terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Jurando Fidelidade à Drácula - Uma reflexão sobre as adaptações mais "fiéis" ao clássico

E não é que o que o futuro tinha para nos oferecer era mais uma versão de Drácula? (além de terraplanismo, neo-fascismo, etc, mas deixemos isso de lado por agora). 2020 literalmente começou com o novo Drácula da BBC e como não poderia deixar de ser, metade da humanidade amou e metade odiou. Mas o que me chamou a atenção foi a quantidade de detratores ainda usando o argumento da não-fidelidade ao livro original de Bram Stoker (ou mesmo à sua "essência") para renegar a minissérie de Mark Gatiss e Steven Moffat. Realmente a Terra gira e gira apenas para acabar no mesmo lugar, mas ao menos isso me dá uma deixa pra tecer algumas reflexões sobre essa questão da fidelidade às obras clássicas (ou mesmo não-clássicas).

Primeira edição de Drácula, de 1897,
letras vermelho sangue sobre
o doentio amarelo decadentista.
Para muita gente (como minha amiga Gabi Ortelan 😜) uma adaptação para o cinema que ousa alterar o enredo de uma obra clássica é algo simplesmente inadmissível, especialmente quando a pessoa tem um carinho especial pelo livro em particular. Mesmo entre cinéfilos e estudantes de cinema que tendem a ter uma noção mais clara do quão óbvia é a máxima "livro é livro, filme é filme", mais cedo ou mais tarde acabam topando com algum calcanhar de aquiles, algo do tipo "não, esse livro não!". Me lembro, inclusive, de um conhecido que não tinha o menor problema em apreciar múltiplas versões das mais diversas obras primas da literatura, mas não conseguia tolerar nenhuma das adaptações de Frankenstein, nem mesmo as mais fiéis (que, pra ele, nunca eram fiéis o bastante). É um sentimento que compreendo e também sinto em maior ou menor grau (Sherlock Holmes e O Morro dos Ventos Uivantes são meus dois grandes calcanhares de Aquiles), mas simplesmente não se sustenta numa análise mais fria e o velho Drácula de Stoker ajuda a demonstrar isso talvez melhor do que qualquer outro clássico.

Drácula é muito provavelmente o personagem mais adaptado para o cinema de todos os tempos. Uma busca por palavra-chave no IMDb revela impressionantes 340 títulos e é provável que haja até mais. Claro que estar em domínio público a décadas tem muita coisa a ver com isso, mas essa quantidade colossal de versões é curiosa por dois motivos fundamentais: 1) Apenas quatro de todas essas adaptações tentaram de fato seguir o enredo do livro; 2) Por sua própria estrutura e características, Drácula de Bram Stoker é um livro em princípio impossível de ser adaptado de forma realmente fiel para o cinema ou para qualquer outra mídia.

Estou exagerando? Não sei, talvez esteja... Vamos refletir um pouco a respeito... 🧛‍♂️

Ilustração da capa de Holloway
para uma edição britânica
(Londres, William Rider & Fils, 1919).
Costuma se dizer que um clássico é um livro "célebre demais para ser lido". No que eu acrescento: "mas nunca célebre demais para ser repetidamente assistido". Clássicos da literatura universal na prática acabam sendo obras que todos têm a impressão de conhecer mesmo que nunca tenham se dado ao trabalho de lê-los e, não raro, quando o fazem nunca são exatamente aquilo que se imagina. Pode ser uma experiência deveras desconcertante descobrir, por exemplo, que o Fantasma da Ópera não é deformado porque jogaram ácido em seu rosto, simplesmente nasceu assim. Ou que Allan Quatermain não é um Indiana Jones literário mas um cara não tão valente assim, que chega até a chorar de medo no colo de um amigo num dos momentos mais marcantes de As Minas do Rei Salomão. Também pode ser bem esquisito se dar conta de que Robert Louis Stevenson só vai "revelar" que Edward Hyde e o Dr. Jekill são a mesma pessoa nas últimas páginas de O Médico e o Monstro! E se você quiser se livrar da imagem do Capitão Nemo como um caucasiano de sotaque britânico, não adianta ler só o Vinte Mil Léguas Submarinas, você precisa chegar até o final de A Ilha Misteriosa para, aí sim, descobrir que o senhor do Nautilus é na verdade um hindu de pele escura.

Esses são alguns exemplos de personagens e enredos que os filmes marcaram muito mais profundamente no inconsciente coletivo do que os livros originais. E antes que comecemos a tacar pedras por terem feito toda a humanidade ter uma ideia "errada" dos clássicos apresso-me a afirmar que muitas dessas alterações eram, em grande medida, incontornáveis. Nem todas, claro, transformar o Fantasma da Ópera num herói trágico ao invés de um implacável stalker soa ainda pior hoje em dia do que quando a versão colorida da Universal foi lançada em 1943, acabando por determinar todas as versões que vieram depois (curiosamente, a versão muda de 1925 é bem mais fiel ao livro de Gaston Leroux, mas filmes mudos também são "célebres demais para serem vistos", não é?). Já o caso do Capitão Nemo, ainda que whitewashing sempre tenha sido uma prática hiper questionável, a versão de 1954 da Disney ao menos tem a desculpa de que Jules Verne nunca descreve Nemo como hindu no próprio Vinte Mil Léguas, apenas na sua "continuação surpresa" (sim, você só de dá conta de que A Ilha Misteriosa é uma continuação nos últimos capítulos).

Porém, no caso de O Médico e o Monstro, como seria possível manter a fidelidade ao plot twist do desfecho se o livro já era tão famoso na época das primeiras versões para cinema (e mesmo para o teatro antes disso) que TODO MUNDO já sabia o final da história? Seria inviável até por uma questão de marketing. A reestruturação para um enredo mais linear era (e é) a única opção possível, por mais que o efeito colateral seja sacrificar o verdadeiro protagonista de Stevenson, o advogado John Utterson, cuja função na história se perde completamente ao deixar de ser o "ponto de vista do leitor" no labirinto narrativo que culmina na grande revelação de que Hyde é na verdade Henry Jekyll (a única versão cinematográfica que tenta resgatar a importância do advogado, por incrível que pareça, é O Soro Maldito, de 1971, com Peter Cushing no papel de Utterson).


Nesse ponto, os leitores que realmente lêem os clássicos já devem ter sacado porque afirmo que Drácula é um livro impossível de ser adaptado fielmente. Ao se valer, como Stevenson, de um recurso eminentemente literário, a narrativa epistolar, inteiramente formada por documentos "produzidos" pelos próprios personagens, como cartas, diários, gravações em cera e demais formas de registro, Stoker criou uma intrigante estrutura na qual nós leitores só "conhecemos" Drácula através do testemunho de terceiros. Todos os acontecimentos e peripécias do romance nos são apresentados de forma indireta, filtrados a posteriori pelos pontos de vistas de cada um dos personagens EXCETO o próprio conde. Sua aparência nos é descrita em segunda mão, suas falas são transcrições de memória, sua trajetória através da Inglaterra é em grande parte deduzida e seu próprio background histórico pode não passar de mera especulação. No limite, não temos certeza de quase nada em relação a Drácula. Não temos meios para compreender objetivamente suas motivações, personalidade, características, a não ser que acreditemos cegamente em Harker, Seward, Van Helsing e Mina, e ainda assim com lacunas. Numa leitura devidamente atenta não é difícil perceber que os relatos são carregados de pressuposições, conclusões a priori, preconceitos religiosos e, ironicamente, até vieses de confirmação. Um livro inteiro de narradores não confiáveis, cheio de brechas, contradições e pontos cegos que se tornam verdadeiros canais para a imaginação criativa do leitor fluir eternamente, sem nunca conseguir (ou precisar) fechar a narrativa, uma característica fundamental para qualquer clássico.

Bela Lugosi, no espetáculo teatral de 1924,
ainda sem suspeitar que se
tornara hospedeiro de um ícone.
E o mais interessante é que normalmente nem nos damos conta de toda essa ambiguidade, afinal somos "adestrados" a considerar a linguagem "documental" como direta e objetiva. Nem percebemos que estamos ativamente "criando" Drácula à cada página. "Nosso" Drácula. Não é exagero dizer que a interpretação que temos do personagem quando chegamos ao fim da leitura revelará mais sobre o próprio leitor do que sobre o conde em si, ou mesmo seu criador, o que torna Drácula um dos mais extraordinários espelhos da história da literatura fantástica. E, como diz a lenda, vampiros não aparecem em espelhos. Se vemos algum reflexo, muito provavelmente éramos nós mesmos o tempo todo. Isso torna Drácula um personagem perigosíssimo para se analisar, estudar e ainda mais dissecar. Ao raiar do dia podemos descobrir que estamos arrancando nossas próprias entranhas e exibindo-as para o mundo.😜

Não é de se estranhar que as duas grandes representações imagéticas do personagem no século XX sejam tão completamente distintas: o aristocrata bem barbeado de terno preto e capa de forro vermelho de Bela Lugosi e a cadavérica criatura-rato de Max Schreck. Ambas soluções dramatúrgicas para "materializar" essa indistinta figura que nos foi legada por Stoker, uma para o drama teatral burguês e outra para os primórdios do cinema expressionista alemão. Mas enquanto o Nosferatu acabou seguindo uma trajetória mais restrita aos "circuitos de arte", o conde de capa e gravatinha de Lugosi foi prontamente adotado pelo cinemão hollywoodiano de escala industrial e nunca mais parou de "reencarnar-se" desde então. Do clássico de 1931 da Universal, passando por Christopher Lee, Jack Palance, Frank Langella, etc., etc., até chegar ao debochadíssimo Claes Bang da minissérie da BBC. Faz sentido. O Drácula "teatral" é  um personagem bem definido, articulado e falante, visualmente reconhecível e adaptável aos mais variados tipos de roteiro e, acima de tudo, orçamento. Pra que ser fiel a uma história tão vaga e complexa, envolvendo inúmeras locações em diversos países, com um protagonista que só aparece de verdade nos quatro primeiros capítulos e depois só é visto aqui e ali nas 300 páginas restantes?

Bram Stoker's Dracula (1992)
de Francis Ford Coppola
Foi só na década de 70, talvez devido ao esgotamento da notável (e desavergonhadamente infiel) fórmula da Hammer Films, que começou a surgir um real interesse de ir atrás do Drácula original de Stoker. Três das quatro versões consideradas "mais fiéis ao livro" foram produzidas entre 1970 e 1977. Mas gostaria, se me permitem, de começar pela quarta e tardia Bram Stoker´s Dracula, de 1992, pois o extravagante filme de Francis Ford Coppola me ajuda a demonstrar mais claramente certos pontos. Antes de mais nada, deixem-me deixar uma coisa bem clara: eu AMO esse filme! Acho importante dizer isso logo de cara porque nos últimos anos meio que passou a ser "descolado" implicar com essa versão. Até entendo o porque. Fruto de uma tendência dos anos 90 de olhar para o passado com certa empáfia, Bram Stoker´s Dracula surgiu quase simultaneamente com várias outras auto-proclamadas "versões definitivas" de clássicos da literatura que traziam os nomes dos autores nos títulos (Mary Shelley's Frankenstein, em 1994; Emily Brontë's Wuthering Heights, em 1992) mas que, por melhores que fossem, não tinham mais direito a se acharem "definitivas" do que qualquer outra adaptação. É chato mesmo ver Coppola e o roteirista James V. Hart declararem em entrevistas coisas como "Ninguém jamais se deu ao trabalho de adaptar o livro" (o que até poderia ser verdade se fosse dito na década de 60, mas de jeito nenhum nos anos 90) ou "Queríamos mostrar o verdadeiro Drácula, não o sugador de sangue ridículo, mas o herói trágico que ele sempre foi."!

Gary Oldman, sem dúvida o Drácula o maior
número de rostos da história do cinema.
Essa última declaração de Hart (disponível no making of), além de demonstrar um brutal menosprezo para com seus antecessores, revela aquela que seria a chave dessa adaptação, para o bem ou para o mal: a escolha de qual Drácula preencheria aquele "pleno vazio significativo" que Stoker nos legou em seu romance. E esse é o ponto do meu argumento, por mais "fiel" que seja a adaptação, sempre será preciso criar um Drácula capaz de sustentar a estrutura narrativa eminentemente visual/linear do cinema, incompatível com a estrutura literária adotada por Stoker. Hart (e Coppola) resolveram o problema abraçando uma outra tendência que estava na moda naquela época: identificar Drácula como a figura histórica de Vlad Tepes, o empalador, uma tendência tão influente que até hoje muita gente acredita que o nome "completo" de Drácula é Vlad Drácula e que essa relação é claramente afirmada no livro. Não é. O que os estudos históricos dos manuscritos de Stoker demonstraram foi que ele passou por Tepes em sua ampla e detalhada pesquisa sobre mitos e lendas do leste europeu e, quase que certamente, se apoderou de um de seus títulos: Dracul, mas Drácula poderia muito bem ter sido qualquer um dos grandes Senhores da Guerra da idade das trevas. Defini-lo como Vlad Tepes e estabelecer que Mina Murray é a reencarnação de sua amada perdida Elisabeta não passa de uma escolha do adaptador, um elemento caraterizador de personalidade, background, peso dramático e, acima de tudo, motivação para toda a trajetória do vampiro por Londres depois de deixar seu castelo e, basicamente, "desaparecer" do livro.

Bram Stoker´s Dracula (1973)
de Dan Curtis
Vale lembrar que nada disso era inédito. Tanto o lance da reencarnação quanto a associação com Vlad Tepes já haviam aparecido na "menos fiel" das quatro versões "mais fiéis" que mencionei acima: a produção para TV de Dan Curtis de 1973 com Jack Palance no papel (que, inclusive, também ostentava o confiante título Bram Stoker's Dracula no seu lançamento na Inglaterra). A ideia, de fato, tornou-se tão popular que foi reaproveitada em inúmeras variações (até mesmo no Brasil), a ponto de novos leitores chegarem a ficar frustrados ao descobrir que não tem nada disso no livro. Não é difícil entender o apelo. É bem mais melodramático do que supor que Drácula teria ido para a Inglaterra apenas para achar mais comida e sua única razão para atacar Mina era se vingar de seus inimigos. A grande ironia é pensar que Curtis provavelmente se inspirou na sua própria criação, o vampiro Barnabas Collins da soap-opera gótica Dark Shadows (1966-1971). Quase poderíamos dizer que o Drácula de Gary Oldman é uma espécie de ramo bastardo da árvore genealógica da família Collins.

Porém, não há dúvida de que Hart e Coppola desenvolvem muito melhor a ideia do que o burocrático e pouco imaginativo roteiro do normalmente excelente Richard Matheson. Não fosse a relativa fidelidade, o filme de Curtis mal mereceria ser comparado com as mais notáveis "versões infiéis", como o maravilhoso Drácula de 1979, com Frank Langella (que, aliás, também invertia os papéis de Lucy e Mina, algo que soa bem mais gratuito numa versão que se pretende fiel) ou mesmo qualquer dos filmes da Hammer que o tio Lee estrelou no mesmo período. Falta inventividade, estilo e ousadia, coisas que Coppola tem de sobra e é por isso que amo a sua versão apesar de simpatizar com quem se irrita com sua arrogância. Bram Stoker´s Dracula é um extraordinário delírio visual que nunca vou me cansar de rever. Deliciosamente extravagante, exagerado e operístico, cada cena um deslumbre de beleza e inventividade cinematográfica.


O grande acerto de Coppola foi reconhecer o estranho paralelismo entre o mito do vampiro e a história do cinema em si. Ao escolher realizar o filme todo com efeitos especiais práticos on camera dos primórdios do cinema, Coppola (apesar da empáfia para com o passado, ou até por conta dela) tornou seu Drácula uma ode assumida a toda a trajetória estética e técnica do cinema fantástico, um feito muito mais ambicioso do que uma mera tentativa de fazer uma adaptação fiel de um livro clássico. O grande erro, talvez, tenha sido insistir em bater na tecla da fidelidade mesmo sabendo que a subtrama romântica inevitavelmente re-significava toda a história. Estricto senso está tudo lá. Todos os personagens (é a única versão que preserva todo o time de caçadores de vampiros, Van Helsing, Quincey, Arthur e Seward, sem eliminações ou amalgamas), pelos menos 80% dos acontecimentos e peripécias mais importantes e quase todas as falas mais famosas. Mas quando o estupro simbólico na cena em que Drácula obriga Mina a beber seu sangue transfigura-se em Winona Ryder sugando voluptuosamente, e de bom grado, o peito de um relutante e extasiado Gary Oldman, aí certamente já fomos muito além do território da mera fidelidade.

Winona Ryder sugando voluptuosamente,
e de bom grado,
o peito de um relutante e extasiado Gary Oldman
Não que não seja até possível, com alguma imaginação e boa vontade, trazer essa interpretação de volta para o livro. Notem que quando os homens arrombam a porta (no filme) o que eles vêem é basicamente a mesma cena descrita no relato do Dr. Seward. Não temos um relato de Mina (muito menos de Jonathan que, no livro, está desmaiado na cama ao seu lado, outro detalhe que o roteiro de Hart achou por bem ignorar), então, estritamente falando, não temos como saber com certeza se o que aconteceu no quarto não foi mais ou menos semelhante ao que Coppola mostrou (vale lembrar que, no filme, apenas Mina e Drácula sabem a respeito de Vlad e Elisabeta). Hart e Coppola, no fim das contas, fazem exatamente o que nós leitores fazemos: preenchem as lacunas da estrutura narrativa de Stoker de acordo com suas próprias disposições, interesses e obsessões, mas não parecem dispostos a assumir a responsabilidade por isso (a tão facilmente esquecida responsabilidade do leitor), insistindo em atestar a "fidelidade" de sua versão. Ao fim e ao cabo, Stoker jamais afirma que seu vampiro (ou seu suposto inspirador, Vlad, o Empalador) seria um "herói trágico". Essa interpretação é de única responsabilidade dos leitores/cineastas.

Lembram o que falei sobre "revelar as próprias entranhas"? 😉

Count Dracula (1977)
de Philip Saville
"Mas então o problema foi incluir coisas que não estão no livro
", você pode estar pensando, "se ele tivesse ficado apenas no livro poderia ter feito uma versão realmente fiel". Ok, então deixe-me dizer que uma versão que "fica apenas com o livro" já existia antes de Coppola. Chama-se Count Dracula, uma minissérie de TV em dois episódios produzida em 1977 pela BBC. Uma versão que muita gente considera como a mais fiel de todas, mas se você fizer uma rápida pesquisa vai descobrir que, mesmo assim, também tem muita gente que não se satisfaz inteiramente com ela.

Com roteiro de Gerald SavoryCount Dracula sem dúvida é a versão que eu recomendaria para a minha amiga Gaby (viu, Gaby?). Diferente de Coppola e sua delirante estilização metalinguística, o diretor Philip Saville nos (re)apresenta a história da forma mais clara e direta possível: narrativa clássica, ambientação de época seguindo direitinho as regras de verossimilhança e num estilo gótico deliciosamente tradicional (e até ligeiramente teatral). Mais do que isso, a intenção parece ter sido respeitar até mesmo a sobriedade da escrita de Stoker, o tom formal e reverente com que os personagens referem-se uns aos outros em seus respectivos relatos, levando muitas vezes a uma quase sacralização dos personagens "do bem", todos absolutamente nobres, justos e inocentes (sempre achei que o livro torna-se quase enfadonho no último terço, com a excessiva e sufocante adoração de Mina nos relatos masculinos). A versão de Coppola "dessacraliza" essa idealização o tempo todo, ousando especular sobre o que mais poderia haver nas entrelinhas de cada relato, mas Saville se mantém firmemente "by the book" nesse aspecto.

Judi Bowker, Susan Penhaligon,
Sadie Frost, Winona Ryder,
irmãs numa versão, amizade colorida na outra.
Assim, a Mina de Judi Bowker é infinitamente mais doce e frágil do que a Mina de Winona Ryder e o contraste entre a luxuriosa Lucy de Sadie Frost e a ingênua Lucy de Susan Penhaligon é tão marcante quanto o vermelho do azul. Stoker certamente aprovaria a nobreza paternal do Van Helsing de Frank Finlay, mas tenho quase certeza que ficaria chocado com o fanatismo desvairado que Anthony Hopkins escancara do subtexto de seu romance. É importante ressaltar que não estou dizendo que uma versão seja melhor do que a outra ao fazer essas comparações (de fato, AMO ambas apaixonadamente), estou apenas chamando a atenção para o quão diversas podem ser as interpretações dos mesmos personagens e plots sem necessariamente faltar com a "fidelidade". Mas não há dúvida de que a versão de 1977 soa muito mais próxima do livro do que a versão de 1992, ou ao menos mais "diretamente" próxima.

É inquestionável o senso de autenticidade trazido pelas locações na própria cidade costeira de Whitby. Chega a trazer lágrimas aos olhos reconhecer a longa escadaria que leva ao cemitério à beira-mar que Stoker nos descreve com tantos detalhes. É como entrar fisicamente no universo do romance. Aliás, a minissérie é notável por incluir cenas que nenhuma outra adaptação incluiu, como o velho marujo contando histórias sobre os túmulos para Mina e Lucy e o trágico papel da Sra. Westenra no triste destino da filha. Por outro lado, não deixa de tomar algumas liberdades, como mesclar Arthur e Quincey como "Quincey P. Holmwood" (talvez para tornar mais ágil a dinâmica dos caçadores de vampiros) e estabelecer de forma mais automática a profunda conexão entre Mina e Lucy simplesmente transformando-as em irmãs (outro curioso contraste com a versão de Coppola, que até se atrevia a insinuar uma "amizade colorida" entre as duas), mas as alterações parecem insignificantes se comparadas às duas horas e meia quase que inteiramente extraídas direto das páginas do livro.

Louis Jourdan, performance cínica e blasé,
que parece ter inspirado bastante o recente
Dracula de Mark Gatiss e Steven Moffat.
Sendo assim, porque nem todos os fãs e críticos ficam satisfeitos com essa versão? Bom, eu diria que por causa do próprio Drácula. Aparentemente, nem todo mundo dá conta do curioso tom blasé que o ator francês Louis Jourdan adotou para o personagem. É um contraste e tanto com os desempenhos sibilantes que Christopher Lee nos acostumou a esperar nos filmes da Hammer. Jourdan, bem barbeado e impecavelmente trajado de preto (bem mais para Bela Lugosi do que para o envelhecido senhor da guerra de cabelo e bigode branco que Jonathan Harker nos descreve em seu diário) entrega as falas icônicas do livro de forma estranhamente... como direi... an passant. "Ah, as crianças da noite, que música elas fazem" soa quase como "acho que vai chover hoje", confesso que achei estranhíssimo quando assisti da primeira vez.

Mas passado o susto, acaba se tornando claro que Jourdan (juntamente com o diretor, é claro) tenta preencher o "pleno vazio significativo" do conde com sua própria personalidade e maneirismos, criando um Drácula de um cinismo desconcertante, que bota os antagonistas contra a parede sem jamais perder a delicadeza polida e o ar de deboche velado. Uma surpreendente (e, devo dizer, corajosa) performance "menos é mais", muito longe da grandiloquência operística que sempre somos levados a esperar pelo caráter "maior do que a vida" do personagem, e funciona particularmente bem nos complicados capítulos em que Drácula "desaparece" do livro. O ar blasé de Jourdan em cenas como a vampirização de Mina ou o desenlace da estranha relação entre Drácula e Renfield permite que essas cenas sejam efetivamente "mostradas" (nos termos do áudio-visual) sem perder o caráter vago e dúbio com que são insinuadas na estrutura de narração indireta do livro. Esse é um Drácula que jamais conseguimos compreender, não importa em quantas cenas apareça. Motivações, desejos, background, tudo isso torna-se inacessível atrás do frio e debochado olhar de condescendência malévola que Jourdan nos direciona. Como se sequer fôssemos dignos de sua raiva, só de sua pena.


Por si só é um feito e tanto em termos de solucionar dramaturgicamente os problemas de adaptação entre mídias, mas dá pra entender porque não funciona pra todo mundo. Ou mesmo em todas as cenas. É difícil imaginar esse Drácula recitando o texto épico da batalha contra os turcos e, não por acaso, esse trecho ficou de fora da adaptação. E esse é outro ponto do meu argumento: seja qual for a interpretação de Drácula que você adotar para sua versão, sua escolha resultará em ganhos e perdas, funcionará em algumas partes e em outras não tanto. E sempre haverá quem julgue essencial justamente a parte que não funcionou ou que foi cortada. Se pra você for essencial ouvir Drácula declamando que "o sangue de Átila frui nessas veias", talvez seja melhor dar uma olhada nessa outra produção também chamada Count Dracula:

El Conde Dracula AKA
Nachts, Wenn Dracula Erwacht AKA
Les Nuits de Dracula (1970)
de Jesus Franco
El Conde Dracula AKA Nachts, Wenn Dracula Erwacht AKA Les Nuits de Dracula, de 1970, foi o primeiro filme comercial a tentar seguir o enredo do livro e a palavra aqui é bem essa, "tentar". Quem conhece o diretor espanhol Jesus Franco sabe que aqui estamos no território do exploitation por excelência, o que significa orçamentos baixíssimos e escassez geral de recursos, o que não significa necessariamente baixa qualidade: as locações num legítimo castelo medieval (ainda que relativamente modesto) dão uma atmosfera maravilhosa para a primeira meia hora do filme, mas não impedem que o restante acabe evidenciando o esquema de produção no limite do improvisado com que Franco habitualmente trabalhava.

Mas El Conde Dracula tem uma coisa que nenhuma outra versão jamais teve, nem antes, nem depois: Christopher Lee interpretando Drácula com a exata aparência descrita no diário de Jonathan Harker: um ancião de cabelos e bigode brancos, trajado inteiramente de preto sem o menor sinal de cor. Sem dúvida foi isso que o fez aceitar participar daquilo que posteriormente definiu como "um filme desastroso por um imenso número de razões", mesmo tendo que filmar quase simultaneamente a Taste the Blood of Dracula e Scars of Dracula, que a Hammer lançou no mesmo ano. Purista até o último fio de cabelo, Lee sempre criticou abertamente a Hammer por não seguir nem de longe as palavras de Stoker, assim a oportunidade oferecida por Franco deve ter lhe parecido irresistível e é realmente delicioso vê-lo em cena recitando com gosto algumas das falas mais marcantes dos primeiros capítulos do livro. Impossível não lembrar de outra de suas máximas: "Já fiz muitos filmes ruins na vida, mas eu estava ótimo em todos eles".

Klaus Kinski comendo moscas de verdade.
Sendo justo, nem é assim tão ruim quanto o tio achava. É um filme limitado e problemático, com certeza, mas muito mais interessante, por exemplo, do que a insossa versão de Dan Curtis. Além da caracterização hiper fiel de Lee temos o desvairado do Klaus Kinski no papel de Renfield, quase dez anos antes de tornar-se ele próprio o Nosferatu na versão de Werner Herzog. Nem Tom Waits, em 1992, conseguiu parecer tão demente em cena (Franco jura que ele comia as moscas de verdade!). Por outro lado, Kinski faz basicamente o que lhe dá na cabeça, sem falas e sem contracenar com ninguém a maior parte do tempo (na verdade ele não contracena muito nem quando tem outro ator em cena) sendo que o plot de personagem é dado muito mais pelas falas em off do que por qualquer de suas ações. Não me espantaria, dado o histórico do ator, que Franco tivesse trancado o maluco na cela acolchoada, ligado a câmera e picado a mula, só voltando na hora de recolher o rolo pra ver o que dava pra aproveitar na montagem.

Apesar de tudo, o filme passa uma forte impressão de que Franco tinha um profundo respeito pelo material. Ao contrário da maioria dos seus filmes feitos mais a toque de caixa não há nenhuma cena de nudez, nem passagens sexualmente apelativas típicas do exploitation europeu (o que sem dúvida desapontou seus fãs mais devotos). É ainda mais surpreendente se levarmos em conta a presença da musa do diretor, Soledad Miranda (que no ano seguinte estrelaria a suposta "continuação", Vampyros Lesbos, aí sim com toda a nudez e erotismo habituais do diretor) no papel de Lucy Westenra. Eu até ousaria dizer que Franco queria mesmo fazer uma versão fiel da história e só não conseguiu por conta das limitações orçamentárias, técnicas e, devo dizer, de suas próprias habilidades. Mas onde lhe foi possível acrescentou até passagens que não entraram nem na versão de 77, como a cena da mãe do bebê que é oferecido às noivas ou a visita de Drácula ao zoológico.


Mas, sem a menor dúvida, o que fica mesmo dessa adaptação e a torna pelo menos digna de figurar ao lado das de Coppola e Saville, é Christopher Lee recitando as falas dos primeiros capítulos do livro com sua reverberante dicção satânica. O tio pode inclusive se orgulhar de ter sido um dos pouquíssimos atores a dizer em voz alta e com todas as letras a lendária passagem que, segundo críticos e estudiosos, teria surgido de um pesadelo de Stoker e se tornado o ponto de partida de onde se irradiou toda a escrita e estruturação do romance, mas que por alguma razão, sempre fica de fora de quase todas as versões: o momento em que Drácula afasta as noivas de Jonathan Harker e, com o olhar em chamas, declara: "Esse homem pertence a mim!"

E, como meu irmão comentou uma vez, se o Christopher Lee diz que você pertence a ele você concorda e pronto, fazer o que? ¯\_💀_/¯

E agora que vou chegando ao fim da minha escrita, começo a ouvir o eco distante da voz minha amiga Gabi dizendo "Sei não... e se tivesse sido o Christopher Lee na versão de 1977 ao invés do Louis Jourdan? Aí sim seria uma versão fiel de verdade!" e tudo o que posso fazer é sorrir e dar de ombros. Pois é, quem sabe? Nunca vamos saber. Certeza mesmo é que não vai ser esse artigo que vai conseguir quebrar o fetiche da "fidelidade" que os amantes da literatura tanto adoram cultivar. Mas, se me permitem, também tenho pra mim a certeza de que, acima de qualquer fetiche, é sempre melhor gostar do que não gostar e quando paramos de fato para refletir, não tem como não se dar conta de que é muito mais enriquecedor simplesmente abraçar TODAS as versões (fiéis e infiéis) e saborear aquilo que cada uma tem de único, ao invés de ficar eternamente tentando encontrar aquela que seria a adaptação perfeita. Afinal, quem disse que perfeição é uma virtude? É das brechas, esquisitices e pontos fora da curva que os clássicos realmente são feitos, e o bom e velho Conde Drácula certamente não precisa ficar esperando nossa aprovação para continuar nos assombrando e nos usando como veículos para as suas mais variadas, estranhas, tortas, incongruentes e deliciosas manifestações, seja num velho mosteiro da Romênia, numa insuspeitada viagem de navio... ou mesmo no tinder. Afinal, desde quando o conde nos deve satisfações? 😜

Trecho da breve, mas genial, releitura pós-moderna de Alan Moore e David Mack.
Vampirella/Dracula: The Centennial (1997)

4 comentários:

  1. Depois do "Drácula" de Coppola, qualquer nova adaptação já nasce inferior. Me parece que os roteiristas tomaram a si a ingrata tarefa de atualizar a trama para nossos dias, e isso deve ter irritado quem esperava "mais do mesmo". Achei a iniciativa muito corajosa e com bom resultado. Resta saber como será a segunda temporada, se houver.

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    1. a versão do coppola acaba com a Mina, no livro ela dá sinais de extrema inteligente, liga as coisas e tudo. no filme só serve pra ser chupada pelo dracula. Outra coisa horrível é que esqueceram que a ciência no livro aparece como heroína frente ao místico.

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  2. Esse negócio de que Drácula original é um personagem tão vago que qualquer um pode pintar a imagem que quiser em cima dele é tão verdade que eu mesmo quando li o livro imaginei um indivíduo ainda mais diferente dos filmes clássicos (que a essa altura eu já tinha assistido todos e podiam facilmente me influenciar) nada de anti-herói trágico ou um ser de puro maldade, quando li aqueles trechos do Conde pregando peças e sustos no Jonathan para aterrorizá-lo eu imaginei um puta TIOZÃO TROLL! um vilão debochado e caricato meio desenho da Disney do tipo que sai dando risadinhas depois de aprontar uma sacanagem com o herói, uma abordagem bem mais cômica que tá muito mais próxima à paródia do Mel Brooks do que à sobriedade que sempre tentam atribuir ao personagem, e tipo, eu não acho que nem eu, nem quem nunca enxergou nada parecido estamos errados, esse é um dos exemplos mais óbvios e claros de prq tanta gente "prefere os livros", todo mundo sempre vai ter uma visão muito particular e pessoal daquele texto, e adaptações sempre vão divergir prq mesmo seguindo a história ao pé da letra, raramente vai ter duas pessoas interpretando aquilo da mesmíssima forma

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    1. Tiozão Troll eu não sei, rss... mas com certeza o Drácula do livro é um grande tirador de sarro. O tempo todo ele zoa com a cara do pobre Jonathan: "Eu não bebo... vinho!", "Ah, espelhos, essas ferramentas da vaidade, não devia confiar neles!" e coisas assim. Das versões que eu trato no artigo a que mais aproveita esse lado é com certeza a do Louis Jourdan, sempre com aquele brilho no olho e sorrisinho de canto de lábio. Mas, curiosamente, o Drácula mais debochado de todos é o do Claes Bang na minissérie de 2020 e esse foi justamente um dos motivos pra tanta gente ter detestado a série, o que me parece no mínimo injusto... e um tanto sem senso de humor, rsss...

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