Cão Negro (Penelope Lively) - Feminismo e Shagfoals Suburbanos

John Case chegou em casa numa noite de verão e encontrou sua mulher encolhida no canto do sofá com as cortinas da sala de estar fechadas. Ela disse que havia um cão negro no jardim, que ficava olhando-a pela janela...
Essas primeiras frases do conto Cão Negro, da escritora inglesa Penelope Lively, capturaram minha atenção de imediato enquanto folheava meu (naquele momento) recém adquirido Grande Livro de Histórias de Fantasmas, publicado a alguns anos pela Suma das Letras. Para quem não conhece, é um dos livros mais recomendados para apreciadores e pesquisadores de ficção de horror britânica porque, apesar do título não deixar tão claro quanto deveria, trata-se de uma coletânea inteiramente dedicada a mulheres, as tão negligenciadas autoras que (também) fizeram parte da história da literatura gótica no Reino Unido. A edição da Suma é uma tradução do volume organizado pelo literário Richard Dalby (o mesmo da coletânea Herdeiros de Drácula) para a editora inglesa especializada em escritoras Virago Press, e se já era um lançamento importante por lá, aqui no Brasil, onde a maioria delas nunca teve um conto sequer traduzido, torna-se indispensável.

Indispensável para apreciadores e pesquisadores
do gótico britânico.
Dos 31 contos presentes na coletânea, Cão Negro me pegou de uma forma um tanto mais pessoal, o que me motivou a destaca-lo aqui, dando continuidade à sessão Beijos no Escuro. A premissa já se torna clara na própria citação acima: Brenda Case é uma dona de casa que, de uma hora pra outra, passa a se recusar a abrir portas e janelas ou sair sozinha porque tem medo de um cachorro preto que a observa do jardim. Nem preciso dizer que ninguém mais (a princípio) consegue ver o tal cachorro, fazendo com que a família toda comece a se preocupar com o estado de saúde mental da mãe.

De imediato isso nos coloca diante do dilema mais fundamental (e, por vezes, rasteiro) da literatura fantástica, quando o leitor precisa decidir se o fenômeno é uma manifestação sobrenatural real e objetiva e a protagonista está mesmo sendo assombrada, ou se tudo é uma alucinação resultante de um estado mental alterado. Nesse caso com uma forte sugestão (por parte da reação dos demais personagens) de que a imagem de um cão preto fantasma poderia ser um símbolo contundente da depressão.

Porém, não estamos lidando com literatura rasteira. Na melhor tradição de Poe, Le Fanu e James, o dilema fundamental aqui vai muito além de uma simples decisão de qual ponto de vista o leitor "quer" adotar ou de uma tediosa correspondência de símbolos de um para um. Nesses tempos em que se prefere anuviar a sensibilidade aos horrores do mundo com drogas de tarja preta ao invés de efetivamente colocar em questão a realidade (uma tendência, vale lembrar, já fortíssima nos anos 80, quando o conto foi escrito), torna-se tentador aceitar uma tese tão simples como "cão preto símbolo da depressão" e, assim, caímos na mesma armadilha que vitimou a Sra. Case. Como de praxe na (boa) literatura de horror, são os detalhes que realmente importam, muito mais do que o mero enredo.

Penelope Lively, britânica da gema, apesar de
nascida no Cairo, Egito. Ainda na ativa.
Sem usar diálogos, apenas narração, a autora vai nos apresentando as circunstâncias da "bem sucedida","moderna" e "bem resolvida" família Case com um senso de ironia tão sutil quanto angustiante. Brenda é uma protagonista propositalmente apática, anulada. A família gira em torno dela cheia de conselhos insistentes e carinhos sufocantes na tentativa de livra-la de seus delírios e trazê-la de volta ao seu estado "normal". Todos extraordinariamente compreensivos, empáticos, racionais, demonstrando-lhe o quanto sua casa é perfeita, seu marido é dedicado, suas filhas amorosas. Levam-na a médicos e psicólogos, lhe dão presentes, recomendam cursos e atividades para terceira idade, aconselham hobbies, criação de metas para manter a mente ocupada e o corpo saudável, formas sábias e prafrentex de cultivar uma vida ativa e com significado. E a tudo Brenda ouve, concorda, agradece, sorri... e quando fica sozinha volta a fechar cuidadosamente as portas e janelas para que o cão preto não possa entrar.

Os mais atentos logo perceberão o parentesco com O Papel de Parede Amarelo, clássico da literatura fantástica feminista, de Charlotte Perkins Gilman. As protagonistas de ambos os contos poderiam ser irmãs. De fato o são, em suas circunstâncias, nos papéis em que foram colocadas, por mais que Gilman tenha escrito em 1890 e Lively em 1986, quase cem anos depois (não que a era vitoriana seja tão diferente assim da era dos yuppies). Irmãs na forma como os demais personagens, os parentes, amigos, a sociedade, as vêem, condicionam e "para o seu próprio bem" determinam suas existências. Na aparente resignação com que ambas acatam e, talvez, sequer reconheçam o destino que lhes é imposto. Gaiolas douradas da sociedade de consumo patriarcal, cerceando mentes e espíritos tanto ou mais do que os corpos, por vezes de forma tão inescapável e irreconhecível que as únicas formas de resistência possíveis acabam passando pela via do delírio... ou pela erupção do fantástico interrompendo e desestruturando um cotidiano gentilmente esmagador.

(Talvez seja interessante mencionar, em prol do contraditório, que em minha pesquisa topei com uma curiosa resenha em inglês na qual o autor, homem claro, afirma explicitamente que o conto NÃO é feminista... o cão seria apenas um símbolo da menopausa... 😶... enfim, continuemos...)

"Ela fala sobre um sonho que teve a algumas semanas, no qual encontrou sua cama ocupada por uma cadela preta colossal, suas formas de cavalo caindo pelos lados de uma cama pequena demais para ela, ofegando e se contorcendo com as dores do parto..." Alan Moore - A Voz do Fogo

A imagem de um enorme cachorro preto (por vezes grande como um cavalo a ponto de suas formas se confundirem) tem uma antiga tradição no folclore e, consequentemente, na literatura fantástica britânica, repleta de shagfoals, gytrashblackshucksbarghests e inúmeras outras variações de ghost hounds e hellhounds das quais o Cão dos Baskervilles é só o representante mais conhecido (e, no caso, mais "bem explicado" pelo Sr. Sherlock Holmes). Mas os assustadores cães pretos que farejam e marcam território em nossos pesadelos se manifestam nas mais variadas culturas, em incontáveis contos, lendas e histórias narradas ao redor da fogueira. Sua ressonância tem raízes profundas nos territórios do inconsciente, do mito e do símbolo (nos "territórios espirituais", se assim preferirem) e embora seu sentido seja necessariamente ambíguo e elusivo, suas aparições tendem a se dar em lugares e situações limite, nas fronteiras e limiares. "Os shagfoals, como eram chamados no folclore local, preferiam encruzilhadas ou pontes, locais onde o tecido entre nosso mundo e o lugar escondido abaixo dele está esticado e mais ténue",  nos conta Alan Moore em seu clássico do xamanismo, A Voz do Fogo.

Dion FortuneAutodefesa Psíquica
Formas-Pensamento, talvez, que irrompem do sonho para a vigília quando as fronteiras entre os dois estados se tornam mais indistintas? Quando as bases de uma "realidade" supostamente sólida (e supostamente desejável) começam a se dissolver e se tornar difíceis de sustentar? O comercial de margarina parecendo um tanto mais forçado? Mais nonsense? Os atores mais canastrões, os remendos no cenário mais visíveis? O tolerável, enfim, tornando-se intolerável? E ali, na borda, no quintal, nem dentro e nem fora da casa, o cão preto observa e talvez espera, seguindo, mantendo-se próximo, sempre à vista, sempre fiel, paciente e silencioso. Quando perguntada sobre o que achava que o cão faria se entrasse, Brenda Case diz que não sabe, mas acha que ele a devoraria. Talvez. Talvez seja preciso. Mas Lively nos conta que, por fim, Brenda e o cão chegaram a algum tipo de entendimento. Qual exatamente, ela não nos explica, permitindo que sigamos as insinuações por nossa própria conta, sentindo os cabelos na nuca se arrepiarem como os de John Case, ouvindo atrás de si o som surdo das patas no carpete.

Assim como os meus cabelos se arrepiaram quando li o conto pela primeira vez. Porque me fez lembrar de minha avó paterna, já falecida, e das histórias que ela mesma nunca chegou a me contar, mas minha mãe sim. Sobre o tempo em que meus pais moravam num quarto/cozinha nos fundos da casa dos meus avós. Sobre certas noites quando meu avô viajava e meu pai não estava em casa e, as vezes, minha avó procurava minha mãe nos fundos, apavorada, pedindo pra passar a noite ali. Ela não queria ficar sozinha. Tinha medo do enorme cachorrão preto no quarto dela, deitado em cima da cama...


A seção "Beijos no Escuro" traz pensamentos sobre narrativas curtas de horror: contos, novelas, noveletas, tratadas em sua individualidade. Ao invés de resenhar coletâneas inteiras, pinçar delas contos específicos que trazem em si algo que valha a pena ser dito, que estimule a reflexão, algo que ressoe... e aproveitar a oportunidade para indicar onde - na internet ou no papel - cada história pode ser encontrada por possíveis interessados.



Onde encontrar:
Richard Dalby (Org.)
Ano: 2010 / Páginas: 456
Tradução: PT/BR 
Editora: Suma das Letras

Opção online:
Cão Negro - Penelope Lively.pdf
(Escaneado do meu exemplar)

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