sexta-feira, 12 de junho de 2026

Investigando os restos do Sherlock Holmes da BBC


Há um inescapável elemento de masoquismo ao se garimpar as preciosidades da televisão britânica dos anos 60. Aquela aceitação tácita de ter que saber lidar com a frustração de séries incompletas, e qualidades de imagem, muito vezes, apenas aceitáveis, devido às inacreditáveis políticas de "reaproveitamento de fitas", que, nos casos mais extremos, chegaram a nos custar temporadas inteiras, como (quase) aconteceu com a primeira de Os Vingadores (não os da Marvel, os legais😜), que só tem três episódios disponíveis hoje.

Peter Cushing, nas legítimas locações
em Dartmoor de O Cão dos Baskervilles
(não o da Hammer, o da BBC).
Mas o que dói mesmo, é quando você se dispõe a assistir aos restos mortais de um seriado quase que inteiramente comprometido, e vai se apaixonando a cada episódio remanescente, sabendo muito bem que é praticamente certo que você nunca terá a chance de assistir os demais. Peter Cushing interpretou Sherlock Holmes em 16 episódios produzidos para a temporada (ou serie, como dizem os britânicos) de 1968 da BBC. Desses 16, apenas 6 sobrevivem. E cada um deles é um deslumbre.🥲 Exagero meu? Pode ser. Nunca vou negar que sou suspeito pra falar. O próprio Cushing deixou registros de que nem gostava de se ver na série (“Quando assisto, não vejo Peter Cushing dando o melhor de si, vejo Peter Cushing parecendo aliviado por conseguir se lembrar das falas."), e Douglas Wilmer, que atuou como Holmes durante a primeira serie, em 1965, afirmava ter reescrito pessoalmente a maior parte dos diálogos que, segundo ele, variavam do "aceitável ao totalmente deplorável". Não duvido. É notório que o seriado teria sido produzido de uma forma apressada e, até certo ponto, desleixada. Um tipo de "limbo", não tão incomum naquele período, entre a lógica do teleteatro ao vivo, e os novos paradigmas das produções gravadas e editadas em videotape. Chegou a acontecer do episódio The Dancing Men ter a sua cópia de trabalho transmitida, ao invés da versão final editada, em 16 de setembro de 1968. Imagina que doideira? Você está lá assistindo e, do nada, o Peter Cushing sai do personagem, um membro da equipe entra na cena, e Brenda Bruce cata um pacote de cigarros que deixou mocozado num canto do set. Meu, como eu adoraria ter visto um negócio desses!😅


Mas até por conta desse tipo de história, eu meio que não esperava apertar o play, e ser surpreendido por uma abertura tão deliciosamente gótica e soturna como a do episódio A Study in Scarlet, que vocês podem conferir logo acima. Me conquistou de imediato, podem ter certeza. E o que se segue é uma adaptação bastante esperta, e, até certo ponto, ousada, da novela original na qual Sir Arthur Conan Doyle nos apresenta Sherlock Holmes, e o seu fiel escudeiro Dr. Watson pela primeira vez. Ousada por extirpar, sem a menor cerimônia, toda a segunda metade do livro, na qual Holmes, na real, sequer aparece, algo que sempre causou um certo apuro para qualquer proposta de adaptação fiel ao cânone sherlockiano. Não é à toa que mesmo a lendária série da TV Granada achou por bem "deixar essa pra depois", e o depois, é claro, nunca veio, com o falecimento de Jeremy Brett e tudo o mais.

Douglas WilmerNigel Stock, revisando
o roteiro da semana. Brincadeira! (ou não😅) 
Só não vão me entender mal, e esperar algum tipo de "perfeição" (que, como eu sempre digo, sequer é uma virtude). Se você é do tipo de mala pessoa que prefere focar nos defeitos, provavelmente vai achar muita coisa de que se queixar tanto na série de 1968 quanto na de 1965. Rola uma certa... pressa... na finalização dos episódios, uma sensação meio que de "afobação" em muitos momentos, com a câmera parecendo "caçar" os atores pelo set, ajeitando foco e enquadramento ali mesmo, na hora, quase como se ninguém tivesse muita certeza de qual seria a marca certa. Uma impressão que é corroborada pelos relatos de Douglas Wilmer, que dizia ter pulado fora justamente por conta dessa correria geral, e da quase ausência de regravações. O curioso é que isso acaba dando aos episódios uma certa aura de "produção ao vivo", que hoje nos soa exótica, e até mesmo vibrante, nesses tempos em que tudo é "resolvido" em pós-produção, com os CGIs e IAs da vida “consertando” até as atuações.

Não seria nem justo, então, comparar as duas series da BBC com a obra-prima que foi a série da TV Granada. A diferença de orçamento e de recursos é gritante. Jeremy Brett continua sendo o Sherlock Holmes definitivo, e as dramatizações dos contos são, no mínimo, as mais inteligentes e bem sucedidas a tentar seguir de forma fiel o cânone sherlockiano. Fechado esse parâmetro, podemos, então, atentar nem tanto para o que as series de 1965 e 1968 têm de melhor ou pior, mas para o que têm de mais singular. No caso, esse aparente foco nos aspectos mais góticos da obra de Arthur Conan Doyle

Ilustração de Frederic Dorr Steele para
The Speckled Band (A Banda Malhada). 
Talvez surpreenda algumas pessoas o horror ser tão indissociável das histórias de Holmes. Quer dizer, “indissociável” talvez seja exagero. Tende a ser a primeira coisa a cair fora naquelas abordagens mais “moderninhas”, tipo Elementary, ou mesmo na até bastante respeitosa Sherlock (só as duas primeiras temporadas, depois cagou tudo), mas há um preço a se pagar por tal extirpação. Ainda que o sobrenatural efetivamente não exista no mundo de Holmes, uma atmosfera macabra e, até certo ponto, fantástica, é essencial para a construção do mistério de cada narrativa, e não se restringe aos contos que remetem ao sobrenatural de uma forma mais direta, como O Cão dos Baskervilles, ou O Vampiro de Sussex. Está sempre ali, na imagem de um cadáver congelado em um rictus cadaverico em O Signo dos Quatro, nos dois irmãos balbuciando coisas sem sentido ao redor e uma mesa coberta de névoa em O Pé do Diabo, no destino tenebroso que havia sido reservado à Lady Francis Carfax, e por aí vai. Quando esse aspecto é eliminado, ou minimizado nas adaptações, algo fica faltando. Uma parte importante daquilo que torna essas histórias tão especiais simplesmente se perde na tradução. Não raro, justamente a parte que fica (ou teria ficado) pra nós, quando o mistério propriamente dito já se tornou “infantil depois de explicado”, como diria Holmes.

Liane Aukin, no piloto do Sherlock Holmes
da BBC
, The Speckled Band (1964).
Quando a BBC resolve escolher justamente A Banda Malhada, talvez o conto mais terrorífico de todo o cânone, como seu piloto (originalmente veiculado na antologia Detective), já meio que imprimiu na futura serie um caráter bem mais Mystery and Imagination do que murder mystery. Uma ênfase nas sombras e assobios tenebrosos no meio da noite, aterrorizando as duas irmãs que vivem naquela mansão tenebrosa e decadente, assombrada pelos animais selvagens deixados à solta pelo padrasto, que mal esconde as suas piores intenções. A título de comparação, a versão da Granada desse mesmo conto não deixa de ser muito apropriadamente macabra, mas também é comedida e elegante, iluminando com todo orgulho a impecável reconstituição de época, e equilibrando os elementos mais investigativos com momentos mais voltados para o horror puro, muito mais localizáveis e pontuais na narrativa. Não tendo sequer orçamento para tamanha finesse, a BBC optou por focar naquilo que poderia fazer de melhor, tornando o seu A Banda Malhada, acima de tudo, um exercício de gênero e de estilo, um conto de horror gótico na mais pura acepção do termo. E ainda que o resultado não seja efetivamente comparável ao da TV Granada, em termos dramatúrgicos, na real nem precisava ser. A identidade e o diferencial da série já estavam garantidos.

Durante a primeira serie (que milagrosamente sobreviveu quase intacta, exceto pelos dois episódios incompletos, e as masters de apenas 16mm) algumas dramatizações saíram bem mais góticas que outras, tipo The Devil's Foot, The Copper Beeches, ou The Disappearance of Lady Frances Carfax, mas na fase do Cushing, a julgar pela pequena “amostra” que temos disponível, o gótico parece ter tomado conta de vez. Até um conto originalmente bem mais distante de uma associação mais direta com o gênero, como O Mistério do Vale Boscombe, ganhou um desfecho deliciosamente grandiloquente e melodramático, com o John Tate recitando um solilóquio ensandecido em frente a janela, envolto em vento, raios e trovões. Novamente, é claro que muito disso tem a ver com os recursos e orçamento. Não é à toa que temos gravuras (estilosas sim, mas desenhos, seja como for) no lugar dos flashbacks na Austrália da versão da TV Granada. Mas apostar no trabalho de ator, e na potência das performances não-naturalistas e assumidamente teatrais, ao estilo Hammer Films ou gótico italiano, para sugerir, ou mesmo sublimar, aquilo que não daria pra ser mostrado, é o tipo de coisa que sempre casou muito bem com a boa e velha abordagem gótica.


E só podemos agradecer a São Bava e São Fisher por, nesse contexto, nós termos sido agraciados pela pequena mercê de ter as duas partes de O Cão dos Baskervilles entre os poucos episódios sobreviventes.🙏 E numa versão que ganha pontos em relação ao clássico da Hammer, que o próprio Cushing estrelou em 1959, por ser bem mais fiel ao original de Conan Doyle (até no uso de legítimas locações em Dartmoor). Algo que não era exatamente habitual na série, como os resumões de Um Estudo em Vermelho e O Signo dos Quatro deixam bem claro, a despeito de seus resultados auspiciosos. Parece ter rolado um cuidado especial, de fato, com essa que, possivelmente, é a mais conhecida de todas as histórias de Sherlock Holmes. No mínimo a mais adaptada, só na minha coleção tenho umas seis versões. E pra mim, curiosamente, esse é um dos poucos casos em que a BBC se saiu melhor do que a imbatível série da Granada, que tem no Cão dos Baskervilles um dos seus raríssimos pontos baixos, com uma dramatização estranhamente anêmica e sem energia, que talvez expresse o exato momento em que as crises maníaco-depressivas de Jeremy Brett começavam a sair do controle. O que, a médio prazo, levaria à sua morte, em 1995, e o consequente encerramento prematuro do projeto.

Peter Cushing, cheio de gás, como sempre,
e o ponta firme Nigel Stock, o "verdadeiro"
astro da série, presente em todos os episódios.
Quem está familiarizado com o Sr. Cushing, sabe que energia nunca foi problema pra ele, e ainda que a versão da BBC não seja tão exuberante quanto a da Hammer, ela solta faíscas se comparada à da TV Granada, aprofundando-se como poucas nos pontos mais sinistros da história, e dando grande destaque, de fato, a elementos que tendiam a ser cortados das versões antigas, como o angustiante fim do vilão, que ficou de fora do clássico de 1939, com a dupla Basil Rathbone e Nigel Bruce, e foi estranhamente “re-significado” na versão da Hammer de 1959.🤔

E por falar nos “Nigels”, eu diria que Nigel Stock merece um reconhecimento por ter tido de lidar com uma leitura bastante flutuante do Dr. John Watson no decorrer das duas series, quase um híbrido entre o bufão estabelecido por Nigel Bruce nos filmes dos anos 30 e 40, e as reinterpretações que tentariam resgatar a verdadeira natureza do personagem dos livros, em especial dos anos 80 em diante, indo desde o capaz e super confiável David Burke, nas duas primeiras temporadas da série da Granada, e o inesgotavelmente gentil Edward Hardwicke, do restante da série, até o divertidíssimo Watson gostoso do Jude Law, nos filmes de Guy Ritchie. O Watson de Nigel Stock parece transitar de personalidade a cada episódio (ou até em um mesmo episódio) de acordo com as necessidades dramatúrgicas do momento, e como ele foi, realmente, o único elemento constante do seriado todo, eu diria que o seu papel em manter a budega toda de pé não deve nunca ser menosprezado.


Até porque, não vou mentir, nem Wilmer, nem Cushing chegam de fato perto de entrar na minha lista de Holmes favoritos. Wilmer me parece caricato demais em muitos momentos, especialmente perto do fim de sua participação, talvez num reflexo do seu próprio e reiterado desgosto com a série. Já Cushing, ainda que, como sempre, eu o ache adorável, e ele não me pareça, nem de longe, alguém que está meramente “aliviado por conseguir lembrar das falas”, o fato é que eu não consigo ver Sherlock Holmes na sua performance. Eu vejo o Peter Cushing. O que não é pouco, e nem é ruim, mas não é o Sherlock Holmes. E isso, na real, desde O Cão dos Baskervilles da Hammer. Não é um demérito. Poucos, bem poucos, conseguem de fato nos fazer ver o Holmes em cena. Jeremy Brett, com certeza. Basil Rathbone, ao menos nos dois primeiros filmes da Fox. Alguém mais? De verdade? Não que precise, Holmes é daquelas personagens que se prestam bem à reinterpretações, das mais irreverentes (A Vida Íntima de Sherlock Holmes, O Xangô de Baker Street, O Enigma da Pirâmide), até contestadoras (Sr. Sherlock Holmes, Visões de Sherlock Holmes), e não é como se houvesse pouco ator por aí, que se contenta em vestir, mais ou menos, o figurino e a pose, e simplesmente interpretar a si mesmo, vide o Roger Moore (Sherlock Holmes in New York), Charlton Heston (The Crucifer of Blood), ou o Robert Downey Jr., e nem por isso os filmes são ruins ou desprezíveis. Mas num projeto como o Sherlock Holmes da BBC, que se propunha a adaptar os contos com relativa fidelidade (quer dizer, mais ou menos, Cushing diz "Elementary, my dear Watson", e não "The Game is afoot" como o Jeremy Brett na série da Granada, e isso por si só já é uma declaração de princípios😉), um Sherlock Holmes “pra valer” meio que faz falta sim.🤔

O VHS brazuca de Masks of Death (1984)
o último suspiro da Tyburn Productions.
O que não me impede, é claro, de continuar torcendo para que haja um lugarzinho especial no inferno para os responsáveis pela (não) preservação do acervo da BBC dos anos 60.😒 Por mim, não só veria com prazer cada um dos episódios perdidos, como me intriga muito a ideia, que não chegou a ser realizada na época, de rodar uma terceira serie adaptando The Exploits of Sherlock Holmes, o celebremente famigerado livro de pastiches escritos por ninguém menos que o filho do homem, Adrian Conan Doyle, em parceria com John Dickson Carr. Uma escolha curiosa, considerando que ainda faltavam 32 contos do cânone oficial para adaptar, mas vai que, né? No fim, não era pra ser, e o “epílogo” da série acabou ficando para 1984, com o simpático (e também quase perdido😥), Masks of Death, da Tyburn Film Productions, que trouxe o tio Cushing de volta ao papel 16 anos depois, ainda que num filme mais a “cara” de um Hammer tardio (como tudo da Tyburn, aliás) do que de uma retomada do velho seriado da BBC. Mesmo assim, é uma despedida adorável para esse “Sherlock Cushing” já velhinho e frágil, reencontrando a sua Irene Adler (que, na real, nunca apareceu na série, já que Um Escândalo na Boêmia não chegou a ser adaptado) para uma última e melancólica aventura. E a gente chora, né? Como não?🥹

John Mills, substituindo Nigel Stock (que, nessa época, já devia estar filmando a sua participação como mentor de Sherlock Holmes no clássico O Enigma da Pirâmide) como o Dr. WatsonAnne Baxter, como Irene Adler, e o veteraníssimo tio Cushing, se despedindo do seu personagem declaradamente favorito em toda a sua longa e icônica carreira. Brindemos!🍷

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P.S. A quem porventura (ainda) esteja prestando atenção, sim, eu já não dou mais conta de fazer as tais postagens semanais, que até que consegui manter em 2025. Meus olhos andam (literalmente) cansados demais, e o tempo de tela precisa ser reduzido. Nada que me impeça de manter o velho blog vivo, não apenas com artigos novos, ainda que mais esporádicos, mas também corrigindo e aperfeiçoando as postagens antigas (a eterna vantagem do texto em relação ao áudio e ao vídeo😜). Os comentários, é claro, me dão ânimo pra continuar, especialmente quando dialogam de fato com os artigos, mas são os PIX, não nego, que me animam ainda mais, e ajudam a pagar a conta do oftalmologista.

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