Cthulhu (2007): Protagonismo Gay numa das mais belas adaptações de Lovecraft

Algo curioso sobre a aclamada HQ épica de horror Providence, é que Alan Moore não foi o primeiro a usar um protagonista gay em uma adaptação de H. P. Lovecraft. O diretor Dan Gildark chegou primeiro, com seu filme Cthulhu de 2007, por isso acho conveniente, agora que a cultuada HQ está saindo no Brasil pela Panini, chamar a atenção pra essa pequena pérola injustiçada. Cthulhu é um filme fora da caixinha em inúmeros aspectos, o que o torna, ao mesmo tempo, interessantíssimo e um absoluto fracasso comercial, a ponto de ser quase desconhecido hoje em dia, mesmo sendo relativamente novo.

Começa, claro, pelo próprio protagonista gay, algo que continua sendo um taboo mesmo nos dias de hoje (não consigo lembrar agora de nenhum outro filme de horror cujo personagem principal seja gay), ainda mais com a naturalidade com que o fato é retratado pelo roteiro. A homossexualidade é apenas uma característica do herói, não algo determinante para a história. Ele até poderia ser hétero, alteraria pouca coisa (ao menos no plano mais superficial), mas a questão é justamente essa: se ser hétero ou gay não faz diferença, por que não gay? E a partir dessa opção, clichês do cinema de horror como a "mocinha em perigo" se transfiguram em "mocinho em perigo", o que, convenhamos, chega a dar uma revigorada no clichê. Mas, claro, dada a resistência de uma grande parcela do público (especialmente homens cis-héteros) em se identificar com personagens gays, essa escolha de cara já joga o filme numa relativa obscuridade.

Mas a coisa não pára por aí. A partir de um plot livremente inspirado em A Sombra de Innsmouth, o diretor parece determinado a, propositalmente, tentar quebrar todas as regras possíveis de como tornar vendável um longa metragem de horror:

1) Estabelece de imediato, sem nenhum tipo de explicação expositiva e mastigada, uma "realidade alternativa" em que a Ordem Esotérica de Dagon é tão comum e corriqueira quanto qualquer igreja evangélica, numa trama apocalíptico, porém intimista, em que o advento de Cthulhu/Dagon e o retorno dos antigos é tranquilamente debatido pelos personagens como um fato inevitável da vida, esperado por alguns, temido por outros, talvez até desacreditado, mas que não causa estranhamento em ninguém... exceto no espectador que, de cara, tem seu senso de verossimilhança, um dos maiores taboos em narrativas fílmicas, completamente sacudido.

2) O desenvolvimento da trama se dá inteiramente pelo ponto de vista de um protagonista cujo senso de realidade está se despedaçando e que jamais consegue desvendar a totalidade dos mistérios que o envolvem, o que tende a causar frustração numa grande parcela do público que não tolera mistérios e/ou cenas enigmáticas sem explicação ou sentido lógico.

3) Jamais revela os monstros (sim, Cthulhu NÃO aparece, não crie expectativas erradas) e nem se utiliza de nenhum tipo de efeito especial, deixando (quase) tudo a cargo da imaginação, o que é extremamente incomum quando se trata de adaptações de Lovecraft;

4) O final é absurdamente aberto, a ponto de chocar e arrancar um "What?" da boca de qualquer espectador quando os créditos finais, de repente, começam a subir. É simultaneamente frustrante e marcante, muito mais marcante que qualquer resolução convencional, mas nem preciso explicar o quanto esse final já foi xingado em comentários internet afora, não?

Dito isso, fica claro que Cthulhu não é um filme fácil e não é de se estranhar que tenha se tornado uma das adaptações de Lovecraft mais odiadas pelos poucos fãs que sabem de sua existência. Mas eu afirmo que é um trabalho que merece ser conhecido. É um filme único, com uma belíssima fotografia azulada que envolve o espectador numa atmosfera gélida que atravessa toda a projeção, como um insidioso pesadelo no qual o protagonista se perde e (talvez) se encontre. Os mistérios do mar, da vida e da própria identidade. Algumas imagens são de tirar o fôlego, como o fantástico plano aéreo das silhuetas (in)humanas surgindo do oceano ou a descoberta da pedra negra na velha igreja abandonada (extraída diretamente de O Assombro nas Trevas). Momentos que podem ser considerados, por sua simplicidade de execução, tanto geniais quanto toscos, dependendo da inclinação de quem vê. A proposital falta de resolução no enredo mantém as imagens vivas na imaginação muito tempo depois que o filme termina, inspirando devaneios e convidando a revisões, mas, acima de tudo, o que fica conosco é a sua estranha beleza, uma beleza que angustia e aperta o coração, mesmo (ou talvez justamente) por jamais conseguirmos compreender totalmente o por que.

Pra quem quiser se aventurar, na minha filmoteca tem um release com ótima qualidade e uma versão da legenda com inúmeras correções. Arrisquem, de coração aberto.  


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