Ghost Stories for Christmas - A Tradição Natalina do Horror Gótico Britânico

É curioso como mudanças colossais vão acontecendo tão rápido que nem nos damos conta, não é? Aí, do nada, me cai a ficha do quão recente é esse lance de encontrar e baixar quase que qualquer obra da história do cinema na internet. Ainda me lembro de como era ler sobre filmes cults, clássicos ou obscuros em revistas (de papel!) e me conformar apenas com resenhas e fotografias, já que a chance de material assim aparecer em locadoras (gente... locadoras!) ou mesmo ser exibidos em alguma madrugada maldita de TV aberta, não era nem mesmo remota, era sem esperança.  Hoje, a possibilidade de baixar praticamente tudo (ênfase no "praticamente") se tornou tão corriqueira, que toda uma cultura de legenders e ripadores acabou se sistematizando numa lógica que quase poderia ser chamada de "empreendedora", se não fosse sem fins lucrativos (ao menos financeiros). O hábito de baixar filmes e séries se naturalizou a tal ponto que tendemos a esquecer o quanto essa mudança é extraordinária. Como é revolucionário ouvir falar de uma obra e, independente dos caprichos do deus mercado, ser capaz de encontra-la com uma simples pesquisa. Ter acesso! Evidente que nem tudo é tão achável quanto os "Game of Thrones" da vida, mas deixou de ser uma impossibilidade absoluta como era nos meus tempos de cinéfilo juvenil. Manter a memória de como as coisas eram no passado me parece importante, afinal, toda revolução precisa ter sua história registrada para as novas gerações.

Impossível não divagar sobre esse tipo de coisa enquanto pesquisava sobre o tópico do presente post. Ghost Stories for Christimas foi uma série de curta-metragens especiais de Natal produzidos pela BBC durante a década de 70. Como se sabe, os britânicos levam seus fantasmas muito a sério. Narrar histórias arrepiantes para entreter os amigos na noite de Natal é um costume tão antigo quanto os periódicos literários do final do século XIX, entre os quais o célebre Household Words editado por Charles Dickens, famoso por suas edições extras de Natal. A série da BBC foi uma intencional continuidade dessa tradição tão charmosa, infinitamente preferível do que assistir Roberto Carlos Especial enquanto o tio reaça conta piadas homofóbicas, vocês devem concordar.

A série original durou de 1971 até 1978 totalizando oito curtas. Ou nove se contar "Whistle and I'll Come to You", de 1968 (um especial de "Omnibus", a longeva série de história da arte da BBC), considerado por muitos como uma espécie de "piloto", uma vez que todas as principais características da série já marcavam presença, no caso o estilo dramatúrgico intencionalmente old school, a ênfase na sugestão ao invés do choque, o requinte com as caracterizações de época, mesmo com orçamentos modestos e, claro, por ser uma história de M.R. James, o mais importante autor de histórias de fantasmas das letras britânicas. Não é por acaso que praticamente todos os curtas da série são adaptações de seus contos, com raras exceções.

Montague Rhodes James, 1900
James era famoso por "estrear" seus contos em leituras para os amigos junto a lareira nas noites de Natal, sendo um dos grandes responsáveis pela continuidade da tradição. Historiador, antiquário e erudito, foi um pioneiro no abandono de certas convenções e clichês góticos em prol de um realismo psicológico que tornava críveis até as mais desvairadas monstruosidades concebidas por sua imaginação. Em suas histórias, a figura do tradicional fantasma costuma ir muito além de um mero "espírito de uma pessoa morta". Manifestando-se sempre no limiar da percepção dos protagonistas (e dos leitores), muito mais "sentidos" do que "vistos", os fantasmas de James são aparições grotescas e doentias que insinuam-se através da escuridão de velhas catedrais, mansões em ruínas e cemitérios templários, atormentando os bibliotecários, professores e párocos que, desgraçadamente, cruzam seu caminho. James tinha algumas regras muito rígidas de como uma narrativa de horror devia ser, e uma das principais era: o fantasma jamais deve ser benigno! Senão que graça tem?

Assim, do velho e bom vulto envolto num lençol, até as patas de um monstruoso inseto translúcido tocando seu rosto no escuro, passando por cabeças de bebês com patas de aranha e criaturas de limo que rastejam por escadarias, os horrores de James mostraram-se um manancial perfeito para a BBC tornar inesquecíveis as noites de Natal de seus espectadores, ao menos até 1976, quando a série adaptou "O Sinaleiro" de Charles Dickens. Poderia ter sido o começo de uma nova fase, com adaptações de outros escritores célebres de histórias de fantasmas, mas, ao invés disso, nos dois anos que se seguiram, optou-se por roteiros originais e ambientações contemporâneas. O resultado foi no mínimo polêmico. Embora interessantes, "Stigma" e "The Ice House" destoaram demais do restante da série e acabaram por precipitar seu fim.

Ilustração de James McBryde para "Whistle and I'll Come to You" -1904
Em 2005, a BBC Four exibiu reprises dos curtas setentistas e promoveu um revival que rendeu mais quatro especiais, produzidos irregularmente até 2013. Dessa vez nada de inventar moda: todos os quatro foram adaptações de M.R. James, três inéditas e uma nova versão de "Whistle and I'll Come to You", dessa vez com John Hurt. A nova série acabou se revelando uma herdeira digna, mesmo durando tão pouco, e ambas inspiraram diversos outros curtas e telefilmes natalinos no decorrer dos anos (uma listagem completa pode ser vista aqui), entre os quais destaca-se a obra-prima "Schalcken the Painter", baseado no conto de Sheridan Le Fanu e exibido no Natal de 1979, logo depois do fim da série original.

Não sei dizer se algum desses curtas chegou a ser exibido no Brasil, seja na TV aberta ou a cabo. Suponho que, talvez, os revivals tenham tido sua chance, mas não tenho certeza. Certamente os episódios dos anos 70 nunca saíram por aqui em DVD, muito menos bluray e, obviamente, jamais irão entrar no catálogo do Netflix. Até bem pouco tempo atrás, para achar esses episódios era preciso muita garimpagem e sorte, eu mesmo só tinha conseguido juntar releases decentes de quatro deles na época que montei essa postagem pela primeira vez. Felizmente, as caprichosas marés da internet nunca param de se movimentar e, recentemente, o blog RareLust disponibilizou DVDrips excelentes para todos os 12 curtas da série oficial, o que me motivou a traduzir as legendas e resenhar cada uma dessas preciosidades do gótico old school, de modo a tornar as "Ghost Stories for Christmas" mais conhecidas e acessíveis aos amantes do gênero.

Quem sabe assim alguma editora se digne a publicar decentemente M. R. James no Brasil. Até onde sei só saíram dois volumes dedicados à sua obra, e isso muito recentemente: uma edição física pela Editora Penalux, "Assovie Que Virei - Histórias de Fantasmas", e uma virtual: "A Casa de Whitminster OU O Fantasma Minguado e Outros Espectros". Alguns contos até podem ser encontrados em coletâneas mistas, mas quase sempre são os mesmos um ou dois repetidos em livros de editoras diferentes enquanto a maioria permanece inédita, aparentemente sem despertar interesse algum nem mesmo de editoras que se dizem especializadas no horror e no fantástico em geral. #FicaDica

DETALHE IMPORTANTE: Estou disponibilizando links pra baixar dada a raridade do material e o fato de estarmos falando em acesso e compartilhamento aqui, mas esse não é um blog de downloads, não fiquem mal acostumados, ok? ;)


Whistle and I'll Come to You (1968) de M. R. James, adaptado e dirigido por Jonathan Miller

Embora seja, na verdade, um episódio especial de Omnibus, que nem ao menos foi exibido no Natal em sua primeira exibição, "Assovie e Eu Virei Até Você" é comumente referenciado como uma espécie de "piloto" para a série que só começaria três anos depois. Como já comentei acima, as principais características das "Ghost Stories for Christmas" já batiam ponto firme aqui: a ênfase na sugestão ao invés do choque, o ritmo propositalmente lento, a atmosfera sinistra sendo construída num crescente de pequenos detalhes e insinuações que um espectador distraído talvez até não perceba, a (aparente) simplicidade do enredo que deixa todos os mistérios da narrativa para serem especulados pela imaginação, enfim... o profundo respeito às raízes literárias, pois essas são, acima de tudo, características dos próprios contos de M.R. James.

O que não significa que o roteiro se prenda mais do que seria saudável ao texto original. Jonathan Miller enxuga os personagens e concentra a narrativa na figura excêntrica (e, por vezes, hilária) de Michael Hordern. O veterano ator cria um personagem bastante diferente do jovem professor protagonista do conto, porém ainda mais notável, um catedrático de meia idade cheio de manias e esquisitices, hospedado em férias num hotel em algum lugar na costa anglicana. Numa caminhada nas ruínas de um antigo cemitério de cavaleiros templários, próximo ao oceano, o Prof. Parkin encontra um curioso apito num dos túmulos e, na solidão de seu quarto, a noite, decifra a inscrição em latim incrustada nas laterais: "Quem é este, que está vindo?". É óbvio que o cético professor vai dar uma assopradinha, só pra ver no que dá.

Miller cria um bizarro microcosmo de figuras esquisitas que parecem sofrer de uma patológica dificuldade de socialização. Velhos eruditos tão ensimesmados que mal conseguem projetar a voz para que um interlocutor os entenda (o "diálogo" entre o Prof. Parkin e o dono do hotel nos primeiros minutos chega a ser surreal!). Horden, particularmente, compõe o Prof. Parkin como um tipo tão hermético que poderia causar hemorroidas, incapaz de entender uma pergunta antes da terceira repetição, mas habilíssimo em fazer longos discursos para os próprios botões ou para qualquer infeliz que invente de lhe dar corda, digamos perguntando alguma coisa como: "Acredita em fantasmas?". Uma versão extrema (e nonsense quase a la Monty Python) do tradicional protagonista da literatura gótica: o arrogante homem civilizado secular, que despreza as experiências e saberes externos aos seus próprios círculos consagrados, até ser pego de jeito por forças que não está preparado para lidar. O episódio apresenta essa estrutura clássica de forma maravilhosamente didática, quase arquetípica, ainda que com mais sutileza do que o próprio conto (que é uma das principais fontes literárias da famosa imagem do fantasma envolto num lençol!). Não conheço outra obra audiovisual que traduza com tamanha perfeição aquele sensação (que, certamente, todos nós já experimentamos) de estar semi-desperto na escuridão do quarto, no meio da madrugada, e - mais do que ouvir - sentir que há mais alguma coisa lá com você. Uma gema rara a se conhecer e apreciar.



The Stalls of Barchester (1971) de M. R. James, adaptado e dirigido por Lawrence Gordon Clark

Três anos depois da veiculação de "Assovie e Eu Virei Até Você",  estreava "oficialmente" a série "Ghost Stories for Christmas" no Natal de 1971, onde se manteria firme e forte até 1978. Durante toda a "série clássica" setentista, com uma única exceção, todos os curtas foram dirigidos por Lawrence Gordon Clark, um grande apaixonado pela literatura fantástica britânica e, na época, veterano na BBC na área de documentários. "As Bancadas de Barchester" foi seu primeiro trabalho ficcional, estabelecendo o formato e a essência da série que se manteriam constantes até pelo menos 1976.

Dr. Haynes (Robert Hardy, o Cornelius Fudge dos filmes de Harry Potter) é um diácono júnior que ambiciona o respeitabilíssimo cargo de arquidiácono na Catedral de Barchester, mas tem sua paciência colocada à prova pela estupenda longevidade de seu predecessor, Dr. Pulteney (Harold Bennett), que insiste na descortesia de, com mais de 80 anos, nem morrer e nem renunciar graciosamente à sua posição. "Acho perfeitamente crível que Matusalém tenha vivido 300 anos", desabafa o Dr. Haynes para sua irmã Letitia, vivida pela comediante Thelma Barlow. Por fim, Dr. Pulteney acaba desocupando a moita numa suspeita queda da escadaria na residência oficial da diocese, mas a alegria (contida e discreta, naturalmente) de seu sucessor só dura até o momento em que vozes misteriosas começam a segui-lo pelos corredores durante a noite e as figuras esculpidas de um gato e de um vulto encapuzado no púlpito começam a dar arrepiantes indícios de estarem ganhando vida.

É digno de nota que boa parte do elenco do episódio é mais conhecido por suas participações em comédias, fato que transparece no divertido, ainda que extremamente sutil (tão sutil que eu não estranharia se boa parte dos espectadores nem se desse conta) humor negro britânico que atravessa toda a construção da trama. Um humor particularmente efetivo nos monólogos da já citada Thelma Barlow e do, também comediante, Clive Swift, que faz o papel de narrador da história, ao encarnar o personagem mais típico da literatura jamesiana, o antiquário/bibliotecário (o ator retornaria à série no segundo episódio, "Um Aviso aos Curiosos", interpretando o mesmo personagem, Dr. Black). Claro que esse senso de humor, longe de atrapalhar a atmosfera de horror da história, na verdade ajuda a intensifica-la. "As Bancadas de Barchester" pode se orgulhar de diversos momentos deliciosamente arrepiantes, com destaque para as transformações das esculturas da catedral ao som de canto gregoriano e da participação efetiva do "gato fantasma" (convenhamos, gatos são sempre legais) entre as aparições que atormentam o pobre (mas nem tanto) Arquidiácono Haynes. Uma impressionante "estréia" e uma pérola fina do gótico britânico para se deleitar.


A Warning to the Curious (1972) de M. R. James, adaptado e dirigido por Lawrence Gordon Clark

Desde o título, "Um Alerta aos Curiosos" é  inteiramente focado na tradição que comentei mais acima dos protagonistas céticos (e arrogantes) que realmente deveriam prestar mais atenção nos avisos de moradores locais. No caso um arqueólogo amador (Peter Vaughan, o Maester Aemon, de Game of Thrones) investigando a costa de Norfolk em busca de uma das lendárias coroas perdidas de Anglia, que só compreende tarde demais que as insinuações de um padre, um antiquário e outras figuras pitorescas a respeito de um suposto guardião da coroa não deveriam ser desconsideradas assim tão levianamente.

Entre as cinco adaptações de M. R. James da série clássica, o episódio é o que menos gosto, mas admito que é uma preferência bastante pessoal (nem todos os amigos que assistiram comigo concordam, pra começo de conversa). Bem menos sutil, ele assume claramente o formato da velha e boa vingança sobrenatural, mas compensa essa obviedade com sua caracterização saborosa do universo folk inglês. Toda a série, de fato, é produzida com esmero, mesmo com orçamentos modestos, e a beleza melancólica das paisagens enevoadas do campo inglês é motivo mais do que suficiente para apreciar o curta.


Lost Hearts (1973) de M. R. Jamesadaptado por Robin Chapman e dirigido por Lawrence Gordon Clark

Bastante cultuado como um dos episódios mais assustadores da série, "Corações Perdidos" de certo medo quebra (ou ao menos tenciona) uma das regras estabelecidas pelo próprio James: a de que o fantasma nunca deve ser benigno. Ainda que "benigno" não seja bem a palavra que vem a mente diante das faces pálidas e das unhas gigantes do casal de crianças que assombra uma antiga mansão rural na qual o jovem Stephen é recebido por um parente distante ao se tornar órfão. Mesmo assim, fica bastante claro, desde o início do curta, que os fantasmas são a última coisa com que o menino deveria se preocupar.

O roteiro é bastante fiel ao conto, um dos que foram incluídos na coletânea da Editora Penalux: "Assovie Que Virei - Histórias de Fantasmas" (também pode ser encontrado num pdf disponível online), ainda que as passagens de maior impacto sejam um tanto diferentes por uma questão de adequação de mídias. No geral trata-se de um ilustre representante da temática clássica da busca pela superação das limitações humanas através da subversão das leis naturais (no caso, pela alquimia), ambição comumente encarnada na figura do aristocrata erudito, ansioso por perpetuar seus privilégios de classe até mesmo para além do túmulo. Mas provavelmente o elemento mais responsável por tornar o curta tão marcante para os fãs que o assistiram na época é o ponto de vista infantil do jovem Stephen. Nada supera as reminiscências (tão universais) das noites solitárias no velho quarto de criança, quando as sombras pareciam tão... substanciais... e nós realmente acreditávamos que "coisas" poderiam nos visitar à noite, semi-ocultas atrás dos móveis e das cortinas. É como se diz: "Crianças podem ver os anjos"... e mais ainda os fantasmas.

The Treasure of Abbot Thomas (1974) de M. R. Jamesadaptado por John Bowen e dirigido por Lawrence Gordon Clark

E o Natal seguinte trouxe consigo outro velho tema relativo aos mistérios da alquimia. Dessa vez a busca pela chave da transmutação de metais básicos em ouro, a mítica pedra filosofal, ora entendida como uma metáfora para a elevação do espírito, ora encarada ao pé da letra por ávidos caçadores de tesouros. No caso do curta, ao pesquisarem a história e escritos de um certo abade de péssima reputação nos arquivos da catedral, um professor e seu mais destacado aluno adotam posturas opostas ao abordar a possibilidade da existência de um tesouro escondido: um deles abraça a segunda interpretação sem o menor embaraço, enquanto o outro apenas finge adotar a primeira, pelo bem de sua reputação como escolástico e erudito. Mas logo irá descobrir que há um preço a pagar pelo ceticismo dissimulado. Afinal, se você está disposto a verificar a possibilidade de que o ouro alquímico seja mesmo real, seria no mínimo sensato manter a mente aberta a respeito de seu suposto guardião, não é?

"O Tesouro do Abade Thomas", pode não ser tão arrepiante quanto alguns dos outros curtas, uma vez que seu foco é bastante diferente, mais voltado para o mistério do que para o terror, mas é irresistível em seu clássico formato de quebra-cabeça histórico a la "O Nome da Rosa" (guardadas as devidas proporções, evidente). Em meio à perambulações por igrejas abandonadas, bibliotecas cobertas de pó, telhados repletos de gárgulas e criptas que jamais vêem a luz do Sol, cada cena vai decifrando um pedacinho do enigma, levando a outro pedacinho, e outro, e outro, até o ápice tanto da curiosidade do espectador quanto do horror dos protagonistas que mal suspeitam que, de além do túmulo, o maldito Abade Thomas tudo sabe, tudo vê... e está sempre mais perto do que se imagina.


The Ash Tree (1975) de M. R. Jamesadaptado por David Rudkin e dirigido por Lawrence Gordon Clark

De toda a série "Ghost Stories for Christmas", "O Freixo" é com certeza o episódio mais dark, sem o menor traço do senso de humor negro que, por vezes, equilibrava os momentos mais sinistros das outras histórias. Desde o primeiro minuto o tom é pesado e depressivo, estabelecendo uma atmosfera de tragédia inevitável e total desesperança. Se o uso de música já era contido na série em geral, aqui temos apenas a trilha diegética em alguns pontos chave e pesados silêncios na maior parte dos trinta minutos de duração. Não há espaço pra leveza nessa história de um fidalgo que não suspeita ter herdado, junto com a propriedade e título, também a maldição provocada pelas ações covardes de seu ilustre antepassado, décadas antes de seu nascimento. Solene e paciente, o freixo ao lado da antiga mansão rural apenas espera que um certo quarto seja ocupado novamente.

O conto original de James, outro dos que saíram na edição da Penalux, é de fato uma de suas histórias mais surpreendentes, abarcando ambiguamente tanto os horrores da inquisição quanto a possibilidade de que certos elementos de magia e bruxaria pudessem ser mais reais até do que a igreja suspeitava, mesmo com todo o seu fanatismo. E se, ao enforcar e queimar bruxas, os inquisidores estivessem, sem saber, destruindo as únicas pessoas que de fato compreendiam os perigos reais por trás dos mitos e lendas da velha religião? E se, sem elas, estivéssemos desprotegidos contra horrores que mal podemos imaginar, quanto mais compreender? Uma coisa é certa: o som de bebês chorando à noite não será esquecido tão cedo. Para os aficionados no fantástico britânico, o curta ainda trás como bônus a presença de Barbara Ewing, rosto conhecido dos fãs da Hammer Films e da Amicus Productions; e Lalla Ward, uma das mais queridas companions da série clássica do Doctor Who.


The Signalman (1976) de Charles Dickens, adaptado por Andrew Davies e dirigido por Lawrence Gordon Clark

Voltando rapidinho ao tema das publicações repetidas, "O Sinaleiro" é arroz de festa em quase todas as coletâneas de histórias de fantasmas disponíveis por aí, seja qual for a época da publicação ou a editora. Duvido que um colecionador tenha menos do que umas três traduções diferentes, não se quiser adquirir contos mais raros que, via de regra, acabam saindo junto com 70% de material repetido. Dá pra entender o quão irritante acaba sendo essa mania de editores e organizadores de nunca levarem em consideração as coletâneas de seus concorrentes?

Enfim, só desabafando... Voltando agora ao assunto principal, pela primeira vez a série adapta outro autor ao invés de M.R. James, levando ao ar uma versão rigorosamente fiel do original de Charles Dickens. Pra quem conhece bem o conto, chega a ser desconcertante a recriação em imagens do cenário do posto ferroviário encravado no interior de uma ravina, junto à entrada de um túnel sinistro. Denholm Elliott (que a maioria conhece como o Prof. Marcos Brody, da Trilogia Indiana Jones) está comovente como o solitário funcionário da ferrovia atormentado por um espectro que surge de tempos em tempos sob a luz de alerta do túnel. A cada aparição, algum tipo de tragédia acontece, levando o dedicado sinaleiro ao desespero diante da expectativa do que ainda possa estar por vir.

Não raro apontado como o melhor curta da safra dos anos 70, "O Sinaleiro" é uma demonstração exemplar de como a melancolia é tão ou mais importante do que o medo para o horror gótico. O arrepio na pele que sentimos ao ouvir o lamento angustiado do fantasma na ravina é uma mistura de medo do desconhecido com uma profunda tristeza, potencializada pelo uivo do vento nos fios do telégrafo e pela neblina que nos fecha, junto com o pobre Elliott, numa espécie de bolha fora do tempo e do espaço, tão densa que pode facilmente nos fazer esquecer que alguma vez houve qualquer coisa além dela, como nos sugere o próprio sinaleiro (numa das poucas falas inéditas em relação ao conto): "Nos primeiros dias, eu tentava encontrar tempo para subir, ver à luz do sol, mas... O trabalho estava sempre aqui me chamando, meu rosto podia estar ao sol mas minha mente estava aqui embaixo no escuro e nas sombras."


Stigma (1977) escrito por Clive Exton e dirigido por Lawrence Gordon Clark

Bom, agora chegamos na parte polêmica. Particularmente eu considerei bastante válido deixar M.R. James um pouco de lado e abrir espaço para outros autores de histórias de fantasmas, coisa que não falta nas letras britânicas. Mesmo que fosse pra manter dentro da tradição das leituras natalinas, além de James e Dickens poderíamos ter chego em Elizabeth Gaskell ou mesmo Henry James (cujo prólogo de "A Volta do Parafuso" ecoa super a tradição), mas não veria problema algum em abrir o leque para os mais diversos autores. Agora, partir pra roteiros originais feitos direto pra TV e, mais que isso, adotar uma ambientação contemporânea, foi mesmo um salto maior que as pernas em relação a tudo o que havia sido produzido nos natais anteriores. Fica difícil não torcer o nariz. Provavelmente foi um reflexo da crise que o próprio cinema gótico britânico atravessava em 1977 frente à concorrência com a brutal nova safra de horror americano, mas se a intenção era "modernizar" as "Ghost Story for Christmas" o resultado não parece ter compensado a descaracterização.

Mas o episódio em si é ruim? Não, definitivamente não é ruim. A história da dona de casa que se muda para uma casa próxima aos megálitos dos antigos cultos druidas e começa a, inexplicavelmente, sofrer estigmatização (sangrar espontaneamente, como as chagas de Cristo) quando o túmulo de uma bruxa é violado pelas obras no quintal, é suficientemente potente e funciona muito bem como um sutil exercício de horror. A questão é que "Estigma" poderia ser um episódio de qualquer outra série, "Além da Imaginação", "Supernatural" (não aquela infindável bobagem americana, falo da série britânica de 1977), Hammer´s House of Horror, enfim, qualquer uma, pois não tem nada de especificamente característico das "Ghost Story for Christmas". Os críticos mais virulentos argumentam que "sequer é uma história de fantasmas", uma afirmação que eu não faria assim com tanta certeza, pois depende da interpretação (e, até aí, quem for viciado em classificações poderia questionar até mesmo se "The Ash Tree" é uma história de fantasmas), mas é fato que o curta deu uma guinada bastante brusca na série, o que acabaria em breve se revelando o pulo do tubarão.


The Ice House (1978) escrito por John Bowen e dirigido por Derek Lister 

O que dizer sobre "A Casa de Gelo"? Sinceramente ainda não tenho certeza se gosto ou não e parece que minha impressão é compartilhada por muitos críticos. Uma coisa é certa, a impressão de que poderia ser um episódio de qualquer outra antologia de horror menos uma "Ghost Story for Christmas" é ainda mais forte do que no episódio anterior. Com certeza é uma bizarra e surreal peça de ficção televisiva setentista e merece ser conhecida, mas no contexto da série simplesmente não se encaixa, ainda mais por ser o único episódio dos anos 70 que não foi dirigido por Lawrence Gordon Clark.

Paul é um recém divorciado empresário de meia idade tentando recuperar sua força e auto-estima num luxuoso spa, mas logo começa a perceber que há algo de bizarro no casal de irmãos (incestuosos) que dirige o lugar e que quando os funcionários dizem que todos que trabalham ali tem um "toque frio" referem-se a algo muito mais profundo do que um mero problema de circulação. Dizer mais que isso seria arriscado pois as interpretações dos acontecimentos do curta será tão variada, suponho, quanto o forem os espectadores. Seriam os irmãos anjos (ou demônios) e o spa uma espécie de purgatório? Haveria algo de ficção científica na misteriosa flor de perfume irresistível? Qual a importância (ou significado) da Casa de Gelo na qual os irmãos não cansam de afirmar que só há... gelo? Enfim, entre estranhas simbologias e curiosas insinuações homoeróticas (bastante surpreendentes no contexto de uma produção televisiva dos anos 70) chegam ao fim as "Ghost Story for Christmas", para o bem ou para o mal. Ou não...


Schalcken the Painter (1979) de Joseph Sheridan Le Fanu, adaptado e dirigido por Leslie Megahey.

De forma curiosamente circular, as "Ghost Stories for Christmas" dos anos 70 morreram da mesma forma que nasceram: em Omnibus. Exatamente um ano depois do polêmico fim da série original, no Natal de 1979, o programa de documentários sobre história da arte da BBC voltou a presentear o mundo com uma joia rara do gótico old school, a impecável adaptação de:“Um Estranho Incidente na Vida do Pintor Schalken” (também conhecido pelo título mais sucinto de Schalken, o Pintor) de Sheridan Le Fanu. Pra mim trata-se da grande obra prima de toda a série, mesmo não sendo parte oficial dela. Mas, convenhamos: se "Whistle and I'll Come to You", de 1968, foi de tal modo incorporada a ponto de ser lançada no mesmo box de DVDs, Schalken merece, no mínimo, entrar aqui nas minhas resenhas (até porque é muito mais "Ghost Story for Christmas" do que "Stigma" e "The Ice House").

Le Fanu é um autor tão mal publicado no Brasil quando James, as editoras em geral parecem satisfeitas em apenas re-editar Carmilla periodicamente (só na minha estante tenho quatro traduções, sendo que a mais recente se gaba de ser a primeira em português). Não que Carmilla não mereça essa atenção, afinal estamos falando de uma das mais importantes novelas da literatura vampírica (minha favorita), mas nem de longe a obra de seu autor se esgota por aí. Considerado pelo próprio M.R. James como o pai das histórias de fantasmas modernas, Le Fanu era um mestre no poder da insinuação. Em seus textos tanto os personagens quanto o leitor se veem perdidos num mistério sobrenatural cuja solução está sempre além dos poderes de apreensão humanos. Há coisas que espreitam na escuridão, coisas que jamais poderemos compreender ou sequer sonhar em enfrentar. Seja o macaco espectral que assombra o Reverendo Jennings em "Chá Verde" ou o ser invisível que persegue o Capitão Barton em "O Demônio Familiar". Mas foi ao associar sua escrita com a obra do pintor holandês Godfried Schalcken, uma espécie de antepassado espiritual, que Le Fanu criou um de seus contos mais significativos. Schalcken, como muitos de seus contemporâneos, era um estudioso das técnicas de captura de fontes de iluminação difusa, sua obra é uma evocativa galeria de figuras semi-ocultas numa escuridão que a tênue luminosidade de uma vela nunca é capaz de penetrar. O conto traduz o poder de evocação dessas imagens numa melancólica história de fantasmas (ou vampiros, ou demônios, Le Fanu, como James, raramente fechava o fantástico em definições rígidas) que faz o leitor se sentir literalmente imerso na escuridão, vagando nas sombras numa tentativa vã de alcançar a luz bruxuleante de um simples candeeiro.

A adaptação em longa metragem (70 minutos) adota o formato de docudrama, bem típica de Omnibus. As bases históricas do conto forneceram uma oportunidade perfeita para ir a fundo tanto na reconstituição da época de ouro da pintura holandesa quanto do melodrama gótico irlandês. Inspirado no cineasta europeu Walerian Borowczyk, o diretor Leslie Megahey se vale de iluminação natural e uma fotografia de alta granulação para recriar a estética das pinturas de Schalcken, compondo um verdadeiro balé de sombras onde os personagens surgem e desaparecem das trevas, constantemente capturados no interior de molduras formadas por batentes de portas e janelas que vão se sobrepondo nos enquadramentos da câmera. Quadros dentro de quadros dentro de quadros onde, a qualquer momento, formas horrendas podem ser vistas ou imaginadas (no contexto do filme é até difícil saber a diferença).

A trama extrapola a biografia conhecida de Schalcken estabelecendo um affair do pintor com a sobrinha de seu mestre Gerrit Dou, um esboço de romance tragicamente interrompido quando um certo Lorde  Vanderhausen of Rotterdam, surge literalmente do nada com a intenção de comprar a moça para ser sua esposa. Para desespero de Rose, não só o ganancioso tio cede com mínima resistência ao dote oferecido pelo lorde, como seu suposto enamorado revela-se um covarde egocêntrico, não movendo um dedo para enfrentar o rival. Tudo isso já seria aterrador o suficiente, mas a culminação do horror vem do fato de que Vanderhausen parece ser qualquer coisa menos parte do mundo dos vivos.

Atmosférica, lúgubre, angustiante e profundamente melancólica (gótica até a medula, portanto), a adaptação preserva (e, em certa medida) amplifica a ambiguidade do conto original. Os debates sobre a real natureza do misterioso Vanderhausen sem dúvida prosseguirão até o fim do mundo e o destino final de Rose é um enigma que se enterra profundamente no coração de cada espectador/leitor. As últimas sequencias coroam o mistério com uma das melhores representações em audiovisual que já tive oportunidade de assistir do arquétipo da dama fantasma, tão importante para o gênero. "Schalcken the Painter" é uma obra prima que não pode deixar de ser conhecida seja por apreciadores do horror gótico, cinéfilos ou amantes das belas artes em geral, o que demonstra com clareza o quão revolucionário é esse poder de acesso que a internet nos possibilitou nesses últimos anos.



A View from a Hill (2005) de M. R. Jamesadaptado por Peter Harness e dirigido por Luke Watson

Trinta e sete anos depois, seguindo uma onda nostálgica típica dos anos 2000, com reprises comemorativas da série original e até mesmo a produção de algumas variações charmosas, como leituras de M.R. James por Christopher Lee para uma audiência "edwardiana" (que podem ser vistas aqui no youtube), a BBC Four decidiu resgatar a tradição das "Ghost Stories for Christmas" sem abrir concessões a um suposto "gosto moderno" (abençoadamente, digo eu). Os novos curtas seguem fielmente sua fonte de inspiração, começando por voltar de vez ao bom e velho M.R. James e tentando ao máximo seguir o estilo e essência dos curtas setentistas. O resultado se mostrou bastante digno, embora não consiga de fato reproduzir o impacto de algo que, acima de tudo, foi o produto de uma época. Talvez por isso o revival tenha durado tão pouco. Estritamente falando, apenas os dois primeiros curtas foram produzidos num esquema, digamos, "serial", como antigamente, indo ao ar nos natais de 2005 e 2006, pra ser preciso. As adaptações seguintes estavam mais para especiais independentes, tanto na periodicidade quanto nos valores e estética de produção.

O plot de "Uma Vista da Colina" é um dos mais inusitados de toda a série. Um bibliotecário se hospeda na mansão de um aristocrata falido para avaliar sua coleção de antiguidades e acaba encontrando um estranho binóculo, fabricado por um falecido alquimista, que lhe permite enxergar o "fantasma de uma igreja" num lugar onde na verdade só há ruínas. Sim, eu sei que soa meio bobo, meio "Além da Imaginação", mas só num primeiro momento, logo o jovem erudito descobre que a tal "igreja fantasma" não está exatamente vazia e aí a coisa realmente começa a pegar. No geral, é um competente e charmoso conto macabro, bastante valorizado pela presença do veterano David Burke (o Dr. Watson das primeiras temporadas de Sherlock Holmes com Jeremy Brett), impecável como o mordomo mal humorado que representa o contexto histórico, tão fundamental para uma boa história de fantasmas. Burke repetiria o mesmo tipo de figura arquetípica no Natal seguinte.


Number 13 (2006) de M. R. Jamesadaptado por Justin Hopper e dirigido por Pier Wilkie

O revival prossegue com a mesma competência, mas também sem maiores surpresas. Talvez a melhor definição para essa dobradinha inicial seja: redondinho. Se isso pode ser considerado um grande elogio ou não, fica a cargo do leitor. Assim como o conto anterior, "Número 13" parece ter sido escolhido por ser um representante bastante típico do estilo do autor, evitando talvez os contos mais "delirantes" em prol da abordagem mais clássica possível para uma história de fantasmas natalina. Continua funcionando bem, mas sem o toque fora da curva que tornava os melhores curtas da série original tão geniais. Excesso de reverência, talvez. Não se pode de fato dançar com seu ídolos quando você os considera intocáveis.

Mas, por favor, não me entendam mal. Não há como não considerar o revival um sucesso. Minha ranhetice se relaciona mais com os parâmetros altos da série como um todo. Individualmente "Número 13" é delicioso. A história é sobre um bibliotecário (sempre eles) que se hospeda num daqueles hotéis antigos que simplesmente não tem um quarto de número 13 (o protagonista ocupa o quarto 14 e seu vizinho é o quarto 12). Durante seu trabalho de catalogação da biblioteca da catedral, acaba descobrindo que a cidade já teve sua própria "casa das bruxas", propriedade de um padre de péssima reputação que, segundo as más línguas, invocou o diabo em pessoa e o abrigou sob seu teto. Para má sorte do protagonista, o público adivinhará muito antes dele onde a tal casa do padre-bruxo ficava... e em qual quarto específico ficava o tinhoso.


Whistle and I'll Come to You (2010) de M. R. Jamesadaptado por Neil Cross e dirigido por Andy De Emmony

Se há, no revival de "Ghost Stories for Christmas", aquele ponto fora da curva que transforma o "redondinho" em "genial" e acaba justificando o projeto como um todo, é essa nova versão de "Assovie e Eu Virei Até Você". Fiquei sinceramente surpreso quando vi que sua nota no IMDb era abaixo da média da série. Suspeito que por excesso de purismo. De fato, o curta altera substancialmente a trama do conto original de M.R. James, muito mais do que as mudanças pontuais da versão de 68, a ponto de até mesmo o apito encontrado nas ruínas não estar presente nessa versão, e a frase título aparecer de uma outra forma e num outro contexto. Blasfêmia! gritaram alguns, certamente. Mas é como eu dizia: para criar algo genial ao dançar com seus ídolos, primeiro é preciso não considera-los intocáveis. Você se arrisca a tomar um belo tapa ao colocar a mão onde não devia, mas também pode ter a maior trepada da sua vida se tomar o devido cuidado.

Se há uma semelhança entre essa versão e a antiga é que boa parte do sucesso de ambas se dá pela escolha do protagonista. Michael Hordern foi impecável, mas a performance de John Hurt tem algo de sublime. O veterano e recentemente falecido ator cria um James Parkin que literalmente nos parte o coração, nos fazendo temer por ele como raramente os filmes de horror conseguem, e chorar com ele em momentos de arrasadora potência. Parkin é um homem que sabe que sua vida está chegando ao fim... e tem medo. Ele acaba de deixar a esposa com Alzheimer num asilo e se dá conta de que, nos últimos anos, sua única razão de existir era cuidar dela. Enfermeiras e amigos não conseguem compreender que a perspectiva de "ter tempo para si mesmo" não lhe trás nenhuma alegria, por mais que tente acreditar no contrário. Como tantos de nós no fim da vida, Parkin se dá conta de que está só e sua estadia no antigo hotel onde viveu momentos felizes com a esposa na juventude apenas reforça sua compreensão desse fato... e é então que os fantasmas começam a aparecer.

Sensível, sutil, mas ao mesmo tempo emocionalmente brutal e genuinamente aterrorizante, o curta é uma pequena obra prima (assim como a versão de 1968, porém de forma completamente diferente) dialogando com o texto de James de forma bastante sagaz. Frases clássicas como "quem é este que está vindo?" ressurgem transfiguradas, atingindo até mesmo o espectador que acredita conhece-las bem, o que, como mencionei, pode ser irritante para um purista que espera apenas reencontrar o texto reproduzido em outra mídia. Mas um coração aberto não terá como não ser impactado com a forma com que o velho discurso do protagonista cético secular típico da literatura gótica reaparece aqui: "Um fantasma? Uma personalidade humana desincorporada que sobreviveu à morte do corpo? Nunca vi, mas vi o oposto: um corpo que sobreviveu à existência da personalidade... e isso é muito mais horrível", evocando uma passagem igualmente clássica de Ambrose Bierce: "Num determinado tipo de morte o espírito também morre e sabe-se de casos em que isso aconteceu quando o corpo ainda continuaria vivo por muitos anos". Palavras para rasgar a alma.


The Tractate Middoth (2013) de M. R. Jamesadaptado e dirigido por Mark Gatiss

Depois do arrasador curta de 2010, esse último e tardio acréscimo à lendária série parece quase um retrocesso, por mais que, friamente falando, seja um trabalho tão respeitável quanto os dois primeiros curtas do revival. O problema é que "O Tratado Middoth" sofre ainda mais do tal excesso de reverência que comentei antes, transpirando nostalgia a cada frame. É charmoso, belamente produzido, bem escrito e bem atuado, mas não tem nem um décimo do impacto de seu antecessor. De fato, Mark Gatiss sempre me pareceu muito mais interessante como um pesquisador apaixonado e documentarista (ele é responsável pela excelente série "A History of Horror", da BBC, bem como do especial MR James: Ghost Writer que foi exibido pela primeira vez logo depois do presente curta) do que como roteirista e diretor de seu próprio material (os episódios de Doctor Who e Sherlock assinados por ele, bem como alguns especiais inspirados na tradição das Ghost Stories, como Crooked House, são bem do tipo que daria no máximo pra chamar de "redondinhos").

Mas não dá pra negar que a história do funcionário de biblioteca que acaba se enredando numa caçada por um livro assombrado é um encerramento digno para a tradicional e longeva série. Muito mais digno, diga-se de passagem, do que "The Ice House". Visto por esse prisma, até que faz sentido toda a pompa e reverência, chega até mesmo a exibir na abertura o título "A Ghost Story for Christmas" (apenas "The Signalman" e "Stigma" fizeram isso, mas o título exibido era apenas "A Ghost Story").

Falo em "encerramento", mas claro que a qualquer momento alguém na BBC pode reacender a tradição e lançar mais um episódio. Várias outras produções televisivas britânicas se conectaram de uma forma ou de outra com o selo das "Histórias de Fantasmas de Natal", nem sempre com o brilho de Schalcken the Painter, como a já citada minissérie Crooked House, o fraco The Haunted Airman, a arriscadíssima nova versão de A Volta do Parafuso, bem como alguns telefilmes dos anos 70 que eu tenho muita curiosidade de conferir se são dignos de entrar nessa postagem, como Casting the Runes e The Stone Tape (ATUALIZAÇÃO: The Stone Tape é muito legal, algum dia escrevo algo a respeito ). Somando tudo, acho seguro afirmar que a tradição continuará a se manifestar enquanto houver quem se disponha a ler e ouvir histórias de fantasmas, se possível próximo ao fogo e com um bom vinho tinto para aquecer os corações gelados. Cheers...








4 comentários:

  1. Muitíssimo obrigado por disponibilizar estas pérolas e com estas excelentes legendas.
    Pra quem gosta desta série, há também o filme A mulher de Preto de 1989. É uma produção britânica feita para tv, e tem o mesmo clima gótico destes episódios disponibizados aqui. Este filme está esgotado em dvd, mas pode ser encontrado em sites de torrents.

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    1. De fato... pra facilitar tem um release decente de "A Mulher de Preto" na minha filmoteca: http://minhateca.com.br/Lorde_Velho/Cinema/Ingleses/1989.+The+Woman+In+Black

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  2. Lorde Velho, poderia me ajudar com um pequeno mistério que encontrei ao ler este poste? Você provê aqui um link para um livro de contos que contém um dos contos do Sr James. Gostaria de adquirir o livro em papel, mas ao pesquisar, não encontro nenhuma referencia ao mesmo. Nem mesmo na editora. O isbn, se refere a um título diferente[Frankenstein]. Será este um livro traduzido por fãs? Agradeço desde já.

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    1. Então... acredito que está se referindo ao pdf "Contos Clássicos de Fantasma". Esse pdf simplesmente apareceu no Minhateca anos atrás e o encontrei por acaso em meio a um monte de material de literatura gótica. De início achei que era um scan de um livro publicado, achei que a Editora Hedra tinha dado continuidade à série que começou com "Contos Clássicos de Vampiro", lançado em 2010, mas logo descobri que o livro não existia. Cheguei a escrever uma mensagem no site da editora pra saber se tinha saído ou se ainda iria sair, mas não tive resposta. Meu palpite é que a editora desistiu da publicação e alguém acabou soltando na net o "boneco" do livro semi-terminado. Além desse pdf, a mesma "pasta" no minhateca também tinha um pdf do "Contos Clássicos de Vampiro", porém bastante diferente do livro que foi publicado (contos diferentes, inclusive), e ainda outro pdf com apenas uma introdução para um "Contos Clássicos de Lobisomem" (que chega a mencionar alguns dos contos que o volume traria!). Se minha teoria está certa é realmente uma pena que a editora tenha desistido da publicação, eu teria corrido pra comprar todos! Mas ao menos, do meu ponto de vista, o fato desses pdfs estarem disponíveis ameniza essa perda e o trabalho envolvido não fica totalmente desperdiçado, não?

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