sábado, 23 de março de 2019

Supernatural (1977): A Série Clássica de Horror Gótico da BBC

Não é para descobrir justamente essa sensação que vocês, cavalheiros, vêm aqui para este Clube dos Condenados? Não é esse o horror supremo que procuram? O frisson de algo pior que a própria morte, pior até do que o medo da morte?
Em algum lugar da Inglaterra, muito provavelmente Londres, numa aristocrática mansão de aspecto vitoriano, cavalheiros idosos e elegantes se reúnem numa sala lúgubre escassamente iluminada por candelabros bruxulheantes, mal permitindo vislumbres dos rostos uns dos outros e dos detalhes um tanto perturbadores da decoração (seria um pentagrama o que aqueles padrões traçados no assoalho queriam expressar?). Todos aguardam para ouvir histórias através da madrugada. Histórias de horror, naturalmente. Mais do que isso: histórias "reais" de horror, narradas por aspirantes à afiliação no Clube dos Condenados. Se a história for suficientemente hedionda, se conseguir inspirar terror nos corações decrépitos dos veteranos connoisseurs do macabro, o candidato será aceito nas fileiras do clube e poderá estar presente quando uma nova história for contada. Entretanto, se na opinião de apenas um dos membros, o candidato fracassar... a pena é a morte. Deveras inconveniente se, por acaso, o cavalheiro em questão ainda pertence ao mundo dos vivos...

Supernatural: Haunting Stories of Gothic Terror,
livro com a novelização dos roteiros da série,
publicado simultaneamente à exibição na TV.
Essa é a premissa básica de Supernatural, deliciosa antologia gótica produzida pela BBC em 1977. Com apenas oito episódios, a série foi criada e quase inteiramente escrita pelo ator e dramaturgo alemão, não particularmente conhecido, Robert Muller, cuja intenção declarada era "contar o tipo de história gótica que não temos mais na televisão, algo como os velhos filmes de terror das décadas de 20 e 30. Nós temos agora thrillers estabelecidos nos tempos modernos com muito sangue e violência Não há sangue e nenhuma violência nesta série. São histórias sobre fantasmas, vampiros, lobisomens, esse tipo de coisa. Altamente romântica e altamente carregada de medo e ameaça.". 

Embora possa soar um tanto exagerada, afinal a própria BBC lançava uma nova Ghost Story for Christmas a cada fim de ano desde 1970, a declaração de Muller se torna mais precisa quando lembramos que o episódio do Natal de 1977, Stigma, não só deixava de lado as adaptações dos contos de M.R James que sempre caracterizaram a série, como já se ambientava nos tempos modernos, deixando clara a intenção de desvincular-se do gótico old school e se aliar aos novos paradigmas do horror setentista. No cinema, a Hammer Films já tinha dado seu último suspiro em 76, com Uma Filha Para o Diabo e, apenas alguns anos depois, discretamente daria as costas para o gótico com sua bem sucedida, mas sem dúvida moderna, série Hammer House of Horrors. De fato, em 1977 o horror gótico tradicionalmente britânico agonizava frente a nova e furiosa onda do horror americano, perdendo sua força e relevância a cada Noite dos Mortos Vivos (1968), O Exorcista (1974), Massacre da Serra Elétrica (1974), até finalmente escarrar sangue e cair morto quando Michael Myers fez sua primeira aparição em Halloween (1978), definindo (para o bem e para o mal) os rumos do horror dos anos 80.

O grandiloquente Robert Hardy e Sinéad Cusack nos
cenários teatrais de Ghost of Venice.
Nesse contexto, Supernatural quase pode ser definida como uma obra de resistência. Uma ode ao potencial do horror gótico de inspiração literária injustamente subestimado naquele momento histórico. Ao lado da vitoriosa adaptação de Conde Drácula feita pela mesma BBC também em 1977, com Louis Jourdan e Judi Bowker, é uma extraordinariamente digna saída de palco. Ousaria até dizer que enquanto as Ghost Stories for Christmas ensaiavam abandonar suas raízes, Supernatural e Count Dracula abriram caminho para que Schalcken the Painter, em 1979, vingasse o abandono do gótico televisivo de maneira absolutamente sublime, até que o pêndulo, décadas depois, começasse a oscilar de volta.

Show de atuações de Billie Whitelaw e grande elenco em
Countess Ilona / The Werewolf Reunion.
Ainda que não sejam adaptações diretas da literatura, fica muito evidente a afiliação dos roteiros dos oito episódios da série com os autores e estilos mais emblemáticos do gótico europeu. Desde o retrato grandiloquentemente teatral da obsessão mórbida em Ghost of Venice, evocando as fantasmagorias de E. T. A. Hoffmann, até a temática típica de Edgar Allan Poe da questão da dualidade humana e nossa incapacidade de apreender a realidade senão pelo prisma distorcido do nossos próprio subconsciente, expressas de formas completamente diversas tanto em Mr. Nightingale quanto em Lady Sybil. Cenários e mitos clássicos, como os castelos ancestrais infestados de segredos inconfessáveis do passado e lobisomens sedentos de sangue também tem seu lugar no episódio duplo Countess Ilona/The Werewolf Reunion, bem como o genialmente tétrico encapsulamento dos aspectos mais arquetípicos do mito do vampiro, desde A Morta Amorosa, de Théophile Gautier, passando por Carmilla, de Sheridan Le Fanu, chegando até o Drácula, de Bram Stoker, na forma da inesquecível vampira Dorabella. Nem é de se espantar que o momento fundador da literatura gótica européia seja diretamente citado em Night of the Marionettes: o histórico encontro de Lord ByronPercy ShelleyJohn Polidori e Mary Shelley em Villa Diodati, berço do nascimento (ou seria melhor dizer, da criação) de Frankenstein.

O inesquecível Sherlock Holmes, Jeremy Brett,
extraordinário na comédia macabra Mr. Nightingale.
Mas Supernatural não seria tão efetiva se não se mostrasse hábil em aproveitar os mesmos elementos que tanto favoreceram os novos paradigmas do horror setentista, no caso o abrandamento da censura e o zeitgeist do período, para forçar as temáticas góticas clássicas um tantinho além das zonas de conforto que o cinema e a TV estavam habituados até então. Ainda que jamais falte com a sutileza e a elegância, Supernatural é muito mais lasciva e agressiva do que a Hammer jamais teve condições de ser, não se furtando em abordar temas que, mesmo fundamentais nos subtextos da literatura gótica clássica, continuavam sendo tabus para a mídia televisiva, particularmente os "fantasmas" gerados pela repressão da sexualidade. O espectador de hoje certamente não deixará de se surpreender ao constatar que Viktoria, por exemplo, não é realmente uma simples história sobre uma boneca que ganha vida, mas sim um curioso olhar sobre a repressão da homossexualidade (masculina e feminina) no período vitoriano, chegando a colocar em xeque, de forma deliciosamente espirituosa, os papéis de gênero no contexto da premissa "cavalheiros aristocráticos narrando histórias" da própria série, antecipando problematizações dos pressupostos da abordagem gótica que obras como Penny Dreadful explorariam com maior liberdade e desenvoltura décadas depois.

Denholm Elliott narrando sua história "real" de terror no
Clube dos Condenados, em Lady Sybil.
De fato, ler as sinopses diretas dos episódios pode até dar a impressão de que Supernatural não passa de um amontoado de clichês. Afinal temos vampiros, lobisomens, fantasmas, doppelgangers, bonecas assassinas, mansões assombradas, nada que já não tenha sido visto (e revisto) um milhão de vezes e é justamente por isso que estou deixando propositalmente de lado aqui a apresentação de sinopses episódio por episódio. Não nos diriam quase nada. O que realmente importa são os subtextos, os detalhes, as performances, o conjunto de elementos sutis que conduzem bons leitores a territórios que são muito maiores e mais profundos do que a mera soma das partes dos enredos. São histórias que pedem múltiplas revisões para revelar cada um de seus segredos e, ainda assim, sempre deixarão alguma lacuna, grande o suficiente para que o espectador possa escorregar e se (deixar) perder.

Judy Cornwell, Esmond Knight e Lewis Fiander numa
curiosa confraternização para "entendidos", em Viktoria
Assim, ao invés de descrever sinopses, meu conselho aos leitores que queiram se aventurar pela série é atentarem particularmente para as atuações riquíssimas e maravilhosamente não-naturalistas de Jeremy Brett, o maior de todos os Sherlock Holmes, completamente desvairado na lasciva comédia de humor negro Mr. Nightingale (que ainda conta com uma apaixonante Lesley-Anne Down). Da desconcertante e estranhamente linda Pauline Moran (de Poirot e The Woman in Black), possuída pelo "fantasma" de Mary Shelley em Night of the Marionettes (sem esquecer de Vladek Sheybal, que chegou a ganhar o prestigiado Hamilton Deane Award, da Dracula Society por sua performance como o sinistro Herr Hubert). Do requintado e pedante Robert Hardy levando ao extremo a teatralidade mórbida a la Hoffmann exigida por Ghost of Venice (e, de quebra, nos oferecendo a melhor apresentação possível da premissa do Clube dos Condenados na primeira cena da série). E, claro, da atriz sueca Ania Marson como a docemente aterradora Dorabella, sem dúvida o episódio mais lembrado pelos apreciadores, citado inclusive no obrigatório Goth Chic: Um Guia Para a Cultura Dark, de Gavin Baddeley.

Pauline Moran bizarramente deslumbrante na bizarra
releitura de Frankenstein, Night of the Marionettes.
Vale notar, a título de curiosidade, que Dorabella conta com dois atores que, posteriormente, estrelariam Schalcken the PainterJeremy Clyde e John Justin (respectivamente como herói e monstro nas duas histórias), o que não deixa de ser um vínculo deveras auspicioso. Afinal são duas obras aglutinadoras dos elementos fundamentais do gótico clássico, quase uma aula didática do tipo "Afinal, o que é horror gótico?" para aspirantes a uma iniciação nos mistérios do gênero. Ambas, como costuma acontecer nas melhores obras literárias do século XIX, profundamente perturbadoras num nível muito mais estético/psicológico do que propriamente narrativo. De fato, não poderia haver um encerramento melhor para a série do que Dorabella (que eu não hesitaria em classificar como uma das melhores e mais assustadoras histórias de vampiro já filmadas). O episódio, de muitas formas, arremata as diferentes linhas temáticas e arquetípicas abertas no decorrer dos episódios tão diversos entre si, ao mesmo tempo que compensa largamente eventuais pontos fracos.

Ania Marson revelando um vislumbre de sua
verdadeira natureza em Dorabella.
E sim, evidente que há pontos fracos. Particularmente acho um tanto desnecessário que a história da Condessa Ilona se estenda por dois episódios, ainda mais considerando seu caráter bem mais direto e linear se comparado aos demais, o que acaba fazendo com que as situações se tornem um tanto repetitivas (difícil não especular se o fato da atriz Billie Whitelaw estar casada com Robert Muller na época não teve alguma influência nisso). Também é válido mencionar que, por mais que a ideia do Clube dos Condenados seja indiscutivelmente charmosa e, sem dúvida, o conceito de aristocratas narrando histórias ao pé da lareira tenha um caráter bastante arquetípico no contexto do gótico britânico, somente o primeiro episódio consegue integrar de forma efetivamente orgânica o conceito com a história propriamente dita. Nos demais a obrigatoriedade de abrir e fechar cada episódio no salão do clube acaba soando como pouco mais do que de fato é: uma mera convenção, por vezes até um tanto desajeitada (com a notável exceção do desfecho de Viktoria). Pra fechar as picuinhas, alguns efeitos especiais de sobreposição de imagens poderiam tranquilamente ter sido deixados de lado em prol da própria opção estética da série pelo teatralidade, tanto nos cenários quantos nas atuações.

Mas são, de fato, picuinhas, que não chegam nem perto de arranhar o status de Supernatural como uma das mais fascinantes produções góticas televisivas da história da BBC, digna de uma maratona conjunta com as Ghost Stories for Christmas e, por que não, com trabalhos mais recentes como Penny Dreadful, redescobrindo a beleza e o potencial da horror gótico old school para as novas gerações.

P.S. Dada a raridade do material (difícil, mas não impossível, de achar pela internet afora), deixo aqui os links para baixar a série completa e as legendas em português que traduzi para meu próprio uso. Mas, nunca é demais lembrar: manter esses links é só uma cortesia, não uma prioridade (a prioridade do blog são os textos). Ocasionalmente podem estar offline e, eventualmente, serão reupados.

Supernatural (1977)


7 comentários:

  1. Aj que maneiro! Vou assistir com certeza! Obrigada :) <3

    ResponderExcluir
  2. Muito obrigado e parabéns pelo grande trabalho. Não conhecia esta série e será um grande prazer poder assistir. Grande abraço

    ResponderExcluir
  3. Não consigo baixar...o site solicita cadastro e compra de pacotes para download.

    ResponderExcluir