Não é para descobrir justamente essa sensação que vocês, cavalheiros, vêm aqui para este Clube dos Condenados? Não é esse o horror supremo que procuram? O frisson de algo pior que a própria morte, pior até do que o medo da morte?
Em algum lugar da Inglaterra, muito provavelmente Londres, numa aristocrática mansão de aspecto vitoriano, cavalheiros de idade e fina elegância se reúnem em uma sala lúgubre e escassamente iluminada por candelabros bruxuleantes que mal permitem um vislumbre dos rostos uns dos outros e dos detalhes perturbadores expressos pela decoração (seria um pentagrama o que aqueles padrões traçados no assoalho queriam expressar?). Todos ali aguardam para ouvir histórias pela madrugada adentro. Histórias de horror, naturalmente. Mais do que isso: histórias "reais" de horror, narradas por aspirantes à afiliação no Clube dos Condenados. Se a história for suficientemente hedionda, se conseguir inspirar o terror nos corações decrépitos dos connoisseurs veteranos do macabro, o candidato será aceito nas fileiras do clube e poderá estar presente quando uma nova história for contada. Todavia, se na opinião de apenas um dos membros o candidato fracassar... a pena é a morte. Deveras inconveniente, se o cavalheiro em questão por acaso ainda pertencer ao mundo dos vivos...
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| Supernatural: Haunting Stories of Gothic Terror, novelização dos roteiros da série, publicado simultaneamente à exibição na TV. |
Lido hoje, isso soa até meio exagerado, afinal, na época a BBC ainda lançava uma nova Ghost Story for Christmas a cada final de ano, mas fica mais preciso quando lembramos que o episódio do Natal daquele ano de 1977, Stigma, não só abandonava as adaptações dos contos de M.R James, que caracterizaram a série desde 1970, como já se ambientava em tempos modernos, deixando clara uma intenção de se desvincular do gótico old school e se aliar aos novos paradigmas do horror setentista. No cinema, a Hammer Films já tinha dado seu último suspiro em 1976 com Uma Filha Para o Diabo e, apenas alguns anos depois, discretamente daria as costas para o gótico com a sua bem sucedida, mas sem dúvida moderna, série Hammer House of Horrors. De fato, em 1977 o horror gótico tradicionalmente britânico agonizava frente a nova e furiosa onda do horror americano, perdendo força e relevância a cada Noite dos Mortos Vivos (1968), O Exorcista (1974), Massacre da Serra Elétrica (1974), até finalmente escarrar sangue e cair morto quando Michael Myers fez a sua primeira aparição em Halloween (1978), definindo (para o bem e para o mal) os rumos do horror dos anos 80.
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| O grandiloquente Robert Hardy e Sinéad Cusack nos cenários teatrais de Ghost of Venice. |
Nesse contexto, Supernatural quase pode ser vista como obra de resistência. Uma ode ao potencial do horror gótico de inspiração literária, que estava em pleno declínio naquele momento histórico. Ao lado da vitoriosa adaptação de Conde Drácula feita pela mesma BBC, também em 77, com Louis Jourdan e Judi Bowker, é uma digníssima saída de palco. Até ousaria dizer que enquanto as Ghost Stories for Christmas ensaiavam abandonar as suas raízes, Supernatural e Count Dracula abriram o caminho para que Schalcken the Painter, em 1979, vingasse o fim do gótico televisivo de forma sublime, até que o pêndulo enfim começasse a oscilar de volta.
Ainda que não sejam adaptações literárias diretas, fica clara a afiliação dos oito episódios com autores e estilos emblemáticos do gótico europeu. Desde o grandiloquentemente teatral retrato da obsessão mórbida, evocando as fantasmagorias de E. T. A. Hoffmann, em Ghost of Venice, até aquelas típicas temáticas de Edgar Allan Poe sobre a dualidade humana e a incapacidade de apreender a realidade senão pelo prisma distorcido do nosso próprio inconsciente, expressas de formas diametralmente opostas tanto em Mr. Nightingale quanto em Lady Sybil. Cenários e mitos clássicos, como os castelos ancestrais infestados de segredos inconfessáveis, e lobisomens sedentos de sangue, também tem o seu lugar no episódio duplo Countess Ilona/The Werewolf Reunion, bem como o tétrico encapsulamento dos aspectos mais arquetípicos do mito do vampiro, desde A Morta Amorosa, de Théophile Gautier, passando por Carmilla, de Sheridan Le Fanu, chegando até o Drácula, de Bram Stoker, na forma da inesquecível vampira Dorabella. Nem é de se espantar que o momento fundador da literatura gótica seja citado diretamente em Night of the Marionettes: o histórico encontro de Lord Byron, Percy Shelley, John Polidori e, claro, Mary Shelley em Villa Diodati, berço do nascimento (ou seria melhor dizer, da criação) de Frankenstein.
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| O inesquecível Sherlock Holmes, Jeremy Brett, impagável na comédia macabra Mr. Nightingale. |
Mas Supernatural nem seria tão efetiva se não se deixasse atravessar pelos mesmos elementos que tanto favoreceram os novos paradigmas do horror na década de 70, aproveitando o abrandamento geral da censura, e o próprio zeitgeist do período, para forçar as temáticas do gótico clássico um tanto além das barreiras que o cinema, e especialmente a TV, estavam acostumadas a se limitar até então. Ainda que nunca falte com a sutileza e a elegância, Supernatural é bem mais lasciva e agressiva do que a Hammer jamais teve condições de ser, não se furtando em abordar temas que, mesmo sendo fundamentais para os subtextos da literatura gótica, continuavam sendo tabus na mídia televisiva, em especial os "fantasmas" da repressão sexual. As audiências de hoje certamente não irão deixar de notar que Viktoria, por exemplo, não é uma simples história sobre uma boneca assombrada que ganha vida, mas sim um curioso olhar sobre a repressão da homossexualidade (masculina e feminina) no período vitoriano, chegando a colocar em xeque, de uma forma deliciosamente espirituosa, os papéis de gênero no contexto da premissa dos "cavalheiros que se reúnem para contar histórias", e antecipar as problematizações aos pressupostos da abordagem gótica que obras como Penny Dreadful poderiam explorar com muito mais liberdade e desenvoltura tantas décadas depois.
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| Judy Cornwell, Esmond Knight e Lewis Fiander numa curiosa confraternização para "entendidos", em Viktoria. |
De fato, se fôssemos apenas pelas sinopses propriamente ditas dos episódios poderíamos ter até a impressão de que Supernatural não passa de um amontoado de clichês. Afinal, são vampiros, lobisomens, fantasmas, doppelgangers, bonecas, mansões assombradas, nada que já não tenha sido visto (e revisto) um zilhão de vezes, tanto antes quanto depois. Mas é nos subtextos, nos detalhes, nas performances do elenco, e no conjunto de sutilezas que atravessam os enredos, que Supernatural cresce, e se torna algo que vai muito além da mera soma de suas partes. São histórias que pedem por múltiplas revisões para revelar os seus segredos e, ainda assim, sempre deixarão alguma lacuna, grande o suficiente para a audiência escorregar e se (deixar) perder.
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Pauline Moran bizarramente deslumbrante na frankensteiniana, Night of the Marionettes. |
Assim, ao invés de ficar aqui entediando vocês até a morte com descrições detalhadas das sinopses que poderiam ser encontradas em qualquer bando de dados de audiovisual, só vou palpitar, de leve, que se preste a devida atenção às performances riquíssimas (e deliciosamente não-naturalistas) de figuras como o Jeremy Brett, o melhor de todos os Sherlock Holmes, completamente desvairado na lasciva comédia de humor negro Mr. Nightingale (e que ainda conta com uma encantadora Lesley-Anne Down). Da desconcertante, e estranhamente linda, Pauline Moran (de Poirot e The Woman in Black), possuída pelo "fantasma" de Mary Shelley no surreal Night of the Marionettes (sem esquecer do Vladek Sheybal, que até ganhou o prestigiado Hamilton Deane Award, da Dracula Society, por sua performance como o sinistro Herr Hubert). Ou do requintado e pedante Robert Hardy, abusando da teatralidade mórbida a la Hoffmann, exigida por Ghost of Venice (e, de quebra, nos oferecendo a melhor apresentação possível para a premissa do Clube dos Condenados, na primeira cena da série). E, claro, da atriz sueca Ania Marson, como a docemente aterradora Dorabella, sem dúvida o episódio mais lembrado por connoisseurs do fantástico, citado inclusive no informativo Goth Chic: Um Guia Para a Cultura Dark, de Gavin Baddeley.
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| Ania Marson, revelando um vislumbre de sua verdadeira natureza em Dorabella. |
Vale notar, a título de curiosidade, que Dorabella conta com dois dos atores que, depois, estrelariam Schalcken the Painter: Jeremy Clyde e John Justin (respectivamente como o "herói" e o "monstro", em ambas as histórias), o que não deixa de ser um vínculo bastante auspicioso. Afinal, são duas obras aglutinadoras dos elementos mais fundamentais do gótico clássico, quase como numa "aula didática" sobre o gênero, muito mais perturbadoras em nível estético/psicológico do que propriamente narrativo, como era de praxe, afinal, nos melhores exemplos literários do século XIX. De fato, não poderia haver encerramento melhor para a série, e que não hesito em classificar como uma das melhores (e mais legitimamente assustadoras) histórias de vampiro já filmadas, arrematando, de muitas formas, as várias linhas temáticas e arquetípicas que foram sendo abordadas no decorrer dos episódios, ao mesmo tempo em que redime lindamente os eventuais pontos fracos da série como um todo.
E sim, evidente que há pontos fracos. Particularmente acho um tanto desnecessário que a história da Condessa Ilona se estenda por dois episódios, ainda mais considerando o seu caráter bem mais direto e linear se comparado aos demais, o que acaba fazendo com que algumas situações acabem ficando repetitivas, a despeito das atuações sempre deliciosas. Também é válido mencionar que, por mais que o conceito do Clube dos Condenados seja indiscutivelmente charmoso, e bastante arquetípico para o contexto do gótico britânico, só o primeiro episódio consegue realmente integrá-lo de forma orgânica ao enredo propriamente dito. Nos demais a obrigatoriedade de abrir e fechar cada história no salão do clube acaba soando como pouco mais do que uma mera convenção, por vezes até desajeitada (com a notável exceção do desfecho de Viktoria, é claro). Fechando as picuinhas, alguns efeitos duvidosos de sobreposição de imagem poderiam tranquilamente ter sido deixados de lado, até pela própria opção estética da série pela teatralidade, evitando certo constrangimento.
Mas são, realmente, picuinhas, que não chegam nem de longe a arranhar o status de Supernatural como uma das mais fascinantes produções góticas televisivas da história da BBC, digna de uma maratona conjunta com as Ghost Stories for Christmas, Mystery and Imagination, Dead of Night, e, por que não, trabalhos mais recentes como Penny Dreadful, redescobrindo a beleza e o potencial da horror gótico old school para as novas gerações.🥀
P.S. Dada a raridade do material (difícil, mas não impossível, de achar pela internet afora), deixo aqui os links para baixar a série completa e as legendas em português que traduzi para meu próprio uso. Mas, nunca é demais lembrar que manter esses links é só uma cortesia, não uma prioridade (a prioridade do blog são os textos). Ocasionalmente podem estar offline e, eventualmente, serão reupados.
Supernatural (1977)








Aj que maneiro! Vou assistir com certeza! Obrigada :) <3
ResponderExcluirobrigado! show de bola!
ResponderExcluirMuito obrigado Lordevelho!!
ResponderExcluirMuito obrigado e parabéns pelo grande trabalho. Não conhecia esta série e será um grande prazer poder assistir. Grande abraço
ResponderExcluirNao da mais pra fazer donwload.
ResponderExcluirWOW!! Baixando em 3...2...1!!!
ResponderExcluirNão consigo baixar...o site solicita cadastro e compra de pacotes para download.
ResponderExcluirMuito obrigado!
ResponderExcluirObrigado!
ResponderExcluirEu só havia escutado algo sobre essa série com um amigo, mas nunca tinha nem parado para ler sobre ela
ResponderExcluirObrigada por compartilhar ela!
Espero que tenha gostado do artigo.😊
ExcluirLorde Velho,sou teu seguidor e fâ desde o tempo do Minhateca,estava revirando um hd antigo e me deparei com um link antigo do teu blog e para minha surpresa está ativo
ResponderExcluiradoro teus textos e teu conhecimento sobre filmes de modo geral
cheguei a baixar muita coisa da época do saudoso Minhateca
gostaria de participar do teu café como doador( me envia um modo de fax[zer a doação,menos por pix por não gostar ( por enquanto ) esse tipo transação bancária
abs
mMguel
Agradeço muito os elogios, mas não tenho outra forma de receber doações. Mantenho o PIX justamente porque é mais prático, imediato, não cobra taxas, e permite que as doações sejam feitas sem a necessidade de ficar compartilhando dados bancários na internet, algo sempre meio temeroso. E também porque permite que as pessoas enviem doações de forma mais livre, sem a obrigatoriedade de participar de uma campanha de financiamento coletivo, até porque eu não consigo manter uma periodicidade que justifique uma campanha assim. Pelo PIX a pessoa pode doar quando tiver vontade e o quanto achar que os artigos já disponibilizados no blog merecem. O termo, portanto, não é bem "participar do café", não há um grupo fechado ou mesmo uma comunidade de apoiadores, só a possibilidade de, simplesmente, "pagar um café" para o Lorde Velho, depois de terminar a leitura de um artigo que te pareceu particularmente proveitoso.😊☕️
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