segunda-feira, 4 de maio de 2020

Os Leves Passos de Carmilla - Maratonando as Adaptações do Clássico de Sheridan Le Fanu

"Até hoje a imagem de Carmilla me vem à memória numa alternância ambígua: as vezes é a menina brincalhona, lânguida e linda; outras é a abominação horrível que vi na capela. E algumas vezes, sonhando acordada, começo a imaginar que estou ouvindo os leves passos de Carmilla entrando na sala de estar." (Sheridan Le Fanu - Carmilla)
O velho conde que me perdoe... mas Carmilla sempre será a minha vampira do coração.❤️ Aliás, Condessa Mircalla Karnstein, também conhecida como Millarca, Marcilla, e as mais diversas aliterações, que embaralham as letras, sem jamais acrescentar ou omitir nenhuma. Meu afeto é de tal ordem que o artigo que estão prestes a ler tem sido adiado praticamente desde que o blog existe, tamanha a minha hesitação em finalmente me atrever a sentar e escrevê-lo. Isso porque eu sabia (como ainda sei) o quão arriscado é chegar perto demais da Condessa Karnstein, quanto mais ousar tecer considerações (pseudo) críticas. Mesmo que relativamente discreta, até modesta, em sua posição de direito na literatura gótico/vampírica ocidental (ainda mais considerando a onipresença de seu mais célebre "filhote", Drácula, na cultura pop em geral), a breve novela de Sheridan Le Fanu é o tipo de obra que se ramifica por camadas mais profundas, e nem sempre esperadas, do imaginário coletivo, ao mesmo tempo em que não se permite dissecar impunemente, quase sempre refletindo bem mais as neuras e preconceitos de seus pretensos resenhistas, do que revelando qualquer coisa de "definitivo" a respeito de si mesma. Afinal, como eu já havia comentado naquele meu breve artigo sobre as adaptações "mais fiéis" de Drácula para o cinema, não são os vampiros que aparecem em espelhos.😉

A Carmilla mais próxima da minha imaginação,
de acordo com as descrições de Le Fanu,
Foto de uma produção teatral canadense.
Mesmo a insistência na repetição do chavão "Carmilla, a vampira lésbica" em tudo quanto é artigo, crítica ou resenha parece evidenciar mais um desejo de apropriação fetichista que qualquer tentativa real de aprofundamento. É evidente que esse aspecto da novela é vital, mas seu hiper-foco tende a distorcer e nublar nuances e ambiguidades, no limite reduzindo Carmilla a uma espécie de imagem fetiche. É interessante que tanto as (hiper)sexualizações pra consumo heterossexual masculino quanto as apropriações de empoderamento feminino e orgulho LGBTQIA+, tendem a reapresentar a personagem de formas curiosamente similares nas fan-arts, pastiches e cosplays pela internet afora. É quase sempre a sexy e autoconfiante vamp de roupas pretas, olhar lascivo e atitude a la dominatrix. Muito, mas muito distante da figura "esguia, e maravilhosamente graciosa, com feições pequenas e lindamente formadas" que Le Fanu nos descreve em sua novela. As reiteradas "languidez" e "melancolia", em geral ficam de fora, bem como o contraste dessa aparente delicadeza com o perigo latente (nos múltiplos sentidos que a palavra "perigo" evoca) representado por sua atração pela jovem Laura.

Joseph Sheridan Le Fanu,
o príncipe invisível de Dublin.
É até compreensível que tais aspectos possam não soar tão atrativos hoje em dia, sendo facilmente tomados por meras afetações vitorianas ou mesmo preconceitos do autor, mas é sempre bom lembrar que Carmilla é um livro apenas enganadoramente simples. A narrativa em primeira pessoa, a princípio tão direta em comparação ao formato epistolar de Drácula, é plena de ambiguidades que evidenciam as reticências da parte de Laura em relação às suas impressões e sentimentos sobre a sua misteriosa e encantadora hóspede, constantemente descrita em oscilações de atração e repulsa. Por meio de seus olhos, as declarações apaixonadas de Carmilla ora nos soam passionais e sinceras, ora dissimuladas e manipulativas, e o fato é que não temos como ter mais convicções sobre a personagem, e os eventos que nos são apresentados, do que a própria Laura é capaz de ter. Nos soa estranho como ela hesita em afirmar a verdadeira natureza de Carmilla, mesmo quando as evidências que ela mesma nos conta já se tornaram inequívocas, e como, ao final, parece esquecer (ou propositalmente abstrair) algumas lacunas bastante intrigantes, como o papel representado por figuras como a misteriosa "mãe" que, ao que tudo indica, escolta a vampira ao seio das abastadas famílias de aristocratas, do homem de preto que se apresenta a ela durante o baile do General Spieldorf, da velha "negra" de aparência perturbadora que nunca chega a descer da carruagem acidentada, ou mesmo aquele bizarro e ambivalente mendigo corcunda. Tudo isso compondo uma narrativa discretamente "aberta", cujas brechas e pontas soltas nem sempre chamam a atenção pra si, e nos deixam, ao fim da leitura, apenas com a diáfana referência aos "leves passos de Carmilla entrando na sala de estar", uma frase tão maravilhosamente sugestiva, que as traduções nem sempre conseguem lhe dar conta.

Arte de Michael Fitzgerald pra primeira edição
da novela, no periódico The Dark Blue, 1872.
"Carmilla já foi lida como uma fábula da sexualidade reprimida (com Carmilla representando o despertar da identidade sexual da própria Laura), como uma metáfora do incesto e da transgressão sexual juvenil, como advertência aos perigos da homossexualidade, como parábola da repressão patriarcal (...), leituras apontaram para questões étnicas, a demonização da mulher e o fascínio de Le Fanu por teorias espirituais de Swedenborg", e o que me fascina em apreciações como essas (aqui pinçadas por Jamieson Ridenhour, como citado no texto introdutório da Editora Hedra) é que todas são perfeitamente válidas, e equivocadas. Indubitáveis, e duvidosas. Cabais, e controversas. E a única coisa que pode ser dada como definitiva, é que o livro sempre sobreviverá a elas. O melhor tipo de leitura, no que me concerne, são as que abraçam o mistério ao invés de "explica-lo", que fluem através das ambiguidades sem lhes forçar um sentido único, que tomam lacunas e aparentes incoerências como terra incognita, por onde a história de Carmilla pode prosseguir eternamente, ao invés de cristalizar o livro na própria imaginação, e taxar cada ponto cego como um "furo", como os booktubers mais afobados às vezes caem na tentação de fazer ("Olha, mamãe, achei um furo num clássico!").

Carmilla foi publicada trocentas vezes no Brasil,
mas essa é a única edição que também trás
outras três histórias do volume In a Glass Darkly,
onde a novela foi compilada pela primeira vez
(mas detalhes nesse apontamento). 
Daí minha estratégia de, seguindo o exemplo da própria condessa, não sair por aí me jogando de forma desleixada e deselegante em cima do meu objeto de desejo estudo, mas sim me aproximar obliquamente, numa côrte cuidadosa, por via das notáveis e singulares adaptações que a novela foi ganhando no decorrer de boa parte da história do cinema. Uma espécie de... "engenharia reversa", podemos dizer. Sempre fui obcecado em garimpar releituras dos clássicos da literatura gótica, e, no que se refere a Carmilla, "garimpar" é "garimpar" mesmo, pois as adaptações da novela sempre tiveram uma curiosa tendência ao low profile, aos mercados de nicho e circuitos alternativos, aquele limiar entre o cinema de gênero e o avant-garde, entre o exploitation e o indie, produções exóticas e obscuras, dos mais diversos países, em geral só conhecidas por um seleto grupo de connoisseurs do fantástico. Com raríssimas (e, como veremos, até duvidosas) exceções, nenhum desses filmes teve tanto interesse em meramente "reproduzir" o enredo da novela. Cada cineasta se apropriou da obra de Le Fanu de acordo com as suas próprias tendências e obsessões, focando em determinados aspectos em detrimento de outros, e reinterpretando as lacunas e ambiguidades das formas mais inesperadas e fascinantes. O resultado é um verdadeiro mosaico, talvez único em toda a história das adaptações literárias, um labirinto no qual a Condessa Karnstein está sempre um bocadinho além da próxima curva, enquanto que nós (pobres mortais) seguimos vagando pelos corredores espelhados, em busca do mais remoto vislumbre, o eco dos leves passos de Carmilla se perdendo na escuridão e na distância.

Juntam-se a mim nessa maratona? Só duas coisinhas antes de começarmos: 1) Infelizmente a lista não está completa. Certos títulos são indisponíveis, até mesmo na internet. Uma das mais célebres versões, com a Jane Merrow e a Natasha Pyne, é considerada "perdida", junto a mais 15 episódios da série britânica Mystery and Imagination, da ITV/ABC, 1966. Carmilla: Le coeur pétrifié, outra produção televisiva, dessa vez da França, em 1988, também parece que não existe mais, bem como o segmento de Ficciones, de 1973, com ninguém menos que Marisa Paredes no papel da vampira! Fora isso tem vários curtas, e uma ou outra produção feita direto pro vídeo, dos anos 90 em diante, que talvez até pudessem ser rastreadas, mas sinceramente, não parece que valem o esforço. Mas não se preocupem, crianças, se algo de interessante cair na minha mão, esse artigo será devidamente atualizado.😌 2) O texto, nem preciso dizer, está cheio de ☢️SPOILERS☢️ do livro (dos filmes nem tanto😉), então, caso nunca tenha lido... bom, que está fazendo aqui?🤨




1960: Et mourir de plaisir AKA Blood and Roses
(Rosas de Sangue)
França/Itália
Direção: Roger Vadim
Roteiro: Claude Brulé, Claude Martin, Roger Vadim, Roger Vailland

Tecnicamente, a primeira adaptação de Carmilla foi Vampyr (1932) de Carl Theodor Dreyer, que ostentava nos créditos um "livremente inspirado em In a Glass Darkly, de Sheridan de Fanu", o volume onde a novela foi publicada em formato de livro pela primeira vez, em 1872, depois de estrear serializada no periódico The Dark Blue entre 1871 e 1872. Mas ainda que seja um clássico indiscutível e, possivelmente, uma das melhores traduções imagéticas do estilo assombrado e onírico das obras de Le Fanu para o audiovisual, o fato é que... não tem Carmilla no filme!🤔 O que dá à Rosas de Sangue uma legitimidade maior como a primeira aparição da Condessa Karnstein em celuloide. E uma estreia assim tão enviesada e fugidia não deixa de soar apropriada para uma personagem tão esquiva.

Ambientado em tempos modernos, o filme de Roger Vadim é, na real, uma espécie de "continuação livre" da história original. Os Karnstein, longe de serem um clã extinto como no livro, são uma simpática família de aristocratas que adora divertir os amigos com as histórias pitorescas de seus ancestrais "vampiros", como uma certa Condessa Mircalla Karnstein, cuja pintura na sala de estar revela uma surpreendente semelhança com a sua descendente mais direta, a jovem Carmilla, vivida pela, então, esposa do diretor, a encantadora Annette Stroyberg. Fascinada com as lendas sobre como a sua ancestral teria "morrido de amor" por um primo, e sido enterrada por ele numa tumba secreta, Carmilla não demora a revelar o seu próprio crush pelo seu primo Leopoldo (Mel Ferrer) que está prestes a se casar com Georgia, uma Elsa Martinelli tão linda que dá vontade de chorar.😭 Na festa a fantasia em que o noivado é anunciado, um acidente na queima de fogos acaba causando uma explosão nas ruínas do velho castelo dos Karnstein, nos arredores da propriedade, onde uma melancólica Carmilla acaba se deparando com o que parece ser a tal tumba secreta, desenterrada pela explosão. E uma vez lá dentro... algo acontece... algo passível de mil debates e especulações, mas aparentemente a Carmilla que emerge da tumba ao amanhecer não é mais exatamente a mesma pessoa que lá entrou.

É compreensível que tal sinopse cause uma certa reticência nas audiências de hoje em dia, pelo fator lésbico ter sido meio que suplantado pela velha e cansativa rivalidade feminina por um homem, com Carmilla, aparentemente vampirizada, se tornando uma ameaça em potencial para a sua futura prima Georgia. Mas não se pode esquecer que o livro dá sim margem para uma abordagem desse tipo. Mais especificamente no penúltimo capítulo, quando um histórico surpreendentemente hétero nos é revelado pelo Barão Vordenburg a respeito da velha Mircalla. Tem primo apaixonado, tumba secreta, o aparente suicídio, está tudo lá. Claro que a passagem, como praticamente tudo na novela, é plena de elementos dúbios e passível de inúmeras interpretações (tipo, como é que isso encaixa com a suposta "mãe" e os aparentes "guardiões" da vampira?), mas dentre as inúmeras lacunas e ambiguidades que Le Fanu nos deixou, foi essa que Vadim decidiu se apropriar. Dá pra questionar a escolha, mas não dizer que faltou com a "fidelidade". Ao menos não necessariamente.

E, também, não é como se o filme fosse tão claro e direto quanto a sinopse inicial faz pensar. O aspecto homoerótico, pra começar, não vai embora de vez, e chega a ser difícil definir se é Leopoldo ou Georgia o real foco das obsessões de Carmilla. Há um frisson entre as duas, que nos remete diretamente ao jogo de atração e repulsa entre as suas contrapartes do livro. "Como ela é linda!", suspira Georgia, velando o sono de sua geniosa, mas sem dúvida apaixonante, futura prima, "Eu devia ter ciúmes, mas por alguma razão, não consigo." O que nos faz pensar que se Carmilla se tornou, de fato, uma espécie de veículo para o renascimento de Mircalla, será que Georgia também não precisa, de alguma forma, preencher o papel de Laura? E assim o filme vai nos remetendo, de uma forma oblíqua e ocasionalmente surreal, a um elemento de ancestralidade e destino que meio que atravessa sutilmente o subtexto da novela, mas (como veremos) chamou a atenção de boa parte da galera que se aventurou a adaptar a história através dos anos: a vaga insinuação de que a falecida mãe de Laura era uma Karnstein, adicionando uma camada absurda de especulação e ressonância aos acontecimentos relatados no livro.

Por outro lado, não dá pra negar que a lesbianidade em Rosas de Sangue se dá muito mais "em função" do personagem de Mel Ferrer. Até o pôster original francês escancara isso pra bom e mau entendedor. Ainda levaria tempo pra que questões de gênero e sexualidade se tornassem pontos de discussão nas adaptações de Carmilla (e a própria fama de Vadim de adorar colocar suas esposas para "contracenar" com outras atrizes não nos permitiria esperar nada de muito diferente). Felizmente, a sutileza com que a trama se desenvolve, e a recusa em "fechar" os elementos fantásticos e surreais da narrativa (nem temos certeza se Carmilla realmente se tornou uma vampira, ou se está apenas fantasiando, se é que isso faz mesmo alguma diferença), mantém o filme devidamente aberto e arejado para que a audiência possa "entrar" e se apropriar de suas belíssimas e desconcertantes imagens da forma que melhor lhe aprouver, criando e recriando Rosas de Sangue a cada projeção. Nesse aspecto, mesmo tensionado o enredo original, é uma das versões que melhor capturam a atmosfera onírica e melancólica de Le Fanu... e, acima de tudo, sua beleza. Independente de quaisquer críticas ou aspectos passíveis de questionamento, nada tira o mérito de Rosas de Sangue como um dos góticos mais deslumbrantes que o cinema de horror europeu já produziu, motivo mais que suficiente para nos deixarmos perder em suas imagens.



1964: La Cripta e l’Incubo AKA Crypt of the Vampire
(O Túmulo do Horror)
Itália/Espanha
Direção: Camillo Mastrocinque
Roteiro: Tonino Valerii, Ernesto Gastaldi, María del Carmen Martínez Román, José Luis Monter

A coisa mais inusitada a respeito dessa notável e, no geral, deliciosa contribuição do ciclo de cinema gótico italiano dos anos 60 para o mito da Condessa Karnstein é que, por incrível que pareça, o filme parece ter sido pensado pra uma audiência que não saiba nada a respeito do livro. E digo, nada mesmo! Não é apenas não ler, mas sequer saber que o livro existe! Nunca ter ouvido falar nem do enredo, nem das personagens. E isso porque, ainda que a adaptação de Camillo Mastrocinque seja até bastante fiel à novela em inúmeros aspectos, o roteiro meio que dá um "cavalo de pau" na narrativa de modo a fazer o público acreditar, por boa parte do tempo, que a vampira da história é a Laura, aqui chamada justamente de Laura Karnstein!😮

É o mesmo ponto de partida, digamos, de Rosas de Sangue. A obscura sugestão de que a própria Laura é uma descendente distante dos Karnstein, por parte de mãe. Uma "lacuna" que nos permite especular se o interesse de Mircalla por ela seria mesmo tão fortuito quanto seu ataque à protegida do General Spieldorf. Ou se os surtos de carência e as declarações apaixonadas não poderiam ser bem mais que um mero modus operandi em uma longa trajetória de vítimas. O livro, afinal, começa com uma visitação noturna num quarto de criança. Se real ou imaginária, tanto faz. O que importa é a sensação de um destino marcado. De um vínculo antigo, quiçá ancestral. Sangue chamando sangue, através das gerações. Mastrocinque, decerto, não pretende ir tão longe nessas implicações, mas não resiste a deixar que seu filme se atravesse de uma aura perversa de ancestralidade incestuosa, bem ao estilo do La Maschera del Demonio, do Mario Bava. O vampirismo, assim, sai de cena, em prol de um plot mais familiar ao ciclo gótico italiano do período, com bruxaria e vinganças além-túmulo, reembaralhando os elementos da novela em uma narrativa cheia de charadas e pistas falsas, onde ninguém menos que Christopher Lee, como um tal de Conde Karnstein, contrata um jovem e tarimbado escolástico (José Campos) para descobrir se sua filha Laura poderia ser a reencarnação de uma terrível feiticeira que amaldiçoou o destino da família.

Agora, óbvio que trocar Mircalla Karnstein por Sera de Karnstein, e Carmilla por Ljuba, não despista ninguém que tenha um mínimo de noção da história. Logo que vemos a Ursula Davis sendo socorrida da carruagem acidentada, e despertando languidamente no leito da Adriana Ambesi, não temos a menor dúvida de quem é a verdadeira vampira bruxa da história. E, nisso, o que supostamente deveria ser uma trama de mistério, acaba se desdobrando numa vibe hitchcockiana não intencional, e portanto falha, na qual estamos o tempo todo à frente das personagens, e das pistas que elas desvendam. Não deixa de ser curioso, mas fica claro que o efeito esperado não era esse. Na real, o mais interessante disso tudo é constatar o quão lentamente a novela de Le Fanu se infiltrou no imaginário popular, comparada a outros clássicos da literatura gótica que o cinema de massa correu pra abocanhar muito mais cedo. Ninguém teria que ler os livros para reconhecer o Drácula, o Frankenstein, ou o Mister Hyde, fossem quais fossem os nomes do roteiro. Agora... Carmilla? Indigno, decerto, para um clássico dessa envergadura. Por outro lado, foi essa obscuridade que deu a personagem uma aura requintada de "só para iniciadas", que, em maior ou menor grau, se mantém até hoje. Inspirando, inclusive, que as suas igualmente obscuras versões cinematográficas e televisivas se sentissem tão livres para ousadias narrativas, temáticas e estéticas, mesmo que algumas (tipo um whodunit gótico) não saíssem bem como esperado.

Mas tudo bem, superado o auto-spoiler, La Cripta e l’Incubo funciona lindamente. Como adaptação, se destaca por trazer para as telas, pela primeira vez, figuras icônicas como a misteriosa "mãe" (aqui tia) de Ljuba/Carmilla, vivida com gélida elegância por Carla Calò, e o mendigo corcunda, que raramente entra na maior parte das versões, mas aqui ganha um destaque inesperado na pele do não-creditado Marzio Margine. O caráter ambíguo da sedução de Carmilla se presta bem ao papel mais abertamente manipulativo da Ljuba de Ursula Davis, e ver o tio Lee no papel de um grande matador de vampiros, pra variar, também não deixa de ser um bônus.😉 Mas é como um gótico italiano propriamente dito que o filme de Mastrocinque revela seus maiores méritos. Ao lado do seu Un angelo per Satana, é, sem dúvida, um dos títulos mais inventivos do ciclo. Pleno daquele clima de morbidez e ambivalência moral que costumava destacar esses filmes dos seus concorrentes britânicos e americanos. Um caráter que se encapsula perfeitamente na imagem da governanta de Nela Conjiu, vagando pelos corredores do castelo, iluminando seu caminho com uma mão da glória, e invocando Satã e os poderes das trevas para proteger sua patroinha contra as forças do mal.😮 E a gente aqui achando que a novela de Le Fanu é que era ambígua.😅


1970: The Vampire Lovers
(Carmilla, a Vampira de Karnstein)
Inglaterra/EUA
Direção: Roy Ward Baker
Roteiro: Harry Fine, Michael Style, Tudor Gates

Por fim, coube à lendária Hammer Films produzir a primeira adaptação intencionalmente fiel do clássico de Le Fanu. Ao menos nos cinemas. Mystery and Imagination chegou antes, em 1966, mas além de ser uma produção televisiva, e em preto e branco, sequer temos acesso a ela, literalmente apagada pela inacreditável política de "reciclagem de fitas" das emissoras de TV britânicas durante a década de 60. A Hammer, então, foi que "entrou pra história", por assim dizer, e quem tiver familiaridade com o histórico de produção do estúdio (ou deu uma lida nos meus dossiês sobre as suas mais célebres "franquias", tipo Drácula e Frankenstein) vai perceber o quanto isso é irônico. Via de regra, a Hammer nunca ligou pra "fidelidade". Ao que me consta, as únicas vezes em que se dispuseram a adaptar "fielmente" um clássico da literatura gótica foi com O Cão dos Baskervilles, de 1959, e The Vampire Lovers, em 1970.

"Mas... é fiel? Tipo, com esse título?" Então... sim... e também não. O ponto aqui é a famosa diferença entre a obra artística, e a embalagem marqueteira que a envolve. Antes, durante, e mesmo depois de seu processo de criação. Criaturas completamente distintas, mas inevitavelmente interpoladas. Havia dois movimentos opostos (e complementares) por trás de The Vampire Lovers. Primeiro o desespero da Hammer em se manter competitiva frente a um mercado cada vez mais concorrido, aproveitando o relaxamento geral da censura no começo dos anos 70 para meter um pezinho no rentável território do exploitation europeu (ainda que o estúdio tentasse resguardar o máximo possível a sua dignidade e fleuma britânicas). Foi um período que a empresa se abriu às parcerias com estúdios independentes, e quando a Fantale Films chegou com um projeto de adaptar Carmilla, tudo o que os engravatados podiam pensar era: "Vampiras lésbicas?! Perfeito! Justo agora que os peitinhos estão liberados!"😂 Felizmente, havia um segundo movimento: o roteirista Tudor Gates, figura então promissora do cenário europeu da época, tendo contribuído nos roteiros de Barbarella do Roger Vadim, e do Diabolik do Mario Bava, se encantou de verdade pelo livro, e estava comprometido, na medida do possível, a desenvolver uma versão fiel da história. Pra Hammer tava tudo bem, desde que a cota acordada de nudez e insinuações lésbicas fosse devidamente cumprida.

O resultado é um filme decerto fiel ao enredo, mas não tanto às caracterizações, os diálogos, o tom, e, acima de tudo, às ambiguidades e riquezas interpretativas do clássico. The Vampire Lovers (título que, com certeza, foi combinado e vendido aos investidores muito antes de qualquer roteiro ser escrito) é um filme direto e reto, bem ao estilo Hammer, reorganizando a narrativa em uma estrutura mais linear, que já começa no flashback do Barão Vordenburg (aqui Hartog, vivido por Douglas Wilmer) remontado num gracioso prólogo, lindamente estilizado, que introduz as novas "regras vampíricas" de Le Fanu para uma audiência mais acostumada ao Conde Drácula do Christopher Lee. Dali seguiremos, sem muita firula, pro baile do General Spieldorf (Peter Cushing, novamente em sua posição de direito como o grande matador de vampiros), onde veremos o rápido processo de sedução e morte de sua protegida, Laura. Só aí, já cientes do perigo, e da natureza vampírica de "Marcilla", que chegaremos de fato ao início da novela propriamente dita, com a misteriosa "Carmilla" sendo deixada aos cuidados da família Morton, depois do já famoso "acidente" com a carruagem, e caindo nos braços da sua vítima mais desejada, a linda, virginal e bobinha, Emma Morton.

Pois é, o filme faz uma bela zona com os nomes das personagens, tipo a "dança das cadeiras" entre Mina e Lucy nas adaptações de Drácula. Até aí, tranquilo. Problema mesmo é ver a Laura do livro ser reduzida a uma espécie de bibelô. Não é raro que personagens narradores percam função ao ser traduzidos pra outra mídia. John Utterson tende a sumir nas adaptações de O Médico e o Monstro. Dr. Watson virou alívio cômico em boa parte da história do cinema. Mas Laura é uma personagem rica demais pra ser simplesmente diluída entre a Pippa Steele e a Madeline Smith. É uma perda e tanto, não dá pra negar. Felizmente, o filme vai nos compensar de outras formas. Continua sendo uma das poucas versões a dar o devido peso aos ataques de Carmilla na forma de uma enorme gata (o que sempre causa um certo alvoroço nos debates sobre o livro nas comunidades sáficas: xaninha, xaninha😜). E não se furta a incluir boa parte das figuras enigmáticas que atravessam a novela, como a "Condessa Mãe", vivida por Dawn Addams, ou o "Cavaleiro de Negro" de John Forbes-Robertson. Sem nunca cair na tentação de "explicá-las", apenas deixando no ar seu aparente papel de "agenciadores", aproveitando-se da tradição cavalheiresca para infiltrar a "filha vampira" no seio das famílias aristocráticas da região. No fim, esse conceito de um clã itinerante de vampiros acabou ficando mais pras sequencias, mas poucas vezes as leituras de classe do subtexto da novela ficaram tão evidentes quanto aqui. O lance de "cortejar a vítima com uma veemência absorvente que lembra a paixão do amor, protelando seu prazer assassino com o refinamento de um gastrônomo, paciência e artifícios inexauríveis" é algo que parece reservado apenas às jovens de sangue nobre, ricas e de boa família. As pobres camponesas, podem muito bem ser "dominadas com violência, estranguladas e exauridas em um único banquete".

Mas, para além das fidelidades e infidelidades, há de se convir que o que sustenta a empreitada, é mesmo Ingrid Pitt. Ainda que, sejamos francos, ela não faça a Carmilla do livro. Não há nada de lânguido, gracioso ou delicado na performance voluptuosa e predadora da vampiressa de Pitt. Mas é indiscutível que a atriz polonesa conseguiu criar com maestria a sua própria Carmilla, tão icônica para o cinema britânico quando a fantasmagórica menina-vampira de Le Fanu. Uma figura passional, que tende aos extremos, resvalando perigosamente no overacting (como na passagem do cortejo fúnebre: "Você deve morrer! Todas devemos morrer!"), mas que acaba nos inspirando compaixão, e até certa cumplicidade, pela melancolia que deixa transparecer em meio à fachada manipulativa e cruel. Amo, particularmente, a tristeza com que ela encara a cruz improvisada de John Finch, tão diversa do medo e da raiva que nos acostumamos a esperar nos olhos injetados de sangue de Christopher Lee. Pitt sempre afirmou que queria criar uma predadora tão marcante quando seu Drácula, o que, claro, não podia deixar de incluir o sex appeal. Coisa que, aliás, ela nunca teve pudores em explorar, com aquele sorrisinho maroto no canto dos lábios, e um olhar de quem parece dizer "eu sei que você me acha gostosa... e sou mesmo!". Chega a ser engraçado... Se não fosse por ela, e a Kate O'Mara, é possível que o conteúdo apelativo e sáfico que a Hammer tanto queria, tivesse ficado restrito a uns nudies fofinhos e bitoquinhas quase infantis se comparadas ao lascivo cinema francês e italiano do período. O diretor, Roy Ward Baker, dizia ter lido o livro duas vezes sem notar conteúdo lésbico, e a Madeline Smith jura que, aos 21 anos, sequer sabia que isso existia! Já Pitt e O'Mara sabiam muito bem, e os surtos de submissão desesperada de uma Madame Perrodot se jogando aos pés da sua dômina vampira é o tipo de coisa que justifica perfeitamente a transformação da governanta gorducha e maternal do livro em ninguém menos que Kate O'Mara. Fidelidade? Pra que?😅

(A Carmilla da Hammer, vivida por outras atrizes, ainda voltaria em duas sequencias, já de 1971, Lust for a Vampire e Twins of Evil, fechando a chamada Hammer's Karnstein Trilogy. Mas, ainda que interessantes, em especial o Twins of Evil, que é um dos meus favoritos do período "decadente" do estúdio, são distantes demais do livro pra que se possa justificar sua presença aqui. Senão eu teria que listar todo gótico europeu que enfia os nomes Mircalla e Karnstein no enredo, e não são poucos! Sigamos adiante. Falo deles noutra ocasião.😉)


1971: Let's Scare Jessica to Death
(Sonhos Alucinantes)
EUA
Direção: John D. Hancock
Roteiro: John D. Hancock, Lee Kalcheim

Dá pra se discutir se Let's Scare Jessica to Death pode ser considerado uma "adaptação" de Carmilla. Você vai achá-lo em algumas listas, e em outras não. O nome de Sheridan Le Fanu não vai aparecer nos créditos, mas, até aí, também não aparece em Crypt of the Vampire, ou mesmo na Carmilla de Emily Harris. De todas as versões que estamos debatendo aqui, essa é, decerto, a mais distante do enredo original. Não há recriação de passagens específicas da novela, reprodução dos diálogos, sequer uma correspondência exata das personagens. Mas, quer seja uma releitura livre, ou uma obra independente fortemente influenciada, o fato é que a palavra "Carmilla" tende a surgir com relativa facilidade nas análises dessa pequena obra-prima de John D. Hancock. E isso desde que foi lançada, no mesmo ano em que a Hammer dava continuidade à sua Trilogia Karnstein, e menos de um ano antes de Vicente Aranda nos entregar a sua Novia Ensangrentada. De um jeito ou de outro, o espectro de Carmilla parece assombrar esse comecinho dos anos 70, e uma vez que se mantenha isso em mente, não é difícil escutar os seus leves passos ecoando por toda a projeção.

Uma coisa é fato, com todas as suas idiossincrasias, as adaptações de Carmilla que haviam sido feitas até então, pareciam ter um comum um tom mais puxado à fantasia, um tanto mais teatrais, e não-naturalistas. O lirismo romântico francês, a grandiloquência gótica italiana, a estilização estética da Hammer. Hancock toma um outro rumo, bem mais a cara da década que apenas começava. Uma pegada mais realista, triste, desglamourizada, com um elenco que sequer parece formado por atores, mas sim pessoas comuns, como eu e você. Rostos comuns, com aquela beleza falha e imperfeita do dia a dia. Desde a abertura o tom é depressivo e lúgubre, e não como aquela melancolia "doce" que a Laura do livro, dizia "mal querer deixar para trás", mas um tipo de angústia crua e opressora, que parece seguir aquele trio de ex-hippies, dirigindo um carro funerário pelo interior dos EUA em busca de um novo lar. Haveria imagem mais representativa do início dos anos 70 do que essa?

Jessica, nossa "Laura" da vez, é uma aspirante a artista plástica que acaba de sair de um sanatório. O marido, e o melhor amigo do casal, num tipo de restolho de família alternativa ao estilo da geração Woodstock, estão levando-a para viver no campo, bem longe das neuras da cidade, assumindo uma velha propriedade abandonada numa cidadezinha qualquer do desencantado interiorzão americano. Fascinada por cemitérios, e inscrições em lápides antigas, ela logo começa a ter visões, que prefere guardar para si, por não confiar na sua sanidade e temer profundamente ser abandonada pelos seus entes queridos. Zohra Lampert compõe tal figura de uma forma dolorosamente verdadeira. Sorriso fixo sempre travado no rosto numa tentativa vã de mascarar as emoções, e tentar parecer agradável e solícita mesmo enquanto desmorona por dentro. Emocionalmente dependente, não só do marido, mas, pelo visto, qualquer pessoa que lhe estenda a mão, Jessica não tem como resistir a convidar a jovem Emily de Mariclare Costello, que encontram já instalada num dos quartos do casarão, a fazer parte da sua "família", e assim, sem nem precisar de carruagens acidentadas, mães misteriosas ou homens de preto, a dinâmica básica da novela de Le Fanu se reestabelece.

O engraçado é que não deixa de ser spoiler apontar a relação, pois Hancock não tem pressa de afirmar a verdadeira natureza de Emily, se é que de fato o faz. Let's Scare Jessica to Death joga com a percepção da audiência de várias formas, a começar pelo título, que mais parece isca para os frequentadores típicos de uma grindhouse. Em nenhum momento, Hancock nos "explica" o que está acontecendo com a cidade, ou com seus personagens. Apenas nos "mostra". O pano de fundo está lá, nos detalhes, nos olhares, nas implicações, nas vozes que Jessica não pode deixar de ouvir, insinuando toda uma história prévia, plena de significados e horrores ocultos, mas deixando à plateia a responsabilidade de juntar os pedacinhos e "montar" o quadro completo por sua própria conta (e risco). Um tipo de abordagem bastante cultivada no cinema de horror dos anos 70, mas que foi caindo em desuso com a infantilização do gênero nos anos 80 em diante (até se chegar ao ponto de se taxarem os novos filmes de horror com temática mais "adulta" como "pós-terror", como se fossem um gênero novo).

É nessa sutileza que os elementos de fundo da novela irão se fazer sentir, quase como se o filme apontasse mais pro subtexto do que o enredo propriamente dito, algo que, por si só, já torna essa "versão" quase que uma antítese da adaptação "literalizada" da Hammer. O aspecto de "cuco no ninho" da hóspede inesperada que se infiltra no seio da "família" para subverter suas dinâmicas, aqui surge embaralhado por uma aparente inversão no modos operandi da suposta Carmilla, que não se joga diretamente sobre seu "objeto de desejo", preferindo seduzir os homens da vida de Jessica, até cooptar tudo aquilo que, para ela, seria a sua "rede de apoio". ("Venha comigo, Jessica."). O vampirismo não como anseio físico, mas carência profunda, primordial, impreenchível. Um buraco negro que pode vir a surgir, espontaneamente, numa comunidade, a partir de uma perda, de um crime, talvez um suicídio, como Le Fanu insinua nos últimos capítulos da novela, tragando para si tudo que for capturado no seu implacável horizonte de eventos. A noção de que Laura pudesse (vir a) ser algo mais que apenas outra vítima desse abismo sempre perpassou as leituras de Carmilla, e ganhou especial atenção por parte das adaptações anteriores (e muitas das posteriores). A Laura como descendente distante dos Karnstein em Rosas de SangueLa Cripta e l’Incubo, a Laura como uma possível companheira para a eternidade, que Ingrid Pitt dava a entender, de forma meio contraditória, em The Vampire LoversHancock, por certo, também parece reconhecer um tipo de "encontro de almas" no relacionamento entre Laura e Carmilla. Almas, porém, quebradas e adoecidas ("Jessica, por quê você veio aqui?"), atraídas, acima de tudo, pela dor que reconhecem uma na outra, o vazio que não se pode preencher ("Venha comigo, Jessica. Venha comigo."). Um encontro ruim, que não poderia resultar em outra coisa senão um olhar perdido que paira sobre as águas, e um retorno triste... de volta para casa ("Eu não vou embora, Jessica... eu nunca irei embora").


1972: The Blood Spattered Bride AKA La Novia Ensangrentada
(A Noiva Ensanguentada)
Espanha
Direção: Vicente Aranda
Roteiro: Vicente Aranda, Matthew Lewis

La Novia Ensangrentada é a primeira adaptação de Carmilla a trazer para o centro do palco leituras de gênero, sexualidade e domínio patriarcal do subtexto da novela, chegando até a subverter aquilo que seriam as necessidades mercadológicas mais rasteiras do exploitation (como, é claro, "explorar" nudez e sexualidade femininas), de modo a pegar a audiência "no pulo", por assim dizer, e, literalmente, obriga-la a consumir bem mais do que aquilo pelo que pagou, como diria Stephen King, na sua pitoresca "definição" de arte em contexto capitalista (que sempre acho de bom tom complementar parafraseado a máxima de Alan Moore de que a arte deve dar à plateia aquilo que ela precisa, não o que acha que quer). De cara, Maribel Martín, ainda de vestido de noiva, se vê tomada por um inesperado e vívido pesadelo lúcido no qual o próprio marido a ataca, de meia na cabeça e tudo, e a estupra num quarto de hotel vagabundo na beira da estrada. A cena tem uma função bastante clara, e dupla: antecipar a "cota" de baixaria esperada pelo público e pelos investidores, ao mesmo tempo em que, sub-repticiamente, escancara a temática que realmente estará em jogo aqui: por mais que Susan (queira acreditar que) ame esse quase estranho com quem se casou, inconscientemente ela sabe (como tantas e tantas mulheres) que não faltam motivos para ter medo dele.

Dali, uma dinâmica de casal no mínimo problemática (pra não dizer tóxica) se estabelece, e é apresentada de forma crível e perfeitamente realista, sem exagero ou caricaturas. Jovem e inexperiente demais, Susan visivelmente não sente prazer, nem mesmo desejo, e não entende muito bem porque os seus sentimentos pelo novo marido são tão ambivalentes e conflitantes, mas acredita (ou, provavelmente, nem quer pensar a respeito) que as coisas vão melhorar se ela continuar cumprindo o que se espera dela. O marido, de Simón Andreu, mais velho, confiante e financeiramente bem sucedido, não chega a ser indiferente aos conflitos e inseguranças da esposa, mas não há dúvida de que sua empatia só chega até o limite das suas próprias necessidades. Pouco a pouco, princípios de poder, controle e violência psicológica (resvalando cada vez mais na física) vão eclodindo aqui e ali, por mais que Susan (de novo, como tantas mulheres) não consiga definir exatamente a natureza de seu desconforto, muito menos fazer alguma coisa a respeito. É aí que uma misteriosa mulher, toda vestida de rosa, surge debaixo da sua cama, e lhe oferece um estranho punhal adornado que, com certeza, irá resolver a todos os seus problemas.

E dessa releitura (deliciosamente sagaz) da arrepiante visita noturna no primeiro capítulo da novela, Vicente Aranda começa a desenvolver a Carmilla de Alexandra Bastedo como um tipo de afloramento de um feminino recalcado, que se faz sentir pelas próprias brechas da subjetividade patriarcal. Não demora pra que o marido traga à tona uma antiga lenda da história da família, de como Mircalla Karnstein, teria apunhalado o seu noivo, em plena noite de núpcias, para não ter que performar com ele "atos aberrantes e indizíveis". Encontrada ao lado do corpo em estado catatônico, a "noiva coberta de sangue" jamais despertaria do transe, sendo, enfim, "declarada" morta e sepultada (viva?!😮) na cripta da família. Impressionada com a história, Susan começa a ficar obcecada com a ideia de que Mircalla, de alguma forma, tenha voltado da tumba para lhe exigir um ato de equivalente coragem, ideia essa que parece dividi-la, de fato, entre o horror e o deleite. Enquanto isso, o marido ainda atordoado com o comportamento (para ele) incompreensível da esposa, se depara, sem saber, com a mesma mulher misteriosa dos sonhos dela, dessa vez em carne e osso, e não mais de rosa, mas sim nua, e literalmente enterrada na areia da praia! Seu nome? Carmilla, claro.

O filme todo se estrutura em torno de imagens como essas. Imagens simbólicas, adensadoras. A mansão decorada só com retratos de homens da família. As pinturas de mulheres todas devidamente estocadas e escondidas no porão, materialmente reprimidas às profundezas do inconsciente patriarcal. O que, claro, inclui o retrato de Mircalla. De corpo inteiro, apenas com o rosto recortado, pra deixar claro que qualquer mulher poderia preencher aquele espaço. É um tipo de iconografia que, às vezes, me parece até didática demais. Aranda chega a fazer questão de posicionar a jovem Carol de Rosa Rodriguez no retrato, só pra ter certeza de que ninguém vai perder o ponto. E o marido, vale lembrar, sequer tem nome, é apenas "o marido". Mas talvez eu é que esteja sendo ingênuo. O que não falta na internet são resenhas irritadas e desdenhosas "lacrando" o filme como "obviamente" machista. Entendendo as "vampiras" de Alexandra Bastedo e Maribel Martín como as "vilãs" da história, e os "grandes matadores de vampiro" formados pelo marido, o psicólogo e o caçador como auto-evidentes "heróis". Uma leitura que confesso que me espanta. Pra mim, basta ver o ritual em que Carmilla declama à Susan algumas das falas mais apaixonados da novela durante um ritual de magia e sangue na cripta de Mircalla, para entende-las como a corporificação do profundo pavor masculino de que uma aliança feminina o sobrepuje e exclua, colocando em xeque o seu domínio. Como não estar do lado delas?

Seria esse o problema? Aranda deixa por demais em aberto a possibilidade da plateia "decidir" com quem se identificar? É fato que a primeira metade do filme, mais realista, nos mantém muito próximos de Susan, praticamente garantindo a nossa identificação com o seu ponto de vista. Mas conforme o enredo avança, e os elementos sobrenaturais vão se destacando, o eixo se desloca para o marido, o que dá a "deixa" pra que o espectador opte por se conectar, quem sabe, à leitura mais simples (e sexista) dada pelo psicólogo. O elo entre Carmilla e Susan ficaria assim reduzido a uma mera variação de relações de poder e controle, e o filme, como um todo, cai naquela tranquilizadora lógica do "bem" contra o "mal", da "norma" versus o "desvio". É possível, mas... sei lá... tenho dificuldade de entender como alguém poderia não desconfiar de uma voz "apolínea" no contexto de uma obra que, afinal, vai fundo nas questões femininas. Ou assistir aquele final, e vê-lo como qualquer outra coisa que não o triunfo do mal, reestabelecendo a sua norma, e tomando pra si seu troféu. Mas, enfim... esse sou eu, tentando não surtar num mundo cada vez mais tomado pela extrema direita, e, ao mesmo tempo, jamais esquecendo que, melhor do que policiar a responsabilidade de artistas, é estimular a potência (e a criatividade) das leituras.😉 Assim, nada poderá nos impedir de levar conosco, se assim desejarmos, a fala final da jovem Carol ao final da sessão: "Elas vão voltar. Não podem morrer..."


1977: Alucarda AKA Alucarda, La Hija de Las Tinieblas
México
Direção: Juan López Moctezuma
Roteiro: Tita Arroyo, Yolanda López Moctezuma, Alexis Arroyo, Juan López Moctezuma

O que dizer de Alucarda, de Juan López Moctezuma? De cara já deixo claro que minha leitura é absolutamente parcial: eu me apaixonei pela Alucarda de Tina Romero desde a sua primeira aparição em cena, emergindo das sombras com aquele vestido negro, aquele cabelo maravilhoso e aquele rosto perversamente angelical. Por mais que seja lugar comum definir um filme como "um delírio", não há forma melhor de descrever: Alucarda é um delírio! Tanto que não é incomum causar uma certa repulsa de início, pois tudo no filme, as atuações, os figurinos, a fotografia, os cenários, a encenação, tudo é propositalmente over. Há uma cena logo no início que, de certo modo, tenta nos preparar para toda essa intensidade: Alucarda acaba de conhecer Justine (Susana Kamini) e, pouco depois, já solta a icônica fala do livro: "Não tem idéia de como sou ciumenta, você tem que me amar até a morte!" O mesmo ultimato nos faz Moctezuma: não é possível se aproximar de leve, friamente. Alucarda nos exige mais. A partir de uma certa altura, todo o elenco começa a atuar em estado de histeria. Gritos, blasfêmias, invocações que mais parecem explosões de paixão. Overacting total! Saber que as atrizes faziam parte do Teatro Le Panique, fundado por Moctezuma, pelo dramaturgo Fernando Arrabal e pelo cineasta Alejandro Jodorowsky, um movimento estético/cênico que privilegiava o transe e a histeria como processo de criação, até nos ajuda a lidar com a experiência, mas não nos prepara para seu impacto imediato. Ou você se apaixona ou é repelido. Nem preciso dizer qual escolha traz mais recompensas.😉

E o mais espantoso é que, de alguma forma, essa loucura toda consegue ser surpreendentemente fiel ao livro! Os belíssimos diálogos entre Carmilla e Laura são reproduzidos quase que na íntegra, algo que nem mesmo as versões mais fiéis, da Hammer e de Nightmare Classics, sequer tentaram fazer. Moctezuma, claro, se apropria da história de uma forma muito particular, focando nos aspectos mais passionais subentendidos na escrita sutil e elegante de Le Fanu e, de certa forma, substituindo o vampirismo pelo satanismo, criando uma espécie de versão barroca e altamente estilizada da iconografia medieval, com bruxas, sabás, tortura, inquisição e freiras possuídas vestindo figurinos bizarros que só podem ser descritos como "hábitos mumificadores". Uma sufocante mescla de Europa pagã, catolicismo mexicano e nunsploitation, um microcosmo dantesco que será colocado em xeque diante da mera existência da jovem e misteriosa Alucarda, que os ciganos descrevem como "aquela que veio do orvalho da floresta".

Nesse macabro pout-pourri de todas as opressões possíveis e imagináveis, o ambíguo e carismático mendigo corcunda do livro acaba ganhando um papel ainda mais marcante do que na adaptação italiana de 1964, ressurgindo aqui como uma espécie de feiticeiro cigano (ou sátiro, ou avatar do demônio, ou representante das forças da natureza, o que preferirem) que preserva toda a intrigante ambivalência de sua relação com Carmilla/Alucarda. No livro, ao mesmo tempo que provoca Carmilla ao chamar a atenção para seus dentes afiados (o que a deixa positivamente emputecida) também fornece o suposto amuleto de proteção que, depois, irá entorpecer o sono de Laura e facilitar a ação da vampira. Aqui ele assume o papel do dark man das folk tales europeias, iniciando Justine e Alucarda nos mistérios da feminilidade, bruxaria e do despertar da própria sexualidade, basicamente colocando-as numa trilha que tanto pode ser vista como de libertação quanto de destruição (uma situação bastante similar à do conto Parceiras de Tricô, da obra-prima xamânica de Alan Moore, A Voz do Fogo). Curiosamente, o mesmo ator, Claudio Brook, também interpreta o Dr. Oszek, personagem equivalente ao General Spieldorf do livro, meio que insinuando um estranho paralelismo entre as potências dionisíacas que convocam Alucarda a cumprir seu destino, e as forças apolíneas da razão e da ciência que se consideram tão moralmente superiores ao pensamento mágico e supersticioso das camadas populares, mas prontamente se aliam aos poderes estabelecidos da Igreja diante da menor rachadura em sua frágil e insegura racionalidade.

Se isso tudo parece um tanto confuso... é porque é! Mais acostumado a processos abertos e em grande parte instintivos de criação teatral, Moctezuma não está nem um pouco interessado em fechar sentidos, nem se incomoda em ser contraditório, o que torna Alucarda um filme tão rico, incongruente, ambíguo, inesgotável e, acima de tudo, arriscadíssimo de interpretar quanto a própria Carmilla de Le Fanu. Mais sensato é simplesmente se deixar levar (e perder) pela potência pura e direta das imagens e performances, como a ensandecida Justine erguendo-se do caixão cheio de sangue (e, pra todos os efeitos, trocando seu papel de Laura pelo de Carmilla no último momento), o estase sadomasoquista das freiras-múmias em autoflagelação, a fúria de Alucarda trazendo o fogo do inferno para o interior do convento (gente, que delícia!), a exuberante orgia do grande sabá das bruxas na floresta encantada e, acima de tudo, invocar Belphegor, Beelzebuth e Astaroth a plenos pulmões com Tina Romero, dobrando inumadamente as costas para trás sem precisar de nenhum CGI!

Enfim, é um delírio.¯\_💀_/¯ E nunca mais se ouvirá novamente uma pronúncia tão linda da palavra "Satan".😉


1989: "Nightmare Classics" Carmilla
EUA
Direção: Gabrielle Beaumont
Roteiro: Jonathan Furst

Nightmare Classics foi uma série de TV americana de curta duração que se dispôs a adaptar quatro histórias de grandes autores da literatura gótica no final de 1989: The Turn of the Screw de Henry James, Carmilla de Sheridan Le Fanu, The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde de R.L. Stevenson e The Eyes of the Panther de Ambrose Bierce. Dentre esses, o episódio de Carmilla acabou se destacando principalmente por dois motivos: 1) a fama adquirida de ser a versão mais fiel já filmada, e 2) o fato de ter sido a primeira adaptação do clássico dirigida por uma mulher.

Uau, não? Pois é, com certeza empolga, mas é melhor não ir com sede demais ao pote. Primeiro porque, assim como rolava com a Hammer, a adaptação é apenas relativamente fiel (me pergunto se essa fama de fidelidade não seria por conta de alguma confusão com o episódio perdido de Mystery and Imagination🤔). E segundo, porque a diretora inglesa Gabrielle Beaumont não era exatamente uma autora, mas apenas uma versátil e eficiente profissional de TV, responsável por uma infinidade de trabalhos nas mais variadas produções, de Jornada nas Estrelas a Barrados do Baile. É muito provável que Nightmare Classics não fosse mais do que apenas outro trabalho nessa esteira, bela e elegantemente executado, mas não particularmente inspirado ou mesmo inovador.

Colocadas as expectativas num patamar mais realista, Nightmare Classics´s Carmilla tem sim muito a oferecer. Pra começo de conversa é ótimo termos uma adaptação que, enfim, usa o título Carmilla! Mas não se empolgue demais, pois Ione Skye interpreta Marie, não Laura (difícil entender essas trocas de nomes randômicas). Mas ok, tirando o nome é basicamente a mesma personagem do livro, uma jovem solitária vivendo com o pai e empregados numa mansão isolada, ávida pela companhia de uma amiga da sua idade, até que um estranho acidente com uma carruagem coloca Carmilla sob seu teto. Tudo bem próximo da história original, apenas remanejando a ambientação para um contexto southern gothic (EUA na época da Guerra da Secessão) e dando uma simplificada geral nas lacunas da trama ao "matar" os demais ocupantes da carruagem, deixando Carmilla como a única "sobrevivente" do acidente. E é aí que chegamos no maior trunfo dessa versão: Meg Tilly.

"Ela era esguia, e maravilhosamente graciosa. Exceto que seus movimentos eram lânguidos, muito lânguidos. Na verdade, não havia nada em sua aparência que indicasse uma inválida. Sua compleição era rica e brilhante, suas feições pequenas eram lindamente formadas; seus olhos eram grandes, negros e brilhantes; seu cabelo era maravilhoso; eu nunca vira um cabelo tão magnificamente cheio e longo como quando ela o soltava sobre os ombros." Seja no audiovisual ou quaisquer outras reinterpretações artísticas, é incrivelmente raro que Carmilla seja representada de forma sequer remotamente parecida com essa descrição. Assim, quando Meg Tilly desperta na cama diante de Marie e lhe estende a mão para sentar-se ao seu lado, o impacto vai muito além de uma modesta produção de época para a TV. Ainda que as únicas cópias acessíveis online sejam rips de VHS de péssima qualidade, nesse momento é como se a tela se iluminasse e somos capturados pela expressão perturbadoramente angelical naquele rosto ao mesmo tempo lindo... e estranho. Tilly foi uma atriz de carreira relativamente curta, com poucos trabalhos relevantes (suponho que seja mais lembrada por Agnes de Deus e Psicose II) e nem me parece que tenha se destacado como particularmente talentosa, mas é inegável que algum tipo de alquimia rolou aqui. Tilly É Carmilla! Pela primeira vez, eu realmente vi a personagem de Le Fanu em cena, em toda a sua sinistra graciosidade mórbida, movendo-se languidamente pelo mansão gótica sulista, seduzindo Marie e nos desconcertando com sua dubiedade quase indecifrável. De algum modo, Tilly consegue sustentar toda a ambivalência das entrelinhas da novela, a eterna dúvida sobre os verdadeiros sentimentos e intenções da vampira. Ora diabolicamente cruel e manipulativa, ora desesperadamente encantada por sua suposta vítima. E nem se pode dizer que o roteiro ajuda muito a manter essa sutileza, inserindo alguns exageros bem draculescos como ataques de morcegos e teletransportes constrangedores, mas de alguma forma a Carmilla de Tilly passa por tudo isso incólume.

Diante disso, acaba sendo lamentável que o roteiro de Jonathan Furst não use nenhum dos diálogos originais. Tipo, nenhum mesmo! Várias cenas são quase idênticas ao livro, mas as falas são sempre originais e, na verdade, bem distintas. A versão da Hammer seguiu um rumo parecido (até mantendo alguns trechos de narração aqui e ali, mas nenhuma das falas da própria Carmilla) o que é bem bizarro considerando que são justamente as duas adaptações que mais se propunham a ser fiéis. De algum modo, acaba soando mais "infiel" do que recriações livres tais como as de Aranda ou Moctezuma (que, ironicamente, reproduziam diálogos inteiros quase na íntegra). É como se essa proximidade maior com o original acabasse nos tornando ainda mais sensíveis até às menores discrepâncias. Seja como for, é decepcionante que Tilly não tenha tido a chance de declamar nenhum dos misteriosos monólogos de Carmilla. Chega a ser quase uma sabotagem à sua performance.

Outras mudanças em relação ao original são um tanto esquisitas, como o destaque dado à figura da desaparecida mãe de Marie/Laura (que, como lembram, no livro morreu quando ela era bebê, além de ser uma descendente distante dos Karnstein), apresentada aqui como uma espécie de grande inspiração para o espírito rebelde que Carmilla desperta em Marie. É uma abordagem potencialmente interessante, mas que acaba desembocando num plot twist pra lá de questionável, soando mais machista do que qualquer outra coisa. Talvez um reflexo da correria com que produções televisas costumavam ser feitas na época, sem muito tempo pra refletir sobre minúcias de enredo. Felizmente, a ideia parece ter servido de inspiração direta para outra adaptação ao estilo southern gothic que viria em 2014, aí sim desenvolvida à contento.

Já aqui, fiquemos com a maravilhosa e (literalmente) flutuante Carmilla de Meg Tilly e com o impagável Roddy McDowall voltando a encarnar a figura do "grande matador de vampiros" (incluído aqui, suponho, pra suprir a ausência do núcleo do General Spieldorf) apenas quatro anos depois do divertidíssimo Peter Vincent de A Hora do Espanto. Não é pouca coisa. Não mesmo. ❤


2011: The Moth Diaries
(Relação Mortal)
Canadá/Irlanda/EUA
Direção e Roteiro: Mary Harron
Baseado no romance de Rachel Klein

Ok, ok! Antes que alguém me xingue, eu sei e admito que estou trapaceando aqui. The Moth Diaries NÃO É uma adaptação de Carmilla, mas sim do romance homônimo INSPIRADO em Carmilla, da escritora americana Rachel Klein. Refleti muito antes de decidir inclui-lo nesse artigo, mas acabei chegando à conclusão de que simplesmente não poderia deixa-lo de fora. Por três razões: 1) É MUITO mais próximo da novela de Le Fanu do que, por exemplo, Let's Scare Jessica to Death, que sequer menciona o livro nos créditos. 2) É MUITO MAIS fiel à essência da novela do que as duas adaptações supostamente fiéis que já discutimos acima, tanto a da Hammer quanto a de Nightmare Classics. 3) Eu simplesmente AMO esse filme, então lidem com isso!😝

Também poderíamos dizer que The Moth Diaries compartilha com os demais filmes desse artigo um caráter low profile, passando batido pelos radares na época de lançamento e sendo convencionado como indigno de atenção, cultuado apenas por uma galera que já aprendeu a não dar tanta atenção às cotações de IMDb e Rotten Tomatoes no que refere ao cinema fantástico. Pra começo de conversa, é um filme extraordinariamente belo em todos os aspectos: elenco, figurinos, cenografia, fotografia, filmado num tom permanentemente etéreo, quase irreal, uma atmosfera de contos de fadas gótico que nos trás de volta às adaptações românticas de Vadim e Mastrocinque, porém com um peso emocional bem mais próximo de Hancock, quase um melhor de dois mundos. Talvez não tão devastador quando Let's Scare Jessica to Death, mas certamente tomando como ponto de partida o mesmo gancho que Le Fanu nos deixou em sua novela: a ideia de que o vampirismo pode surgir espontaneamente a partir do suicídio. E a angustiante noção de que quem morre sem ser visto ou lamentado, está fadado a permanecer entre nós.

Ambientado num colégio interno feminino onde outrora funcionava um hotel, o filme se estrutura basicamente como um triângulo afetivo entre a protagonista Rebecca (Sarah Bolger), sua melhor amiga Lucy (Sarah Gadon) e uma misteriosa nova aluna chamada Ernessa Bloch (vivida pela naturalmente sobrenatural Lily Cole). Marcada pelo suicídio do pai poeta, Becca divide com Lucy aquele tipo de amor que parece exclusivo do universo feminino, difícil de ser realmente entendido por meninos como eu, complexo e profundo demais até para ser descrito simplesmente em termos de homoerotismo. Ernessa abala essa relação ao exercer uma atração súbita e fulminante sobre Lucy, que Becca não consegue sequer compreender, muito menos contrapor, até que um novo professor de literatura coloca em suas mãos uma certa obra clássica da literatura gótica irlandesa... e, de repente, tudo faz sentido! Ou não...

Com uma pegada bem mais autoral do que Gabrielle Beaumont, Mary Harron acabou suprindo a falta de um olhar efetivamente feminino em meio a tantas versões de Carmilla escritas e dirigidas por homens (ao menos até o lançamento da produção de Emily Harris de 2019) e, de um modo ou de outro, consegue atravessar todas as principais temáticas e subtextos propostos por Le Fanu. Ernessa (como Becca não demora a perceber) é muito mais próxima da Carmilla do livro do que qualquer outra versão além da de Meg Tilly. Lânguida, melancólica, dotada de uma beleza estranha e perturbadora, e até mesmo "mais alta do que a maioria das mulheres", como Laura a descrevia. Mas a mudança do ponto de vista para alguém de fora do relacionamento central acaba permitindo novos e fascinantes insights não só sobre as nuances e complexidades do relacionamento entre Carmilla e Laura, como da própria natureza da condição vampírica, expressa na crescente identificação que Becca se vê obrigada a reconhecer em Ernessa. E, afinal, quem seria de fato a Laura dessa história?

Com imagens inesquecíveis como a caminhada noturna no ressalto das janelas da escola até o quarto cheio de mariposas, o banho de sangue na biblioteca, ou as maravilhosamente metalinguísticas cenas em que Becca lê algumas das passagens mais belas de Carmilla sob a luz do luar, The Moth Diaries é por si só uma preciosidade. E ainda que, talvez, não possa ser considerado superior a algumas das mais contundentes releituras e visões particulares sobre a novela de Le Fanu que temos discutido aqui, eu ousaria dizer que, de um ponto de vista mais generalista, o filme de Mary Harron é a obra que melhor conseguiu capturar o "espírito" de Carmilla de todas as que o cinema e a TV já conseguiram produzir até o momento.

E, sim, já me falaram que o livro de Rachel Klein é muito melhor. Mas, com todo o respeito, Glória... eu prefiro o filme!🥀😉


2014: The Unwanted
(A Intrusa)
EUA
Direção e Roteiro: Bret Wood

2014, bicentenário de Sheridan Le Fanu, foi o ano em que as comunidades LGBTQIA+ finalmente começaram a se apropriar de Carmilla sem pedir licença ou desculpas. Nada menos que três recriações do livro foram produzidas quase que simultaneamente, tendo em comum um foco muito mais voltado para questões de gênero, representatividade e protagonismo lésbico. As obras resultantes não poderiam ser mais diversas entre si, com visões muito particulares e fascinantes sobre as personagens e temáticas da novela. E ainda que faça falta uma adaptação contemporânea mais fiel ao enredo original, bem como a presença de mulheres ocupando diretamente as cadeiras de roteiro e direção (algo que ainda teria que esperar a versão de Emily Harris de 2019), com certeza são trabalhos que já dão uma bela problematizada na fetichização que atravessa, em maior ou menor grau, até mesmo as adaptações mais abertamente progressistas.

Meio que já metendo o pé na porta, The Unwanted é uma revisão bruta, cruel e realista, levando aos extremos certas possibilidades apenas esboçadas pela ambientação southern gothic de Gabrielle Beaumont em Nightmare Classics. Aqui Carmilla (Christen Orr) é uma mulher de carne e osso, assumidamente lésbica, viajando pelo sufocante sul dos EUA até New Canaan em busca de pistas do paradeiro da mãe que nunca conheceu, Millarca Karnstein (Kylie Brown). A trilha termina na porta do fazendeiro Troy (William Katt, numa performance pra lá de assustadora), dono do trailer isolado de onde Millarca aparentemente sumiu da face da Terra. Convencida de que o sujeito está escondendo alguma coisa, Carmilla se vê cada vez mais enredada numa incestuosa espiral de relacionamentos disfuncionais e doentios, conforme vai se deixando seduzir pela encantadora filha do fazendeiro (Hannah Fierman), uma jovem com fetiche por sangue e auto-mutilação chamada... Laura.

Só por essa sinopse já dá pra entrever a forma sagaz com que o roteiro vai se apoderando e re-significando algumas das principais passagens do livro. Desde o acidente de carro sofrido por Millarca remetendo ao famoso acidente de carruagem, até a complexa e fascinante subversão dos papéis de "vampira" e "vítima" no relacionamento sadomasoquista entre Carmilla e Laura, efetivamente revivendo o intenso e trágico affair vivido por sua respectivas mães, tantos anos atrás. O arquétipo da Condessa Karnstein do livro é tomado aqui como um símbolo, essência ou espírito que flui através do sangue, de mãe para filha, de amante para amante, herdado, bebido, trocado, partilhado. Uma imagem de extraordinária força, capaz de levar tanto ao estase quanto à repulsa, dependendo da pré-disposição do espectador e, acima de tudo, de seu gênero.

O ponto aqui é a mais ou menos o mesmo de La Novia Ensangrentada em 1971, o absoluto pavor masculino diante da mera possibilidade de que as mulheres se encontrem, se unam e os deixem para trás, sejam elas suas esposas ou filhas, mas aqui a abordagem é muito mais direta e "na veia" do que a versão de Aranda. Troy é o mais perfeito retrato do típico "cidadão de bem", convencido de que é seu direito e dever sagrado fazer tudo ao seu alcance para proteger sua família do "contágio" das terríveis "vampiras". Uma reinterpretação angustiante e assustadora do arquétipo do "grande matador de vampiros", que nos retete diretamente àquela famosa máxima de Margaret Atwood: "Homens têm medo que as mulheres riam deles. Mulheres têm medo que os homens as matem."

O problema, porém, (aliás, muito similar ao que já acontecia na versão de Aranda) é que me parece que o filme acaba dando espaço demais para as justificativas de Troy. Por mais que não haja dúvida da intenção de Bret Wood de apresenta-lo como um monstro (sem precisar de nenhum exagero ou caricatura pra isso), o fato é que todo o conflito nos é apresentado pelo ponto de vista dele. Até faz sentido manter Millarca como uma imagem etérea e quase mística, uma apaixonante figura meio hippie meio bruxa apenas vislumbrada em sonhos, visões e flashbacks, mas ainda que seja interessante o contraste do discurso distorcido e reacionário de Troy sobreposto à efetiva beleza das imagens do passado que o filme nos mostra, inadvertidamente isso acaba negando à Millarca e Karen a chance de narrar sua própria história! Com suas próprias vozes! Surge aí uma brecha para que todos os possíveis Troys na plateia escapem pela tangente (ou, saíam pela direita, como dizia o finado Leão da Montanha), uma brecha que acaba tornando a crueldade exagerada do desfecho não apenas questionável, mas até potencialmente perigosa.

É uma pena. Não chega a invalidar os méritos de The Unwanted como uma modernização sagaz e até brilhante em alguns momentos, mas certamente macula a impressão final. Quem sabe se tivesse tido um toque feminino no roteiro ou na direção, não é?


2014: Styria AKA The Curse of Styria AKA Angels of Darkness
Hungria/EUA
Direção: Mauricio Chernovetzky, Mark Devendorf
Roteiro: Karl Bardosh, Mauricio Chernovetzky, Mark Devendorf

Como num círculo que se fecha, Styria curiosamente parece revisitar e até arrematar vários dos tópicos do livro que cada uma das adaptações anteriores se apropriou individualmente em suas respectivas releituras. Temos aqui o conceito do vampirismo que nasce espontaneamente do corpo não velado de uma suicida, almejando acima de tudo seduzir suas jovens vítimas a se unirem a ela (como em Let's Scare Jessica to Death e The Moth Diaries), Carmilla apresentada como uma jovem sonhadora que tenta fugir de sua realidade imediata fantasiando sobre seus antepassados vampiros (como em Rosas de Sangue), o peso da ancestralidade como um fator determinante nos destinos dos vivos e dos mortos (La Cripta e l’Incubo), a sugestão de que situações de opressão social e política podem eclodir em erupções do sobrenatural (Alucarda), o vampirismo como uma insurreição dionisíaca, um pacto de sangue feminino contra a ordem social apolínea guardada e protegida pelos "grandes matadores de vampiro" (La Novia Ensangrentada e The Unwanted), a insinuação de que Laura atraiu Carmilla por ser uma espécie de vampira em potencial, seja por hereditariedade (Nightmare Classics´s CarmillaThe Unwanted) ou carência (Let's Scare Jessica to DeathThe Moth Diaries), sem contar, é claro, o regresso ao cenário gótico original do leste europeu pela primeira vez desde The Vampire Lovers. O inventário é tão completo que é difícil não pensar que tenha sido proposital, ainda que improvável. Até as mariposas de The Moth Diaries dão as caras!

O mais importante, claro, é a forma como o roteiro consegue equilibrar e desenvolver a contento todos esses elementos numa trama em si nova, mas fortemente ancorada na novela original, inclusive recriando passagens que quase todas as adaptações deixaram de fora, como Laura sendo atacada ainda criança pela mulher misteriosa escondida embaixo da cama, momento que ganha todo um novo significado ao ser relacionado à questão da "descendência distante dos Karnstein". De fato, teria sido justamente através da esposa, sobre a qual se recusa a comentar, que o professor e historiador vivido por Stephen Rea soube a respeito dos raríssimos murais de um antigo castelo num vilarejo da Styria, movendo mundos e fundos para atravessar a fronteira ao lado da filha Lara (Eleanor Tomlinson). Recém expulsa do colégio interno e frustrada ao saber que a amiga que aguardava para amenizar o tédio foi impedida de entrar no país, Lara acaba conhecendo e levando escondida para o castelo uma linda garota loira que socorreu num acidente de carro na mata, uma espevitada e encantadora jovem obviamente chamada Carmilla. Não demora pra que se descubra que a moça tem fama de desequilibrada no vilarejo, sendo perseguida pelo General Spiegel (Jacek Lenartowicz), responsável pela lei e ordem na região. A situação desembocará em tragédia e da tragédia para o fantástico.

Fica evidente como o filme vai recriando diversos pontos do plot da novela para um contexto atual, de forma muito semelhante a The Unwanted, mas enquanto lá a sensação era mais de uma infiltração gradual da novela no moderno cenário sulista americano, aqui é como se os poucos personagens de fato contemporâneos (em essência apenas Lara e seu pai) fossem tragados para um ambiente gótico do leste europeu, imutável ao passar dos séculos, quase como numa viagem do tempo. Um ambiente em que as antigas crenças folclóricas em vampiros, bruxas e fantasmas impregnam tanto os murais em ruínas no castelo quanto o próprio ar que se respira, apenas aguardando que certos padrões se repitam para se manifestarem uma vez mais. Tudo isso dá à Styria uma aura efetivamente atemporal, impressão reforçada pelas locações num legítimo castelo húngaro (bem ao estilo do cinema gótico europeu nos anos 60 e 70), a belíssima fotografia acinzentada e lúgubre e até mesmo o delicioso sotaque "styriano" da atriz polonesa Julia Pietrucha no papel de Carmilla.

Mas o filme atinge seu melhor no cuidadoso e elegante retrato de Carmilla como arauto de um feminino primal, selvagem e incontrolável, banido para as profundezas por séculos de opressão, mas prestes a explodir em justa fúria contra seus algozes. Um feminino bacante, dionisíaco, pronto a devorar a carne e beber o sangue da fera-macho canibal que atravessa os séculos devorando seus próprios filhos. As filhas de Hecate em guerra contra os filhos de Saturno, ambos retratados nos murais que protegem as antigas passagens e criptas inundadas do castelo, as mesmas criptas onde a jovem Carmilla buscava refúgio, até que besta-fera a encontrou. Uma simbologia complexa e ambivalente que os diretores Mauricio Chernovetzky e Mark Devendorf são sábios o bastante para não tentar simplificar, ao mesmo tempo em que evitam habilmente cair nas mesmas armadilhas de La Novia Ensangrentada e The Unwanted. O que não falta em Styria é voz para suas protagonistas e na intensa, contraditória e apaixonante relação entre Lara e Carmila expressa-se um conflito milenar e terrível, que certamente motivará muitas outras releituras do clássico de Le Fanu nas décadas que virão. Se o mundo durar até lá, é claro.


2014-2017: Carmilla / The Carmilla Movie
Canadá
Direção: Spencer Maybee, Mars Horodyski
Roteiro: Alejandro Alcoba, Jordan Hall

Ok, confesso que por muito, mas muito pouco mesmo, não deixei essa Carmilla de fora do artigo. Eu tinha pego implicância, a verdade é essa. Mas entendam, por mais que a tradição seja que as adaptações tendam para o inusitado e o fora da curva, uma comédia romântica adolescente parecia um tanto fora da curva DEMAIS pra mim! Fora isso, durante o período que a web-série esteve em produção, entre 2014 e 2016, pesquisar sobre o livro e suas versões no google virou uma tarefa desesperadora! O termo "Carmilla" inevitavelmente te jogava em páginas e mais páginas de fotos de Natasha NegovanlisElise Bauman e você teria que garimpar fundo pra achar qualquer outra coisa (algo particularmente irritante por coincidir com o lançamento de The Unwanted e Styria, sem contar as primeiras notícias sobre a produção de Emily Harris), então por favor entendam que eu tinha lá meus motivos pra ficar de má vontade. Assim, em princípio joguei a série na mesma vala comum de outras supostas Carmillas que apareceram nos últimos anos e que achei por bem ignorar, mas lá no fundo eu ficava meio encanado, afinal essa vala incluía troços como isso aqui, sei lá... parecia meio excessivo tratar a série desse jeito sem nem ao menos tentar dar uma olhada... Por fim, ainda meio emburrado, sentei pra começar a maratona...

Natasha
... Elise... pirdoa! Amo vocês!🙏❤️

Que delicinha de seriado... que delicinha de filme, que coisa mais fofa, viva e acolhedora! As três temporadas passam voando, não só pela estrutura de episódios de no máximo dez minutos, com narrativa estilo vlog, simulando uma transmissão online infinita, mas pelo ritmo, humor, plot twists, sacadas bem boladas e, acima de tudo, pelo carisma e simpatia do jovem elenco formado quase que inteiramente por LGBTQIA+, vivendo uma ensandecida aventura sobrenatural que, suponho, deixaria até Buffy com inveja.

Porém, como já deve ter ficado bem evidente, a série é sim MUITO fora da curva em relação à obra original. Muito mais do que qualquer das versões que discutimos acima, mesmo as mais infiéis. Nem tanto em relação ao enredo, nesse aspecto até que Carmilla - A Série se ancora bastante na novela como ponto de partida (bem mais do que eu esperava). É meio tipo A Tumba de Drácula, uma continuação que estabelece que a protagonista não morreu (claro) no final do livro e continua zanzando por aí por todos esses séculos, reaparecendo hoje como uma deslumbrante sapinha emo-gótica dividindo o quarto com a estudante de jornalismo Laura Hollis num bizarríssimo colégio interno assombrado na Styria! A série até chega a se apoderar daquela célebre lacuna da misteriosa Condessa Mãe para obter a sua arqui-vilã! Uma terrível, maquiavélica e poderosíssima Bruxa-Deusa-Vampira ladra de corpos que tem criado "filhas-vampiras" desde a antiguidade, armando golpes como os do baile do General Spieldorf e o acidente da carruagem, para infiltrar a sedutora Carmilla no seio das famílias nobres e abastadas do leste europeu e assim colocar suas garras em jovens virgens que serão oferecidas em sacrifício para uma divindade lovecraftiana primal que...

Bom, você entendeu. A série não tem a menor intenção de ser uma história de horror, muito menos gótica. E não está nem um pouco interessada no peso, melancolia ou nos subtextos complexos que atravessam a novela e alimentaram as demais adaptações. No limite, mal está interessada em vampiros, Carmilla está muito mais pra uma super-heroína sobrenatural, com sua super força e o poder de se transformar numa enorme gata! Da qual, aliás, só ouvimos falar, já que nunca abandonamos o ponto de vista da webcam do notebook de Laura, algo que pode soar limitador, mas acaba virando um dos maiores charmes do seriado, a ponto de cada pequeno momento de quebra dessa estrutura (especialmente nos finais de temporada) ganhar ares de verdadeiro evento. Resumindo: tirando as referências ao enredo original, Carmilla - A Série não tem absolutamente NADA de Le Fanu! A intenção é sim ser uma comédia romântica sobrenatural e ponto! Cheia de aventuras, perigos e citações espertas, mas não mais do que isso. O foco é a história de amor entre Laura e Carmilla. E, ao contrário do livro, aqui ninguém está interessado em ambiguidade: é de amor mesmo que estamos falando.💕

E essa é a real importância da série: ver a galera queer tomando posse de uma das mais famosas vampiras lésbicas da história da literatura gótica de forma direta, dispensando intermediários ou subterfúgios, sem pedir licença e, principalmente, sem se desculpar por querer ser leve e acima de tudo divertida. Todas, todos e todes envolvides na série, sejam personagens, elenco ou público, sabem muito bem o que querem depois de todas as peripécias, dramas e perigos: um final feliz para Laura e Carmilla. E é isso que terão. Não é pouco no mundo em que (ainda) vivemos. Na verdade é mais do que suficiente para tornar Carmilla - A Série uma das mais importantes releituras do clássico de Le Fanu, para além de quaisquer (in)fidelidades.

E pra quem já se assumiu creampuff (entendedorxs entenderão), The Carmilla Movie é a proverbial cereja do bol... ora, do creampuff. Financiado diretamente pelas fãs só pra trazer a duplinha dinâmica de volta para uma última (mas não necessariamente derradeira) aventura, dessa vez livres das restrições do formato vlog e podendo até se dar ao luxo de (ora vejam!) brincar de gótico, botando Natasha Negovanlis e Elise Bauman pra usar (e tirar, se é que me entendem) legítimos figurinos vitorianos num casarão old school apropriadamente assombrado. E ainda aproveita pra arrematar uma pequena ponta solta lá do princípio da série: se Laura é uma personagem do presente, então quem era e que fim levou a garota do livro original? Inútil dizer que se você não se interessa pela série, nem adianta ver o filme. De minha parte, é claro que a ambientação me fez curtir ainda mais. Como não amar Natasha e Elise dançando valsa em trajes de época? As duas podem até não ter muito a ver com as infelizes Carmilla e Laura originais, mas tem tudo a ver conosco, lutando por um mundo com mais e melhores utopias.



2019: Carmilla
Inglaterra
Direção e Roteiro: Emily Harris

Independente de qualquer coisa, Carmilla, de Emily Harris, já nasceu histórica. Pra começar, pelo mais prosaico dos motivos: é a primeira adaptação cinematográfica da novela de Sheridan Le Fanu a ostentar o título Carmilla! Como se lembram, todas as outras versões a fazer isso eram televisivas (Nightmare Classics, o episódio perdido de Mystery and Imagination, aquele inacessível telefilme polonês de 1980 e, vá lá, The Carmilla Movie). Soaria inacreditável, se já não tivéssemos discutido tão longamente essa espécie de "tradição" low profile que atravessa todo o histórico das adaptações do livro, um caráter no qual a produção indie de Emily Harris definitivamente se encaixa, com sua trajetória quase underground nos circuitos de festivais e mostras de cinema alternativo desde meados de 2019, culminando numa discreta distribuição em poucas salas (bastante prejudicada pela pandemia de covid, ainda por cima) e um lançamento em streaming somente a partir de outubro de 2020. É o tipo de filme que quase parece pedir uma aura de "só para iniciadas" e que, talvez, daqui a uns dez anos só será conhecido e devidamente apreciado pelo mesmo tipo de connoisseurs que já se dispunha a garimpar as adaptações anteriores.😉

Mas sua real importância é outra. Trata-se da primeira adaptação inteiramente dirigida, escrita e produzida por mulheres, algo que nem mesmo as versões mais progressistas, feministas e queers de 2014 em diante poderiam se gabar. E, como não podia deixar de ser, tal protagonismo atrás das câmeras naturalmente percola por todos os demais aspectos da produção, desde a particular leitura da novela até as escolhas estéticas e estilísticas. Acima de tudo, Carmilla é um filme estonteantemente belo, hipnotizante mesmo, todo fotografado com iluminação natural, repleto de velas, candeeiros, vitrais, reflexos e contraluzes, que lhe dotam de uma atmosfera bastante similar à clássica adaptação de Schalcken the Painter para a BBC em 1979 (um parentesco que Harris parece sinalizar aos entendidos logo no início, compondo a mise-en-scène da sala de jantar de forma quase idêntica a da casa de Gerrit Dou), uma textura granulada, turva e etérea, como uma fotografia antiga, que nos captura num microcosmo gótico de desejos reprimidos e fantasias à meia-luz. O primeiro encontro entre Carmilla e Lara talvez seja o momento mais extraordinário nesse sentido, com Devrim Lingnau literalmente emergindo das sombras e adentrando a bruxuleante "concha" de luz criada pela vela de Hannah Rae. Ousaria dizer que é a melhor introdução que a personagem já teve dentre todas as versões existentes, tão perfeita que não hesito em confessar que, deste ponto em diante, eu já estava perdida e irremediavelmente apaixonado pelo filme.🥀

Mas já deve ter ficado claro que, como também manda a tradição, Harris não está interessada em mera fidelidade ao enredo. Os elementos (e lacunas) mais essenciais estão todos lá, a jovem solitária que anseia pela visita de uma amiga de sua idade, a carruagem acidentada, a menina lânguida e linda que ninguém sabe de onde veio e o relacionamento simultaneamente apaixonante e perturbador que irá desestabilizar uma situação familiar de aparente equilíbrio introduzindo forças dionisíacas num microcosmo apolínio rigorosamente ordenado... e frágil. A grande (e desconcertante) diferença é que dessa vez não são os homens os guardiões desses domínios de Apolo, mas uma personagem que sequer era lembrada na maioria das outras adaptações, a governanta e tutora da jovem Lara, Miss Fontaine (no livro, Mademoiselle De Lafontaine), vivida de forma contida, sutil e plena de nuances por Jessica Raine. Uma mulher reprimida e anulada por uma vida inteira vivida em termos alheios, assombrada pelos fantasmas de tudo o que foi obrigada a renunciar e que, tal como a protagonista do clássico A Volta do Parafuso, sente o chão ruir sob seus pés ao pressentir a perda de influência sobre a jovem que, para todos os efeitos, se tornara o único foco de sua existência. Desse estranho triângulo de afetos, com governanta e pupila na base e a enigmática Carmilla no vértice, Harris reestrutura todo o conflito da obra de Le Fanu, tornando sua releitura, acima de tudo, uma história de mulheres e sobre mulheres. As figuras masculinas até estão presentes, mas como sombras ou extensões, submetidas a um tropos feminino. Será Miss Fontaine quem efetivamente exercerá os papéis de pai, médico, general, enfim, dos "grandes matadores de vampiro" da novela, reconhecendo em Carmilla mais do que uma simples "má influência", mas uma espécie de nêmeses, sua grande "adversária" (em todos os sentidos do termo, particularmente o bíblico), numa disputa pelo coração e "alma" da jovem Lara, com os mais trágicos resultados.

"Mas então Carmilla não é uma vampira?" Bom, não é tão simples assim. A princípio não haveria vampiros aqui, nem nada ostensivamente sobrenatural. A própria Harris descreve o filme como uma "história de amor descarrilada" ou "uma história sobre nossa tendência como humanos a demonizar o outro", afirmações que podem nos levar a uma leitura bastante direta e reta dos acontecimentos do roteiro, o que pode tornar o desfecho um tanto frustrante, quase démodé se levarmos em conta o quanto já avançamos nos debates sobre representatividade nas artes (digamos que, politicamente falando, a celebração colorida e exuberante das relações queer em Carmilla - A Série ressoa de forma muito mais contundente no nosso atual contexto sócio/cultural). Mas a despeito de suas declarações, o que Harris efetivamente nos entrega está muito longe do realismo de The Unwanted, por exemplo, esse sim uma versão indiscutivelmente não-sobrenatural da história. A Carmilla de 2019 é, acima de tudo, uma obra gótica e, na abordagem gótica (como admito que não canso de repetir) são os detalhes que importam. O filme é pleno de brechas e lacunas, de imagens estranhas e surreais, insinuações e pontos cegos, contrapontos que vão ampliando sua ressonância a cada revisão. Afinal, quem seria de fato essa menina misteriosa que Lara batizou de Carmilla? (sério, não tenho palavras para descrever o quão GENIAL é essa simples ideia!) De onde vinha e para onde ia a carruagem acidentada da qual (curiosamente como em Nightmare Classics) Carmilla é a única sobrevivente? De quem era aquele crucifixo? O que simboliza o intrigante momento em que o broche e a pele se separam (e porque a falecida mãe insistia tanto que isso não devia acontecer)? Como devem ser lidas as sinistras visões de gore e sangue que tendem a tomar Lara de assalto? O que realmente aconteceu com Charlotte, a menina cuja visita era esperada, constantemente relembrada com uma ênfase muito maior do que sua contraparte na novela? Como exatamente Lara e Carmilla conseguiram escapar do casarão? Sobre o que era, afinal, aquele estranho livro cheio de gravuras fantásticas? Seria essa de fato apenas uma história de amor trágica, sem absolutamente nada de fantástico ou sobrenatural? 

OPA! Nada de tentar responder correndo, crianças!😉 Diria até pra aproveitarem a chance pra começar a aprender a resistir, ao menos um pouquinho, a esse imperativo moderno da "opinião" e da "explicação". Deixar perguntas no ar, permitir que o filme prossiga vivo e aberto na imaginação da audiência, independente até das próprias convicções, é justamente o que faz da Carmilla de Emily Harris uma sucessora tão digna dessa linhagem de singulares re-leituras da obra-prima de Sheridan Le Fanu. E o mínimo que podemos fazer diante de tal generosidade (se formos sábios o bastante, quero dizer), é tentar colocar em suspenso nossas preciosas opiniões, gostos e certezas. Nos permitir derivar livre e arriscadamente por cômodos mal iluminados, colinas assombradas por espíritos... e superfícies de lagos espelhados... seguindo os leves passos de Carmilla aonde quer que ela ainda queira nos levar, pela história do cinema e além... até desvanecermos finalmente na escuridão... e no esquecimento.🍷

3 comentários:

  1. Que belo apanhado! Se me der sua licença, vou usar seu estudo como referência em meu podcast :)

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    1. Ôxe! E por que mais eu escreveria um texto desse tamanho senão pra galera usar como referência? ;D Só um detalhe: estou dando uma revisada no artigo nesse exato momento para incluir a adaptação de Emily Harris que saiu faz poucos dias. Não sei exatamente quanto vou demorar, mas é possível que até semana que vem já tenha a "Carmilla" de 2019 aqui, tá? Bom trampo aí e se quiser perguntar ou debater alguma coisa não hesite em me chamar! =D

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    2. Oba! Vou ficar de olho então ☺️

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