terça-feira, 20 de junho de 2017

Ghost Stories for Christmas - A Tradição Natalina do Horror Gótico Britânico

Já parou pra pensar no quão recente é esse lance de encontrar e baixar quase que qualquer obra da história do cinema pela internet? Ainda me lembro de como era ler sobre filmes obscuros em revistas (de papel) e ter de me conformar com as resenhas e fotografias já que a chance de aparecerem nas locadoras (alguém lembra delas?) ou passar numa madrugada maldita de TV aberta não era nem mesmo remota, era sem esperança. Hoje, a possibilidade de baixar praticamente tudo (ênfase no "praticamente") se tornou tão corriqueira, que toda uma cultura de legenders e ripadores acabou se sistematizando numa lógica que quase poderia ser chamada de "empreendedora", se não fosse sem fins lucrativos (ao menos financeiros). Baixar filmes e séries se naturalizou a tal ponto que tendemos a esquecer o quanto essa mudança é extraordinária. Como é revolucionário ouvir falar de uma certa obra e, independente dos caprichos do deus mercado, ser capaz de encontra-la com uma simples pesquisa. Ter acesso! Evidente que nem tudo é tão achável quanto os blockbusters do momento, mas já não é mais uma impossibilidade absoluta como nos meus tempos de cinéfilo juvenil. Manter a memória de como as coisas eram me parece importante, afinal, toda revolução precisa ter sua história registrada para as novas gerações. 😉

Todo esse preâmbulo é pra evidenciar ainda  mais o peso e a solenidade dos achados desse singelo "dossiê". Ghost Stories for Christimas foi uma série de curtas-metragens especiais de Natal produzidos pela BBC nos anos 70, adaptando alguns dos melhores contos daquele que provavelmente é o mais importante autor de histórias de fantasmas das letras britânicas, o historiador, professor e erudito Montague Rhodes James, mais conhecido como M.R. James. A série original (posteriormente ampliada com revivals e obras derivadas) durou de 1971 até 1978 totalizando oito curtas de 30 a 50 minutos, sempre exibidos na véspera de Natal, mas a gênese da proposta surgiu na verdade um pouco antes, em 1968, com a exibição de "Whistle and I'll Come to You", um episódio especial da longeva série de história da arte da BBC, Omnibus. Pra todos os efeitos, o especial funcionou como uma espécie de "piloto", já apresentando todas as características que diferenciariam a série das demais produções de horror que marcariam a década: o estilo dramatúrgico intencionalmente old school, o ritmo sóbrio, lento e elegante, a ênfase na construção atmosférica e na sugestão ao invés do choque direto, o requinte com caracterizações de época mesmo com orçamentos modestos e, acima de tudo, na intencional aliança com a charmosa tradição inglesa de narrar histórias de fantasmas ao pé da lareira nas noites de Natal (um costume infinitamente preferível, vocês devem concordar, do que assistir Roberto Carlos Especial enquanto o tio bolsominion conta piadas homofóbicas. 😉)

Montague Rhodes James ou simplesmente
M.R. James
Os britânicos sempre levaram seus fantasmas muito a sério. Contar histórias arrepiantes na véspera de Natal é um costume tão antigo quanto os periódicos literários do século XIX, como o célebre Household Words de Charles Dickens, cujas aguardadas edições especiais de fim de ano costumavam ser inteiramente dedicadas às ghost storiesTanto Dickens quanto James eram famosos por estrear seus contos em leituras públicas para uma plateia ávida por calafrios, mas enquanto o lendário autor de A Christmas Carol fazia esse tipo de exibição profissionalmente em teatros e convenções, James estava mais do que satisfeito em apenas entreter seus alunos e colegas de Cambridge em reuniões intimistas ao pé do fogo. Considerado uma respeitadíssima autoridade em História Medieval (background bastante útil como inspiração para suas histórias), M.R. James foi pioneiro no abandono de certas convenções e clichês góticos em prol de um maior realismo na ambientação e na psicologia dos personagens, tornando críveis até as mais desvairadas monstruosidades concebidas por sua imaginação. De fato, seus fantasmas dificilmente se encaixariam na simplória definição de "espíritos de pessoas mortas" do senso comum, revelando-se muito mais como aparições grotescas e doentias que se insinuam através de velhas catedrais, relíquias macabras e cemitérios templários, atormentando os infelizes professores acadêmicos, bibliófilos e antiquários que desgraçadamente cruzam seu caminho. Acima de tudo, são criaturas de pesadelo que se manifestam no limiar da percepção dos protagonistas (e dos leitores), muito mais "sentidas" (ou, mais caracteristicamente, "apalpadas"!) do que "vistas". James tinha regras muito rígidas de como uma narrativa de horror deveria ser, e uma das principais era: o fantasma jamais deve ser benigno! Senão que graça tem? 😂

Lawrence Gordon Clark, em seu ambiente.
Assim, desde o velho e bom vulto envolto num lençol, até as patas de um monstruoso inseto translúcido tocando seu rosto no escuro, passando por cabeças de bebês com patas de aranha e criaturas de limo que rastejam por antigas escadarias, os horrores de James se mostraram ideais para que a BBC tornasse as noites de Natal de seus telespectadores no mínimo inesquecíveis. Lawrence Gordon Clark, principal responsável pela série e diretor de quase todos os episódios, não só era um grande apaixonado pela literatura fantástica britânica, como um veterano na área de documentários e produções educativas da emissora, experiência que se mostrou ideal para garantir a autenticidade das ambientações e o apropriado peso histórico que servem de base para a sutil e insinuante atmosfera jamesiana. Um verdadeiro "casamento alquímico" que rendeu cinco curtas praticamente impecáveis, ao menos até 1976, quando a BBC resolveu dar um tempo com as adaptações de James e produziu uma celebradíssima versão de "O Sinaleiro" de Dickens. Poderia ter sido o começo de uma frutífera nova fase, talvez adaptando contos de diferentes autores clássicos a cada Natal, mas ao invés disso a série resolveu seguir adiante com roteiros originais e ambientações contemporâneas, com um resultado no mínimo polêmico. Embora interessantes a seu modo, "Stigma" (1977) e "The Ice House" (1978) destoaram tanto do que vinha sendo produzido até então que acabaram por precipitar o fim das "Ghost Stories for Christmas", ao menos no seu formato original.

Ilustração de James McBryde para
"Whistle and I'll Come to You" -1904
Em 2005, a BBC Four começou a exibir reprises dos episódios setentistas, num movimento nostálgico que acabou culminando num revival que continua sendo produzido até hoje, ainda que com uma periodicidade tão irregular que a série já foi considerada coisa do passado diversas vezes no decorrer dos anos. Apenas os dois primeiros episódios foram lançados em sequência, nos natais de 2005 e 2006, trazendo de volta as adaptações de James no esquema mais tradicional possível, sem maiores tentativas de inovação. Em 2010 foi a vez de uma nova e espantosa versão de "Whistle and I'll Come to You" (o melhor de todos os curtas do revival, ao menos até o momento) e, por fim, em 2013, tivemos "The Tractate Middoth", marcando o primeiro envolvimento direto com a série do ator, diretor e roteirista Mark Gatiss, até então mais conhecido por seu trabalho com outra "instituição" britânica, Doctor Who. Assumidamente fanático pelo gênero, tendo produzido na mesma época a série documental A History of Horror e MR James: Ghost Writer, Gatiss pode até não chegar aos pés de Clark como criador de seu próprio material, mas sua paixão foi mais do que suficiente para garantir sua posição atual como principal responsável pela continuidade da série, tendo escrito e dirigido o roteiro original de "The Dead Room" em 2018 e uma nova adaptação de M.R. James em 2019, "Martin's Close".


De modo geral, esses novos episódios mostraram-se ao menos dignos da tradição e, junto com a série original, inspiraram diversos outros curtas e telefilmes de horror natalino desde os anos 70 até hoje. Dentre esse material tivemos desde produções mornas e pouco memoráveis como Crooked House e The Haunted Airman (sem contar uma equivocadíssima nova versão de A Volta do Parafuso), até notáveis e merecidamente celebrados objetos de culto como The Stone Tape e Casting the Runes, mas o maior destaque é sem dúvida a obra-prima "Schalcken the Painter", baseada no conto de Sheridan Le Fanu e exibida no Natal de 1979, o único "derivado" que realmente conseguiu se conectar em todos os aspectos com o estilo e a proposta da série original, a ponto de comumente ser listado como parte dela, seja por auspicioso engano ou sincero reconhecimento (uma listagem completa de todas as produções relacionadas às "Ghost Stories for Christmas" pode ser vista aqui).

Edição da Editora Penalux, contendo os contos
"Corações Perdidos", "O Freixo", "Conde Magnus",
"O Poço dos Gemidos" e "Assovie Que Virei"
Não sei dizer se qualquer parte desse material chegou a ser exibido no Brasil, seja por TV aberta ou a cabo. Suponho que, talvez, os revivals possam ter tido sua chance, mas não tenho certeza. Certamente os curtas dos anos 70 nunca saíram por aqui em DVD, muito menos bluray e, obviamente, jamais irão entrar no catálogo do Netflix. Até bem pouco tempo atrás, para achar esses episódios era preciso muita garimpagem e sorte, eu mesmo só tinha conseguido juntar releases decentes de quatro deles na época que esbocei esse dossiê pela primeira vez. Felizmente, as caprichosas marés da internet nunca param de se movimentar e, finalmente, o blog RareLust disponibilizou DVDrips de ótima qualidade para todos os (até o momento) 14 curtas da série oficial, o que me motivou a traduzir as legendas e resenhar cada uma dessas preciosidades do gótico old school, de modo a tornar as "Ghost Stories for Christmas" pelo menos mais conhecidas e acessíveis aos amantes do gênero. Quem sabe assim alguma editora se digne a publicar decentemente M.R. James no Brasil. Até onde sei só saíram três volumes dedicados à sua obra, e isso muito recentemente: uma edição física pela Editora Penalux, Assovie Que Virei - Histórias de Fantasmas, e duas virtuais: A Casa de Whitminster: O Fantasma Minguado e Outros Espectros e Lançando as Runas: E Outras Histórias de Fantasmas (essa última, infelizmente, numa tradução muito mal revisada).

ATUALIZAÇÃO: Uma edição aparentemente completa de Histórias de Fantasmas de um Antiquário (em dois volumes) foi publicada pelo Clube de Autores e o blog A Biblioteca Noturna tem disponibilizado traduções não só de James mas de diversos escritores (e particularmente escritorAs) da literatura gótica clássica que tendem a passar batido no Brasil, além de uma impressionantemente completa matéria sobre a vida e a obra de M.R. James e sobre a tradição natalina das histórias de fantasmas britânicas num contexto histórico. Material inestimável!🥰

DETALHE IMPORTANTE:
Estou disponibilizando links pra baixar dada a raridade do material e o fato de estarmos falando em acesso e compartilhamento aqui, mas esse não é um blog de downloads, então não fiquem mal acostumados, ok? 😉


Whistle and I'll Come to You (1968)
de M. R. James, adaptado e dirigido por Jonathan Miller

Ainda que nem tenha sido exibido no Natal originalmente (na verdade foi em maio de 68) a adaptação de "Assovie que Virei Até Você" não poderia deixar de ser considerada como uma espécie de "piloto espiritual" para a série que estrearia três anos depois. Não por acaso, foi incluída no box de DVD Região 2 lançado em 2012 e é referenciada com honras não apenas em listagens sobre as Ghost Stories for Christmas, mas também de clássicos do gótico, folk horror e grandes produções televisivas em geral. Como já havia esboçado mais acima, o curta de 42 minutos caracteriza-se por uma narrativa sóbria e contida, aparentemente simples, que deixa todos os mistérios para serem especulados pela imaginação do espectador. O ritmo é propositalmente lento, a atmosfera sinistra vai sendo construída num crescente de pequenos detalhes e insinuações que provavelmente passarão batido se você for daqueles que preferem dar mais atenção ao celular do que aos momentos de silêncio na tela (se é que me entendem). Em resumo, uma abordagem profundamente fiel ao "espírito"' de sua fonte literária, em seus aspectos fundamentais.

O que não significa que o roteiro se prenda mais do que seria saudável ao texto original. Jonathan Miller enxuga personagens e concentra a narrativa na figura excêntrica (e, por vezes, hilária) de Michael Hordern. O veterano ator cria um personagem bastante diferente do jovem professor do conto, porém ainda mais notável, um catedrático de meia idade cheio de manias e esquisitices, hospedado de férias num hotel em algum lugar na costa anglicana. Numa caminhada nas ruínas de um antigo cemitério de cavaleiros templários, próximo ao oceano, o Prof. Parkin encontra um curioso apito num dos túmulos e, na solidão de seu quarto, a noite, decifra a inscrição em latim incrustada nas laterais: "Quem é este, que está vindo?". É óbvio que o cético professor vai mesmo dar uma assopradinha, só pra ver no que dá. 😱

Miller cria um bizarro microcosmo de figuras esquisitas que parecem sofrer de uma patológica dificuldade de socialização. Velhos eruditos tão ensimesmados que mal conseguem projetar a voz para que um interlocutor os entenda (o "diálogo" entre o Prof. Parkin e o dono do hotel nos primeiros minutos chega a ser surreal!). Horden, particularmente, compõe o Prof. Parkin como um tipo tão hermético que poderia causar hemorroidas, incapaz de entender uma pergunta antes da terceira repetição, mas habilíssimo em fazer longos discursos para os próprios botões ou para qualquer infeliz que invente de lhe dar corda, digamos perguntando alguma coisa como: "Acredita em fantasmas?". Uma versão extrema (e nonsense quase a la Monty Python) do tradicional protagonista da literatura gótica: o arrogante homem civilizado secular, que despreza as experiências e saberes externos aos seus próprios círculos consagrados, até ser pego de jeito por forças que não está preparado para lidar. O episódio apresenta essa estrutura clássica de forma maravilhosamente didática, quase arquetípica, ainda que de forma até mais sutil do que o conto (que, afinal, é uma das principais fontes literárias da famosa imagem do fantasma envolto num lençol!). Não conheço outra obra audiovisual que traduza com tamanha perfeição aquele sensação (que, certamente, todos nós já experimentamos) de estar semi-desperto na escuridão do quarto, no meio da madrugada, e - mais do que ouvir - sentir que há mais alguma coisa lá com você. Recomento uma sessão solitária de madrugada imediatamente antes de ir dormir. 😉



The Stalls of Barchester (1971)
de M. R. James, adaptado e dirigido por Lawrence Gordon Clark

Agora sim, três anos depois de "Assovie que Virei Até Você", finalmente temos a estreia "oficial" da série "A Ghost Story for Christmas" em 24 de dezembro de 1971. Durante essa "série clássica" setentista, com uma única exceção, todos os curtas foram dirigidos por Lawrence Gordon Clark, sendo que "As Bancadas de Barchester" foi seu primeiro trabalho ficcional, estabelecendo o formato e a essência que a programa manteria até pelo menos 1976, fortemente inspirado nos parâmetros estabelecidos por Jonathan Miller em seu especial em Omnibus. Um tipo de "fidelidade irreverente" que não se furta a ampliar e resignificar o material de base, aproveitando as brechas e lacunas típicas das estruturas narrativas jamesianas para brincar a vontade com a caracterização de personagens e conexões necessárias à dramatização, um tipo de abordagem que tem a vantagem de favorecer, acima de tudo, as performances extraordinários do elenco, livre para preencher e colorir até mesmo figuras meramente citadas ou que só cumpriam funções burocráticas no texto, como o narrador anônimo que se materializa aqui na forma do simpático e pitoresco Dr. Black de Clive Swift, claramente se divertindo ao carregar o tradicional papel do antiquário erudito da obra de James com a mais fina ironia britânica. 

Robert Hardy, o Cornelius Fudge dos filmes de Harry Potter, é o Dr. Haynes, diácono júnior que ambiciona o respeitabilíssimo cargo de arquidiácono na Catedral de Barchester, mas tem sua paciência colocada à prova pela estupenda longevidade de seu predecessor, Dr. Pulteney (Harold Bennett), que insiste na descortesia de, com mais que excessivos 80 anos de vida, não se dignar nem a morrer e nem a renunciar graciosamente de sua posição. "Acho perfeitamente crível que Matusalém tenha vivido 300 anos", desabafa o Dr. Haynes para sua irmã Letitia, vivida pela comediante Thelma Barlow. Por fim, Dr. Pulteney acaba desocupando a moita numa suspeita queda da escadaria na residência oficial da diocese, mas a alegria (contida e discreta, naturalmente) de seu sucessor só dura até o momento em que vozes misteriosas começam a segui-lo pelos corredores durante a noite e as figuras esculpidas de um gato e de um vulto encapuzado em sua bancada na catedral, começam a dar arrepiantes indícios de estarem ganhando vida.

É digno de nota que boa parte desse elenco fosse mais conhecido por suas participações em comédias do que por histórias de horror. O deliciosamente perverso senso de humor britânico perpassa toda a construção da trama e é particularmente efetivo nas hilárias sequencias do coro (só vendo pra entender) e nos monólogos divertidamente venenosos da já citada Thelma Barlow (aliás um exemplo de personagem que no conto era apenas mencionada). Claro que esse senso de humor, longe de atrapalhar a atmosfera macabra da história, na verdade a intensifica, ajudando a preservar o caráter oblíquo com que os elementos sobrenaturais vão pouco a pouco se fazendo sentir. "As Bancadas de Barchester" pode se orgulhar de diversos momentos deliciosamente arrepiantes, com destaque para as transfigurações das esculturas da catedral ao som de canto gregoriano e a participação efetiva do "gato fantasma" (convenhamos, gatos são sempre legais) entre as aparições que atormentam o pobre (mas nem tanto) Arquidiácono Haynes, inadvertidamente capturado numa inesperada e terrível encruzilhada entre o cristianismo e a "velha religião" (que, como se sabe, nunca foi lá muito fã desse negócio de perdoar e dar a outra face). Enfim, uma impressionante "estréia" para as Ghost Stories for Christimas e uma pérola fina não apenas do gótico britânico, mas do folk horror em geral que sempre caracterizou a série.



A Warning to the Curious (1972)
de M. R. James, adaptado e dirigido por Lawrence Gordon Clark

Desde o título, "Um Alerta aos Curiosos" é inteiramente focado naquela velha tradição que comentei acima dos protagonistas céticos (e arrogantes) que realmente deveriam aprender a prestar mais atenção nos avisos dos moradores locais ("Não pode cavar aqui!") e sobretudo nas lendas folclóricas de que se orgulham tanto de ser conhecedores. No presente caso um arqueólogo amador (Peter Vaughan, talvez mais conhecido pela criançada como o Maester Aemon, da finada Game of Thrones) que resolve aproveitar a falência da empresa na qual trabalhava durante décadas para tentar realizar o velho sonho de surpreender o mundo com uma grande descoberta e, de quebra, demonstrar que "ninguém precisa de uma sequencia de letras depois do nome para provar ser alguém". Com um antigo livro de folclore a tiracolo, o ex-funcionário aporta de mala e cuia na costa de Norfolk e sai em busca de pistas que confirmem ou refutem a suposta localização de uma das lendárias coroas perdidas de Anglia que, segundo a lenda, ainda hoje protegem a costa da Inglaterra contra invasões bárbaras. Para sua própria surpresa, o Sr. Paxton acaba se revelando um investigador bem mais do que razoável e não demora muito para reunir evidências suficientes para descobrir e escavar o "sepulcro real"... pena que, no processo, deu menos atenção do que deveria às insinuações de um padre, um antiquário e outras figuras pitorescas da região sobre um certo "guardião" da coroa, um homem que teria falecido a alguns anos cheio de remorso por não ter um descendente direto para passar adiante seu encargo vitalício. Precisa explicar o que acontece depois?

Dentre as cinco adaptações de M.R. James desse período setentista, eu ousaria dizer que essa é a que menos gosto... mas admito que é uma avaliação bastante pessoal. Afinal,  muitos críticos chegam até mesmo a considera-lo como o melhor episódio da série e não é raro encontra-lo nas listagens de clássicos do folk horror em geral ou mesmo entre os top 20 de melhores produções de televisivas de horror de todos os tempos. Não chego bem a discordar, é claro, mas realmente sinto que os outros curtas vão muito mais longe nas suas respectivas propostas. Talvez me incomode o fato de ser bem menos sutil, assumindo sem pudores o formato da velha e boa vingança sobrenatural, com um fantasma um tanto... como direi... comum demais, quando a gente leva em consideração as bizarrices que James nos acostumou a esperar. Enfim, deve ser mesmo pura ranhetice da minha parte, que nem deveria ser levada em conta diante da beleza melancólica das paisagens enevoadas do countryside britânico, onde o espectro solitário de William Ager (John Kearney) perambula eternamente protegendo a última coroa perdida de Anglia.

À propósito, aqui nos despedimos (de forma, ao que parece, bem definitiva) do indefectível Dr. Black, de Clive Swift, que teve a honra e distinção de ser o único personagem recorrente de toda a série! Ao menos por dois episódios...



Lost Hearts (1973)
de M. R. Jamesadaptado por Robin Chapman e dirigido por Lawrence Gordon Clark

Bastante cultuado como um dos episódios mais assustadores da série, "Corações Perdidos" de certo modo quebra (ou ao menos tenciona) uma das regras estabelecidas pelo próprio James: aquela de que o fantasma nunca deve ser benigno. Ainda que "benigno" não seja bem a palavra que vem a mente diante das faces pálidas e das unhas gigantes do casal de crianças que assombra uma antiga mansão rural na qual o jovem Stephen é recebido por um parente distante depois de se tornar órfão. Mesmo assim, fica bastante claro, desde o início do curta, que os fantasmas não são nem de longe o maior motivo de preocupação do menino.

O roteiro é bastante fiel ao conto, um dos que foram incluídos na coletânea da Editora Penalux: "Assovie Que Virei - Histórias de Fantasmas" (uma tradução diferente também pode ser encontrada num pdf disponível online), ainda que as passagens de maior impacto sejam um tanto diferentes por uma questão de adequação de mídias. No geral trata-se de um ilustre representante da temática clássica da busca pela superação das limitações humanas através da subversão das leis naturais (no caso, pela alquimia), ambição comumente encarnada na figura do aristocrata erudito, ansioso por perpetuar seus privilégios de classe para além do túmulo. Mas provavelmente o elemento mais responsável por tornar o curta tão marcante para os espectadores que o assistiram na época é o ponto de vista infantil do jovem Stephen. Nada supera as reminiscências (tão universais) das noites solitárias no velho quarto de criança, quando as sombras pareciam tão... substanciais... e nós realmente acreditávamos que "coisas" poderiam nos visitar à noite, semi-ocultas atrás dos móveis e das cortinas. É como se diz: "Crianças podem ver os anjos"... e ainda mais os fantasmas.

The Treasure of Abbot Thomas (1974)
de M. R. Jamesadaptado por John Bowen e dirigido por Lawrence Gordon Clark

E o Natal seguinte trouxe outro velho tema relativo aos mistérios da alquimia. Dessa vez a busca pela chave da transmutação de metais básicos em ouro, a mítica pedra filosofal, ora entendida como uma metáfora para a elevação do espírito, ora encarada ao pé da letra por ávidos caçadores de tesouros. No caso do curta, ao pesquisarem a história e escritos de um certo abade de péssima reputação nos arquivos da catedral, um professor e seu mais destacado aluno acabam adotando posturas um tanto opostas ao abordar a possibilidade da existência de um tesouro escondido: um deles abraça a segunda interpretação sem o menor embaraço, enquanto o outro apenas finge adotar a primeira, pelo bem de sua reputação como escolástico e erudito. Mas logo irá descobrir que há um preço a pagar por seu ceticismo dissimulado. Afinal, se você está disposto a verificar a possibilidade de que o ouro alquímico seja mesmo real, seria no mínimo sensato manter a mente aberta a respeito de seu suposto guardião, não é?

"O Tesouro do Abade Thomas", pode não ser tão arrepiante quanto alguns dos outros curtas, uma vez que seu foco é bastante diferente, mais voltado para o mistério do que para o terror, mas é irresistível em seu clássico formato de quebra-cabeça histórico a la "O Nome da Rosa" (guardadas as devidas proporções, evidente). Em meio à perambulações por igrejas abandonadas, bibliotecas cobertas de pó, telhados assombrados por gárgulas e criptas que jamais vêem a luz do Sol, cada cena vai decifrando mais um pedacinho do enigma, que leva a outro pedacinho, e outro, e mais outro, até atingirmos o ápice tanto da curiosidade de espectador quanto do horror dos protagonistas que mal suspeitam que, de além túmulo, o maldito Abade Thomas tudo sabe e tudo vê... e está sempre mais perto do que se imagina.



The Ash Tree (1975)
de M. R. Jamesadaptado por David Rudkin e dirigido por Lawrence Gordon Clark

De toda a série, "O Freixo" é com certeza o episódio mais dark, sem o menor traço do senso de humor macabro que, por vezes, equilibrava os momentos mais sinistros das outras histórias. Desde o primeiro minuto o tom é pesado e depressivo, estabelecendo uma atmosfera de tragédia inevitável e total desesperança. Se o uso de música já era contido na série em geral, aqui temos apenas a trilha diegética em alguns pontos chave e pesados silêncios na maior parte dos trinta minutos de duração. Não há espaço pra leveza nessa história de um fidalgo que não suspeita ter herdado, junto com a propriedade e título, também a maldição provocada pelas ações covardes de seu ilustre antepassado, décadas antes de seu nascimento. Solene e paciente, o freixo ao lado da antiga mansão rural apenas espera que um certo quarto seja novamente ocupado.

O conto original de James, outro dos que saíram na edição da Penalux, é de fato uma de suas histórias mais surpreendentes, abarcando ambiguamente tanto os horrores da inquisição quanto a possibilidade de que certos elementos de magia e bruxaria pudessem talvez ser ainda mais reais do que a igreja, com todo o seu fanatismo, poderia imaginar. Seria possível que, ao enforcar e queimar bruxas, os inquisidores estivessem, sem saber, destruindo as únicas pessoas que de fato compreendiam os perigos muito reais por trás dos mitos e lendas da velha religião? E se, sem elas, estivéssemos desprotegidos contra horrores que mal podemos conceber, quanto mais compreender? Uma coisa é certa: o som de bebês chorando à noite não será esquecido tão cedo. Para os aficionados no fantástico britânico, o curta ainda trás como bônus a presença de Barbara Ewing, rosto conhecido dos fãs da Hammer Films e da Amicus Productions; e Lalla Ward, uma das mais queridas companions da série clássica do Doctor Who.



The Signalman (1976)
de Charles Dickens, adaptado por Andrew Davies e dirigido por Lawrence Gordon Clark

Lembram do que comentei mais acima sobre contos repetidos em coletâneas de editoras diferentes? Pois é, "O Sinaleiro" é um verdadeiro arroz de festa nesse sentido. Muito provavelmente você vai topar com ele em pelo menos uma de cada três antologias de histórias de fantasmas que chegar a folhear, seja qual for a época de publicação ou a editora. Duvido que haja um colecionador com menos do que umas três traduções diferentes em sua estante, não se quiser adquirir contos mais raros que, via de regra, acabam saindo junto com 70% de material repetido. Dá pra entender o quão irritante acaba sendo essa mania de editores e organizadores de nunca levarem em consideração as coletâneas de seus concorrentes? 😤

Enfim, só um desabafo... que, obviamente, não questiona de modo algum a qualidade e a importância do conto em si, uma das melhores ghost stories já escritas e uma escolha mais do que adequada para a única adaptação literária de outro autor além de James produzida pela série (ao menos da série oficial). Rigorosamente fielchega a ser desconcertante sua recriação em imagens do cenário do posto ferroviário encravado no interior de uma ravina, junto à entrada de um túnel sinistro. Denholm Elliott (que a maioria conhece como o Prof. Marcos Brody, da Trilogia Indiana Jones) está comovente como o solitário funcionário da ferrovia atormentado por um espectro que surge de tempos em tempos sob a luz de alerta do túnel. A cada aparição, algum tipo de tragédia acontece, levando o dedicado sinaleiro ao desespero diante da expectativa do que ainda possa estar por vir.

Não raro apontado como o melhor curta da safra dos anos 70, "O Sinaleiro" é uma demonstração exemplar de como a melancolia é tão ou mais importante do que o medo para o horror gótico. O arrepio na pele que sentimos ao ouvir o lamento angustiado do fantasma na ravina é uma mistura de medo do desconhecido com uma profunda tristeza, potencializada pelo uivo do vento nos fios do telégrafo e pela neblina que nos fecha, junto com o pobre Elliott, numa espécie de bolha fora do tempo e do espaço, tão densa que pode facilmente nos fazer esquecer que alguma vez houve qualquer coisa além dela, como nos sugere o próprio sinaleiro (numa das poucas falas inéditas em relação ao conto): "Nos primeiros dias, eu tentava encontrar tempo para subir, ver à luz do sol, mas... O trabalho estava sempre aqui me chamando, meu rosto podia estar ao sol mas minha mente estava aqui embaixo no escuro e nas sombras."


Stigma (1977)
escrito por Clive Exton e dirigido por Lawrence Gordon Clark

Bom, agora chegamos na parte polêmica. Particularmente eu considerei bastante válido deixar M.R. James um pouco de lado e abrir espaço para outros autores de histórias de fantasmas, coisa que não falta nas letras britânicas. Mesmo que fosse pra se manter dentro da tradição de leituras natalinas poderíamos ter tido Elizabeth Gaskell ou mesmo Henry James, mas eu não veria o menor problema em abrir o leque para os mais diversos autores e autoras clássicos. Agora, partir pra roteiros originais feitos direto pra TV e, mais do que isso, deixar de lado o característico estilo "de época" e adotar uma ambientação contemporânea, foi realmente um salto maior do que as pernas em relação a tudo o que havia sido produzido para os natais anteriores. Fica difícil não torcer o nariz. Provavelmente foi um reflexo da crise que o próprio cinema gótico britânico atravessava em 1977 frente à concorrência com a brutal nova safra de horror americano, mas se a intenção era "modernizar", o resultado não parece ter compensado a descaracterização.

Mas o episódio em si é ruim? Não, definitivamente não é ruim. A história da dona de casa que se muda para uma residência próxima aos megálitos dos antigos cultos druidas e começa a, inexplicavelmente, sofrer estigmatização (sangrar espontaneamente, como as chagas de Cristo) por conta da violação do túmulo de uma bruxa pelas obras no quintal, é suficientemente potente e funciona muito bem como um exercício de horror sutil. O problema é que "Estigma" poderia ser um episódio de qualquer outra série de temática fantástica/sobrenatural, desde Além da Imaginação até Hammer´s House of Horror, pois não tem nada de especificamente característico das "Ghost Story for Christmas". Os críticos mais virulentos argumentam que "sequer é uma história de fantasmas", uma afirmação que eu não faria assim com tanta certeza, pois depende da interpretação (afinal, um viciado em classificações poderia questionar se até mesmo "The Ash Tree" é uma história de fantasmas), mas não há dúvida que o curta dá uma guinada bastante brusca na série, o que acabaria em breve se revelando como o pulo do tubarão.



The Ice House (1978)
escrito por John Bowen e dirigido por Derek Lister 

O que dizer sobre "A Casa de Gelo"? Sinceramente ainda não tenho certeza se gosto ou não e parece que minha impressão é compartilhada por muitos críticos. Uma coisa é certa, a impressão de que poderia ser um episódio de qualquer outra antologia de horror exceto "A Ghost Story for Christmas" é ainda mais forte do que no episódio anterior. Com certeza é uma bizarra e surreal peça de ficção televisiva setentista e até merece ser conhecida, mas no contexto da série simplesmente não se encaixa, ainda mais por ser o único episódio dos anos 70 que não foi dirigido por Lawrence Gordon Clark.

Paul é um recém divorciado empresário de meia idade tentando recuperar sua força e auto-estima num luxuoso spa, mas logo começa a perceber que há algo de bizarro no casal de irmãos (incestuosos) que dirige o lugar e que quando os funcionários dizem que todos que trabalham ali tem um "toque frio" referem-se a algo muito mais profundo do que um mero problema de circulação. Dizer mais que isso seria arriscado pois as interpretações dos acontecimentos do curta pode ser tão variada, suponho, quanto o forem os espectadores. Seriam os irmãos anjos (ou demônios) e o spa uma espécie de purgatório? Haveria algo de ficção científica na misteriosa flor de perfume irresistível? Qual a importância (ou significado) da Casa de Gelo na qual os irmãos não cansam de afirmar que só há... gelo? Enfim, entre estranhas simbologias e curiosas insinuações homoeróticas (bastante surpreendentes no contexto de uma produção televisiva dos anos 70) chegam ao fim as "Ghost Stories for Christmas", para o bem ou para o mal. Ou não...



Schalcken the Painter (1979)
de Joseph Sheridan Le Fanu, adaptado e dirigido por Leslie Megahey.

De forma curiosamente circular, as "Ghost Stories for Christmas" dos anos 70 morreram da mesma forma que nasceram: em Omnibus. Exatamente um ano depois do polêmico fim da série original, no Natal de 1979, o programa de documentários de história da arte da BBC voltou a presentear o mundo com uma joia rara do gótico old school, a impecável adaptação de:“Um Estranho Incidente na Vida do Pintor Schalken” (também conhecido pelo título mais sucinto de Schalken, o Pintor) de Sheridan Le Fanu. Pra mim trata-se da grande obra prima de toda a série, mesmo não sendo parte oficial dela, merecendo ao menos ser incluída nas minhas resenhas (até porque é muito mais "Ghost Story for Christmas" do que "Stigma" e "The Ice House").

Le Fanu é um autor tão mal publicado no Brasil quando James, as editoras em geral parecem satisfeitas em apenas re-editar Carmilla periodicamente (só na minha estante tenho quatro traduções, sendo que uma das mais recentes se gaba de ser a primeira em português). Não que Carmilla não mereça essa atenção, afinal estamos falando de uma das mais importantes novelas da literatura vampírica (minha favorita), mas nem de longe a obra de seu autor se esgota por aí. Considerado pelo próprio M.R. James como o pai das histórias de fantasmas modernas, Le Fanu era um mestre no poder da insinuação. Em seus textos tanto os personagens quanto o leitor se veem perdidos num mistério sobrenatural cuja solução está sempre um passo além dos poderes de apreensão humanos. Há coisas que espreitam na escuridão, coisas que jamais poderemos compreender ou sequer sonhar em enfrentar. Seja o macaco espectral que assombra o Reverendo Jennings em "Chá Verde" ou o ser invisível que persegue o Capitão Barton em "O Demônio Familiar". Mas foi ao associar sua escrita com a obra do pintor holandês Godfried Schalcken, uma espécie de antepassado espiritual, que Le Fanu criou um de seus contos mais significativos. Schalcken, como muitos de seus contemporâneos, era um estudioso das técnicas de captura de fontes de iluminação difusa, sua obra é uma evocativa galeria de figuras semi-ocultas numa escuridão que a tênue luminosidade de uma vela nunca é capaz de penetrar. O conto traduz o poder de evocação dessas imagens numa melancólica história de fantasmas (ou vampiros, ou demônios, Le Fanu, como James, raramente fechava o fantástico em definições rígidas) que faz o leitor se sentir literalmente imerso na escuridão, vagando nas sombras numa tentativa vã de alcançar a luz bruxuleante de um simples candeeiro.

A adaptação em longa metragem (70 minutos) adota o formato de docudrama, bem típica de Omnibus. As bases históricas do conto forneceram uma oportunidade perfeita para ir a fundo tanto na reconstituição da época de ouro da pintura holandesa quanto do melodrama gótico irlandês. Inspirado no cineasta europeu Walerian Borowczyk, o diretor Leslie Megahey se vale de iluminação natural e uma fotografia de alta granulação para recriar a estética das pinturas de Schalcken, compondo um verdadeiro balé de sombras onde os personagens surgem e desaparecem das trevas, constantemente capturados no interior de molduras formadas por batentes de portas e janelas que se sobrepõem nos enquadramentos da câmera. Quadros dentro de quadros dentro de quadros onde, a qualquer momento, formas horrendas podem ser vistas ou imaginadas (no contexto do filme é até difícil saber a diferença).

A trama extrapola a biografia conhecida de Schalcken estabelecendo um affair do pintor com a sobrinha de seu mestre Gerrit Dou, um esboço de romance tragicamente interrompido quando um certo Lorde Vanderhausen of Rotterdam, surge literalmente das sombras com a intenção de comprar a moça para ser sua esposa. Para desespero de Rose, não só o ganancioso tio cede com mínima resistência ao dote oferecido pelo lorde, como seu suposto enamorado revela-se um covarde egocêntrico, não movendo um dedo para enfrentar o rival. Tudo isso já seria aterrador o suficiente, mas a culminação do horror vem do fato de que Vanderhausen parece ser qualquer coisa menos parte do mundo dos vivos.

Atmosférica, lúgubre, angustiante e profundamente melancólica (gótica até a medula, portanto), a adaptação preserva e (em certa medida) amplifica a ambiguidade do conto original. Os debates sobre a real natureza do misterioso Vanderhausen sem dúvida prosseguirão até o fim do mundo e o destino final de Rose é um enigma que se enterra profundamente no coração de cada espectador/leitor. As últimas sequencias coroam o mistério com uma das melhores representações em audiovisual do arquétipo da dama fantasma, tão importante para o gênero. "Schalcken the Painter" é uma obra prima que não pode deixar de ser conhecida seja por apreciadores do horror gótico, cinéfilos ou amantes das belas artes em geral, o que demonstra com clareza o quão revolucionário é esse poder de acesso que a internet nos possibilitou nesses últimos anos.

A View from a Hill (2005)
de M. R. Jamesadaptado por Peter Harness e dirigido por Luke Watson

Trinta e sete anos depois, seguindo uma onda nostálgica típica dos anos 2000, com reprises comemorativas da série original e até mesmo a produção de algumas variações charmosas, como leituras de M.R. James por Christopher Lee para uma audiência "edwardiana", a BBC Four decidiu resgatar a tradição das "Ghost Stories for Christmas" sem abrir concessões a um suposto "gosto moderno" (abençoadamente, eu diria). Os novos curtas seguem fielmente sua fonte de inspiração, começando por voltar de vez ao bom e velho James e tentando ao máximo seguir o estilo e essência dos curtas setentistas. O resultado se mostrou bastante digno, embora não consiga de fato reproduzir o impacto de algo que, acima de tudo, foi o produto de uma época. Talvez por isso o revival se desenvolva de forma tão tímida. Estritamente falando, apenas os dois primeiros curtas foram produzidos num esquema, digamos, "serial", como antigamente, indo ao ar nos natais de 2005 e 2006. As adaptações seguintes (ao menos até 2013) estavam mais para especiais independentes, tanto na periodicidade quanto nos valores e estética de produção.

O plot de "Uma Vista da Colina" é um dos mais inusitados de toda a série. Um bibliotecário se hospeda na mansão de um aristocrata falido para avaliar sua coleção de antiguidades e acaba encontrando um estranho binóculo, fabricado por um falecido alquimista, que lhe permite enxergar o "fantasma de uma igreja" num lugar onde na verdade só há ruínas. Sim, eu sei que soa meio bobo, meio "Além da Imaginação", mas só num primeiro momento, logo o jovem erudito descobre que a tal "igreja fantasma" não está exatamente vazia e aí a coisa realmente começa a pegar. No geral, é um competente e charmoso conto macabro, bastante valorizado pela presença do veterano David Burke (o Dr. Watson das primeiras temporadas de Sherlock Holmes com Jeremy Brett), impecável como o mordomo mal humorado que representa o contexto histórico, tão fundamental para uma boa história de fantasmas. Burke (a exemplo de Clive Swift e seu Dr. Black) repetiria o mesmo tipo de figura arquetípica no Natal seguinte.



Number 13 (2006)
de M. R. Jamesadaptado por Justin Hopper e dirigido por Pier Wilkie

O revival prossegue com a mesma competência, mas também sem maiores surpresas. Talvez a melhor definição para essa dobradinha inicial seja: redondinho. Se isso pode ser considerado um grande elogio ou não, fica a cargo do leitor. Assim como o conto anterior, "Número 13" parece ter sido escolhido por ser um representante bastante típico do estilo do autor, evitando talvez os contos mais "delirantes" em prol da abordagem mais clássica possível para uma história de fantasmas natalina. Continua funcionando bem, mas sem o toque fora da curva que tornava os melhores curtas da série original tão geniais. Excesso de reverência, talvez. Não se pode de fato dançar com seu ídolos quando você os considera intocáveis.

Mas, por favor, não me entendam mal. Não há como não considerar o revival um sucesso. Minhas reservas se relacionam mais com os parâmetros altos da série como um todo. Individualmente "Número 13" é delicioso. A história é sobre um bibliotecário (sempre eles) que se hospeda num daqueles hotéis antigos que simplesmente não tem um quarto de número 13 (o protagonista ocupa o quarto 14 e seu vizinho é o quarto 12). Durante seu trabalho de catalogação da biblioteca da catedral, acaba descobrindo que a cidade já teve sua própria "casa das bruxas", propriedade de um padre de péssima reputação que, segundo as más línguas, invocou o diabo em pessoa e o abrigou sob seu teto. Para má sorte do protagonista, o público adivinhará muito antes onde era a tal casa do padre-bruxo... e em qual quarto específico o tinhoso costumava descansar a carcaça.



Whistle and I'll Come to You (2010)
de M.R.Jamesadaptado por Neil Cross e dirigido por Andy De Emmony

Se há, no revival das "Ghost Stories for Christmas", aquele ponto fora da curva que transforma o "redondinho" em "genial" e acaba justificando o projeto como um todo, é essa nova versão de "Assovie Que Virei Até Você". Fiquei sinceramente surpreso quando vi que sua nota no IMDb era abaixo da média da série. Suspeito que por excesso de purismo. De fato, o curta altera substancialmente a trama do conto original de James, muito mais do que as mudanças pontuais da versão de 68, a ponto do apito encontrado nas ruínas sequer estar presente nessa versão, e a frase título aparecer de uma outra forma e num outro contexto. Blasfêmia! gritaram alguns, sem dúvida. Mas é como eu dizia: para criar algo genial ao dançar com seus ídolos, primeiro é preciso não considera-los intocáveis. Você se arrisca a tomar um belo tapa ao colocar a mão onde não devia, mas também pode ter a maior trepada da sua vida se tomar o devido cuidado. 😉

Se há uma semelhança entre essa versão e a antiga é que boa parte do sucesso de ambas se dá pela escolha do protagonista. Michael Hordern era impecável, mas a performance de John Hurt tem algo de sublime. O falecido ator cria um James Parkin que literalmente nos parte o coração, nos fazendo temer por ele como raramente os filmes de horror conseguem, e chorar com ele em momentos de arrasadora potência. Parkin é um homem que sabe que sua vida está chegando ao fim... e tem medo. Ele acaba de deixar a esposa com Alzheimer num asilo e se dá conta de que, nos últimos anos, sua única razão de existir era cuidar dela. Enfermeiras e amigos não conseguem compreender que a perspectiva de "ter tempo para si mesmo" não lhe trás nenhuma alegria, por mais que tente acreditar no contrário. Como tantos de nós no fim da vida, Parkin se dá conta de que está sozinho e sua estadia no antigo hotel onde viveu momentos felizes com a esposa na juventude apenas reforça sua compreensão desse fato... e é então que os fantasmas começam a aparecer.

Sensível, sutil, mas ao mesmo tempo emocionalmente brutal e genuinamente aterrorizante, o curta é uma pequena obra prima que dialoga com o texto de James de forma bastante sagaz. Frases clássicas como "quem é este que está vindo?" ressurgem transfiguradas, atingindo até mesmo o espectador que acredita conhece-las bem, o que, como mencionei, pode ser irritante para um purista que espera apenas reencontrar o texto reproduzido em outra mídia. Mas um coração aberto não terá como não ser impactado com a forma como o velho discurso do protagonista cético secular típico da literatura gótica reaparece aqui: "Um fantasma? Uma personalidade humana desincorporada que sobreviveu à morte do corpo? Nunca vi, mas vi o oposto: um corpo que sobreviveu à existência da personalidade... e isso é muito mais horrível", evocando uma passagem igualmente arrepiante de Ambrose Bierce: "Num determinado tipo de morte o espírito também morre e sabe-se de casos em que isso aconteceu quando o corpo ainda continuaria vivo por muitos anos". Palavras para rasgar a alma.


The Tractate Middoth (2013)
de M. R. Jamesadaptado e dirigido por Mark Gatiss

Depois do arrasador curta de 2010, essa primeira produção de Mark Gatiss para a lendária série parece quase um retrocesso, por mais que, friamente falando, seja um trabalho tão respeitável quanto os dois primeiros curtas do revival. O problema é que "O Tratado Middoth" sofre ainda mais do tal excesso de reverência que comentei antes, transpirando nostalgia a cada frame. É charmoso, belamente produzido, bem escrito e bem atuado, mas não tem nem um décimo do impacto de seu antecessor. De fato, Gatiss sempre me pareceu muito mais interessante como um pesquisador apaixonado e documentarista (adoro sua série A History of Horror) do que como criador de seu próprio material. Crooked House, sua tentativa de emular tanto a tradição das Ghost Stories quanto os portmanteau da Amicus, é bem o tipo de coisa que dá pra chamar, no máximo, de "redondinho" (o mesmo pode ser dito de seus episódios em Doctor Who e Sherlock).

Mas dentro da pegada comemorativa com que o episódio foi lançado originalmente, com direito à dobradinha com o especial MR James: Ghost Writer e outras firulas, não dá pra negar que a história do bibliotecário que acaba se enredando numa caçada por um livro assombrado acaba soando como uma espécie de celebração ou até mesmo de "encerramento" para a tradicional e longeva série (no caso, bem mais digno do que foi "The Ice House", diga-se de passagem). Visto por esse prisma, até que faz sentido toda a pompa e reverência, chegando até mesmo a exibir o título "A Ghost Story for Christmas" na abertura, algo que a série original nem se dava ao trabalho de fazer (exceto "The Signalman" e "Stigma", mas o título exibido era apenas "A Ghost Story"). E, de fato, "O Tratado Middoth" acabou sendo mesmo um "encerramento" durante muitos anos, quer tenha sido intencional ou não... mas se o Sr. Gatiss tem uma qualidade, é a persistência...


The Dead Room (2018)
escrito e dirigido por Mark Gatiss

Levando em conta a sua declarada paixão pelo horror gótico em geral, chega a surpreender que Mark Gatiss tenha demorado tanto tempo pra trazer as "Ghost Stories for Christmas" de volta. Por outro lado, dessa vez ele tem feito questão de deixar claro que os fantasmas natalinos voltaram pra ficar. Pouco depois de "A Sala da Morte" ser exibido no Natal de 2018 a BBC já estava divulgando as primeiras notícias sobre o vindouro "Martin's Close", o 11० conto de M.R. James a ser adaptado pela série. De certo modo, essa certeza de que em breve estaríamos de volta a um terreno mais familiar alivia um pouco uma certa desconfiança em relação ao presente episódio, afinal é o primeiro desde "Stigma" e "The Ice House" a ter um roteiro original, não baseado em fonte literária alguma, e uma ambientação contemporânea, uma escolha ao menos tempo ousada e temerária, considerando que foram esses mesmos fatores que levaram ao fim da série original em 1978. Por outro lado, os tempos (e o contexto) são outros, e "The Dead Room" acaba tendo outro interessante ponto em comum com "The Ice House": um protagonista gay. Algo apenas insinuado no episódio setentista, claro, mas que aqui ganha uma importância fundamental para o enredo. Ousaria dizer que essa é a primeira real inovação temática que Gatiss trouxe para a série, ainda mais levando em conta a generalizada estupidez política reacionária atual.

Infelizmente, Gatiss também inventou de "cometer" o primeiro jumpscare da história das "Ghost Stories for Christmas"! E justamente no clímax! Uma mancada e tanto pra quem pretendia trazer de volta uma série que sempre se caracterizou pela sobriedade e sutileza. Admito que fiquei brochado na primeira vez que assisti, mas só estou comentando isso agora para afirmar que seria um erro descartar o episódio todo por conta desse deslize (por mais irritante que seja). O fato é que "The Dead Room" cresce nas revisões e tem muito a oferecer por pelo menos 90% de sua duração. É uma história apropriadamente metalinguística, cheia de divertidas citações a contos de horror clássicos, e que tenta literalmente criar um diálogo entre os dois tipos de público alvo possíveis para um programa desse tipo: os tiozões apreciadores do gótico clássico e os jovens fãs de horror contemporâneo curiosos com essa tradição. O melhor do episódio está nos hilários diálogos entre o veterano ator e locutor de rádio vivido por Simon Callow (que em si já evoca a tradição dos contadores de histórias, porém realocada para um contexto tecnológico moderno) e a jovem redatora do estúdio de som ("Quando você nasceu?", "1990", "Cristo!", super entendo essa reação, rsss...). É nesse subtexto de "conflito de gerações de amantes do horror" que Gatiss se mostra verdadeiramente espirituoso, e até sábio ao evitar cair na tentação de "escolher um lado", como demonstra o genial momento do "Chá Verde": "Prefiro café, obrigada!"; "Não, não, me refiro a Sheridan..."; "Le Fanu, claro. Já li. Tem um macaco, né?". Não tem como não abrir um sorrisão de orelha a orelha. Por tudo isso, mesmo com as falhas graves no seu desfecho, não dá pra deixar de considerar "The Dead Room" como um reinício pelo menos auspicioso, nos deixando ansiosos pelo próximo natal assombrado. 👻

Legenda


Martin's Close (2019)
de M. R. Jamesadaptado e dirigido por Mark Gatiss

Difícil não traçar comparações entre Mark Gatiss e Mick Garris além da semelhança dos nomes (vivo escrevendo "Mark Garris" e "Mick Gatiss" 😅). Ambos profundos conhecedores do gênero e figuras chave para o horror como produtores e curadores, direta ou indiretamente envolvidos com uma quantidade enorme de projetos emblemáticos, desde as "Ghost Stories for Christmas" até Masters of Horror. Mas quando tentam criar seu próprio material dificilmente saem da mediocridade. Não medíocre no sentido de "ruim", mas de "na média", bege. Já apontei mais acima os problemas dos episódios dirigidos por Gatiss, mas aqui ficou dolorosamente claro que se a série quiser mesmo se restabelecer como uma tradição natalina da BBC e não continuar a ser produzida apenas esporadicamente, Gatiss precisa aprender a "largar o osso" e (como Garris) delegar as funções para autores mais inspirados. "Perto de Martin", por mais que me doa dizer, é burocrático e sem graça, com pouquíssimos momentos memoráveis e mesmo esses estão mais relacionados ao humor do que ao horror (e nem sei dizer até que ponto o humor foi intencional). Me faz temer pela possibilidade de continuidade da série que me parecia tão certa no ano anterior, ainda mais com a simultânea rejeição (não inteiramente merecida) da minissérie Drácula que Gatiss e Steven Moffat lançaram no começo de 2020.

Mas ao menos Gatiss tem uma vantagem em relação a Garris: se apoiar em M.R. James e não em Stephen King 😜. Por mais que a adaptação e a direção em si não ajudem, o plot do conto original é potente o bastante pra segurar a atenção. Há algo de angustiantemente perverso nessa história sobre um jovem e arrogante fidalgo que ilude uma criada deficiente mental para (em bom português) mantê-la disponível para usufruto sexual, acabando por assassina-la quando os boatos passam a prejudica-lo. A trama em si se passa no julgamento do tal fidalgo, quando o promotor vivido por Peter Capaldi (ainda com a Tardis estacionada lá fora, não duvido) se vale de uma linha de argumentação no mínimo inusitada para demonstrar a culpa do acusado: trazer evidências de que o fantasma da moça está perseguindo seu assassino. É um material forte e potente, tanto na narrativa estruturada no julgamento, quanto na temática atravessada por questões de luta de classes e abuso (sem contar alguns momentos creepy do mais puro estilo jamesiano, como o "fantasma dentro do armário", deslizando pelo chão de uma forma que parece... "errada"), o problema é que Gatiss trata essas questões com a sutileza de um rinoceronte manco, permeando o episódio com um senso de humor desajeitado que acaba diluindo todo o impacto, por vezes chegando perigosamente perto do mais rasteiro "politicamente incorreto". É fato que o humor perverso sempre foi uma importante característica da série, mas usa-lo de forma verdadeiramente eficiente e equilibrada de modo a, mais do que preservar, intensificar o horror, exige um tipo de sagacidade que Gatiss, pelo visto, (até entende, mas) não domina.

Enfim, sempre fico meio chateado quando não tenho muita coisa de bom a dizer e não posso simplesmente deixar de lado (afinal tinha que atualizar o post), mas ainda assim espero de coração que, de agora em diante, meu dossiê sobre as "Ghost Stories for Christmas" se torne de fato um work in progress (na verdade TODOS os meus artigos são work in progress, é uma das vantagens do suporte texto 😉) e nos próximos natais eu tenha a oportunidade de adicionar resenhas e apreciações para novas (e melhores) histórias de fantasmas, honrando e dando continuidade à tradição inatacável da série original dos anos 70. Afinal, que outro motivo teríamos para esperar o Natal, não é mesmo? ¯\_💀_/¯

8 comentários:

  1. Muitíssimo obrigado por disponibilizar estas pérolas e com estas excelentes legendas.
    Pra quem gosta desta série, há também o filme A mulher de Preto de 1989. É uma produção britânica feita para tv, e tem o mesmo clima gótico destes episódios disponibizados aqui. Este filme está esgotado em dvd, mas pode ser encontrado em sites de torrents.

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    1. De fato... pra facilitar tem um release decente de "A Mulher de Preto" na minha filmoteca: http://minhateca.com.br/Lorde_Velho/Cinema/Ingleses/1989.+The+Woman+In+Black

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  2. Lorde Velho, poderia me ajudar com um pequeno mistério que encontrei ao ler este poste? Você provê aqui um link para um livro de contos que contém um dos contos do Sr James. Gostaria de adquirir o livro em papel, mas ao pesquisar, não encontro nenhuma referencia ao mesmo. Nem mesmo na editora. O isbn, se refere a um título diferente[Frankenstein]. Será este um livro traduzido por fãs? Agradeço desde já.

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    1. Então... acredito que está se referindo ao pdf "Contos Clássicos de Fantasma". Esse pdf simplesmente apareceu no Minhateca anos atrás e o encontrei por acaso em meio a um monte de material de literatura gótica. De início achei que era um scan de um livro publicado, achei que a Editora Hedra tinha dado continuidade à série que começou com "Contos Clássicos de Vampiro", lançado em 2010, mas logo descobri que o livro não existia. Cheguei a escrever uma mensagem no site da editora pra saber se tinha saído ou se ainda iria sair, mas não tive resposta. Meu palpite é que a editora desistiu da publicação e alguém acabou soltando na net o "boneco" do livro semi-terminado. Além desse pdf, a mesma "pasta" no minhateca também tinha um pdf do "Contos Clássicos de Vampiro", porém bastante diferente do livro que foi publicado (contos diferentes, inclusive), e ainda outro pdf com apenas uma introdução para um "Contos Clássicos de Lobisomem" (que chega a mencionar alguns dos contos que o volume traria!). Se minha teoria está certa é realmente uma pena que a editora tenha desistido da publicação, eu teria corrido pra comprar todos! Mas ao menos, do meu ponto de vista, o fato desses pdfs estarem disponíveis ameniza essa perda e o trabalho envolvido não fica totalmente desperdiçado, não?

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  3. Cara, que pérola seu blog. Conheci por meio do masmorra e estou apaixonado. E agradeço imensamente por ter disponibilizado os episódios, pois estava dificil achar. Abraços e até mais!

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  4. Multissimo obrigada estou assistindo e gostando de cada episódio.

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