A Casa Desabitada (1875): Fantasmas Não Pagam Aluguel

São tantas as histórias sobre casas mal assombradas que a gente acaba tendo a impressão de já ter visto todas as variações possíveis do subgênero... mas é só dar uma boa olhada no passado (que, como eu sempre digo, é onde se encontram as maiores novidades) e a gente acaba topando com alguma coisa, tipo... que tal uma história de casa mal assombrada contada do ponto de vista da imobiliária que precisa aluga-la? 😉

O livro em questão é a novela "The Uninhabited House", publicada em 1875 por uma certa Mrs. J.H. Riddell. Escondida assim sob o nome do marido (o que sempre me faz lembrar do maravilhoso comentário de Vanessa Ives, em Penny Dreadful, a respeito do nome de casada de sua amiga Mina: "você não parecia se importar com essa perda de si mesma...") estava a escritora irlandesa Charlotte Eliza Lawson Cowan ou Charlotte Riddell, uma das mais renomadas autoras de histórias de fantasmas na língua inglesa, na tradição dos anuários de Natal.

Assim como a maioria dos escritores do período (especialmente as escritorAs) é praticamente inédita no Brasil e foi com grande surpresa que topei com uma edição de A Casa Desabitada numa das minhas regulares explorações em sebos. O volume, publicado em 1994 num pequenino e elegante formato de livro de bolso, fazia parte de uma fugaz mas bem bacana coleção da Editora Marco Zero: "Coleção Mistério: Obras-Primas do Suspense Sobrenatural", que até onde pude investigar não passou de quatro títulos.

Capa da edição original de
"The Uninhabited House"
Claro que com uma premissa dessas o humor negro tão tipicamente britânico não poderia deixar de ser um dos principais elementos da novela. Conduzindo a narrativa com um delicioso sendo de ironia, Charlotte (espero que ela me perdoe a intimidade, mas não me sinto confortável de usar o nome do marido que, no fim das contas, só lhe trouxe infelicidade e dívidas) vai nos apresentando uma pitoresca lista de personagens descritos com um incondicional carinho e afeição, independente de suas mais que marcantes falhas de caráter e idiossincrasias, com destaque para a adorável/detestável Srta. Blake, a herdeira do imóvel que o escritório dos "Srs. Craven e Filho" (na verdade só o filho no momento em que a história começa) luta para manter alugado e assim garantir a subsistência da insuportável/encantadora velhinha (tenho uma certa mania de visualizar meus atores e atrizes favoritos nos "papéis" de certos personagens dos livros que leio: visualizem Bette Davis e terão uma ideia da impressão causada pela Srta. Blake 😁).

Ainda que o Sr. Craven (o filho, que poderia ser vivido tranquilamente por Peter Cushing) e seus funcionários não acreditem em fantasmas, o fato é que a aprazível mansão à beira do Tâmisa não consegue manter nenhum inquilino por muito tempo. Todos rompem os contratos e dão o fora depois de no máximo alguns meses ou até menos, o que torna a propriedade e sua dependente um pepino que ganha ares míticos na própria história da firma.

Charlotte Riddell aos 43
Assim, sem abandonarmos o escritório na Buckingham Street durante mais da metade do livro, vamos conhecendo a história da Casa Desabitada indiretamente, até o momento em que o narrador, um dos funcionários da firma, passa a se envolver pessoalmente nos eventos e enfim nos leva com ele para o interior da mansão. Essa estrutura ajuda a intensificar o elemento de dissimulação tão vital para a narrativa gótica clássica, com os fenômenos sobrenaturais nos sendo apresentados em segunda ou terceira mão através de contratos, documentos, relatos de testemunhas e autos de processos, formando círculos concêntricos que vão se estreitando até nos render ao fantástico sem precisar jamais vulgariza-lo. Não é, todavia, um dos mistérios góticos mais criativos ou mesmo chocantes, a solução nos capítulos finais não deixa de ser até levemente desapontadora, traindo um certo viés folhetinesco na novela. Mas a essa altura já fomos mais do que fisgados pelo charme do livro e pelo calor humano indiscutível dos personagens. Não é difícil fechar a última página com um grande (e bobo) sorriso no rosto. 😊

Coleção Mistério: O Amante Fantasma, de Vernon Lee; A Casa Desabitada, de Charlotte Riddell,
O Fantasma dos Guirs, de Charles Willing Beale e A Bruxa Âmbar, de Wilhelm Meinhold.

Infelizmente toda a "Coleção Mistério" está esgotada e não há edição digital. Mas acredito que não é difícil encontrar exemplares a preços razoáveis em sebos. Até onde pude sondar, a única outra obra da autora disponível em português é o conto "A Casa Velha na Alameda Vauxhall" (The Old House in Vauxhall Walk), publicado na coletânea O Grande Livro das Histórias de Fantasmas da editora Objetiva/Suma das Letras (que, embora o título não deixe claro como deveria, traz exclusivamente contos de mulheres escritoras de literatura gótica, da era vitoriana até o fim do século XX, um tesouro indispensável para entusiastas e pesquisadorxs). Em português de Portugal temos também algum outro conto que não consegui identificar em Fantasmas Vitorianos da Europa-América.

Pouco, não é? Pouco para a autora em questão e pouco para as autorAs de literatura gótica em geral (que, por sua vez, não são poucas).  #FicaADica para as editoras que investem no fantástico: há um grande filão nos sendo devido... que pouco a pouco começa a ser explorado. 😉

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