segunda-feira, 3 de junho de 2019

As "Franquias" da Hammer Films: Barão Frankenstein

Embora seja indiscutível que a mais famosa e popular "franquia" da Hammer Films seja a do Conde Drácula de Christopher Lee, em termos críticos e mesmo históricos nada chega perto da importância e da qualidade da série de sete filmes do Barão Frankenstein de Peter Cushing, lançados entre 1957 e 1974. Pra começo de conversa, foi com The Curse of Frankenstein que a Hammer iniciou sua revolução no cinema de horror mundial, resgatando a temática sobrenatural e as inspirações na literatura gótica britânica que permaneciam mais ou menos dormentes desde o fim do Ciclo de Monstros da Universal no final dos anos 40, deixando bem para trás os insetos gigantes e os invasores alienígenas da ficção científica americana e as abordagens paranoicas da Guerra Fria que marcaram os anos 50. Não que não tenha rolado precursores dentro da própria Hammer que meio que foram fazendo a transição entre o scifi e o gótico, como a série do Professor Quatermass e alguns filmes notáveis como O Abominável Homem da Neve, mas foi com The Curse of Frankenstein que o estúdio finalmente meteu os pés no peito, não só com o primeiro filme de horror britânico produzido em cores, como também pelas ousadas sequencias de gore, choque e humor perverso. Com o lançamento de Drácula já no ano seguinte, a Hammer se fundamentou como sinônimo de horror durante toda a década de 60 e boa parte dos anos 70.

Peter Cushing, o grande cavalheiro do horror.
Mas para além do pioneirismo, a série Frankenstein sempre pareceu uma espécie de xodó para o estúdio. Enquanto Drácula trocava de diretor e oscilava de qualidade filme após filme (ainda que numa média mais do que digna), quase todos os filmes do Barão foram dirigidos pelo melhor e mais importante diretor do período áureo da Hammer, Terence Fisher, o que propiciava uma admirável coerência estética e temática em meio às diferentes abordagens de cada roteiro (embora, como veremos, coerência cronológica estivesse longe de ser uma preocupação), sem mencionar, claro, que Peter Cushing tinha muito mais oportunidade de usar as várias facetas de seu talento como Barão Frankenstein do que Christopher Lee como Drácula (que, somando tudo, aparecia relativamente pouco nos seus próprios filmes). Tudo isso contribuiu para uma qualidade geral altíssima em toda a série, cujas particularidades filme a filme, de acordo com meu ponto de vista, tentarei comentar no decorrer desse singelo artigo.


1957: The Curse of Frankenstein
(A Maldição de Frankenstein)
Direção: Terence Fisher
Roteiro: Jimmy Sangster

Antes de mais nada, acho bom começar (assim como fiz no artigo sobre Drácula) desmistificando a ideia errônea comumente repetida por aí de que a Hammer produzia versões fiéis dos clássicos da literatura gótica. Não, tiremos isso da cabeça logo de cara para não criar falsas expectativas. Pouquíssimos filmes da Hammer seguem os enredos dos livros que "adaptam", a tendência do estúdio sempre foi dar uma sacudida na poeira dos clássicos e entregar visões ágeis e dinâmicas dos grandes ícones do horror gótico, sem no entanto jogar fora sua essência. Assim, não esperem ver o plot do romance de Mary Shelley reproduzido em nenhum dos filmes, o que temos de fato é o foco na ideia central da obsessão de um ambicioso cientista em compreender e dominar o mistério da vida a partir dos despojos da morte, sendo que a construção de uma criatura montada com pedaços de cadáveres é apenas uma das inúmeras possibilidades que a série acabaria se valendo.

O monstro de Christopher Lee, papel que junto ao Conde Drácula,
um ano depois, o lançaria ao estrelato. 
Essa abordagem, claro, veio em parte por problemas práticos. Os orçamentos da Hammer sempre foram modestos durante toda a trajetória do estúdio, o que de cara já obrigava um foco mais pé no chão (nada de cenas no Ártico e similares). Fora isso, a Universal Pictures era a dona dos direitos da imagem icônica do Monstro, criada pelo maquiador Jack Pierce a partir dos esboços de James Whale e imortalizada pela atuação de Boris Karloff. Assim, Jimmy SangsterTerence Fisher não podiam usar nada que fosse criação direta dos filmes da Universal dos anos 30, mas eu ousaria dizer que, mesmo que pudessem, seria contra-produtivo se o protagonista continuasse sendo o Monstro, pois a Universal explorou essa abordagem até a exaustão (de fato, até o horror virar comédia pastelão). Levando em conta que a Hammer tinha um ator do calibre de Peter Cushing à disposição, a ideia de focar no próprio Victor Frankenstein (não mais "Henry", como nos filmes da Universal, e agora até ganhando o título de "barão") não só driblava problemas legais como se mostrava muito mais criativa naquele momento, por mais que isso levasse a figura do Monstro de Christopher Lee para um papel muito mais secundário do que no romance original.

Entendo que muitos fãs do livro (ou mesmo do clássico de 1931) tenham certa dificuldade de lidar com isso, mas uma vez superado o preconceito torna-se impossível não vibrar com a arrebatadora performance de Cushing como o obcecado Barão. Agarrando com unhas e dentes o papel que o lançaria ao estrelato (ao menos no volátil universo dos filmes B), Cushing nos entrega um Frankenstein permanentemente ambíguo, oscilando entre a euforia contagiante de um cientista apaixonado pelas próprias descobertas e a vilania de um aristocrata totalmente incapaz de sentir real empatia por seus semelhantes, muito menos pela infeliz criatura que nunca chega a ser mais pra ele do que um experimento fracassado. Ao contrário do jovem e romântico estudante das ciências obscuras de Shelley, o Barão de Cushing é sagaz, frio e capaz de qualquer coisa para alcançar seus objetivos, incluindo assassinato. Mas, ao mesmo tempo, nos cativa muito mais do que os supostos heróis, vividos por Robert Urquhart e Hazel Court, algo bem de acordo com a ambivalência moral da abordagem gótica. Essa dualidade do Barão será mantida pela série inteira, em diferentes níveis de simpatia ou repulsa, dependendo do filme.

Hazel Court como Elizabeth, única personagem do livro de Mary Shelley,
além de Frankenstein e seu monstro, a aparecer no filme.
Porém, de forma semelhante ao que acontece no primeiro Drácula de Lee, The Curse of Frankenstein está longe de ser o filme mais interessante da série, ao menos pra mim. Suas proezas técnicas se destacam, especialmente o inventivo uso do technicolor para intensificar o gore e os momentos de choque, bem como o pioneirismo de seus principais elementos narrativos e temáticos, mas o roteiro de Sangster parece sofrer de uma certa indefinição entre preservar ou abandonar elementos do livro. Ao mesmo tempo que recria a essência da história num enredo completamente novo, parece hesitar diante de (talvez) algum tipo de sentimento de "obrigação" para com o peso do clássico. A sensação é quase como de acelerar com medo de tirar o pé do freio. A nova abordagem só deslancharia de vez em todo o seu potencial com as continuações, já mais confiantes da inventividade de sua própria abordagem. Mas nada disso abala o status de The Curse of Frankenstein como um dos maiores clássicos do cinema gótico mundial, ao lado de Horror of Drácula, que seria lançado um ano depois.


1958: The Revenge of Frankenstein
(A Vingança de Frankenstein)
Direção: Terence Fisher
Roteiro: Jimmy Sangster, Hurford Janes, George Baxt

O sucesso foi tão estrondoso que a Hammer não perdeu tempo e já começou a produzir a continuação imediatamente depois do lançamento de The Curse of Frankenstein. E ao contrário do que rolou com Drácula, com Lee, por várias razões, se recusando a voltar ao papel, Peter Cushing estava mais do que a postos para reviver o carismático Barão, agora sim livre de todo o "lastro" com o romance original que segurava o filme anterior. The Revenge of Frankenstein é um filme surpreendente em muitos aspectos. A pegada steampunk, já presente no primeiro capítulo, ganha ares quase surreais nos experimentos de reanimação de pedacinhos de corpos humanos (que seriam levados ao absurdo na série Re-Animator, décadas depois) e a trama, já bastante original em comparação com tudo o que a Universal produzira nos anos 30 e 40, atinge desenlaces que podem surpreender até mesmo as audiências de hoje (de fato, surpreenderam a mim).

Michael Gwynn, descobrindo da pior maneira que não há
separação entre mente e corpo.
Continuando exatamente do ponto em que o anterior parou (caso único na série, como veremos depois), reencontramos "Victor Stein" escondido das autoridades e trabalhando como cirurgião num precário hospital comunitário, atendendo os mendigos e desvalidos da cidade de Carlsbruck, Alemanha, o que lhe dá livre acesso a cadáveres para dar continuidade às suas pesquisas. Inadvertidamente acaba ganhando um aprendiz, Doutor Hans, vivido por Francis Matthews, que reconhece o infame aristocrata mas prefere aprender seus segredos ao invés de denuncia-lo. É através dos olhos de Hans (guarde esse nome) que descobrimos o quanto o Barão evoluiu em habilidade e ambição. Nada de monstro tosco com danos cerebrais, agora Victor é capaz de montar um corpo humano aparentemente perfeito, sem remendos ou arestas, bastando apenas um último toque para dar-lhe vida: o transplante do cérebro de seu voluntário assistente aleijado, Karl (Michael Gwynn).

Nesse ponto fica muito mais claro o potencial da abordagem da Hammer. Ao tornar o próprio Frankenstein (e não o monstro) o principal elemento de continuidade, a Hammer se viu capaz de explorar um aspecto apenas intuído no livro: até onde Victor poderia chegar se tivesse chance de ir além dos erros cometidos na primeira experiência? Com o monstro original morto e com um Victor muito mais egomaníaco do que o de Shelley, os roteiristas se viram livres para especular inúmeras possibilidades dentro da ideia base da busca pelo segredo da vida e dos limites do corpo humano. E se fosse possível transplantar um cérebro vivo? E se um aleijado pudesse ganhar um corpo novo em folha, montado a partir de pedaços saudáveis de cadáveres? A ambivalência moral de Victor torna-se ainda mais intrigante diante do potencial benéfico (embora sem dúvida perturbador) da ideia.

O que os olhos vêem o coração sente... ao menos depois de montado.
O fracasso previsível (afinal, é uma história de horror) não deixa de ser profundamente interessante. O corpo novo e perfeito começa a "se aleijar" espontaneamente para desespero do cérebro em seu interior. Embora o roteiro jamais explique porque isso acontece não é difícil especular para quem tem alguma familiaridade tanto com a neurociência atual quanto com as artes do corpo (particularmente cênicas e performáticas) segundo as quais não existe separação real entre cérebro e corpo, apenas unidade e intercambialidade, algo que o raciocínio dissecador de Victor não poderia compreender. Assim, de forma surpreendente para um filme B de horror, The Revenge of Frankenstein acaba antecipando reflexões científico-filosóficas bastante avançadas para a época e tendo um profundo impacto no espectador, que não consegue deixar de se afligir com a agonia de Karl diante da deterioração de seu novo corpo, elevando o potencial de horror da premissa original de Mary Shelley a patamares inéditos... ao menos até então.


1964: The Evil of Frankenstein
(O Monstro de Frankenstein)
Direção: Freddie Francis
Roteiro: Anthony Hinds

O primeiro "soluço" na série acabou rolando por conta do que, a princípio, seria uma boa notícia: percebendo que seria muito mais lucrativo colaborar do que insistir numa concorrência, a Universal fechou um acordo de distribuição com a Hammer e um dos efeitos colaterais foi a liberação dos direitos dos Frankensteins dos anos 30 e 40. Finalmente a Hammer poderia usar o lendário visual da cabeça chata e eletrodos no pescoço de Karloff, e quaisquer outros elementos criados por James Whale e sucessores. A questão é: deveria? Já dizia o velho deitado: cuidado com o que desejas... poderá conseguir. 😶

Não adianta ter a cabeça chata e os eletrodos se não tiver Boris Karloff
para colocar dentro. 
É de se imaginar que a liberação dos direitos causou um rebuliço nos bastidores, levando a uma determinação de cima pra baixo para usar na marra o visual icônico do monstro, independente de quaisquer planos que já tivessem rolado para mais uma sequencia. A questão é que a Hammer já havia estabelecido uma forte identidade com os filmes anteriores e já não precisava de nada criado na franquia da Universal. Mais do que isso: voltar a "focar no monstro", a essa altura do campeonato, era basicamente um passo atrás. Mas ordens são ordens e lá vai o grande Freddie Francis tentar dar dignidade a um enredo que (com perdão do trocadalho) parece um Frankenstein. 😅

O filme começa num laboratório improvisado na floresta no qual Victor continua firme e forte com suas experiências na companhia de seu fiel assistente Hans. Ao serem descobertos o Barão decide voltar a sua cidade natal e, no caminho, resolve contar pra Hans toda a história de como criou seu primeiro monstro. E é aí que entra um flashback não dos acontecimentos do filme de 1957, mas sim uma espécie de retcon no qual o monstro agora é uma versão tosca da criatura de Boris Karloff e o próprio laboratório do Barão magicamente se torna quase idêntico ao dos filmes dos anos 40. E não pára por aí: esse suposto monstro "original", que o Barão acreditava ter morrido num incêndio, é encontrado congelado numa geleira, de forma quase idêntica a Frankenstein Meets the Wolf Man, de 1943!

Banho de loja no laboratório, agora ao estilo Universal Pictures.
A impressão que dá é que a Hammer tentou fazer ao mesmo tempo (e a toque de caixa) um filme que funcionasse como continuação tanto para sua própria série quanto para a da Universal, misturando elementos incongruentes de vários tratamentos de roteiro (o personagem Hans, por exemplo, agora vivido por Sandor Elès, não parece ser o mesmo do filme anterior, parece mais que o nome apenas "sobrou" de uma dessas reescritas). Se o filme é agradável de ver, apesar de tudo, é pelo carisma dos atores e a habilidade narrativa do diretor, mas certamente é um desvio esquisito que meio que "entortou" os rumos da série inteira. Desse ponto em diante, as continuações passaram a adotar uma característica não tão incomum nas "franquias" cinematográficas do passado, mas que com certeza causa urticária no espectador de hoje em dia: o total abandono de qualquer coerência cronológica. A partir daqui passou a ser comum o Barão morrer no final de um filme e simplesmente aparecer vivo no outro, sem a menor explicação, ao mesmo tempo que outros elementos não tão impactantes de continuidade seguem sendo citados (como as referências às mãos queimadas). Pode ser exasperante se você for um típico fã de universos compartilhados, como o da Marvel, obcecado com coerência e furos de roteiro. Mas, sinceramente, pra mim é um charme a mais numa "franquia" que, por si só, já é bastante fora da curva em relação a todos os padrões atuais. 😉


1967: Frankenstein Created Woman
(Frankenstein Criou a Mulher)
Direção: Terence Fisher
Roteiro: Anthony Hinds

Antes de mais nada, vamos esquecer o título, tá? Algum dia ainda pretendo escrever um artigo sobre o papel dos títulos escalafobéticos nas estratégias de marketing da produção de filmes B nos tempos pré-internet, mas por agora só vamos deixar claro uma coisa: não, não se trata de um remake apelativo de A Noiva de Frankenstein. Felizmente a vontade de virar uma nova Universal não passou do filme anterior e, com a volta de Terence Fisher à direção, a saga do Barão Frankenstein da Hammer retorna aos eixos em grande estilo num dos melhores filmes da série. De fato, ao contrário do que o título e o material promocional sugerem, nenhuma mulher é "criada" aqui, não há um "monstro" propriamente dito (seja feminino ou masculino) montado com pedaços de corpos, pois dessa vez o interesse do Barão não está no corpo, mas sim na alma!

Peter Cushing e Susan Denberg nas imagens promocionais
que não se parecem com nada que há, de fato, no filme.
Reencontramos nosso querido anti-herói aqui da forma mais inusitada possível, morto e congelado, sendo reanimado por seus novos assistentes, Doutor Herzs (Thorley Walters, impagável, como de hábito) e Hans (Robert Morris), numa cena que com certeza faz todo mundo que assiste ao filme pela primeira vez achar que está rolando alguma continuidade em relação ao capítulo anterior, mas não é nada disso (como já expliquei, coerência cronológica não será mais uma preocupação até o fim da série), trata-se na verdade de um experimento para determinar os limites da chamada "morte cerebral". Ficamos sabendo que Victor permaneceu "morto" por uma hora, mas pôde ser reanimado porque "sua alma não abandonou o corpo"! A partir dessa intrigante descoberta praticamente patafísica, o Barão dá um passo além nas suas pesquisas, especulando não apenas a possibilidade de vencer a morte através da "captura da alma" (de forma similar a outro clássico britânico que seria lançado anos depois, The Asphix), como a possibilidade de transplantar não uma coisa tão "simples" e "corriqueira" quanto um cérebro, mas sim a alma de um corpo para outro! 😱

Esse é o tipo de fantasia desvairada que espectadores de hoje nem sempre dão conta de engolir, mas que era muito comum no cinema e na literatura de inspiração pulp das antigas (vide as "rugosidades do cérebro" de O Expresso do Horror). Uma vez que o Sr. Cushing, com sua habilidade ímpar de fazer soar racionais até as premissas mais absurdas, já conseguiu nos convencer da lógica impecável das conclusões do ilustre Barão, acompanhamos a triste história de Hans (dessa vez definitivamente não o mesmo personagem dos filmes anteriores, apesar do nome continuar "sobrando" de alguma forma), que quando criança viu seu pai ser enforcado por assassinato e cresceu com o estigma de um dia seguir o mesmo destino, até se envolver com a filha do estalajadeiro local, Christina (Susan Denberg), outra pária no vilarejo por conta de uma doença na infância que deixou seu corpo aleijado e parte de seu rosto desfigurado. O casal é vítima constante das zombarias dos filhinhos de papai dos patronos locais, o que acaba levando a uma sequencia de eventos trágica e, no limite, mortal.

Susan Denberg, como a desfigurada (masa ainda linda), Christina.
Não darei muitos detalhes para evitar spoilers nesse que é sem dúvida o mais intrincado enredo de toda a série, basta dizer que o Barão acaba tendo à sua disposição um corpo danificado para reanimar e uma alma capturada sedenta por vingança, com resultados inacreditáveis! Apesar do absurdo geral da situação, os desenlaces quase sempre são surpreendentes e os detalhes (que na abordagem gótica são tudo o que interessa) no mínimo intrigantes. De todos os filmes esse talvez seja o que apresenta a faceta mais humana do Barão, pois apesar da sua implacável obsessão e frieza e apesar de declaradamente estar interessado apenas em matéria prima para suas experiências (ou ao menos tenta acreditar nisso) fica claro que há uma pontada de compaixão pelo infeliz casal motivando parte de suas decisões, algo que Cushing sabe explorar com sua habitual competência e sutileza. Um dos filmes mais emocionalmente impactantes da filmografia da Hammer e uma confirmação da excelência da série do Barão Frankenstein entre as diversas "franquias" do estúdio.


1969: Frankenstein Must Be Destroyed
(Frankenstein Tem Que Ser Destruído)
Direção: Terence Fisher
Roteiro: Anthony Nelson Keys, Bert Batt

Se no filme anterior tivemos um Barão um tanto mais comedido e até mesmo simpático em seu senso torto de justiça, aqui o caldo entorna de vez. Como o próprio título dá a entender, nosso obcecado protagonista ultrapassa todos os limites éticos, morais e legais e atinge o extremo da vilania e monstruosidade num dos filmes mais violentos e cruéis do estúdio. Um legítimo herdeiro da tradição do Grand Guignol, evocado desde a sensacional sequencia de abertura com um Victor mascarado jogando corpos descartados num poço profundo nos fundos do laboratório, sem o menor pudor de cometer assassinatos múltiplos para obter matéria prima. De fato, pra todos os efeitos o Barão Frankenstein tornou-se um serial killer! 😲

Peter Cushing e Simon Ward dando um cérebro novo em
folha para Freddie Jones, o "monstro" da vez.
Essas variações extremas no caráter do personagem, sempre defendidas brilhantemente por Cushing, soariam um tanto exageradas se a série seguisse algum tipo de desenvolvimento mais linear, mas com sua estrutura mais frouxa, sem uma continuidade clara, faz mais sentido pensar que não estamos lidando exatamente com sequencias stricto senso, mas sim com diferentes abordagens dentro de uma mesma premissa. E, a essa altura da trajetória do estúdio, quando a Hammer já começava a sofrer com a concorrência das novas tendências hiper-gráficas do cinema de horror americano (A Noite dos Mortos Vivos acabara de sair), um pouco menos de sutileza fazia todo sentido. Não que alguma vez tenha faltado gore e violência na série, mas pra disputar com o cinema furioso que começaria a aflorar durante os anos 70 era sensato deixar qualquer tipo de comedimento para trás.

Assim, se nos filmes anteriores o Barão sempre podia contar com um assistente voluntário interessado em suas pesquisas, aqui ele literalmente escraviza um jovem cirurgião e sua namorada se valendo de chantagem. Desde o filme anterior há uma insinuação de que Victor não consegue mais operar devido a queimaduras em suas mãos (talvez relacionadas ao incêndio de The Evil of Frankenstein), algo que aqui se torna fundamental na sua relação com o personagem de Simon Ward. Mais do que isso, o Barão procura acesso ao sanatório onde seu relutante assistente trabalha para, literalmente, roubar o cérebro de um cientista rival enlouquecido, receptáculo de uma possível resposta para problemas técnicos relativos aos transplantes de cérebro. Nesse aspecto, o filme é uma variação da temática da troca de corpos do segundo episódio da franquia, mas com desenlaces ainda mais cruéis e agoniantes.

A "máscara de serial killer" do Barão Frankenstein.
Frankenstein Must Be Destroyed é um filme fenomenal, com o melhor que a Hammer mais apelativa e desvairada podia fazer em seus anos ditos como "decadentes". Mas não posso deixar de mencionar seu único (porém enorme) ponto fraco: a inexplicável cena de estupro. Por mais que as ordens de bastidores fossem exacerbar a vilania do Barão, nada justifica que um personagem cuja principal característica e motivação sempre tinha sido a obsessão pelo seu trabalho de repente resolva violentar uma mulher por puro capricho. A cena é tão gratuita e bizarra que simplesmente não casa com nada que vinha antes ou depois, não fazendo nenhuma diferença no encadeamento da história (ao contrário, as atitudes e reações dos personagens durante o terceiro ato chegam a parecer sem sentido depois de um episódio tão grotesco). De fato, a filmagem foi determinada de última hora e inserida na montagem por ordem de James Carreras, um dos cabeças do estúdio, que achava que o filme precisava de sexo! Cushing repudiou publicamente a cena (que, assim como a atriz Veronica Carlson, foi obrigado a filmar sob ameaça de processo por quebra de contrato) declarando ter sido a coisa mais difícil e repugnante que teve que fazer em toda a sua carreira. Triste... poderíamos muito bem ter passado sem isso. 😤


1970: The Horror of Frankenstein
(O Horror de Frankenstein)
Direção: Jimmy Sangster
Roteiro: Jeremy Burnham, Jimmy Sangster

Reaproveitando o que escrevi no artigo sobre a "franquia" Drácula (afinal faz todo o sentido aqui), "pra quem acha que reboots são coisas de hoje em dia, Scars of Dracula e Horror of Frankenstein foram uma tentativa frustrada da Hammer de reiniciar suas mais longevas franquias numa bela sessão dupla (como podem notar no lobby card acima). A ideia era, basicamente, ignorar os filmes anteriores e criar um ponto de entrada para novos espectadores" e se Scars acabou se mostrando um tanto tímido nessa empreitada, Horror foi até longe demais, cometendo a ousadia suprema de tirar Peter Cushing do papel!!! 😱 Blasfêmia!!!! 😡 Mas claro que, do ponto de vista da época, fazia todo sentido rejuvenescer o Barão, apostando numa audiência jovem, e nada melhor pra isso do que a figura cínica de Ralph Bates, que a Hammer tentava emplacar como um novo astro. E o filme, ao contrário de Scars, é de fato um reboot, chegando a começar com o jovem Barão ainda cursando a faculdade de medicina, reapresentando os fundamentos da série dentro de todo um novo contexto.

Ralph Bates, Veronica Carlson (retornando do filme
anterior) e Kate O'Mara em foto promocional.
O resultado é no mínimo polêmico, com o filme sendo considerado por muitos como a pior coisa que a Hammer já vez (a ponto de muitos críticos nem o considerarem como parte da série). Devo dizer que não sou tão severo assim na minha avaliação. Que é o filme mais fraco da franquia não vou discutir, mas está longe de ser uma sessão desagradável, desde que o espectador entre no espírito da coisa. Pra começo de conversa não o considero como um remake de The Curse of Frankenstein, como é comumente afirmado, as histórias (e até os personagens) são diferentes demais para uma correspondência tão direta, por mais que o ponto de partida seja o mesmo. Ao mesmo tempo será que faz mesmo sentido falar em reboot se a série não estava nem aí pra cronologia, afinal? Pra mim faz mais sentido pensar em Horror como mais uma variação dentro da premissa básica que a Hammer explorou desde o começo: focar no personagem do Barão ao invés do Monstro, só que dessa vez tendo o humor perverso como linha mestra. Sim, The Horror of Frankenstein é uma comédia macabra e, visto dessa forma, até que tem muitos méritos.

Tá saindo da jaula o Monstro!!!
David Prowse, muito antes de Star Wars.
Ralph Bates surpreende com sua versão debochada e ainda mais egomaníaca do nosso caro Barão, que não vê problema algum em se valer do (nada carismático) monstro de David Prowse (mais conhecido como o "corpo" de Darth Vader) como ferramenta para assassinar seus desafetos, num roteiro que, afinal, é impulsionado em grande parte pelas artimanhas e caprichos do aristocrático filhinho de papai. Pra ser honesto, nem sempre dá pra ter certeza de até que ponto o humor é mesmo intencional ou resultado da falta de experiência de Jimmy Sangster como diretor (ele sempre foi o mais importante roteirista do estúdio, só que dirigir é outra história), mas o fato é que de alguma forma o filme acaba funcionando e mantém o espectador no mínimo interessado em saber onde a bagunça toda vai dar (sinceramente a última cena sempre me faz gargalhar, se isso é bom ou ruim fica a critério do leitor). 😂

À propósito: três anos depois Paul Morrissey lançaria seu debochadíssimo (e muito superior) Flesh for Frankenstein (também conhecido como Andy Warhol's Frankenstein) cujo nonsense me lembra muito os melhores momentos de Horror of Frankenstein. Teria rolado alguma influência? Eu não me surpreenderia.


1974: Frankenstein and the Monster from Hell
(Frankenstein e o Monstro do Inferno)
Direção: Terence Fisher
Roteiro: Anthony Hinds

Frankenstein and the Monster from Hell é um filme crepuscular. Pra muitos é o último grande clássico do estúdio que, apenas dois anos depois, sairia de vez do cenário do cinema de horror mundial com o lançamento de Uma Filha Para o Diabo (ainda que tendo uma fugaz sobrevida na televisão). Em momentos assim não é incomum que, enquanto a empresa continua fazendo de tudo para se manter no mercado (tudo mesmo, até Drácula lutando kung fu), os artistas envolvidos já tenham compreendido que o fim chegou e, de um modo ou de outro, acabem expressando isso em seu trabalho (afinal é o que artistas fazem). Peter Cushing retorna aqui com todas as honras ao papel que o consagrou, juntamente com o semi-aposentado Terence Fisher (que não filmava desde Frankenstein Must Be Destroyed) para entregar seu último grande trabalho juntos (no caso de Fisher, último em vida), fechando uma trajetória de quase vinte anos desde o longínquo The Curse of Frankenstein.

O Barão em plena forma, mesmo com peruca.
Ao fundo, Shane Briant como o novo assistente.
Claro que não há como saber com certeza se o filme foi mesmo feito para ser um encerramento, tanto da série, quanto da própria Hammer. A trama em si não tenta propriamente "fechar" coisa alguma, pra todos os efeitos era apenas mais um episódio da saga do Barão, agora assumindo o controle de um sanatório (novamente através de chantagens e ameaças, porém mais direcionadas a personagens antipáticos e canalhas, amenizando a vilania de sua aparição anterior) para garantir um suprimento perpétuo de matéria prima para continuar suas experiências. O tema central em si acaba sendo até um tanto repetitivo, mais uma variação do tema do transplante de cérebros que já tinha aparecido tanto no segundo quanto no quinto filmes, sendo que a única novidade agora seria a questão de quais seriam as possíveis consequências do transplante do cérebro de um sábio para o corpo de uma especie de troglodita (vivido novamente por David Prowse, irreconhecível), mas o resultado não é muito diferente do que foi visto em The Revenge of Frankenstein.

Mas, como eu sempre digo, na abordagem gótica quase sempre são os detalhes que de fato importam, e seja no tom, nas performances ou no encadeamento narrativo, o sétimo e último Frankenstein da Hammer realmente soa como um espécie de finale. Há uma certa melancolia pairando no ar durante toda a projeção, mesmo não sendo um filme que se leva assim tão a sério. Ao contrário, Fisher e Cushing até se permitem brincar com a fama "gore" da franquia, como vemos na lendária cena em que o Barão (ainda incapaz de usar as mãos por conta das queimaduras) morde uma artéria com os dentes enquanto seu novo assistente, Shane Briant, a sutura (reza a lenda que era sangue humano de verdade!). Consigo até imaginar as gargalhadas no set assim que Fisher gritou "corta". O filme todo tem essa pegada exagerada e grotesca mas, ao mesmo tempo, bem humorada (um "humor negro" bem melhor encaixado do que no filme anterior, diga-se de passagem) e Cushing parece mais a vontade do que nunca, apesar da peruquinha que, segundo ele mesmo, o fazia parecer Helen Hayes. 😂

Madeline Smith e David Prowse,
o "Anjo" e o "Monstro do Inferno"
O fato é que, independente de qualquer deslize ou repetição de fórmula, é um filme delicioso de assistir! É caloroso e triste, engraçado e tocante, com múltiplas rememorações do histórico imagético da Hammer que bons entendedores não deixarão de captar, quase como numa intencional reflexão a respeito de tudo o que o estúdio representou para o cinema de horror gótico, tanto no Reino Unido quanto no mundo. E não poderia haver uma forma mais apropriada de nos despedirmos de nosso velho amigo Barão Victor Frankenstein do que a cena final. Depois de tantas pseudo-mortes e supostos "finais definitivos", o último filme da série fecha com Peter Cushing animadamente varrendo o laboratório no melhor estilo "o show não pode parar". Afinal, "ainda há muito trabalho a ser feito... e temos todo o tempo do mundo".

Um brinde, meu caro Barão... e obrigado. 🍷


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