sexta-feira, 10 de julho de 2026

Uma pequena amostra de Dark Shadows


Certa vez eu disse que estava de boa com o fato de que nunca iria assistir Dark Shadows na vida. Que estava satisfeito com os dois filmes para o cinema, o House of Dark Shadows e o Night of Dark Shadows, de 1970 e 1971, e que, ainda que a vontade, e a curiosidade, me levassem a acalentar a ideia de assistir a série original sessentista de vez em quando, eu sempre caía na real quando revisitava aquele torrent de 335 GB, contendo 1225 episódios. Esse número te espanta? Lembre-se que não estamos falando daquele filminho gozadinho do Tim Burton, mas sim da soap opera gótica diária, que veiculava cinco episódios de vinte minutos toda semana! De 1966 até 1971! É coisa pra diabo! Ainda mais se você levar em conta que não há legendas disponíveis para nada disso. Em nenhum idioma. E mesmo que a inteligência artificial tenha propiciado facilidades para a legendagem bucaneira nos últimos anos, uma empreitada dessas continua sendo algo que vai um pouquinho além do razoável.

Que tal uma sessão dupla de seis horinhas
de Dark Shadows, só pra ter uma noção? The
Vampire Curse
e The Haunting of Collinwood
Mas, como diria Obi-Wan Kenobi, não dá pra vencer, mas há alternativas para a luta. 1225 é foda... mas e quanto a dois longas? Três horas e pouquinho cada? Bom, sendo sincero, por muito tempo também achei que seria demais, afinal, tinham o mesmo problema de não haver legendas de base. Mas, nesse caso, os turboscribes e deepseeks da vida já ajudam a deixar a coisa um pouco mais... manejável. E, assim, lá fui eu conferir, afinal, Dark Shadows: The Vampire Curse e Dark Shadows: The Haunting of Collinwood.

Qual o lance? São dois “compilados” produzidos em 2009 pela MPI Video, para um box comemorativo de 50 anos da série, numa época que nem lançamentos oficiais dariam conta de oferecer o pacote completo. Se bem me lembro, eram seis discos com capítulos soltos dedicados a personagens específicos, e esses tais “longas metragens”, reeditando e condensando dois dos arcos mais queridos para fãs da série. A história de como Barnabas Collins foi transformado em vampiro pela feiticeira Angelique Bouchard, e a primeira aparição do fantasma de Quentin Collins.

Não vou cravar, porque, afinal, a série propriamente dita eu não vi, mas ousaria sugerir que, na falta dela, esses dois longas são mesmo a melhor opção possível para quem quer ter uma ideia do que Dark Shadows realmente foi. E eu diria até que muita gente vai se surpreender. Já na época em que escrevi aquele pequeno apontamento sobre os dois filmes no instagram, um seguidor comentou ter ficado chocado com o quão mórbido House of Dark Shadows era. Ele esperava algo meio camp, até engraçado, uma pegada autodepreciativa ao estilo goth fofo de um Tim Burton da vida, e acabou topando com um melodrama sinistro, que não se esquiva em pegar pesado, ainda que de uma forma um tanto falha. Devo admitir que até eu achava que isso era mais coisa dos filmes, que o Dan Curtis teria aproveitado para soltar as rédeas ao pular das telinhas para as telonas, e, de fato, foi meio isso que rolou, mas mais no que se refere ao gore e a violência. A morbidez, a angústia, a atmosfera de melancolia, e até de perversidade, já estavam presentes na série, ou ao menos é essa a impressão que esses dois longas dão. Pro bem ou pro mal, Dark Shadows sempre levou a sua abordagem gótica mortalmente a sério, e é de se admirar que tenham conseguido segurar essa pegada por tanto tempo, em plenos anos 60, num programa de TV diário e vespertino.

A clássica foto do elenco de 1967 de Dark Shadows, que sempre me passa uma vibe meio esquisita de um drama sobre irmãs siamesas (ironicamente, talvez o único tema mórbido, fora múmias, que a série nunca abordou😅).

Até por isso, convém manter em mente que, mesmo com três horas cada, você ainda vai sair de The Vampire Curse e The Haunting of Collinwood com a sensação de ter chegado no meio da festa, e saído antes que acabasse, exatamente como acontecia com os dois filmes dos anos 70. E terá dificuldade se tentar correlacionar os quatro enredos, mesmo com a ajuda dos fóruns de fãs, e os resumos online dos arcos mais importantes. Acredite, eu tentei. Quando vi que Quentin Collins tem várias “encarnações” no decorrer da série, e que a mais famosa delas é um lobisomem que o longa da MPI nem chega a mencionar... eu desisti. É coisa pra diabo, como já falei. As voltas e reviravoltas das trocentas linhas narrativas que, ainda por cima, se emaranham entre si, é um negócio de dar tontura! Na real, só de terem conseguido costurar dois longas com começo, meio e fim já é um feito pra se tirar o chapéu.

Lara Parker, como a feiticeira gata
sem limite e sem noção,
Nesse aspecto, The Vampire Curse tem vantagens. O arco 1795 and Barnabas's Curse já era meio que um “parênteses” na narrativa original (um parênteses de 96 episódios, ok, mas, ei, isso é Dark Shadows😅). Um longo flashback (ou viagem no tempo, sei lá) que finalmente desvenda o passado do personagem mais popular da série, em uma narrativa a princípio bem mais fácil de se reeditar e condensar numa história “fechada” e coerente. Até tenho pra mim que daria pra condensar mais. Se há um “defeito” que pode ser apontado em The Vampire Curse, é que o enredo dá voltas demais. Chega um ponto em que a sucessão de "planos infalíveis" de Angelique para conquistar (ou lascar, dependendo do humor do dia) o seu bem “amado” Barnabas, acaba se tornando ligeiramente cômica, e você precisa fazer um esforço pra lembrar, não apenas que esse negócio não foi feito pra ser visto assim, numa sentada só, como que a natureza de uma soap opera é, afinal e contas, folhetinesca, seja ela gótica ou não. E que, no original, esse rolê todo durava umas 30 horas!

Agora, convenhamos que brasileiro nem deveria ter dificuldade pra entrar no espírito de uma telenovela, e assim que você o faz, The Vampire Curse se torna uma bela de uma novela das seis, daquelas ao estilo Sinhá Moça das antigas, absolutamente irresistível!🤗 Barnabas Collins, primogênito do abastado clã dos Collins de Collinsport, vivido pelo ator canadense shakespeariano Jonathan Frid, faz das tripas coração para remediar a indiscrição cometida com a jovem criada de sua noiva, e verdadeiramente amada, Josette DuPres, de Kathryn Leigh Scott. Só que a deslumbrante, e meio doidinha, Angelique Bouchard, de Lara Parker, não só não é do tipo de mulher que se deixaria dispensar assim de bom grado, como também é uma adepta das artes das trevas, e obsessiva o suficiente para ultrapassar todos os limites do bom senso pra amarrar o seu macho, e, de quebra, garantir uma posição como a nova senhora de Collinwood. E, como já disse, vai rolar de tudo: pragas, controle mental, manipulação, invocações, a gata não tem limite, e a cada vitória aparente, sua tempestuosa relação com Barnabas vai se tornando mais complicada, até culminar, é claro, na maldição do vampiro, que porá em movimento todo o ciclo de tragédias e horrores sobrenaturais que irá assombrar a família Collins até a sua última geração. De fato, é nesse arco que o "mito fundador" de Dark Shadows finalmente se revela à audiência, com a origem da primeiríssima fantasma a ser vista na série, mencionada pela primeira vez lá no longínquo episódio 5, e que acaba rendendo à The Vampire Curse o seu momento mais aterrador e angustiante.

(☢️SPOILER ALERT☢️)

É claro, mais difícil, talvez, do que abstrair as ocasionais limitações técnicas de uma soap opera (na real, a vara com o morceguinho pendurado aparecendo na cena que Barnabas é mordido é uma parte indelével do charme da coisa😅), talvez seja lidar com o machismo que atravessa a premissa de The Vampire Curse. É uma série sessentista, afinal de contas, e ainda que eu suspeite que a edição tenha inadvertidamente reforçado isso, passando por cima de várias nuances (os cortes e elipses vão ficando mais bruscos conforme o longa se aproxima da sua última hora de projeção), o retrato de Angelique como uma personagem meio que de uma nota só, a feiticeira poderosíssima que não consegue achar outro objetivo na vida senão “stalkear’ o homem que consistentemente a rejeita (e cujas responsabilidades pela situação são sempre relativizadas pelo roteiro) não deve estar tão longe assim, imagino, da versão original, e se não chega a macular a experiência, talvez seja porque Lara Parker defende a sua personagem com uma paixão que nos conquista, e quase nos faz torcer por ela, ainda que com vontade de lhe dar um safanão e gritar: “Miga, sua loka, larga mão desse close errado!”. Parker, de fato, nunca cansou de repetir que a bela feiticeira da Martinica era sua a personagem do coração, chegando a publicar toda uma série de romances que lhe deram mais contexto e dignidade. O primeiro, Angelique Descent, de 1998, chegou a sair no Brasil, pela Geração Editorial.

VHS da MPI Video, contendo uma parte
do arco The Haunting of Collinwood. 
Depois desse melodrama todo, cair em The Haunting of Collinwood chega até a ser meio que um choque. Você pensa que já sacou qual é a de Dark Shadows, e, de certa forma, é verdade. O aspecto de novelão macabro com momentos de terror, o romantismo mórbido (é dark romance que chama hoje em dia?😜), a cafonice, tudo isso é Dark Shadows. Porém, sendo um parênteses, The Vampire Curse captura algumas facetas em detrimento de outras, e é aí que o fantasma de Quentin Collins entra em cena para nos lembrar que Dark Shadows é horror! E, meu... acho que nem eu estava esperando isso.😯 Eu sabia que Dan Curtis, e os principais roteiristas da série, Art WallaceSam Hall, Gordon Russell, entre outros (sem contar a imbatível Lela Swift, que teve a moral de dirigir quase metade dos 1225 episódios, falo mais sobre ela na próxima postagem😉) costumavam canibalizar os enredos de tudo quanto é clássico da literatura gótica, mas nunca imaginei que iriam preservar tanto assim do subtexto de A Volta do Parafuso. Sem tanta ambiguidade, é claro, afinal fantasmas já são carne de vaca em Collinwood desde bem antes do vampirão de Jonathan Frid entrar em cena (só no capítulo 211!) e completar de vez a transição do “mistério gótico” dos primeiros meses, para o horror gótico que consagrou a série. Mas o aspecto da perversão, a implicação de abuso infantil... The Haunting of Collinwood não se esquiva a pegar pesado, e ser realmente perturbadora, e o tempo todo eu ficava pensando que esse negócio passava às 4 da tarde, bem na hora da criançada chegar da escola!🤯


O enredo é mais fragmentado e as lacunas são bem mais evidentes do que em The Vampire Curse, aquela sensação de “bonde andando” que é meio indissociável da proposta desses longas, mas como, antes de tudo, essa é uma peça de atmosfera, não é difícil da gente se deixar perder ao lado de David Collins (David Henesy), e sua priminha Amy Jennings (Denise Nickerson), vagando pelos corredores da proibida ala oeste de Collinwood, e topando com o espectro de Quentin Collins brotando sorrateiro da escuridão. David Selby era, de fato, uma aparição impressionante, com aquele sorriso cínico, e o ar de pura crueldade, se apropriando lentamente da vontade das crianças, e estendendo uma teia de malevolência que, pouco a pouco, vai assumindo o controle de toda a mansão. É digno de nota, que em 3 horas e 10 minutos não chegamos nem perto de descobrir qualquer coisa de concreto sobre a sua identidade e as razões de sua permanência, e o desfecho, quando vem, nos pega tão no susto, que é, a um só tempo, frustrante e perfeito. Claro que não é o final de verdade, têm semanas e semanas de soap opera depois disso no original, e o personagem de Quentin Collins, como já dito, ganha uma infinidade de desenvolvimentos pelo caminho. Mas, até por isso, encapsular essa sua fase muda e enigmática têm um peso, e deixa uma marca na audiência, que não esquecerá tão cedo daquela figura cínica gargalhando nas escadarias.

Kathryn Leigh Scott, no VHS de algum
outro arco qualquer... só porque sim.
Ela não é adorável?🥀
E eu tenho a impressão que The Haunting of Collinwood acaba nos dando uma ideia melhor de um típico episódio de Dark Shadows, em sua fase áurea. Não só pelo set arranjado e iluminado em seu modo mais tradicional e contemporâneo, mas também pela aparição de inúmeras personagens em suas versões, digamos, mais clássicas. Kathryn Leigh Scott como Maggie Evans, e não Josette. Grayson Hall como a Dra. Julia Hoffman, ao invés da Condessa DuPres. Thayer David como Prof. Stokes, não o criado Stokes. Joan Bennett como Elizabeth Collins, e não Naomi Collins, Louis Edmonds como Roger, e não Joshua. Sem falar a Carolyn Stoddard de Nancy Barrett, que, em The Vampire Curse, nem chegava a aparecer. Tá certo que todo mundo meio que entra e sai de cena sem muita explicação ou apresentação. Maggie Evans aparece do nada, e se torna a protagonista por mais de uma hora, antes de praticamente desaparecer de novo. Angelique nem dá o ar da graça, e Barnabas Collins vira coadjuvante de luxo, mas tudo bem, os dois já tiveram suas três horas, e o que não falta em Dark Shadows é personagem para fazer ponta. É até engraçado ver a Alexandra Moltke aparecendo ali, perdidinha, no começo de The Vampire Curse, sendo que, no original, a Victoria Winters era a protagonista de Dark Shadows durante toda sua fase inicial, antes do vampirão de Frid aparecer. E a participação dela como uma “viajante do tempo” no arco de origem de Barnabas não só acabou no chão da sala de edição, como, na época em que The Haunting of Collinwood rolou originalmente, a personagem já não era mais que uma lembrança, que, confesso, dá vontade de conhecer.

Edição brasileira do primeiro romance de
Lara Parker sobre a sua xodó, Angelique,
 Angelique Descent de 1998.
E acho que isso é o que fica depois de se conferir essa “pequena” amostra de seis horas de Dark Shadows. Uma vontade... de ver mais. O que é irônico, considerando a quantidade de vezes em que me peguei impaciente com as enroladas voltas da trama, e aquela impressão generalizada de que mal havia a intenção de que aquilo tudo chegasse em algum lugar (eu disse acima que The Vampire Curse poderia ser mais condensado, e sustento isso), mas quando acaba... te bate um vazio. Não é exatamente um desejo de ver o que iria acontecer depois, não é isso... é mais uma vontade de... ficar ali. Naquele cenário. Naquela luz. Naquele estado de espírito de pálidos e melancólicos tons de verde e marrom. As musiquinhas, aquelas que, enquanto você assiste, podem te soar repetitivas e cafonas, começam a ecoar nos ouvidos, e velar os nossos devaneios. A caixinha de música da Josette... O gramofone de Quentin... E você começa a sentir uma necessidade de ver se tem algo parecido na coleção. Algo que remeta à essa atmosfera, a esse tom. O que? A Colina Escarlate? Não, requintado demais. Penny Dreadful? Hum, maravilhoso, mas... não, sério demais. Os filmes dos anos 70? Pior que não. Agora entendo porque House of Dark Shadows e Night of Dark Shadows não eram considerados satisfatórios para fãs da série. Eles são interessantes, mas falta o fator de imponderabilidade de um enredo que vai se construindo dia a dia, quase de improviso. A filmagem num take só, que deixa ir ao ar todas as imperfeições e arestas, cada gaguejada do elenco, cada hesitação de um olhar que busca pelas falas reescritas de última hora por trás das câmeras, o “se vira nos trinta” pra resolver uma cena, enquanto parte do cenário desaba, e ainda segurar a audiência para a cena seguinte. Não tem nada disso nos filmes. Nem nos livros, nem nos quadrinhos, nem em nada que a “franquia” se tornou no decorrer dos anos. Essa... vida... que me parece ainda mais preciosa, nesses tempos de internet morta, e “arte” feita por IA... Como? O filme do Tim Burton? Nem me faça rir!

Algumas capas da série de gothic novels inspiradas em Dark Shadows, publicadas pela Paperback Library, entre 1966 e 1971, escritos pelo autor canadense W. E. D. Ross, sob o pseudônimo de Marilyn Ross.  
Talvez só na literatura gótica mesmo poderíamos esperar reexperimentar um pouco do sabor que essa pitadinha de Dark Shadows deixa no fundo da língua. Mas não nos clássicos. Acho que já estabelecemos que não seria na “dignidade” (ou na "perfeição") de um clássico que reencontraríamos algo da "essência" de Dark Shadows. Mas, talvez, naquela literatura gótica mais barata e cafona, daquelas brochuras vendidas de baciada, impressas em papel jornal, com um conteúdo que, em boa parte, nem se preservou, mas as capas estão por aí, nos pinterests da vida, com as suas damas góticas vagando por uma noite escura e tenebrosa, com a velha mansão vigiando ao fundo. É isso! São as capas! Não os livros. As capas! Dark Shadows é tudo o que essas capas prometiam, e os livros, na real, nem sempre entregavam. E não há realmente mais nada por aí que seja sequer parecido com isso.🥀

Será que aquele torrent ainda está ativo?🤔

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P.S. A quem porventura (ainda) esteja prestando atenção, sim, eu já não dou mais conta de fazer as tais postagens semanais, que até que consegui manter em 2025. Meus olhos andam (literalmente) cansados demais, e o tempo de tela precisa ser reduzido. Nada que me impeça de manter o velho blog vivo, não apenas com artigos novos, ainda que mais esporádicos, mas também corrigindo e aperfeiçoando as postagens antigas (a eterna vantagem do texto em relação ao áudio e ao vídeo😜). Os comentários, é claro, me dão ânimo pra continuar, especialmente quando dialogam de fato com os artigos, mas são os PIX, não nego, que me animam ainda mais, e ajudam a pagar a(s) conta(s) do oftalmologista.😉

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