E não é que o que o futuro tinha para nos oferecer era mais uma versão de Drácula? (além de terraplanismo, neo-fascismo, etc, mas, enfim, isso a gente deixa pra lá). 2020 literalmente começou com um novo Drácula na BBC, e, como não poderia deixar de ser, metade da humanidade amou e metade odiou. Mas o que me chamou a atenção foi a quantidade de detratores ainda usando o argumento da não-fidelidade ao livro original de Bram Stoker (ou mesmo à sua "essência"🤔) para renegar a minissérie de Mark Gatiss e Steven Moffat. Realmente a Terra gira e gira apenas para acabar sempre no mesmo lugar, mas ao menos isso me dá uma deixa pra tecer algumas reflexões sobre essa questão da fidelidade às obras clássicas (ou mesmo as não-clássicas).
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| Primeira edição de Drácula, de 1897, letras vermelho sangue sobre o doentio amarelo decadentista. |
Para muita gente (como a minha amiga Gabi Ortelan😜) uma adaptação para o cinema que ousa alterar o enredo de uma obra clássica é algo simplesmente inadmissível, especialmente quando a pessoa tem um carinho especial por aquele livro em particular. Mesmo entre cinéfilos e estudantes de cinema, que tendem a ter uma noção mais clara do quão óbvia deveria ser a máxima "livro é livro, filme é filme", mais cedo ou mais tarde acabam topando com algum calcanhar de aquiles, algo do tipo "não, esse livro não!". Me lembro, inclusive, de um conhecido meu que não tinha nenhum problema em apreciar múltiplas versões das mais diversas obras primas da literatura, mas não conseguia tolerar adaptações de Frankenstein, nem mesmo as mais fiéis (que, para ele, nunca eram fiéis o bastante). É um sentimento que compreendo, e também compartilho em maior ou menor grau (Sherlock Holmes e O Morro dos Ventos Uivantes são os meus dois grandes calcanhares de aquiles), mas, na real, simplesmente não se sustenta em uma análise mais fria, e o velho Drácula ajuda a demonstrar isso melhor do que outros clássicos.
Drácula é um dos personagens mais adaptados para o cinema de todos os tempos. Uma busca por palavra-chave no IMDb revela impressionantes 340 títulos e é bem provável que haja até mais. Claro que estar em domínio público há tanto tempo tem muita coisa a ver com isso, mas uma quantidade tão colossal de versões é curiosa por duas razões fundamentais: 1) Apenas quatro de todas essas adaptações realmente tentaram seguir o enredo do livro; 2) Por sua própria estrutura e características, Drácula de Bram Stoker é um livro em princípio impossível de ser adaptado de uma forma realmente fiel, seja para o cinema, ou qualquer outra mídia.
Estou exagerando? Não sei, talvez esteja... Vamos refletir um pouco a respeito...🧛♂️
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| Ilustração da capa de Holloway para uma edição britânica (Londres, William Rider & Fils, 1919). |
Costuma-se dizer que um clássico é um livro "célebre demais para ser lido". No que eu acrescento: "mas não para ser repetidamente assistido". Clássicos da literatura universal, na prática, acabam sendo obras que todos têm a impressão de conhecer mesmo que nunca tenham se dado ao trabalho de ler, e, não raro, quando o fazem, nunca são exatamente aquilo que se imagina. Pode ser meio desconcertante descobrir, por exemplo, que o Fantasma da Ópera não é deformado porque jogaram ácido em seu rosto, ele simplesmente nasceu assim. Ou que Allan Quatermain não é um Indiana Jones literário mas um cara nem tão valente assim, que chega até a chorar de medo no colo de um amigo em um dos momentos mais marcantes de As Minas do Rei Salomão. Pode ser esquisito também se dar conta de que Robert Louis Stevenson só vai nos "revelar" que Edward Hyde e o Dr. Jekyll são a mesma pessoa nas últimas páginas de O Médico e o Monstro! E se você quiser se livrar da imagem de um Capitão Nemo caucasiano com sotaque britânico, não adianta só ler o Vinte Mil Léguas Submarinas, você vai ter que chegar até o final de A Ilha Misteriosa para, aí sim, descobrir que o senhor do Nautilus é na verdade um hindu de pele escura.
Esses são alguns exemplos de personagens e enredos que os filmes marcaram muito mais profundamente no inconsciente coletivo do que os livros originais. E antes que comecemos a tacar pedras por terem feito toda a humanidade ter uma ideia "errada" dos clássicos, deixe-me afirmar que muitas dessas alterações foram, em grande medida, incontornáveis. Nem todas, claro. Transformar o Fantasma da Ópera num herói trágico ao invés de um implacável stalker soa ainda pior hoje em dia do que quando a versão colorida da Universal foi lançada em 1943, acabando por determinar todas as versões que vieram depois (curiosamente, a versão muda de 1925 é bem mais fiel ao livro de Gaston Leroux, mas filmes mudos também são "célebres demais para serem vistos", não é?). Já no caso do Capitão Nemo, ainda que o whitewashing sempre tenha sido uma prática hiper questionável, a versão de 1954 da Disney ao menos tem a desculpa de que Jules Verne nunca descreve Nemo como hindu no próprio Vinte Mil Léguas, apenas na sua "continuação surpresa", A Ilha Misteriosa (sim, você só descobre que é uma continuação nos últimos capítulos).
Porém, em O Médico e o Monstro, como seria possível manter a fidelidade ao plot twist do desfecho se o livro já era tão famoso na época das primeiras versões cinematográficas (e mesmo antes, no teatro) que TODO MUNDO já sabia o final da história, e comprava ingresso justamente por causa da transformação? Até pelo marketing seria inviável. Reestruturar o enredo para um formato mais linear era (e é) a única opção possível, por mais que o efeito colateral seja sacrificar o verdadeiro protagonista de Stevenson, o advogado John Utterson, cuja função na história se perde completamente ao deixar de ser o "ponto de vista do leitor" no labirinto narrativo que culmina na revelação de que Jekyll e Hyde são a mesma pessoa. A única adaptação, até onde eu sei, que consegue resgatar a estrutura original da novela, é O Testamento do Dr. Cordelier, de Jean Renoir, que, não por acaso, "esconde" da audiência até o fato de ser uma adaptação de O Médico e o Monstro.
Nesse ponto, os leitores que realmente lêem os clássicos já devem ter sacado porque afirmo que Drácula é um livro impossível de ser adaptado fielmente. Ao, como Stevenson, se valer de um recurso eminentemente literário, a narrativa epistolar, inteiramente formada por textos "escritos pelos próprios personagens", como cartas, diários, gravações em cera e demais formas de registro e documentação, Stoker criou uma intrigante estrutura na qual nós leitores só "conhecemos" Drácula através dos testemunhos de terceiros. Todos os acontecimentos e peripécias do romance nos são apresentados de forma indireta, filtrados a posteriori pelos pontos de vistas de cada um dos personagens, EXCETO o próprio conde. Sua aparência nos é descrita em segunda mão, suas falas são transcrições de memória, sua trajetória através da Inglaterra é, em grande parte, deduzida e seu próprio background histórico pode não passar de mera especulação. No limite, não temos certeza de quase nada em relação a Drácula. Não temos como compreender objetivamente as suas motivações, personalidade, características, a não ser que acreditemos cegamente em Harker, Seward, Van Helsing e Mina, e ainda assim, com lacunas. Em uma leitura devidamente atenta não é difícil perceber que os relatos são cheios de pressuposições, conclusões a priori, preconceitos religiosos e, ironicamente, até vieses de confirmação. Um livro inteiro de narradores não confiáveis, cheio de brechas, contradições e pontos cegos que se tornam verdadeiros canais pra imaginação fluir eternamente, sem nunca conseguir (ou precisar) fechar completamente a narrativa.
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| Bela Lugosi, no espetáculo teatral de 1924. |
Não é de se estranhar, de fato, que as duas maiores representações imagéticas do personagem no século XX sejam tão absolutamente distintas: o aristocrata bem barbeado com um terno preto e capa de forro vermelho de Bela Lugosi, e a cadavérica criatura-rato de Max Schreck. Ambas soluções dramatúrgicas para "materializar" essa figura indistinta que nos foi legada por Stoker, uma para o drama teatral burguês e outra para os primórdios do cinema expressionista alemão. Mas enquanto o Nosferatu acabou seguindo uma trajetória mais restrita aos "circuitos de arte", o conde de capa e gravatinha de Lugosi foi prontamente adotado pelo cinemão hollywoodiano em escala industrial e nunca mais parou de se "reencarnar" desde então. Do clássico de 1931 da Universal, passando por Christopher Lee, Jack Palance, Frank Langella, etc., etc., até chegar ao debochadíssimo Claes Bang da minissérie da BBC. Faz sentido. O Drácula "teatral" é um personagem definido, articulado e falante, visualmente reconhecível, e adaptável aos mais variados tipos de roteiro e, acima de tudo, orçamento. Para que ser fiel a uma história tão vaga e complexa, envolvendo inúmeras locações em diversos países, com um protagonista que só aparece de verdade nos quatro primeiros capítulos e depois só é visto aqui e ali pelas 300 páginas restantes?
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| Bram Stoker's Dracula (1992) de Francis Ford Coppola. |
Só na década de 70, talvez devido ao esgotamento da notável (e desavergonhadamente infiel) fórmula da Hammer Films, que começou a surgir interesse em ir atrás do Drácula original de Stoker. Três das quatro versões consideradas "mais fiéis ao livro" foram produzidas entre 1970 e 1977. Mas gostaria, se me permitem, de começar pela quarta, e bem mais tardia, Bram Stoker´s Dracula, de 1992, pois a produção extravagante do Francis Ford Coppola me ajuda a demonstrar com mais clareza certos pontos. Antes de mais nada, deixem-me deixar uma coisa bem clara: eu AMO esse filme! Acho importante afirmar isso logo de cara porque nos últimos anos meio que passou a ser "descolado" implicar com essa versão. Até entendo o porque. Fruto de uma tendência dos anos 90 de olhar para o passado com uma certa empáfia, Bram Stoker´s Dracula surgiu quase simultaneamente com várias outras auto-proclamadas "versões definitivas" de clássicos da literatura que traziam os nomes dos autores nos títulos (Mary Shelley's Frankenstein, em 1994; Emily Brontë's Wuthering Heights, em 1992) mas que, por melhores que fossem, não tinham mais direito a se acharem "definitivas" do que qualquer outra adaptação. É chato mesmo ver o Coppola e o roteirista James V. Hart declararem em entrevistas coisas como "Ninguém jamais se deu ao trabalho de adaptar o livro" (o que até poderia ser verdade se dito na década de 60, mas jamais nos anos 90) ou "Nós queríamos mostrar o verdadeiro Drácula, não o sugador de sangue ridículo, mas o herói trágico que sempre foi."🤨
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| Gary Oldman, sem dúvida o Drácula o maior número de rostos da história do cinema. |
Essa última declaração de Hart (que pode ser vista no making of), além de demonstrar um menosprezo brutal para com seus antecessores, revela aquela que seria, pro bem ou pro mal, a chave para essa adaptação, o Drácula que preencheria esse "pleno vazio significativo" que Stoker nos legou em seu romance. E esse é o ponto: por mais "fiel" que seja uma adaptação, ela sempre terá que criar o seu próprio Drácula capaz de sustentar uma estrutura narrativa eminentemente visual/linear de cinema, e incompatível com a estrutura literária adotada por Stoker. Hart (e Coppola) resolveram esse problema abraçando outra tendência que também estava na moda na época: identificar Drácula como a figura histórica de Vlad Tepes, ou Vlad, o Empalador, uma tendência tão influente que até hoje muita gente acredita que o nome "completo" de Drácula é Vlad Drácula, e que essa relação é claramente afirmada no livro. Não é. O que os estudos históricos dos manuscritos de Stoker demonstram foi que Stoker passou por Tepes em sua ampla e aprofundada pesquisa sobre mitos e lendas do leste europeu e, quase que certamente, se apoderou de um de seus títulos: Dracul, mas Drácula poderia muito bem ter sido qualquer um dos grandes Senhores da Guerra da idade das trevas. Defini-lo como Vlad Tepes e estabelecer que Mina Murray é a reencarnação da sua amada perdida, Elisabeta, não passa de uma escolha do adaptador, um elemento de caracterização de personalidade, background, peso dramático e, acima de tudo, motivação para toda aquela trajetória do vampiro por Londres, depois de deixar seu castelo e, basicamente, "desaparecer" do livro.
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| Bram Stoker´s Dracula (1973) de Dan Curtis |
Vale lembrar que nada disso era inédito. Tanto o lance da reencarnação, quanto a associação com Vlad Tepes, já haviam aparecido na "menos fiel" das quatro adaptações "mais fiéis" que mencionei acima: a produção para a TV de Dan Curtis, de 1973, com Jack Palance no papel do conde (e que, inclusive, também ostentava um confiante Bram Stoker's Dracula no seu lançamento original na Inglaterra). A ideia, de fato, ficou tão popular que foi reaproveitada em inúmeras variações (até no Brasil), a ponto de novos leitores chegarem a se frustrar ao descobrir que não tem nada disso no livro. Não é difícil entender o apelo. É bem mais melodramático do que supor que Drácula iria para a Inglaterra apenas para achar mais comida, e que a sua única razão para atacar Mina era se vingar dos seus inimigos. A grande ironia é pensar que Curtis muito provavelmente se inspirou na sua própria criação, o vampiro Barnabas Collins da soap-opera gótica Dark Shadows (1966-1971). Quase poderíamos dizer que o Drácula de Gary Oldman é uma espécie de ramo bastardo da árvore genealógica dos Collins.😉
Porém, não há dúvida de que Hart e Coppola desenvolvem muito melhor a ideia do que o burocrático e pouco imaginativo roteiro do normalmente excelente Richard Matheson. Não fosse a (relativa) fidelidade, o filme de Curtis mal mereceria ser comparado com as "versões infiéis" mais notáveis, como o maravilhoso Drácula de 1979, com Frank Langella (que, aliás, também invertia os papéis de Lucy e de Mina, algo que soa bem mais gratuito numa versão que se pretende fiel) ou mesmo qualquer dos filmes da Hammer que o tio Lee estrelou no mesmo período. Falta inventividade, estilo e ousadia, coisas que Coppola tem de sobra, e é por isso que eu amo a sua versão apesar de simpatizar com quem se irrita com a sua arrogância. Bram Stoker´s Dracula é um delírio visual extraordinário, que nunca vou cansar de rever. Deliciosamente extravagante, exagerado e operístico, cada cena um deslumbre de beleza e inventividade cinematográfica.
O grande acerto de Coppola foi reconhecer o estranho paralelismo entre o mito do vampiro e a história do cinema em si. Ao optar por realizar seu filme inteiro com efeitos práticos dos primórdios do cinema, Coppola (apesar da empáfia para com o passado, ou até por conta dela) faz de seu Drácula uma ode assumida a toda a trajetória estética e técnica do cinema fantástico, um feito muito mais ambicioso do que qualquer tentativa de fazer uma adaptação fiel de um romance clássico. O grande erro, talvez, tenha sido insistir em bater na tecla da fidelidade mesmo sabendo que a subtrama romântica inevitavelmente ressignifica a história toda. Estricto senso, está tudo lá. Tem todos os personagens (é a única versão que preserva o time completo de caçadores de vampiros, Helsing, Harker, Quincey, Arthur, Seward, sem eliminações ou amalgamas), pelos menos uns 80% dos acontecimentos e peripécias mais importantes, e quase todas as falas mais famosas. Mas quando o estupro simbólico da cena em que Drácula obriga Mina a beber seu sangue se transfigura em Winona Ryder sugando voluptuosamente, e de bom grado, o peito de um relutante e extasiado Gary Oldman, aí já fomos, certamente, muito além do território da mera fidelidade.
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| Voluptuosamente, e de (muito) bom grado. Gary Oldman e Winona Ryder |
Não que não seja possível, com alguma imaginação e boa vontade, "reencaixar" o livro no filme. Notem que quando os homens arrombam a porta do quarto de Mina, no filme, o que eles efetivamente veem é a mesma cena que nos foi descrita pelo Dr. Seward no livro. Não temos um relato de Mina (muito menos de Jonathan que, no livro, está desmaiado na cama ao seu lado, detalhe que Hart achou por bem ignorar), então não podemos saber se, afinal de contas, o que rolou no quarto não foi justamente o que Coppola nos mostrou (vale lembrar que, no filme, só Mina e Drácula sabem a respeito de Vlad e Elisabeta). No fim, o que Hart e Coppola fazem é exatamente o que qualquer leitor faria: preencher lacunas da estrutura narrativa de Stoker de acordo com suas disposições, interesses e obsessões, mas não parecem dispostos a assumir responsabilidade por isso (a tão facilmente esquecida responsabilidade do leitor), insistindo em atestar uma "fidelidade" de só pode ser considerada, no máximo, relativa. Não é Stoker que afirma que o seu vampiro (ou seu suposto inspirador, Vlad Tepes) é um "herói trágico". Essa é uma leitura de única e exclusiva responsabilidade dos cineastas.
Lembram do que falei sobre "revelar as próprias entranhas"? 😉
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| Count Dracula (1977) de Philip Saville |
"Mas então o problema foi incluir coisas que não estão no livro", você pode estar pensando, "se ficasse apenas no livro poderia sim ter feito uma versão realmente fiel". Ok, então deixe-me dizer que uma versão que "fica só no livro" já existia antes da do Coppola. Chama-se Count Dracula, uma minissérie de dois episódios, feita pela BBC em 1977, e considerada por muita gente como a mais fiel adaptação já feita, mas, se você fizer uma rápida pesquisa, vai descobrir que, mesmo assim, muita gente não fica satisfeita com ela.
Com roteiro de Gerald Savory, Count Dracula é, sem dúvida, a versão que eu recomendaria para minha amiga Gaby (viu, Gaby?😉). Diferente do Coppola, com toda aquela estilização delirante e metalinguística, Philip Saville nos (re)apresenta à história da forma mais direta e clara possível: narrativa clássica, ambientação de época bem de acordo com as regras da verossimilhança, tudo num estilo gótico deliciosamente tradicional, e até ligeiramente teatral. Mais do que isso, a intenção parece ser respeitar até a sobriedade da escrita de Stoker, aquele tom formal e reverente com que os personagens se referem uns aos outros em seus respectivos relatos, levando à uma quase sacralização dos personagens "do bem", todos absolutamente nobres, justos e inocentes (sempre achei que o livro chega a se tornar enfadonho no último terço, com aquela adoração excessiva e sufocante à figura de Mina em todos os relatos masculinos). A versão de Coppola "dessacraliza" essa idealização, ousando especular as entrelinhas dos relatos. Saville se mantém firmemente "by the book".
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| Judi Bowker & Susan Penhaligon, Sadie Frost & Winona Ryder, irmãs numa versão, amizade colorida na outra.🥀 |
Assim, a Mina de Judi Bowker é infinitamente mais doce e frágil que a Mina de Winona Ryder, e o contraste entre a luxuriante Lucy de Sadie Frost e a ingênua Lucy de Susan Penhaligon é tão marcante quanto o vermelho do branco. Stoker certamente aprovaria a nobreza paternal do Dr. Van Helsing de Frank Finlay, mas tenho certeza que ficaria chocado com o fanatismo desvairado que Anthony Hopkins escancara do subtexto do romance. Importante ressaltar que não estou dizendo que uma versão seja melhor do que a outra ao fazer essas comparações (de fato, eu AMO ambas apaixonadamente), estou só chamando a atenção para o quão diversas podem ser as interpretações sobre as mesmas personagens e plots sem necessariamente se faltar com a "fidelidade". Mas não há dúvida de que a versão de 1977 soa muito mais próxima do livro que a versão de 1992, ou, ao menos, mais "diretamente" próxima.
É inquestionável o senso de autenticidade das locações na própria cidade costeira de Whitby. Chega a trazer lágrimas aos olhos reconhecer a longa escadaria que ladeia o cemitério à beira-mar que Stoker nos descreve com tantos detalhes. É como entrar fisicamente no universo do romance. Aliás, a minissérie é notável por incluir cenas que quase nenhuma outra adaptação incluiu, como o velho marujo que conta histórias sobre os lápides para Mina e Lucy, e o trágico papel da Sra. Westenra no triste destino da filha. Por outro lado, não deixa de tomar algumas liberdades, como mesclar Arthur e Quincey num tal "Quincey P. Holmwood" (talvez para tornar mais ágil a dinâmica dos caçadores de vampiros), ou estabelecer de forma mais automática a profunda conexão entre Mina e Lucy simplesmente transformando-as em irmãs (outro curioso contraste com a versão de Coppola, que até se atrevia a insinuar uma "amizade colorida" entre as duas), mas tais alterações parecem insignificantes se comparadas à duas horas e meia extraídas quase que inteiramente das páginas do livro.
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| Louis Jourdan, performance cínica e blasé, que parece ter inspirado bastante o recente Dracula de Mark Gatiss e Steven Moffat. |
Sendo assim, porque nem todos os fãs ou críticos se satisfazem com essa versão? Bom, diria que por causa do próprio Drácula. Aparentemente, não é todo mundo que dá conta do curioso tom blasé que o ator francês Louis Jourdan adota para o personagem. É um contraste e tanto com aqueles desempenhos sibilantes que Christopher Lee nos acostumou a esperar em seus filmes da Hammer. Jourdan, bem barbeado e impecavelmente trajado de preto (bem mais pra Bela Lugosi do que para o envelhecido senhor da guerra de cabelo e bigode branco que Jonathan Harker nos descreve em seu diário) entrega falas icônicas do livro de uma forma estranhamente... an passant.🤔 "Ah, as crianças da noite, que bela música elas fazem" soa quase como "acho que vai chover", confesso que achei estranhíssimo quando assisti pela primeira vez.
Mas passado o susto, fica claro que Jourdan (junto ao diretor, é claro) está tentando preencher aquele tal "pleno vazio significativo" do conde com a sua própria personalidade e maneirismos, criando um Drácula carregado de um cinismo desconcertante, que bota os seus antagonistas contra a parede, sem nunca perder a delicadeza polida e o ar de deboche velado. Uma surpreendente (e, devo dizer, corajosa) performance tipo "menos é mais", bem distante da grandiloquência operística que somos levados a esperar pelo caráter "maior que a vida" do personagem, e que funciona particularmente bem nos complicados capítulos em que Drácula "desaparece" do livro. O ar blasé de Jourdan em momentos como a vampirização de Mina, ou o desenlace da estranha relação entre Drácula e Renfield, permite que essas cenas sejam efetivamente "mostradas" (nos termos do áudio-visual) sem perder o caráter vago e dúbio com que elas são insinuadas pela estrutura narrativa tortuosa do romance. Esse é um Drácula que jamais conseguiremos compreender de fato, não importa em quantas cenas apareça. Motivações, desejos, backgrounds, tudo isso se torna inacessível por trás do frio e debochado olhar de condescendência malévola que Jourdan nos direciona. Como se sequer fôssemos dignos da sua raiva, só de sua pena.
É um feito e tanto no que se refere a solucionar dramaturgicamente problemas de adaptação entre as mídias, mas dá pra entender porque não funciona pra todo mundo. Ou mesmo em todas as cenas. É difícil imaginar esse Drácula recitando o texto épico da batalha contra os turcos e, não por acaso, esse trecho ficou de fora da adaptação. E esse é um outro ponto do meu argumento: seja qual for a interpretação de Drácula que você adotar para sua versão, sua escolha resultará em ganhos e perdas, funcionará em algumas partes e em outras nem tanto. E sempre haverá quem julgue essencial justamente a parte que não funcionou, ou que caiu fora. Se pra você o essencial é ouvir Drácula declamando que "o sangue de Átila flui por essas veias", talvez seja melhor dar uma olhada em uma outra produção que também atende pelo título de Count Dracula:
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| El Conde Dracula AKA Nachts, Wenn Dracula Erwacht AKA Les Nuits de Dracula (1970) de Jesus Franco |
El Conde Dracula, de 1970, também conhecido por Nachts, Wenn Dracula Erwacht, ou até Les Nuits de Dracula, foi o primeiro filme a tentar de fato seguir o enredo do livro, e a palavra é essa mesmo, "tentar". Quem já conhece o diretor espanhol Jesus Franco sabe que estamos falando aqui do exploitation por excelência, o que significa orçamento baixíssimo, e uma escassez generalizada de recursos. O que não é necessariamente sinônimo de baixa qualidade: as locações num legítimo castelo medieval (ainda que relativamente modesto) propiciam uma maravilhosa atmosfera para a primeira meia hora do filme, mas não impedem que o restante acabe evidenciando o esquema de produção no limite do improvisado em que Franco habitualmente trabalhava.
Mas El Conde Dracula tem algo que nenhuma outra versão jamais teve, antes ou depois: Christopher Lee interpretando Drácula com a exata aparência descrita no diário de Jonathan Harker, um ancião de cabelos e bigode brancos, vestido inteiramente de preto, sem o menor sinal de cor. Sem dúvida foi isso que o fez aceitar participar daquilo que definiu posteriormente como "um filme desastroso por um imenso número de razões", mesmo tendo que filmar quase simultaneamente com Taste the Blood of Dracula e Scars of Dracula, que a Hammer lançou naquele mesmo ano. Purista até o último fio de cabelo, Lee sempre criticou a Hammer abertamente por não seguir nem de longe as palavras de Stoker, assim suponho que a oportunidade oferecida por Franco deve ter lhe parecido irresistível, e é, de fato, uma delícia vê-lo em cena recitando com gosto algumas das falas mais marcantes dos primeiros capítulos do livro. Não tem como não lembrar da sua máxima: "Já fiz muitos filmes ruins na vida, mas o que importa é que eu estava ótimo em todos eles".
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| Klaus Kinski, comendo mosca. |
Apesar de tudo, o filme passa uma forte impressão de que Franco tinha um profundo respeito pelo material. Ao contrário da maioria dos seus filmes feitos mais a toque de caixa, não há nenhuma cena de nudez, nem passagens sexualmente apelativas, tão típicas do exploitation europeu (o que sem dúvida desapontou seus fãs mais devotos). É ainda mais surpreendente se levarmos em conta a presença da musa do diretor, Soledad Miranda (que no ano seguinte estrelaria a suposta "continuação", Vampyros Lesbos, aí sim com toda a nudez e erotismo habituais do diretor) no papel de Lucy Westenra. Eu até ousaria dizer que Franco realmente queria fazer uma versão fiel da história, e só não conseguiu pelas limitações orçamentárias, técnicas e, devo dizer, de suas próprias habilidades. Mas, onde lhe foi possível, acrescentou passagens que não entraram nem na versão de 1977, como a cena da mãe do bebê que é oferecido às noivas de Drácula, ou a visita do conde ao zoológico da cidade.
Mas, sem dúvida, o que fica dessa adaptação, e a torna no mínimo digna de figurar ao lado das mais bem sucedidas versões de Coppola e Saville, é Christopher Lee recitando as falas dos primeiros capítulos do livro com a sua reverberante dicção satânica. O tio pode inclusive se orgulhar de ter sido um dos pouquíssimos atores a dizer em voz alta, e com todas as letras, a lendária passagem que, segundo críticos e estudiosos, teria surgido de um pesadelo de Stoker, e se tornado o ponto de partida de onde toda a escrita e estruturação do romance se irradiou, mas que, por alguma razão, quase sempre fica de fora na maioria das versões: o momento em que Drácula afasta suas noivas de Jonathan Harker e, com o olhar em chamas, declara, ferozmente: "Esse homem pertence a mim!"😉
E, como o meu irmão comentou certa vez, se o Christopher Lee diz que você pertence a ele, você concorda, né? Fazer o que? ¯\_💀_/¯
E agora que vou chegando ao fim da minha escrita, já posso até ouvir o eco distante da voz da minha amiga Gabi dizendo: "Mas e se fosse o Christopher Lee na versão de 1977, ao invés do Louis Jourdan? Aí não teríamos uma versão fiel de verdade?", e tudo o que posso fazer é sorrir, e dar de ombros. Pois é, né?😏 Quem sabe? Nunca vamos saber. Certeza mesmo é que não vai ser esse artigo que vai conseguir quebrar o fetiche pela "fidelidade" que amantes da literatura tanto curtem cultivar. Mas, se me permitem, também tenho pra mim a convicção de que, para além dos fetiches, é sempre melhor gostar do que não gostar, e quando paramos de fato para refletir, não tem como não se dar conta de que é muito mais enriquecedor simplesmente abraçar à TODAS as versões (fiéis ou infiéis) e saborear aquilo que cada uma tem de único, ao invés de ficar eternamente tentando encontrar aquela que seria a adaptação "perfeita". Afinal, quem disse que perfeição é uma virtude? É das brechas, esquisitices e pontos fora da curva que os clássicos realmente são feitos, e o bom e velho Conde Drácula certamente não precisa ficar esperando a nossa aprovação para continuar nos assombrando, e nos usando como veículos para as suas mais variadas, estranhas, tortas, incongruentes e deliciosas manifestações, seja num velho mosteiro da Romênia, numa insuspeitada viagem de navio... ou mesmo no tinder. Afinal, desde quando o conde nos deve satisfações?😜
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| Trecho da breve, mas genial, releitura pós-moderna de Alan Moore e David Mack. Vampirella/Dracula: The Centennial (1997) |
















Depois do "Drácula" de Coppola, qualquer nova adaptação já nasce inferior. Me parece que os roteiristas tomaram a si a ingrata tarefa de atualizar a trama para nossos dias, e isso deve ter irritado quem esperava "mais do mesmo". Achei a iniciativa muito corajosa e com bom resultado. Resta saber como será a segunda temporada, se houver.
ResponderExcluira versão do coppola acaba com a Mina, no livro ela dá sinais de extrema inteligente, liga as coisas e tudo. no filme só serve pra ser chupada pelo dracula. Outra coisa horrível é que esqueceram que a ciência no livro aparece como heroína frente ao místico.
ExcluirEsse negócio de que Drácula original é um personagem tão vago que qualquer um pode pintar a imagem que quiser em cima dele é tão verdade que eu mesmo quando li o livro imaginei um indivíduo ainda mais diferente dos filmes clássicos (que a essa altura eu já tinha assistido todos e podiam facilmente me influenciar) nada de anti-herói trágico ou um ser de puro maldade, quando li aqueles trechos do Conde pregando peças e sustos no Jonathan para aterrorizá-lo eu imaginei um puta TIOZÃO TROLL! um vilão debochado e caricato meio desenho da Disney do tipo que sai dando risadinhas depois de aprontar uma sacanagem com o herói, uma abordagem bem mais cômica que tá muito mais próxima à paródia do Mel Brooks do que à sobriedade que sempre tentam atribuir ao personagem, e tipo, eu não acho que nem eu, nem quem nunca enxergou nada parecido estamos errados, esse é um dos exemplos mais óbvios e claros de prq tanta gente "prefere os livros", todo mundo sempre vai ter uma visão muito particular e pessoal daquele texto, e adaptações sempre vão divergir prq mesmo seguindo a história ao pé da letra, raramente vai ter duas pessoas interpretando aquilo da mesmíssima forma
ResponderExcluirTiozão Troll eu não sei, rss... mas com certeza o Drácula do livro é um grande tirador de sarro. O tempo todo ele zoa com a cara do pobre Jonathan: "Eu não bebo... vinho!", "Ah, espelhos, essas ferramentas da vaidade, não devia confiar neles!" e coisas assim. Das versões que eu trato no artigo a que mais aproveita esse lado é com certeza a do Louis Jourdan, sempre com aquele brilho no olho e sorrisinho de canto de lábio. Mas, curiosamente, o Drácula mais debochado de todos é o do Claes Bang na minissérie de 2020 e esse foi justamente um dos motivos pra tanta gente ter detestado a série, o que me parece no mínimo injusto... e um tanto sem senso de humor, rsss...
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