham nas mãos quando resolveram dar uma espiadinha em uma insuspeitada lata de filmes em duas polegadas, largados por ali há 50 anos. E isso, por si só, já é um negócio inacreditável, se você parar pra pensar.

Já comentei aqui e ali nesse blog sobre episódios (e seriados inteiros) que se perderam no tempo devido as políticas de "reaproveitamento de fitas" que imperavam nas emissoras britânicas nos anos 50 e 60. Agora, não sei vocês, mas nunca tinha me passado pela cabeça que, nos EUA, algo poderia "se perder" justamente por ter sido arquivado! Mas, na real, faz sentido. Quanto mais o tempo passa, mais raros (e caros) vão ficando os equipamentos capazes de reproduzir mídias obsoletas. "Dar uma espiada" pode ser bem mais complicado do que se imagina, e, se levar em conta que a catalogação e a organização possam não ter sido assim das mais recomendáveis, é de se pensar que muitos desses acervos sejam como aquele depósito lá do final de Os Caçadores da Arca Perdida. Um lugar perfeito para perder um monte de Arcas da Aliança. Ou, se você for do tipo "copo meio cheio", um lugar para achar, o que certamente foi o caso de The Classic Ghosts. Gente, imagina só? Do nada, tá lá Susan Sarandon, nenê de tudo, numa adaptação de O Romance de Certos Vestidos Velhos, de Henry James, que quase ninguém mais lembrava que existia!😮 Nem me espanta que ela tenha virado a capa do box e o principal "gancho" de divulgação, ainda que seja meio injusto com a Pamela Payton-Wright, que, de fato, é a protagonista de The Haunting of Rosalind.

Pamela Payton-Wright, urubuzando Susan
Sarandon
em The Haunting of Rosalind.
E ainda que a gente ame a Susan Sarandon, ela é só uma pequena parte do pacote. The Classic Ghosts é, de fato, um conjunto notável, realizado com finesse e uma modesta elegância. Pode causar estranhamento a "estética de VHS" que a Kino Cult meio que opta em preservar dos videoteipes originais. Estou partindo do princípio que não havia outra escolha, mas isso não torna menos esquisito topar com frames "mastigados" em um release bluray. Mas, se você conseguir abstrair (ou, como dizem lá no feature, tomar como parte da "experiência"), não vai demorar a notar a sagacidade, e ousadia, com que os roteiros vão adaptando alguns clássicos não tão conhecidos dos cânones góticos. A adaptação de James mesmo ganha toda uma nova camada ao fazer da invejosa Rosalind de Payton-Wright uma aparente mitômana, encantada obcecada com a ideia de que a falecida esposa do noivo de sua irmã Perdita irá assombrar o feliz casal até a morte. Forma sofisticada de azedar a vida conjugal alheia? Ou ela realmente acredita nisso? Ou ambos? Como no melhor da tradição, o episódio deixa isso dúbio, e até retorna ao desfecho original do conto depois de uma última, e certeira, volta do parafuso, o que prova que dá sim pra ser infiel à Henry James de forma inteligente e enriquecedora, sem ter que soterrar a audiência debaixo de uma tonelada de diálogo expositivo. (Viu, Mike?😜)


Infidelidade criativa, aliás, parece ter sido um norte no desenvolvimento do projeto, tanto quanto um certo foco (maior ou menor, dependendo do episódio) nas vicissitudes domésticas femininas. Tirando And the Bones Came Together, que não posso atestar a fidelidade porque o suposto a autor do conto, um tal de Sholomo Keil, parece ser bem desconhecido (até onde pude pesquisar), e The Screaming Skull, que, desde o título, dramatiza de forma bem fiel o conto clássico de F. Marion Crawford (ao menos no que se refere ao enredo, já que a sua peculiar estrutura narrativa em segunda pessoa não teria como ser reproduzida, e faz muita falta), os demais realmente chutam o pau da barraca e viram de ponta cabeça às propostas dos contos originais, o que é sempre algo interessante, se você se dispõe a não ser purista. Ousaria dizer que The Haunting of Rosalind é uma história de fantasmas mais intrigante, mais sofisticada eu diria, do que o conto original de James, fazendo de um enredo até certo ponto simples e direto sobre inveja e rivalidade entre irmãs em meio à repressão do século XIX, um curioso estudo sobre a própria natureza do fantástico, do desejo, e da imaginação.

Hurd HatfieldCarol Williard, numa foto
promocional de The House and the Brain.
Claro que eu não discordaria se alguém reclamasse que Gloria Monty, e o roteirista John Vlahos, deram uma bela de uma extrapolada na infidelidade criativa com The House and the Brain, que, tirando o título, não tem absolutamente NADA a ver com o conto de Edward Bulwer-Lytton (também conhecido pelo título alternativo de The Haunted and the Haunters). O IMDb nem mesmo o lista como adaptação, ainda que o nome de Lytton apareça bonitinho ali nos créditos. É difícil entender uma escolha assim. Acaba soando como propaganda enganosa, e teria sido glorioso, de fato, ver um dos maiores clássicos das histórias de casa assombrada (além de precursor do subgênero dos detetives do oculto) adaptado de uma forma no mínimo reconhecível, mesmo que não fiel. Mas vale a pena engolir a decepção, e se deixar conduzir pela Carol Williard, vagando pelos labirintos do tempo e da memória, sob o domínio do "feiticeiro" vivido por Hurd Hatfield. Sem dúvida o episódio mais estranho e delirante do pacote. Inapreensível, até certo ponto (o que é sempre instigante), e visualmente refinado, quase mesmerizante. Eu diria que é o que pega mais pesado nos subtextos de abuso, na submissão do feminino a um princípio de poder e desejo inescapável e devorador, pegando a audiência no pulo, não pela razão, mas pela sensação. A "casa" e o "cérebro", não da forma literal que Lytton usou em seu conto, mas como uma implicação sinistra, que fica conosco depois que episódio acaba, e, como Willard, nunca mais escapa do labirinto do inconsciente.

Perry King, na "presença" (que nunca é tão
"presente" assim no episódio) de Ann Miles,
em foto promocional de The Deadly Visitor.
Mas devo confessar que nenhum dos episódios me surpreendeu (ou encantou) mais do que The Deadly Visitor, adaptação também pra lá de livre (mas nem tanto) do conto What Was It? A Mystery, de Fitz-James O'Brien. Aqui vale a pena explicar que se trata de uma história rápida e enigmática sobre um jovem, em uma pensão de artistas, que é repentinamente atacado por um ser invisível, mas não exatamente temível, já que é prontamente capturado e amarrado, passando o resto da história definhando numa cama, até, pelo que tudo indica, morrer de fome, sem deixar pista do que era, ou de onde veio. Millard Lampell e Lela Swift preservam esse fiapo de enredo, mas o preenchem com uma generosa, e insuspeita, dose de perversidade e erotismo, partindo do princípio que, independente do que aquela coisa invisível seja, ela tem um corpo, é palpável... e está nua. E não demora para que os jovens médicos e artistas que a tocam e estudam, tentando deduzir, ou mesmo reproduzir sua forma em gesso, concluam (ou se convençam) de que se trata de um corpo feminino.🫢 Claro que não vamos ver (trocadilho não exatamente intencional) nada de tão comprometedor (é um telefilme americano, não um exploitation europeu), mas Swift se dispõe realmente a jogar em um território volátil, e incrivelmente provocativo, se desdobrando em insinuações e possibilidades perturbadoras, que vão desde o passado obscuro de seu protagonista (Perry King, que além de lindo, demonstra uma destreza mímica impressionante ao lutar e... interagir com o nada) até o seu inesperado envolvimento com a envelhecida e melancólica dona da pensão, vivida pela veterana Gwen Verdon.


Menos perturbadoras, talvez, que imaginar que essas preciosidades poderiam ter continuado perdidas por sei lá quanto mais tempo, quiçá para sempre, em uma lata qualquer sepultada num arquivo mofado. As principais responsáveis pelo projeto, Jacqueline Babbin, Lela Swift, Gloria Monty, todas já se foram há muito tempo, e, pra variar, não vão gozar dessa relativa popularidade (e lucro) que o box da Kino Cult enfim trouxe para esses média-metragens, 50 anos depois de sua primeira, e, de fato, única, exibição. Tá certo que é bem gótico os mortos ressurgirem assim do túmulo, tendo ainda muito o que dizer ao mundo, mas não compensa pelas duas ou mais gerações que nunca tiveram chance de ver as performances de David McCallum em The Screaming Skull, de Herbert Berghof em And the Bones Came Together, de Gretchen Corbett em The House and the Brain, ou das já citadas Carol WilliardGwen Verdon, e Pamela Payton-Wright, sem contar, é claro, Susan Sarandon, dois anos antes de arrasar com The Rocky Horror Picture Show. Não é todo mundo que vai ter uma segunda chance para completar a sua coleção, não é mesmo?😉

_______________________________________________________________________

P.S. A quem porventura (ainda) esteja prestando atenção, sim, eu já não dou mais conta de fazer as tais postagens semanais, que até que consegui manter em 2025. Meus olhos andam (literalmente) cansados demais, e o tempo de tela precisa ser reduzido. Nada que me impeça de manter o velho blog vivo, não apenas com artigos novos, ainda que mais esporádicos, mas também corrigindo e aperfeiçoando as postagens antigas (a eterna vantagem do texto em relação ao áudio e ao vídeo😜). Os comentários, é claro, me dão ânimo pra continuar, especialmente quando dialogam de fato com os artigos, mas são os PIX, não nego, que me animam ainda mais, e ajudam a pagar a(s) conta(s) do oftalmologista.😉

😌APOIE O LORDE VELHO via PIX: lordevelho1872@gmail.com🙏