Os Leves Passos de Carmilla - Maratonando as Adaptações do Clássico de Sheridan Le Fanu

"Até hoje a imagem de Carmilla me vem à memória numa alternância ambígua: as vezes é a menina brincalhona, lânguida e linda; outras é a horrível abominação que vi na capela. Algumas vezes, sonhando acordada, começo a imaginar que estou ouvindo, entrando na sala, os leves passos de Carmilla." (Sheridan Le Fanu - Carmilla)
O velho conde que me perdoe... mas Carmilla sempre será minha vampira do coração.❤ Aliás, Condessa Mircalla Karnstein, também conhecida como Millarca, Marcilla e possivelmente outros nomes que alternam as mesmas letras, sem acrescentar ou omitir nenhuma. Meu afeto é de tal ordem que o artigo que estão prestes a ler tem sido adiado praticamente desde que o blog existe, tamanha a minha hesitação em finalmente me atrever a sentar e escrevê-lo. Isso porque eu sabia (como ainda sei) o quão arriscado é chegar perto demais da Condessa Karnstein, quanto mais ousar tecer considerações (pseudo)críticas. Ainda que relativamente discreta e até modesta em sua posição de direito na literatura gótico/vampírica ocidental (especialmente levando em conta a onipresença de seu mais célebre "filhote", Drácula, na cultura pop) a breve novela de Sheridan Le Fanu é o tipo de obra que não se deixa dissecar impunemente, quase sempre refletindo muito mais as neuras, preconceitos e anseios dos pretensos resenhistas do que qualquer outra coisa, afinal, como já comentei no meu artigo sobre as tentativas de adaptar Drácula para o cinema, não são os vampiros que aparecem em espelhos. 😉

A imagem mais próxima da Carmilla da minha
imaginação, de acordo com as descrições
de Le Fanu. Foto de uma produção teatral
canadense disponível no deviantart.com.
A própria insistência com que o chavão "Carmilla, a vampira lésbica" costuma ser repetido em tudo quanto é artigo, crítica ou resenha parece evidenciar muito mais um desejo de apropriação fetichista do que qualquer tentativa real de aprofundamento. Evidente que esse aspecto é vital na novela, mas o hiper-foco tende a distorcer e nublar suas nuances e ambiguidades, no limite reduzindo Carmilla a uma espécie de imagem fetiche. É curioso que tanto as (hiper)sexualizações para consumo heterossexual masculino quanto as representações estilizadas de empoderamento feminino e orgulho LGBTS+, tendem a retratar a personagem de forma curiosamente similar nas fan-arts, ilustrações e cosplays pela internet afora, quase sempre como uma sexy e auto-confiante vamp de roupas pretas, olhar lascivo e atitude a la dominatrix. Muuuuuito distante da figura "esguia, e maravilhosamente graciosa, (...) com feições pequenas lindamente formadas" que Le Fanu nos descreve em sua novela. A "languidez" e a "melancolia", tão reiteradas no livro, quase sempre são deixadas de lado, bem como o contraste dessa aparente delicadeza e o perigo latente (nos múltiplos sentidos que a palavra "perigo" evoca) representado por sua atração pela jovem Laura.

Joseph Sheridan Le Fanu,
o príncipe invisível de Dublin.
É até compreensível que tais aspectos não soem tão atrativos hoje em dia, sendo facilmente tomados por meras afetações vitorianas ou preconceitos de autor, mas é sempre bom lembrar que Carmilla é um livro apenas enganadoramente simples. A narrativa em primeira pessoa, a princípio tão direta em comparação com o formato epistolar de Drácula, é plena de ambiguidades que parecem revelar uma certa reticência da parte de Laura para com seus próprios sentimentos em relação à sua misteriosa hóspede, constantemente descrita em mesclas de atração e repulsa. Aos seus olhos, as declarações apaixonadas de Carmilla ora soam passionais e sinceras, ora dissimuladas e manipulativas e o fato é que não temos como ter mais convicção de nossas impressões sobre a personagem e os eventos que nos são apresentados do que a própria Laura é capaz de ter. É interessante como ela parece hesitar em afirmar a verdadeira natureza de Carmilla mesmo quando as evidências que ela mesma nos narra já se tornaram óbvias e como, ao final, parece esquecer (ou propositalmente ignorar) algumas lacunas muito curiosas, como o papel representado pela misteriosa "mãe" e os lacaios da carruagem acidentada, o homem de preto que aparece no baile e até mesmo o estranhamente ambivalente mendigo corcunda. Tudo isso desembocando na diáfana e arrepiante menção aos "leves passos de Carmilla entrando na sala de estar" literalmente na última linha da novela, uma frase tão maravilhosamente sugestiva que as traduções nem sempre conseguem lhe dar conta.

Célebre ilustração de D. H. Friston para a
primeira publicação da novela,
no periódico The Dark Blue, 1872.
"Carmilla já foi lida como uma fábula da sexualidade reprimida (com Carmilla representando o despertar da identidade sexual da própria Laura), como uma metáfora do incesto e da transgressão sexual juvenil, como advertência gótica aos perigos da homossexualidade, como parábola da repressão patriarcal (...), outras leituras apontaram para as diferenças étnicas, a demonização da mulher e o fascínio de Le Fanu pelas teorias espirituais de Swedenborg" (Jamieson Ridenhour - citado na introdução da edição da Editora Hedra) e o mais fascinante dessas e outras leituras é que são todas perfeita e simultaneamente válidas... e equivocadas. Indubitáveis... e duvidosas. Definitivas... e controversas. E o único fato que me parece realmente certo é que, no fim, o livro sempre sobreviverá a todas elas. As melhores análises, a meu ver, são aquelas que abraçam o mistério ao invés de tentar "explica-lo", que fluem através das ambiguidades sem forçar-lhes um sentido único, que encaram as lacunas como terra incognita onde a história de Mircalla Karnstein pode continuar para sempre, ao invés de cristalizar a novela na própria imaginação e taxar cada ponto obscuro simplesmente como um "furo", como alguns booktubers mais afobados costumam fazer ("Olha, mamãe, achei um furo num clássico!" 😝).

Carmilla foi publicada inúmeras vezes no Brasil,
mas essa é a única edição que traz também
três outras histórias do volume In a Glass Darkly,
onde a novela foi compilada pela primeira vez
(mas detalhes nesse apontamento). 
Daí minha estratégia de, seguindo o exemplo da própria condessa, não sair por aí me jogando de forma desleixada e deselegante em cima do meu objeto de desejo estudo, mas sim ir me aproximando obliquamente, numa côrte cuidadosa, pela via das notáveis e singulares adaptações que a novela foi ganhando no decorrer da história do cinema. Uma espécie de... "engenharia reversa", digamos assim. Há anos sou obcecado em garimpar essas releituras e quando digo "garimpar" quero dizer "garimpar" mesmo, pois as adaptações de Carmilla sempre tiveram uma curiosa tendência para o low profile, para os mercados de nicho e circuitos alternativos, aquele limiar entre o cinema de gênero e o avant-garde, entre o exploitation e o indie, produções estranhas e obscuras dos mais diversos países, em geral conhecidas apenas por um seleto grupo de connoisseurs do fantástico. Com raríssimas (e, como veremos, duvidosas) exceções, nenhum desses filmes estava de fato interessado em ser meramente "fiel" ao enredo da novela. Cada cineasta se apropriou da obra de Le Fanu de acordo com suas próprias tendências e obsessões, focando em alguns aspectos em detrimento de outros, reinterpretando as lacunas e ambiguidades das formas mais inesperadas e fascinantes. O resultado é um verdadeiro mosaico, quase único na história das adaptações de clássicos literários, um labirinto no qual, é claro, a Condessa Karnstein estará sempre um bocadinho além da próxima curva, enquanto nós (pobres mortais) seguiremos vagando pelos corredores espelhados em busca do mais remoto vislumbre, ouvindo o eco dos leves passos de Carmilla perdendo-se na escuridão e na distância.

Juntam-se a mim nessa maratona? Só duas coisinhas antes de começarmos: 1) Infelizmente a lista não está completa. Certos títulos são quase impossíveis de achar, mesmo na internet, como a lendária versão produzida para a TV polonesa de 1980 (que eu daria meu dedo mindinho pra achar um release com legendas). Também está faltando a novíssima adaptação da cineasta britânica Emily Harris, ainda inédita em boa parte do mundo apesar de ter sido lançada em 2019. Mas não se preocupem, crianças, assim que cair nos torrents da vida esse artigo será devidamente atualizado.🧐 2) O texto, naturalmente, está cheio de spoilers do livro (dos filmes nem tanto), então tenham a bondade de (re)ler antes de começarmos, ok? Muito bem, agora sim... vamos lá...



1960: Et mourir de plaisir AKA Blood and Roses
(Rosas de Sangue)
França/Itália
Direção: Roger Vadim
Roteiro: Claude Brulé, Claude Martin, Roger Vadim, Roger Vailland

Tecnicamente, a primeira adaptação de Carmilla foi Vampyr (1932) de Carl Theodor Dreyer, que ostentava nos créditos de abertura um "livremente inspirado em In a Glass Darkly de Sheridan de Fanu" (a coletânea onde a novela foi publicada em livro pela primeira vez, em 1872, depois de estrear serializada no periódico The Dark Blue, entre 1871 e 72), mas ainda que seja um clássico indiscutível e, talvez, uma das melhores traduções imagéticas do estilo assombrado e onírico das obras de Le Fanu para o audio-visual, o fato é que... bom, não tem Carmilla nenhuma no filme! 🤔 Isso meio que dá à Rosas de Sangue uma legitimidade bem maior como estreia da Condessa Karnstein em celuloide. E uma estreia assim tão enviesada e fugidia não deixa de ser apropriada para uma personagem tão esquiva.

Ambientado em tempos modernos, o filme de Roger Vadim é na verdade uma espécie de "continuação" livre da história original. Longe de serem um clã extinto como no livro, os Karnstein são uma simpática família de aristocratas que adoram divertir os amigos com histórias pitorescas sobre seus ancestrais "vampiros", como uma certa Condessa Mircalla Karnstein, cuja pintura na sala de estar revela uma surpreendente semelhança com sua descendente mais direta, a jovem Carmilla, vivida pela encantadora Annette Stroyberg (na época esposa do diretor). Fascinada pelas histórias sobre sua ancestral, que teria morrido de amor por um primo e enterrada por ele numa tumba secreta, Carmilla logo se revela igualmente apaixonada pelo seu próprio primo Leopoldo (Mel Ferrer) que está prestes a se casar com Georgia (Elsa Martinelli, tão linda que dá vontade de chorar). Durante a festa a fantasia na qual o noivado é anunciado, um acidente com a queima de fogos acaba causando uma explosão nas ruínas do castelo dos antigos Karnstein nos arredores da propriedade. Vagando melancólica pela área depois da festa, Carmilla encontra aquilo que parece ser a tumba secreta de Mircalla, desenterrada pela explosão, e uma vez lá dentro... algo acontece... algo passível de mil debates e especulações, mas aparentemente a Carmilla que emerge da tumba ao amanhecer não é mais exatamente a mesma pessoa que entrou.

É compreensível que essa sinopse cause uma certa reticência (ainda mais hoje em dia) pelo elemento lésbico da novela supostamente ter sido deixado de lado em prol da velha e cansativa rivalidade feminina por um homem, com a aparentemente vampirizada Carmilla se tornando uma potencial ameaça para sua futura prima Georgia. Mas não se pode esquecer que há sim justificativa no livro para tal abordagem, mais especificamente no penúltimo capítulo, quando o Barão Vordenburg relata um histórico surpreendentemente hétero para a falecida Condessa Karnstein, que teria sido de fato sepultada numa tumba secreta por um primo apaixonado. A passagem, obviamente, é passível de debate e múltiplas interpretações, mas entre as inúmeras lacunas e elementos ambíguos do texto de La Fanu, esse foi o ponto de entrada que Vadim escolheu adotar.

Mas nada no filme é tão claro quanto a sinopse inicial faz pensar. Pra começar o aspecto homoerótico não desaparece completamente e as vezes é difícil definir qual é o verdadeiro foco da obsessão de Carmilla: Leopoldo ou Georgia que, de fato, parece nutrir um afeto um tanto além do fraternal pela sua geniosa, mas indiscutivelmente apaixonante, futura prima. "Como ela é bela, eu deveria ter ciúmes, mas por alguma razão, não consigo." diz ela enquanto vela encantada o sono da pretensa rival, nos levando a intuir que se Carmilla de alguma forma se tornou um veículo para o renascimento de Mircalla, talvez Georgia meio que precise ocupar o papel vago de Laura, e o melancólico desfecho ainda trás à tona um curioso aspecto da novela que muitas vezes é esquecido por resenhistas e críticos mas que acabou (como veremos) intrigando particularmente vários dos cineastas que se aventurariam a adaptar a história no decorrer dos anos: a vaga insinuação de que a mãe de Laura teria sido ela mesma uma descendente distante dos Karnstein, adicionando inúmeras camadas especulativas aos acontecimentos do livro.

Por outro lado, não dá pra negar que o lesbianismo de Rosas de Sangue se dá muito mais em função do personagem de Mel Ferrer, como o próprio cartaz original francês escancara para bons e maus entendedores. Ainda levaria um tempo para que problematizações de gênero e sexualidade se tornassem um ponto de discussão nas adaptações de Carmilla (e a própria fama de Vadim de adorar colocar suas esposas para "contracenar" com outras atrizes não nos permitiria esperar nada muito diferente). Felizmente, a sutileza com que a trama se desenvolve e a recusa em fechar completamente os elementos fantásticos e surreais (nunca temos certeza se Carmilla se tornou de fato uma vampira ou se está delirando, se é que faz diferença) ou mesmo bater o martelo sobre os possíveis significados da história, mantém o filme devidamente aberto e arejado para que o público possa "entrar" e se apropriar de suas belíssimas e ambíguas imagens da forma que melhor lhe aprouver, criando e recriando Rosas de Sangue a cada projeção. Nesse aspecto, mesmo fugindo do enredo original, é uma das versões que melhor capturam a atmosfera onírica e melancólica de Le Fanu... e, acima de tudo, sua beleza. Independente de quaisquer críticas ou aspectos passíveis de questionamento, nada tira o mérito de Rosas de Sangue de ser um dos filmes mais deslumbrantes que o cinema de horror gótico europeu já produziu, motivo mais que suficiente para nos perdermos em suas imagens.



1964: La Cripta e l’Incubo AKA Crypt of the Vampire
(O Túmulo do Horror)
Itália/Espanha
Direção: Camillo Mastrocinque
Roteiro: Tonino Valerii, Ernesto Gastaldi, María del Carmen Martínez Román, José Luis Monter

A coisa mais inusitada a respeito dessa contribuição do ciclo de cinema gótico italiano dos anos 60 e 70 para o mito da Condessa Karnstein é que, por incrível que pareça, o filme funciona muito melhor se o espectador NÃO souber absolutamente NADA sobre o livro. E quando digo nada não é apenas não ter lido, é nunca nem ter ouvido falar da história e das personagens. Isso porque, ainda que a adaptação de Camillo Mastrocinque seja até bastante fiel à novela em inúmeros aspectos, o roteiro meio que dá uma torção na trama de modo a fazer o público acreditar (ou ao menos suspeitar) que a vampira da história é a Laura, aqui chamada justamente de Laura Karnstein! 😮

La Cripta e l’Incubo toma como ponto de partida a mesma sugestão de Le Fanu que mencionei acima de que a própria Laura é uma descendente distante dos Karnstein por parte de mãe. Esse elemento da novela é o que permite a particular interpretação de que o interesse de Mircalla talvez não tenha sido tão fortuito quanto o ataque à protegida do General Spieldorf, ou mesmo que suas declarações apaixonadas por Laura seriam muito mais do que um mero modus operandi numa longa série de vítimas (o que tornaria a arrepiante visita noturna durante a infância de Laura ainda mais sugestiva). Mastrocinque não vai tão longe nessas especulações, mas aproveita a deixa para, bem ao gosto italiano, transformar o plot original de vampirismo em uma história de bruxaria e vingança além-túmulo (num eco evidente do clássico Black Sunday, de Mario Bava). Uma narrativa intrigante cheia de charadas e pistas falsas, na qual ninguém menos que Christopher Lee, como o Conde Ludwig Karnstein, contrata um jovem escolástico para ajuda-lo a descobrir se sua filha Laura é ou não a reencarnação de uma terrível feiticeira que amaldiçoou para sempre o destino da família.

O problema, claro, é que trocar os nomes Mircalla por Sera de Karnstein e Carmilla por Ljuba, não vai despistar ninguém que tenha a mínima noção da história. Assim que vemos o acidente da carruagem e a aparição da misteriosa condessa de negro afirmando que precisa seguir viagem e deixar sua (no caso) sobrinha Ljuba (Ursula Davis) aos cuidados de Laura já sabemos que estamos diante da verdadeira vampi... quer dizer, bruxa da história. Na verdade, o que isso evidencia é o quanto a novela de Le Fanu demorou para se infiltrar no imaginário popular em relação a outros clássicos góticos que o cinema se interessou em abocanhar muito mais cedo, como Frankenstein, O Médico e o Monstro e o próprio Drácula. Indigno para um clássico dessa envergadura, sem dúvida, mas por outro lado foi essa obscuridade que dotou Carmilla dessa aura requintada de "só para iniciados" que em maior ou menor grau se mantém até hoje. E possivelmente um dos principais fatores para que suas igualmente obscuras versões cinematográficas e televisivas se sentissem tão livres para maiores ousadias narrativas, temáticas e estéticas, por mais que algumas ideias (como fazer um whodunit gótico) nem sempre vingassem.

Enfim, independente do auto-spoilerLa Cripta e l’Incubo é um notável representante do cinema gótico italiano do período, com uma série inspiradíssima de momentos arrepiantes e atmosféricos, bem como aquela ambiguidade moral e simbólica tão típica do gênero, expressa principalmente na figura da governanta Rowena, de Nela Conjiu, invocando os poderes das trevas para proteger sua jovem patroinha das forças do mal. E, ainda que de forma infiel, faz um uso interessante de vários elementos chave do livro, como a manipulação emocional de Carmilla/Ljuba sobre Laura (passível de debate no livro, mas aqui indubitável), a já citada aparição da enigmática condessa de negro (que Mastrocinque, assim como Le Fanu, jamais tenta explicar) e, acima de tudo, a fantástica performance do mendigo corcunda de Angel Midlin, que acaba sendo extrapolada para o mais surpreendente e efetivo uso do artefato ocultista da "mão da glória" já visto em um filme de horror!


1970: The Vampire Lovers
(Carmilla, a Vampira de Karnstein)
Inglaterra/EUA
Direção: Roy Ward Baker
Roteiro: Harry Fine, Michael Style, Tudor Gates

Por fim, coube à lendária Hammer Films produzir a primeira adaptação intencionalmente fiel ao clássico de Le Fanu. E única nos cinemas, já que as demais versões que buscam seguir o enredo original são produções televisivas (no caso o episódio de Nightmare Classics sobre o qual falarei mais abaixo e, ao que tudo indica, aquela obscuríssima versão polonesa que nunca consegui pôr as mãos 😐). Quem for familiarizado com o histórico da Hammer vai sacar a ironia, pois o estúdio nunca foi de esquentar a cabeça com "fidelidade", vide as célebres franquias de Drácula e Frankenstein. Ao que me consta, as únicas adaptações realmente fiéis de clássicos da literatura gótica que o estúdio produziu foram O Cão dos Baskervilles e o próprio The Vampire Lovers (sem contar o mais contemporâneo The Devil Rides Out, baseado no então best seller de Dennis Wheatley).

"Mas... com esse título... é mesmo fiel?" Então, pois é... sim... e não. O ponto todo é a famosa diferença entre a obra artística em si e a embalagem de marketing que a envolve, antes, durante e depois de seu processo de criação. Criaturas completamente distintas, mas que inevitavelmente acabam se interpolando. Havia dois movimentos opostos/complementares por trás de The Vampire Lovers: primeiro o desespero da Hammer pra se manter competitiva num mercado cada vez mais concorrido, aproveitando o relaxamento geral da censura no começo dos anos 70. Uma combinação que tornou por demais tentador meter o pezinho no mais do que rentável cinema exploitation europeu (ainda que o estúdio tentasse resguardar o máximo que podia de sua dignidade e fleuma britânica). Foi um período em que a empresa se abriu à parcerias com empresas independentes e quando a Fantale Films veio com o projeto de adaptar Carmilla, tudo o que os engravatados podiam pensar era: "Vampiras lésbicas?! Uau! Justo agora que peitinhos estão liberados!" Felizmente havia um segundo movimento: o roteirista Tudor Gates, uma figura promissora no cenário europeu da época, tendo contribuído nos roteiros de Danger: Diabolik, de Bava e Barbarella de Vadim, realmente se apaixonou pelo livro e estava comprometido a desenvolver uma versão fiel (ou ao menos tão fiel quanto possível). Pra Hammer tava tudo ok, desde que a cota acordada de nudez feminina e insinuações lésbicas fosse devidamente cumprida.

O resultado desse embate é um filme que, sem dúvida, é fiel ao enredo, mas não tanto às caracterizações, diálogos, tom e, acima de tudo, à ambiguidade e riqueza interpretativa do clássico. The Vampire Lovers (título que, é claro, já tinha sido decidido e vendido aos investidores muito antes de qualquer roteiro ser escrito, como era típico na época) é um filme direto e reto, bem ao estilo Hammer, reorganizando a narrativa numa estrutura mais linear, começando por transformar o flashback do Barão Vordenburg (aqui Hartog, vivido por Douglas Wilmer) num prólogo lindamente estilizado e bastante didático, já introduzindo as "regras vampíricas" de Le Fanu para um público mais acostumado ao Drácula de Lee. Daí seguimos sem perda de tempo para o baile do General Spieldorf (Peter Cushing, novamente na posição do "grande matador de vampiros"), a rápida sedução e morte de sua protegida Laura e a chegada de Carmilla à mansão Morton para a trama principal propriamente dita, direto nos braços da sua vítima mais desejada, a virginal (e bobinha) Emma Morton.

Pois é, já deu pra sacar que o filme faz uma bela bagunça com os nomes das personagens (bem ao estilo da "dança das cadeiras" entre Mina e Lucy nas adaptações de Drácula em geral) mas, independente de como é chamada, o problema maior aqui é a redução da Laura do livro a pouco mais que um bibelô. Não é raro que personagens-narradores acabem perdendo função ao serem traduzidos para o cinema, vide os casos de John Utterson em O Médico e o Monstro, ou mesmo John Watson (transformado em bufão pelo cinema), mas Laura é uma protagonista rica demais pra ser diluída assim entre as personagens de Pippa Steele e Madeline Smith. A perda é considerável, não tem como negar. Por outro lado, The Vampire Lovers se destaca por preservar boa parte das passagens mais memoráveis do livro, como os oníricos ataques noturnos da monstruosa gata, a icônica cena em que Carmilla surta ao assistir a passagem de um cortejo fúnebre ("Você deve morrer! Todos devemos morrer!"), e até mesmo algumas das mais notórias lacunas, como o aparente papel de "agenciadores" exercido pelas figuras da "condessa mãe" (Dawn Addams) e do "Homem de Preto" (John Forbes-Robertson), meio que infiltrando a "filha" no seio das famílias aristocráticas da região. No fim a ideia de um clã de vampiros itinerantes acabou sendo mais desenvolvida nas sequencias, mas o filme já deixa no ar uma possível leitura de classe extraída do subtexto da novela, meio que dando a entender que aquela história de "cortejar a vítima com uma veemência absorvente que lembra a paixão do amorprotelando seu prazer assassino com o refinamento de um gastrônomopaciência e artifícios inexauríveis" é algo que Carmilla parece reservar mais para as jovens de sangue nobre, ricas e de boa família, enquanto que as pobres camponesas são prontamente "dominadas com violência, estranguladas e exauridas em um único banquete". 🤨

No fim das contas, há de se concordar que entre fidelidades e infidelidades, o que acaba mesmo sustentando a empreitada é Ingrid Pitt. Ainda que, sejamos francos, Pitt NÃO interprete a Carmilla do livro, quanto a isso não dá pra tapar o sol com a peneira. Não há nada de lânguido, gracioso ou delicado na voluptuosa e predadora vampiressa de Pitt. Mas é inegável que a atriz polonesa consegue criar com maestria a SUA própria Carmilla, tão icônica para o cinema britânico quando a fantasmagórica vampira de Le Fanu. Uma figura que tende à extremos (resvalando perigosamente no overacting), com arroubos de fúria, desejo e melancolia, inspirando compaixão e simpatia mesmo quando se mostra manipuladora e cruel, como no momento em que declara friamente a morte de Laura para o chocado Peter Cushing, ou quando seduz e, pra todos os efeitos, escraviza sexualmente Madame Perrodot apenas para obter livre acesso à Emma. Um subplot que justifica perfeitamente a transformação da personagem gorducha e maternal do livro numa estonteante Kate O'Mara. Claro que a intenção era dar uma apimentada no conteúdo lésbico que, do contrário, teria se resumido a uns nudies fofinhos e bitoquinhas quase infantis se comparadas ao lascivo cinema francês e italiano do período, mas os surtos de submissão desesperada de O'Mara acabam rendendo alguns dos momentos mais impactantes do longa. Mas pra mim a cena que mais permanece como um dos momentos inesquecíveis da história da Hammer é a expressão nos olhos de Pitt quando ela encara a cruz improvisada de John Finch. Não é medo ou raiva como nos acostumamos a ver nos olhos injetados de sangue do Drácula de Lee, mas sim uma terrível e dilaceradora... tristeza.

A Carmilla da Hammer (vivida por outras atrizes) ainda retornaria em duas sequencias, já em 1971, Lust for a Vampire e Twins of Evil, fechando a chamada Hammer's Karnstein Trilogy. Mas por mais que sejam interessantes a seu modo (particularmente Twins of Evil, um dos melhores títulos da fase "decadente" do estúdio), já são obras distantes demais do livro original para justificar sua presença aqui (do contrário eu teria que listar tudo quanto é gótico europeu que apenas joga os nomes Karnstein e Mircalla de qualquer jeito no enredo, tipo a série Waldemar Daninsky de Paul Naschy), então sigamos em frente. Falarei deles em outra ocasião. 😉

1971: Let's Scare Jessica to Death
(Sonhos Alucinantes)
EUA
Direção: John D. Hancock
Roteiro: John D. Hancock, Lee Kalcheim

É irônico que o aspecto exploitation que tanto motivou a Hammer a investir em Carmilla foi justamente um dos pontos que a Trilogia Karnstein mais deixou a desejar. E, pra quem não está tão familiarizado com o cinema de horror exploitation dos anos 70, não estou me referindo a erotismo lésbico, mas sim às ousadias temáticas e estéticas e o caráter eminentemente adulto (em todos os sentidos do termo) que sempre caracterizaram esse mercado, tanto pro bem quanto pro mal. E não há maior prova disso do que a notável trinca de adaptações livres que o verdadeiro cinema exploitation acabou produzindo no decorrer da década, começando pelo maravilhoso Let's Scare Jessica to Death, de John D. Hancock.

Com todas as suas idiossincrasias, as versões anteriores tinham em comum um tom mais puxado para a fantasia, um tanto mais teatral e não-naturalista. O lirismo romântico francês, o grandiloquente gótico italiano, a estética estilizada da Hammer. Hancock toma outro rumo, bem a cara da década, uma pegada realista e desglamourizada, com um elenco que nem parece formado por atores, mas sim pessoas comuns como eu e você. Rostos comuns, com aquele tipo de beleza imperfeita do dia a dia. Desde os créditos de abertura o tom é lúgubre e melancólico e não se trata daquela doce melancolia que Laura afirmava "nem desejar deixar para trás", mas sim um tipo de angústia crua e opressora que parece seguir aquele trio de ex-hippies dirigindo um carro funerário pelo interior dos EUA em busca de um novo lar (não consigo pensar numa imagem mais representativa do começo dos anos 70 do que essa).

Jessica (a nossa "Laura" da vez) é uma aspirante a artista plástica que acabou de sair de um sanatório. O marido e o melhor amigo do casal (um tipo de restolho de família alternativa da geração Woodstock) estão levando-a para viver no campo, longe das neuras da cidade, assumindo uma propriedade antiga e abandonada numa cidadezinha qualquer no desencantado interiorzão americano. Fascinada por cemitérios e gravuras de lápides, Jessica logo começa a ter visões fantasmagóricas que escolhe guardar para si por não confiar na própria sanidade e temer profundamente ser abandonada pelos entes queridos. Zohra Lampert compõe uma figura dolorosamente verdadeira, com um sorriso vazio sempre travado no rosto numa tentativa falha de mascarar as próprias emoções, tentando parecer agradável e solícita mesmo quando desmorona por dentro. Emocionalmente dependente não apenas do marido mas, pelo visto, de qualquer pessoa que lhe estenda a mão, Jessica não tem como resistir a convidar a jovem Emily (Mariclare Costello), outra ex-hippie que encontram já instalada num dos cômodos do velho casarão, a se juntar à sua "família".

De todas as versões que estamos discutindo aqui esta é certamente a mais distante do enredo original. Não há recriações de passagens específicas do livro, nem reprodução de diálogos ou personagens, nada assim. O que Let's Scare Jessica to Death (título bem na tradição de "chamariz de marquise", típica das grindhouses) realmente faz é capturar os aspectos mais essenciais da obra de Le Fanu e reinseri-los num contexto cotidiano e reconhecível, preservando acima de tudo a atmosfera e a sutileza da história original. De certa forma, focando mais nas entrelinhas do que no plot (o que por si só o torna diametralmente oposto à versão "literarizada" da Hammer). O filme jamais nos "explica" o que está acontecendo com a cidade e com os personagens. Apenas nos "mostra". O background está todo lá, nos detalhes, nos olhares, nas implicações, nas vozes que Jessica não pára de ouvir, insinuando toda uma história pregressa, plena de significados e horrores ocultos, mas deixando para o espectador a responsabilidade de juntar os pedacinhos e "montar" o quadro completo por sua própria conta (e risco). Um tipo de abordagem bastante cultivada no cinema de horror dos anos 70, mas que foi desaparecendo com a infantilização do gênero nos anos 80 e 90 em diante (até chegar ao ponto de taxarem os novos filmes de horror "adulto" que têm surgido ultimamente como "pós-terror", como se fossem um gênero novo), algo que também aproxima a narrativa cinematográfica da riqueza interpretativa da literatura gótica clássica, histórias que nunca se esgotam, ganhando novas interpretações e insights sempre que um novo espectador/leitor se deixa tragar por suas lacunas.

Funcionando tanto como história de vampiro quanto de fantasmas (um limiar bem tênue na tradição literária, vide as obras de M.R. James e do próprio Le Fanu), Let's Scare Jessica to Death também se destaca como adaptação pela forma como se apropria do conceito (apresentado nos últimos capítulos da novela) de que o vampirismo pode surgir espontaneamente numa comunidade a partir de um suicídio, bem como àquela particular leitura de que Laura não seria apenas mais uma vítima randômica na longa trajetória de Mircalla, mas sim que seria "especial" de alguma forma. Como exatamente é ponto passível de infinitas interpretações. As versões francesa e italiana seguiram pela via da descendência distante dos Karnstein, com diferentes desenlaces em cada filme, a versão da Hammer meio que dá a entender, de forma um tanto vaga, que Carmilla talvez estivesse realmente apaixonada por ela e tivesse mesmo a intenção de transforma-la em sua companheira de eternidade. Já a abordagem de Hancock, acredito, reconhece o relacionamento de Laura e Carmilla como um tipo de "encontro de almas", sim, mas almas quebradas e adoecidas ("Jessica, por quê você veio aqui?"), atraídas acima de tudo pela dor que reconhecem uma na outra, um vazio que nada e nem ninguém poderá jamais preencher ("Venha, Jessica. Venha comigo, Jessica."). Um encontro ruim, que não poderia resultar em outra coisa senão um olhar perdido pairando sobre as águas... e os tristes passos de volta para casa ("Eu não vou embora, Jessica... eu nunca irei embora").


1972: The Blood Spattered Bride AKA La Novia Ensangrentada
(A Noiva Ensanguentada)
Espanha
Direção: Vicente Aranda
Roteiro: Vicente Aranda, Matthew Lewis

La Novia Ensangrentada é a primeira adaptação de Carmilla a trazer para o centro do palco leituras de gênero, sexualidade e domínio patriarcal do subtexto do livro, inclusive chegando a subverter as necessidades mercadológicas mais rasteiras do exploitation (como a obrigatoriedade de, claro, explorar nudez e sexualidade femininas) de modo a pegar o público habitual das grindhouses de surpresa e literalmente obriga-los a consumir muito mais do que aquilo pelo que pagaram (a célebre "definição" de arte no contexto capitalista segundo Stephen King, ou, como dizia Alan Moore: "a arte deve oferecer o que o público PRECISA, não o que ACHA que quer"). Logo de cara temos a jovem Susan, ainda de vestido de noiva, sendo surpreendida por um súbito pesadelo lúcido no qual o próprio marido, com meia na cabeça e tudo, salta do armário e a estupra num quarto de hotel vagabundo na beira da estrada. A cena é feita sob medida para nos sacudir, primeiro no nível básico do choque e, num segundo momento, num nível simbólico até bem evidente. Quando o verdadeiro marido aparece e a encontra ainda vestida e ilesa, já sacamos muito bem que tipo de problemática está em jogo aqui: por mais que acredite amar esse homem com quem casou, Susan (como tantas e tantas mulheres) inconscientemente sabe que não lhe faltam motivos para ter medo dele.

A partir daí vemos o estabelecimento de uma dinâmica de casal no mínimo problemática (pra não dizer tóxica), apresentada de forma perfeitamente crível e realista, sem exageros ou caricaturas. Jovem e inexperiente demais, Susan (Maribel Martín) claramente não sente prazer ou mesmo desejo e não entende muito bem seus sentimentos conflitantes em relação a esse quase estranho com quem acabou de casar, mas acredita (ou, mais provavelmente, nem tenta pensar muito a respeito) que as coisas vão melhorar se continuar cumprindo o que se espera dela. O marido (Simón Andreu), galante, confiante e financeiramente bem sucedido, não chega a ser indiferente aos conflitos e inseguranças da esposa, mas não há dúvida de que sua empatia só chega até o limite das próprias necessidades. Pouco a pouco, princípios de poder, controle e violência psicológica (perigosamente resvalando na física) vão eclodindo aqui e ali, por mais que Susan (de novo, como tantas mulheres) não consiga definir exatamente a natureza do próprio desconforto, quanto mais fazer alguma coisa a respeito. É então que começa a se dar conta da presença de uma mulher misteriosa vestida de rosa sempre observando-a ao longe. Uma mulher que, enfim, aparece em seus sonhos para lhe oferecer um estranho punhal, antes de desaparecer debaixo da cama quando Susan desperta aos gritos.

Sim! Trata-se justamente de uma releitura (bastante sagaz) da arrepiante visita noturna de Mircalla a uma Laura ainda criança no primeiro capítulo da novela. Não demora muito pra que o marido traga à tona uma antiga lenda da história da família, quando Mircalla Karnstein teria apunhalado o próprio noivo em plena noite de núpcias para não ser obrigada a performar com ele "atos aberrantes e indizíveis". Encontrada catatônica ao lado do cadáver, a "noiva coberta de sangue" nunca mais teria despertado de seu transe, sendo enfim "declarada" morta e sepultada (viva?!) na cripta da família. Aterrorizada com a história, Susan começa a ficar obcecada com a ideia de que Mircalla de alguma forma voltou da tumba para lhe exigir que também mate seu marido (uma ideia que, de fato, parece dividi-la entre o horror e o deleite) até que do nada a tal mulher de rosa aparece! Literalmente encontrada nua e enterrada nas areias da praia, revelando-se como uma mulher real, de carne e osso. Seu nome? Carmilla!

Aranda estrutura toda a narrativa em torno desse tipo de imagens simbólicas. Imagens adensadoras, como a mansão decorada apenas com retratos de homens, com todas as pinturas de mulheres estocadas e escondidas no porão, física e materialmente reprimidas para as profundezas do inconsciente daquela família brutalmente patriarcal. É um tipo de iconografia que talvez até pudesse ser considerada óbvia demais, repleta de signos bastante evidentes como o marido que não tem nome, apenas "marido" ou o retrato de corpo inteiro de Mircalla com o rosto recortado da tela, de modo a demonstrar que qualquer mulher poderia preencher aquele espaço vazio (e se não estiver claro o bastante, Aranda ainda faz questão de fazer a jovem Carol colocar a cara lá, pra que ninguém possa dizer que não entendeu!). Mas ao que tudo indica a ideia era mesmo essa: não dar margem para que nem mesmo o espectador mais obtuso conseguisse escapulir da temática pretendida. Quando, por fim, chegamos ao culminante ritual de magia e sangue sobre o túmulo de Mircalla Karnstein, entre as ruínas históricas patriarcais, com direito a Alexandra Bastedo declamando algumas das falas mais apaixonadas do livro para uma altiva e empoderada Maribel Martín (sob a vigilância enojada do psicólogo contratado pelo "marido" para "tratar" do caso da esposa) já está mais do que clara a leitura de Carmilla como uma corporificação do profundo pavor masculino diante da mera possibilidade de que uma aliança feminina o exclua. Não por acaso, o tradicional grupo de destemidos matadores de vampiro aqui é formado por um "marido", um "psicólogo" e um "caçador"! Não tem como ser mais na cara que isso!

Brincadeiras a parte, por mais progressista que seja a postura de Aranda, ainda assim trata-se de uma visão masculina produzida num contexto exploitation. o que inevitavelmente acaba por deixar certas brechas pelas quais uma audiência menos simpática pode sim sair pela tangente e escapulir dos aspectos que lhe pareçam menos palatáveis. A primeira metade, mais realista, nos mantém muito próximos de Susan, garantindo nossa identificação com seu ponto de vista, mas conforme o filme avança e os elementos de mistério e sobrenatural vão se destacando, o eixo se desloca para o marido, dando a "deixa" para que o espectador possa escolher aceitar, por exemplo, a leitura mais simplista (e sexista) oferecida pelo psicólogo (a típica manifestação da voz apolínea na tradição da ficção de horror). O elo entre Susan e Carmilla ficaria assim reduzido a uma mera variação de relações de poder e domínio e o filme cairia na velha (e tranquilizadora) lógica do "bem" X "mal", "norma" X "desvio". Particularmente tenho dificuldade de entender (tanto racional quanto emocionalmente) como é possível que alguém não desconfie de uma voz apolínea no contexto de um filme sobre relações femininas, e me parece um tanto perturbador imaginar que há quem veja aquela inesquecível cena final como outra coisa senão o mal vitorioso tomando para si seu troféu. Mas, enfim, esse sou eu, tentando não surtar num país governado pela extrema direita... Felizmente, o que permanece ecoando depois dos créditos não é nenhuma psychobabble masculinista, mas sim a voz da pequena Carol dizendo: "Elas vão voltar. Não podem morrer"...


1977: Alucarda, La Hija de Las Tinieblas
(Alucarda)
México
Direção: Juan López Moctezuma
Roteiro: Tita Arroyo, Yolanda López Moctezuma, Alexis Arroyo, Juan López Moctezuma

O que dizer de Alucarda, de Juan López Moctezuma? De cara já deixo claro que minha leitura é absolutamente parcial: eu me apaixonei pela Alucarda de Tina Romero desde a sua primeira aparição em cena, emergindo das sombras com aquele vestido negro, aquele cabelo maravilhoso e aquele rosto perversamente angelical. Por mais que seja lugar comum definir um filme como "um delírio", não há forma melhor de descrever: Alucarda é um delírio! Tanto que não é incomum causar uma certa repulsa de início, pois tudo no filme, as atuações, os figurinos, a fotografia, os cenários, a encenação, tudo é propositalmente over. Há uma cena logo no início que, de certo modo, tenta nos preparar pra toda essa intensidade: Alucarda acaba de conhecer Justine (Susana Kamini) e, pouco depois, já solta a icônica fala do livro: "Não tem idéia de como sou ciumenta, você tem que me amar até a morte!" O mesmo ultimato nos faz Moctezuma: não é possível se aproximar de leve, friamente. Alucarda nos exige mais. A partir de uma certa altura, todo o elenco começa a atuar em estado de histeria. Gritos, blasfêmias, invocações que mais parecem explosões de paixão. Overacting total! Saber que as atrizes faziam parte do Teatro Le Panique, fundado por Moctezuma, pelo dramaturgo Fernando Arrabal e pelo cineasta Alejandro Jodorowsky, um movimento estético/cênico que privilegiava o transe e a histeria como processo de criação, até nos ajuda a lidar com a experiência, mas não nos prepara para seu impacto imediato. Ou você se apaixona ou é repelido. Nem preciso dizer qual escolha traz mais recompensas. 😉

E o mais espantoso é que, de alguma forma, essa loucura toda ainda consegue ser surpreendente fiel ao livro! Os belíssimos diálogos de Carmilla e Laura são reproduzidos quase que na íntegra, algo que mesmo as versões mais fiéis da Hammer e de Nightmare Classics sequer tentaram. Moctezuma, claro, se apropria da história de uma forma muito particular, focando nos aspectos mais passionais subentendidos na escrita sutil e elegante de Le Fanu e, de certa forma, substituindo o vampirismo pelo satanismo, criando uma espécie de versão barroca e altamente estilizada da iconografia medieval, com bruxas, sabás, tortura, inquisição, freiras possuídas vestindo figurinos bizarros que só poderiam ser descritos como "hábitos mumificadores", numa sufocante mescla de Europa pagã, catolicismo mexicano e nunsploitationque será colocada em xeque pela mera existência da jovem Alucarda, "aquela que vem do orvalho da floresta".

Nesse macabro pout-pourri de todas as opressões possíveis e imagináveis, o ambíguo e carismático mendigo corcunda do livro acaba ganhando um papel ainda mais marcante do que na adaptação italiana de 1964, ressurgindo aqui como uma espécie de feiticeiro cigano (ou sátiro, ou avatar do demônio, ou representante das forças da natureza, o que preferirem) que preserva toda a intrigante ambivalência de sua relação com Carmilla/Alucarda. No livro, ao mesmo tempo que provoca Carmilla ao chamar a atenção para seus dentes afiados (o que a deixa positivamente emputecida) também fornece o suposto amuleto de proteção que, depois, irá entorpecer o sono de Laura e facilitar a ação da vampira. Aqui ele assume o papel do dark man das folk tales europeias, iniciando Justine e Alucarda nos mistérios da feminilidade, bruxaria e do despertar da própria sexualidade, basicamente colocando-as numa trilha que pode ser vista tanto como de libertação quanto de destruição. Curiosamente, o mesmo ator, Claudio Brook, também interpreta o Dr. Oszek, personagem equivalente ao General Spieldorf do livro, meio que insinuando um estranho paralelismo entre as potências dionisíacas que convocam Alucarda a cumprir seu destino, e as forças apolíneas da razão e da ciência que se consideram tão moralmente superiores ao pensamento mágico e supersticioso das camadas populares, mas prontamente se aliam aos poderes estabelecidos da Igreja diante da menor rachadura em sua frágil e insegura racionalidade.

Se isso tudo parece um tanto confuso... é porque é! Mais acostumado a processos abertos e em grande parte instintivos de criação teatral, Moctezuma não está nem um pouco interessado em fechar sentidos, nem se incomoda em ser contraditório, o que torna Alucarda um filme tão rico, incongruente, ambíguo, inesgotável e, acima de tudo, arriscadíssimo de interpretar quanto a própria Carmilla de Le Fanu. Mais sensato é simplesmente se deixar levar (e perder) pela potência pura e direta das imagens e performances tais como a ensandecida Justine erguendo-se do caixão cheio de sangue (e, pra todos os efeitos, trocando seu papel de Laura pelo de Carmilla no último momento), o estase sadomasoquista das freiras-múmias em auto-flagelação, a fúria de Alucarda trazendo o fogo do inferno para o interior do convento (gente, que delícia!), a exuberante orgia do grande sabá das bruxas na floresta encantada e, acima de tudo, se unir a Tina Romero na invocação a Belphegor, Beelzebuth e Astaroth a plenos pulmões enquanto dobra inumadamente as costas para trás sem precisar de nenhum CGI!

Enfim, é um delírio.¯\_💀_/¯ E nunca mais se ouvirá novamente uma pronúncia tão linda da palavra "Satan".😉


1989: "Nightmare Classics" Carmilla
EUA
Direção: Gabrielle Beaumont
Roteiro: Jonathan Furst

Nightmare Classics foi uma série de TV americana de curta duração que se dispôs a adaptar quatro histórias de grandes autores da literatura gótica no final de 1989: The Turn of the Screw de Henry James, Carmilla de Sheridan Le Fanu, The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde de R.L. Stevenson e The Eyes of the Panther de Ambrose Bierce. Dentre esses, o episódio de Carmilla acabou se destacando principalmente por dois motivos: 1) a fama adquirida de ser a versão mais fiel já filmada, e 2) o fato de ter sido a primeira adaptação do clássico dirigida por uma mulher.

Uau, não! Pois é, com certeza empolga, mas é melhor não ir com sede demais ao pote. Primeiro porque, assim como rolava com a Hammer, a adaptação é apenas relativamente fiel. E segundo, porque a diretora inglesa Gabrielle Beaumont não era exatamente uma autora, mas apenas uma versátil e eficiente profissional de TV, responsável por uma infinidade de trabalhos nas mais variadas  produções, de Jornada nas Estrelas até Barrados do Baile. É muito provável que Nightmare Classics não fosse mais do que outro trabalho nessa esteira, bela e elegantemente executado, mas não particularmente inspirado ou mesmo inovador.

Colocadas as expectativas num patamar mais realista, Nightmare Classics´s Carmilla tem sim muito a oferecer. Pra começo de conversa é ótimo termos finalmente uma adaptação que se chama mesmo Carmilla, mas não se empolgue demais, pois Ione Skye interpreta Marie, não Laura (difícil entender essas trocas de nomes randômicas). Mas ok, tirando o nome é basicamente a mesma personagem do livro, uma jovem solitária vivendo com o pai e empregados numa mansão isolada, ávida pela companhia de uma amiga da sua idade, até que um estranho acidente com uma carruagem coloca Carmilla sob seu teto. Tudo bem próximo da história original, apenas remanejando a ambientação para um contexto southern gothic (EUA na época da Guerra da Secessão) e dando uma simplificada geral nas lacunas da trama ao "matar" os demais ocupantes da carruagem, deixando Carmilla como a única "sobrevivente" do acidente. E é aí que chegamos no maior trunfo dessa versão: Meg Tilly.

"Ela era esguia, e maravilhosamente graciosa. Exceto que seus movimentos eram lânguidos, muito lânguidos. Na verdade, não havia nada em sua aparência que indicasse uma inválida. Sua compleição era rica e brilhante, suas feições pequenas eram lindamente formadas; seus olhos eram grandes, negros e brilhantes; seu cabelo era maravilhoso; eu nunca vira um cabelo tão magnificamente cheio e longo como quando ela o soltava sobre os ombros." Seja no áudio-visual ou quaisquer outras reinterpretações artísticas, é incrivelmente raro, como já vimos, que Carmilla seja representada de forma sequer remotamente parecida com essa descrição. Assim, quando Meg Tilly desperta na cama diante de Marie e lhe estende a mão para sentar-se ao seu lado, o impacto vai muito além de uma modesta produção de época para a TV. Ainda que as únicas cópias acessíveis online sejam rips de VHS de péssima qualidade, nesse momento é como se a tela se iluminasse e somos capturados pela expressão perturbadoramente angelical naquele rosto ao mesmo tempo lindo... e estranho. Tilly foi uma atriz de carreira relativamente curta, com poucos trabalhos relevantes (suponho que seja mais lembrada por Agnes de Deus e Psicose II) e nem me parece que tenha se destacado como particularmente talentosa, mas é inegável que algum tipo de alquimia rolou aqui. Tilly É Carmilla! Pela primeira vez, eu realmente vi a personagem de Le Fanu em cena, em toda a sua sinistra graciosidade mórbida, movendo-se languidamente pelo mansão gótica sulista, seduzindo Marie e nos desconcertando com sua dubiedade quase indecifrável. De algum modo, Tilly consegue sustentar toda a ambivalência das entrelinhas da novela, a eterna dúvida sobre os verdadeiros sentimentos e intenções da vampira. Ora diabolicamente cruel e manipulativa, ora desesperadamente encantada por sua suposta vítima. E nem se pode dizer que o roteiro ajuda muito a manter essa sutileza, inserindo alguns exageros bem draculescos como ataques de morcegos e teletransportes constrangedores, mas de alguma forma a Carmilla de Tilly passa por tudo isso incólume.

Diante disso, acaba sendo lamentável que o roteiro de Jonathan Furst não use nenhum dos diálogos originais. Tipo, nenhum mesmo! Várias cenas são quase idênticas ao livro, mas as falas são sempre originais e, na verdade, bem distintas. A versão da Hammer seguiu um rumo parecido (até mantendo alguns trechos de narração aqui e ali, mas nenhuma das falas da própria Carmilla) o que é bem bizarro considerando que são justamente as duas adaptações que se propunham a ser fiéis. De algum modo, acaba soando mais "infiel" do que recriações livres tais como as de Aranda ou Moctezuma (que, ironicamente, reproduziam diálogos inteiros quase na íntegra). É como se essa proximidade maior com o original acabasse nos tornando ainda mais sensíveis até às menores discrepâncias. Seja como for, é decepcionante que Tilly não tenha tido a chance de declamar nenhum dos misteriosos monólogos de Carmilla. Chega a ser quase uma sabotagem à sua performance.

Outras mudanças em relação ao original são um tanto esquisitas, como o destaque dado à figura da desaparecida mãe de Marie/Laura (que no livro, como se lembram, morreu quando ela era um bebê e era uma descendente distante dos Karnstein), apresentada aqui como uma espécie de grande inspiração para o espírito rebelde que Carmilla desperta em Marie. É uma abordagem potencialmente interessante, mas que acaba desembocando num plot twist pra lá de questionável, soando mais machista do que qualquer outra coisa. Talvez um reflexo da correria com que produções televisas costumavam ser feitas na época, sem muito tempo pra refletir sobre minúcias de enredo. Felizmente, a ideia parece ter servido de inspiração direta para outra adaptação ao estilo southern gothic que viria em 2014, aí sim desenvolvida à contento.

Já aqui, fiquemos com a maravilhosa e (literalmente) flutuante Carmilla de Meg Tilly e com o impagável Roddy McDowall voltando a encarnar a figura do "grande matador de vampiros" (aqui  incluído pra suprir a ausência do núcleo do General Spieldorf) quatro anos depois do divertidíssimo Peter Vincent de A Hora do Espanto. Não é pouca coisa. Não mesmo. ❤


2011: The Moth Diaries
(Relação Mortal)
Canadá/Irlanda/EUA
Direção e Roteiro: Mary Harron
Baseado no romance de Rachel Klein

Ok, ok! Antes que alguém me xingue, eu sei e admito que estou trapaceando aqui. The Moth Diaries NÃO É uma adaptação de Carmilla, mas sim do romance homônimo INSPIRADO em Carmilla, da escritora americana Rachel Klein. Refleti muito antes de decidir inclui-lo nesse artigo, mas acabei chegando à conclusão de que simplesmente não poderia deixa-lo de fora. Por três razões: 1) É MUITO mais próximo da novela de Le Fanu do que, por exemplo, Let's Scare Jessica to Death, que sequer menciona o livro nos créditos. 2) É MUITO MAIS fiel à essência da novela do que as duas adaptações supostamente fiéis que já discutimos acima, tanto a da Hammer quanto a de Nightmare Classics. 3) Eu simplesmente AMO esse filme, então lidem com isso! 😝

Também poderíamos dizer que The Moth Diaries compartilha com os demais filmes desse artigo um caráter low profile, passando batido pelos radares na época de lançamento e sendo convencionado como indigno de atenção, cultuado apenas por uma galera que já aprendeu a não dar tanta atenção às cotações de IMDb e Rotten Tomatoes no que refere ao cinema fantástico. Pra começo de conversa, é um filme extraordinariamente belo em todos os aspectos: elenco, figurinos, cenografia, fotografia, filmado num tom permanentemente etéreo, quase irreal, uma atmosfera de contos de fadas gótico que nos trás de volta às adaptações românticas de Vadim e Mastrocinque, porém com um peso emocional bem mais próximo de Hancock, quase um melhor de dois mundos. Talvez não tão devastador quando Let's Scare Jessica to Death, mas certamente partindo do mesmo ponto específico que Le Fanu nos deixou em sua novela, a noção de que o vampirismo pode surgir espontaneamente a partir do suicídio. E a angustiante noção de que quem morre sem ser visto ou lamentado, está fadado a permanecer entre nós.

Ambientado num colégio interno feminino onde outrora funcionava um hotel, o filme se estrutura basicamente como um triângulo afetivo entre a protagonista Rebecca (Sarah Bolger), sua melhor amiga Lucy (Sarah Gadon) e uma misteriosa nova aluna chamada Ernessa Bloch (vivida pela naturalmente sobrenatural Lily Cole). Marcada pelo suicídio do pai poeta, Becca divide com Lucy aquele tipo de amor que parece exclusivo do universo feminino, difícil de ser realmente entendido por meninos como eu, complexo e profundo demais até para ser descrito simplesmente em termos de homoerotismo. Ernessa abala essa relação ao exercer uma atração súbita e fulminante sobre Lucy, que Becca não consegue sequer compreender, muito menos contrapôr, até que um novo professor de literatura coloca em suas mãos uma certa obra clássica da literatura gótica irlandesa... e, de repente, tudo se torna muito claro! Ou não...

Com uma pegada bem mais autoral do que Gabrielle BeaumontMary Harron acaba suprindo a falta de um olhar efetivamente feminino em meio a tantas versões de Carmilla escritas e dirigidas por homens (ao menos até que tenhamos acesso à recente produção de Emily Harris) e, de um modo ou de outro, consegue atravessar todas as principais temáticas e subtextos propostos por Le Fanu. Ernessa, como Becca logo percebe, é muito mais próxima da Carmilla do livro do que qualquer outra versão além da de Meg Tilly. Lânguida, melancólica, dotada de uma beleza estranha e perturbadora, e até mesmo "mais alta do que a maioria das mulheres", como Laura a descrevia. Mas a mudança do ponto de vista para alguém de fora do relacionamento central acaba permitindo novos e fascinantes insights não só sobre as nuances e complexidades do relacionamento entre Carmilla e Laura, como da própria natureza da condição vampírica, expressa na crescente identificação que Becca se vê obrigada a reconhecer em Ernessa. E, afinal, quem seria de fato a Laura dessa história?

Com imagens inesquecíveis como a caminhada noturna no ressalto das janelas da escola até o quarto cheio de mariposas, o banho de sangue na biblioteca, ou as maravilhosamente metalinguísticas cenas em que Becca lê algumas das passagens mais belas de Carmilla sob a luz do luar, The Moth Diaries é por si só uma preciosidade. E ainda que, talvez, não possa ser considerado superior a algumas das mais contundentes releituras e visões particulares sobre a novela de Le Fanu que temos discutido aqui, eu ousaria dizer que, de um ponto de vista mais generalista, o filme de Mary Harron é a obra que melhor conseguiu capturar o "espírito" de Carmilla de todas as que o cinema e a TV já conseguiram produzir até o momento.

E, sim, já me falaram que o livro de Rachel Klein é MUITO melhor. Lerei, Glória, lerei! 🥀😉


2014: The Unwanted
(A Intrusa)
EUA
Direção e Roteiro: Bret Wood

2014, bicentenário de Sheridan Le Fanu, foi o ano em que as comunidades LGBTS+ finalmente começaram a se apropriar de Carmilla sem pedir licença ou desculpas. Nada menos que três recriações do livro foram produzidas quase que simultaneamente, tendo em comum um foco muito mais voltado para questões de gênero, representatividade e protagonismo lésbico. As obras resultantes não poderiam ser mais diversas entre si, com visões muito particulares e fascinantes sobre as personagens e temáticas da novela. E ainda que faça falta uma adaptação contemporânea mais fiel ao enredo original, bem como a presença de mulheres ocupando diretamente as cadeiras de roteiro e direção (já mencionei minha ansiedade pela versão de Emily Harris?), com certeza são trabalhos que já dão uma bela problematizada na fetichização que atravessa, em maior ou menor grau, até mesmo as adaptações mais abertamente progressistas.

Meio que já metendo o pé na porta, The Unwanted é uma revisão bruta, cruel e realista, levando aos extremos certas possibilidades apenas esboçadas pela ambientação southern gothic de Gabrielle Beaumont em Nightmare Classics. Aqui Carmilla (Christen Orr) é uma mulher de carne e osso, claramente lésbica, viajando pelo sufocante sul dos EUA até New Canaan em busca de pistas do paradeiro da mãe que nunca conheceu, Millarca Karnstein (Kylie Brown). A trilha termina na porta do fazendeiro Troy (William Katt, numa performance pra lá de assustadora), dono do trailer isolado de onde Millarca aparentemente sumiu da face da Terra. Convencida de que o sujeito está escondendo alguma coisa, Carmilla se vê cada vez mais enredada numa incestuosa espiral de relacionamentos disfuncionais e doentios, conforme vai se deixando seduzir pela encantadora filha do fazendeiro (Hannah Fierman), uma jovem com fetiche por sangue e auto-mutilação chamada... Laura.

Só por essa sinopse já dá pra entrever a forma sagaz com que o roteiro vai se apoderando e re-significando algumas das principais passagens do livro. Desde o acidente de carro sofrido por Millarca remetendo ao famoso acidente de carruagem, até a complexa e fascinante subversão dos papéis de "vampira" e "vítima" no relacionamento sadomasoquista entre Carmilla e Laura, efetivamente revivendo o intenso e trágico affair vivido por sua respectivas mães, tantos anos atrás. O arquétipo da Condessa Karnstein do livro é tomado como um símbolo, essência ou espírito que flui através do sangue, de mãe para filha, de amante para amante, herdado, bebido, trocado, partilhado. Uma imagem de extraordinária força, capaz de levar tanto ao estase quanto à repulsa, dependendo da pré-disposição do espectador e, acima de tudo, seu gênero.

O ponto aqui é a mais ou menos a mesma leitura adotada por La Novia Ensangrentada em 1971, o absoluto pavor masculino diante da mera possibilidade de que as mulheres se encontrem, se unam e os deixem para trás, sejam elas suas esposas ou filhas, mas aqui a abordagem é muito mais clara e "na veia" do que a versão de Aranda. Troy é o mais perfeito retrato do típico "cidadão de bem", convencido de que é seu direito e dever sagrado fazer tudo ao seu alcance para proteger a família do "contágio" das terríveis "vampiras". Uma angustiante e assustadora re-interpretação do velho arquétipo do "grande matador de vampiros", nos remetendo à máxima de Margaret Atwood: "Homens têm medo que as mulheres riam deles. Mulheres têm medo que os homens as matem."

O problema, porém, (aliás, muito similar ao que já acontecia na versão de Aranda) é que me parece que o filme acaba dando espaço demais para as justificativas de Troy. Por mais que não haja dúvida da intenção de Bret Wood de apresenta-lo como um monstro (sem precisar de nenhum exagero ou caricatura pra isso), o fato é que todo o conflito nos é apresentado pelo ponto de vista dele. Até faz sentido manter Millarca como uma imagem etérea e quase mística, uma apaixonante figura meio hippie meio bruxa apenas vislumbrada em sonhos, visões e flashbacks, mas por mais que seja interessante o contraste do discurso distorcido e reacionário de Troy sobreposto à efetiva beleza das imagens do passado que o filme nos mostra, inadvertidamente isso acaba negando à Millarca e Karen a chance de narrar sua própria história! Com suas próprias vozes! Surge aí uma brecha para que todos os possíveis Troys na platéia escapem pela tangente (ou, saíam pela direita, como dizia o finado Leão da Montanha), uma brecha que acaba tornando a crueldade exagerada do desfecho não apenas questionável, mas até potencialmente perigosa.

É uma pena. Não chega a invalidar os méritos de The Unwanted como uma modernização sagaz e até brilhante em alguns momentos, mas certamente macula a impressão final. Quem sabe se tivesse tido um toque feminino no roteiro ou na direção, não é?


2014: Styria
Hungria/EUA
Direção: Mauricio Chernovetzky, Mark Devendorf
Roteiro: Karl Bardosh, Mauricio Chernovetzky, Mark Devendorf

Como num círculo que se fecha, Styria curiosamente parece revisitar e até arrematar vários dos tópicos do livro que cada uma das adaptações anteriores se apropriou individualmente em suas respectivas releituras. Temos aqui o conceito do vampirismo que nasce espontaneamente do corpo não velado de uma suicida, almejando acima de tudo seduzir suas jovens vítimas a se unirem a ela (como em Let's Scare Jessica to Death e The Moth Diaries), Carmilla apresentada como uma jovem sonhadora que tenta fugir de sua realidade imediata fantasiando sobre seus antepassados vampiros (como em Rosas de Sangue), o peso da ancestralidade como um fator determinante nos destinos dos vivos e dos mortos (La Cripta e l’Incubo), a sugestão de que situações de opressão social e política podem eclodir em erupções do sobrenatural (Alucarda), o vampirismo como uma insurreição dionisíaca, um pacto de sangue feminino contra a ordem social apolínea guardada e protegida pelos "grandes matadores de vampiro" (La Novia Ensangrentada e The Unwanted), a insinuação de que Laura atraiu Carmilla por ser uma espécie de vampira em potencial, seja por hereditariedade (Nightmare Classics´s CarmillaThe Unwanted) ou carência (Let's Scare Jessica to DeathThe Moth Diaries), sem contar, é claro, o regresso ao cenário gótico original do leste europeu pela primeira vez desde The Vampire Lovers. O inventário é tão completo que é difícil não pensar que tenha sido proposital, ainda que improvável. Até as mariposas de The Moth Diaries dão as caras!

O mais importante, é claro, é a forma como o roteiro consegue equilibrar e desenvolver a contento todos esses elementos numa trama em si nova, mas fortemente ancorada na novela original, inclusive recriando passagens que quase todas as adaptações deixaram de fora, como Laura sendo atacada ainda criança pela mulher misteriosa escondida embaixo da cama, momento que ganha todo um novo significado ao ser relacionado à questão da "descendência distante dos Karnstein". De fato, teria sido justamente através da esposa, sobre a qual se recusa a comentar, que o professor e historiador vivido por Stephen Rea soube a respeito dos raríssimos murais de um antigo castelo num vilarejo da Styria, movendo mundos e fundos para atravessar a fronteira ao lado da filha Lara (Eleanor Tomlinson). Recém expulsa do colégio interno e frustrada ao saber que a amiga que aguardava para amenizar o tédio foi impedida de entrar no país, Lara acaba conhecendo e levando escondida para o castelo uma linda garota loira que socorreu num acidente de carro na mata, uma espevitada e encantadora jovem obviamente chamada Carmilla. Não demora pra que se descubra que a moça tem fama de desequilibrada no vilarejo, sendo perseguida pelo General Spiegel (Jacek Lenartowicz), responsável pela lei e ordem na região. A situação desembocará em tragédia e da tragédia para o fantástico.

Fica evidente como o filme vai recriando diversos pontos do plot da novela para um contexto atual, de forma muito semelhante a The Unwanted, mas enquanto lá a sensação era mais de uma infiltração gradual da novela no moderno cenário sulista americano, aqui é como se os poucos personagens de fato contemporâneos (em essência apenas Lara e seu pai) fossem tragados para um ambiente gótico do leste europeu, imutável ao passar dos séculos, quase como numa viagem do tempo. Um ambiente em que as antigas crenças folclóricas em vampiros, bruxas e fantasmas impregnam tanto os murais em ruínas no castelo quanto o próprio ar que se respira, apenas aguardando que certos padrões se repitam para se manifestarem uma vez mais. Tudo isso dá à Styria uma aura efetivamente atemporal, impressão reforçada pelas locações num legítimo castelo húngaro (bem ao estilo do cinema gótico europeu nos anos 60 e 70), a belíssima fotografia acinzentada e lúgubre e até mesmo o delicioso sotaque "styriano" da atriz polonesa Julia Pietrucha no papel de Carmilla.

Mas o filme atinge seu melhor no cuidadoso e elegante retrato de Carmilla como arauto de um feminino primal, selvagem e incontrolável, banido para as profundezas por séculos de opressão, mas prestes a explodir em justa fúria contra seus algozes. Um feminino bacante, dionisíaco, pronto a devorar a carne e beber o sangue da fera-macho canibal que atravessa os séculos devorando seus próprios filhos. As filhas de Hecate em guerra contra os filhos de Saturno, ambos retratados nos murais que protegem as antigas passagens e criptas inundadas do castelo, as mesmas criptas onde a jovem Carmilla buscava refúgio, até que besta-fera a encontrou. Uma simbologia complexa e ambivalente que os diretores Mauricio Chernovetzky e Mark Devendorf são sábios em não tentar simplificar, ao mesmo tempo em que evitam habilmente cair nas mesmas armadilhas de La Novia Ensangrentada e The Unwanted. O que não falta em Styria é voz para suas protagonistas e na intensa, contraditória e apaixonante relação entre Lara e Carmila expressa-se um conflito milenar e terrível, que certamente motivará muitas outras releituras do clássico de Le Fanu nas décadas que virão. Se o mundo durar até lá, é claro.


2014-2017: Carmilla / The Carmilla Movie
Canadá
Direção: Spencer Maybee, Mars Horodyski
Roteiro: Alejandro Alcoba, Jordan Hall

Ok, confesso que por muito, mas muito pouco mesmo, não deixei essa Carmilla de fora do artigo. Eu tinha pego implicância, a verdade é essa. Mas entendam, por mais que a tradição seja as adaptações tenderem para o inusitado e o fora da curva, uma comédia romântica adolescente parecia um tanto fora da curva DEMAIS pra mim! Fora isso, durante o período que a web-série esteve em produção, entre 2014 e 2016, pesquisar sobre o livro e suas versões no google virou uma tarefa desesperadora, o termo "Carmilla" inevitavelmente te jogava em páginas e mais páginas de fotos de Natasha NegovanlisElise Bauman e você teria que garimpar fundo pra achar qualquer outra coisa (algo particularmente irritante por coincidir com o lançamento de The Unwanted e Styria, sem contar as primeiras notícias sobre a produção de Emily Harris), então por favor entendam que eu tinha lá meus motivos pra ficar de má vontade. Assim, em princípio joguei a série na mesma vala de outras supostas Carmillas que apareceram nos últimos anos e que achei por bem ignorar, mas lá no fundo eu ficava meio encanado, afinal essa vala incluía troços como isso aqui, sei lá... parecia meio excessivo fazer isso com a série sem nem ao menos tentar dar uma olhada... Por fim, muito recentemente, ainda meio emburrado, sentei pra começar a maratona...

Natasha... Elise... pirdoa! Amo vocês! ❤🙏

Que delicinha de seriado... que delicinha de filme, que coisa mais fofa, viva e acolhedora! As três temporadas passam voando, não só pela estrutura de episódios de no máximo dez minutos, com narrativa estilo vlog, simulando uma transmissão online infinita, mas pelo ritmo, humor, plot twists, sacadas bem boladas e, acima de tudo, pelo carisma e simpatia do jovem elenco formado quase que inteiramente por LGBTS+, vivendo uma ensandecida aventura sobrenatural que, suponho, deixaria até Buffy meio enciumada.

Mas já deve ter ficado bem evidente que a série é sim MUITO fora da curva em relação à obra original. Muito mais do que qualquer das versões que discutimos acima, mesmo as mais infiéis. Nem tanto em relação ao enredo, nesse aspecto Carmilla - A Série até que se ancora bastante na novela como ponto de partida (bem mais do que eu esperava). É meio tipo A Tumba de Drácula, uma continuação que estabelece que a protagonista (claro) não morreu no final do livro e continua zanzando por aí por todos esses séculos, reaparecendo hoje como uma deslumbrante sapinha emo-gótica dividindo o quarto com a estudante de jornalismo Laura Hollis num bizarríssimo colégio interno assombrado na Styria! A série até se apodera da célebre lacuna da misteriosa Condessa Mãe para obter sua arqui-vilã! Uma terrível, maquiavélica e poderosíssima Bruxa-Deusa-Vampira ladra de corpos que tem criado "filhas-vampiras" desde a antiguidade, armando golpes como os do baile do General Spieldorf e o acidente da carruagem para infiltrar a sedutora Carmilla no seio das famílias nobres e abastadas do leste europeu e assim colocar suas garras em jovens virgens que serão oferecidas em sacrifício para uma divindade lovecraftiana primal que...

Bom, você entendeu. A série não tem a menor intenção de ser uma história de horror, muito menos gótica. E não está nem um pouco interessada no peso, melancolia ou nos subtextos complexos que atravessam a novela e alimentaram as demais adaptações. No limite, mal está interessada em vampiros, Carmilla está muito mais pra uma super-heroína sobrenatural, com sua super-força e poder de se transformar numa enorme gata (da qual, aliás, só ouvimos falar, já que a série nunca abandona o ponto de vista da webcam do notebook de Laura, algo que pode soar limitador, mas acaba virando um dos seus grandes charmes, a ponto de tornar cada pequeno momento de quebra dessa estrutura um verdadeiro evento). Resumindo: tirando as referências ao enredo original, Carmilla - A Série não tem absolutamente NADA de Le Fanu! A intenção é sim ser uma comédia romântica sobrenatural e ponto! Cheia de aventuras, perigos e citações espertas, mas não mais do que isso. O foco é a história de amor entre Laura e Carmilla. E, ao contrário do livro, aqui ninguém está interessado em ambiguidade: é de amor mesmo que estamos falando.

E essa é a real importância da série: Ver a galera LGBTS+ finalmente tomando posse de uma das mais famosas protagonistas lésbicas da história da literatura de horror de forma direta, dispensando intermediários ou subterfúgios, sem pedir licença e, principalmente, sem se desculpar por querer ser leve e acima de tudo divertida. Todas, todos e todes envolvides na série, sejam personagens, elenco ou público, sabem muito bem o que querem depois de todas as peripécias, dramas e perigos: um final feliz. E é isso que terão. Não é pouco no mundo em que (ainda) vivemos. Na verdade é mais do que suficiente para tornar Carmilla - A Série uma das mais importantes releituras do clássico de Le Fanu, para além de quaisquer (in)fidelidades.

E pra quem já se assumiu creampuff (entendedores entenderão), The Carmilla Movie é a proverbial cereja do bol... ora, do creampuff. Financiado diretamente pelas fãs só pra trazer a duplinha dinâmica de volta para uma última (mas não necessariamente derradeira) aventura, dessa vez livres das restrições do formato webcam/vlog e podendo até se dar ao luxo de, ora vejam, brincar de gótico, botando Natasha Negovanlis e Elise Bauman pra usar (e tirar, se é que me entendem) legítimos figurinos vitorianos num casarão old school apropriadamente assombrado. E ainda aproveita pra arrematar uma pequena ponta solta lá do princípio da série: se Laura é uma personagem do presente, então quem era e que fim levou a garota do livro original? 🤔 Inútil dizer que se você não se interessa pela série, nem adianta ver o filme. De minha parte, é claro que a ambientação me fez curtir ainda mais... e enquanto espero ansiosamente dar continuidade a esse artigo com a mais do que aguardada versão de Emily Harris, não deixa de fazer sentido me despedir com Natasha e Elise dançando em trajes de época. As duas podem até não ter muito a ver com as infelizes Carmilla e Laura originais, mas tem tudo a ver conosco, lutando por um mundo com mais e melhores utopias. Um brinde, creampuffs! 🍷


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