Berberian Sound Studio - O Cinema de Horror Italiano enquanto Pesadelo Kafkiano

Não é nada incomum que amantes do cinema de horror acabem desenvolvendo um relacionamento ambíguo com o objeto de sua paixão, cada vez mais tenso conforme o mero "consumidor" vai se tornando "cinéfilo" e incorporando ao seu interesse o processo por trás das câmeras tanto, ou até mais, do que as obras em si. Como salchichas, filmes ficam mais difíceis de comer quando você sabe como são feitos... e ainda assim nós queremos saber (dos filmes, não das salchichas). Não é por acaso que a revolução digital acabou popularizando de tal forma a cultura dos "making of", e também não é por acaso que os melhores documentários sobre bastidores são justamente aqueles menos atrelados a obrigações publicitárias com os estúdios, aqueles que podem se permitir certa desmistificação da "magia" do cinema para quem não se satisfaz mais com mero deslumbramento e auto-ilusão. Documentários onde podemos ver, por exemplo, Eric Idle (ex-Monty Python) dizer com todas as letras: "Mais da metade de um filme é ter ou não ter o dinheiro e, pra consegui-lo, você acaba se associando aos piores do ramo. Por isso abandonei tudo, eles são horríveis, mentirosos e 92% deles é assim. Então, este é um ramo a ser evitado, pessoal. Fiquem longe. Se quiserem achar pessoas horríveis, loucas, mentirosas, insanas, entrem para o cinema"! oO

Fatma Mohamed, atriz que marca presença em todos os filmes do diretor,
aqui atualizando as definições de "scream queen".
Como muitos fãs de horror old school, eu sou completamente apaixonado pelo cinema italiano de gênero na sua fase áurea, nos anos 60 e 70. Amo, os góticos italianos, os gialli, e mesmo os peplum e faroestes spaghetti, alguns dos meus filmes de horror favoritos de todos os tempos são italianos, mas minha paixão não me cega para o fato de que o processo de produção desses filmes sempre foi bastante atravessado por oportunismo, corrupção, misoginia violenta, relações de trabalho abusivas, picaretagem em diferentes níveis de cara-de-pau, além do cinismo intrínseco ao próprio conceito de exploitation, um cinema cujos combustíveis criativos são, afinal de contas, os aspectos mais sombrios da natureza humana, um equilíbrio ambíguo entre confrontar artisticamente o espectador com um espelho cruel e necessário (como os melhores filmes de horror conseguem fazer) e a exploração pura e simples dos instintos mais baixos da audiência, muitas vezes as duas coisas ao mesmo tempo! Essa tensão permanente gerou obras de uma intensidade quase insuportável, extremos de beleza e repugnância, passionais e sem limites, onde todas as regras podiam ser quebradas: sejam narrativas, estéticas, temáticas, morais... ou éticas... e tal intensidade não poderia deixar de ter seu preço, as vezes alto demais.

Toby Jones metendo a faca numa bruxa desmorta.
E é nesse conflito (provavelmente insolúvel) que o diretor britânico Peter Strickland constrói o seu deslumbrante Berberian Sound Studio (2012), um filme que transborda paixão pelo cinema de horror italiano setentista em cada fotograma, e ao mesmo tempo o encara com perplexidade, repulsa e horror. A sensação, como cinéfilos e amantes do gênero, é de estar diante (e dentro) de uma intensa DR com o objeto de nossa paixão, onde não há possibilidade nem de abandonar o relacionamento e nem de continuar se entregando de forma adolescente e sem ressalvas. Na trama, Gilderoy (o sempre impecável Toby Jones) é um engenheiro de som inglês contratado para trabalhar na mixagem de um filme de baixo orçamento na Itália, ou seja, administrar todo o processo de sonorização da pós-produção: música, efeitos sonoros, foley (a criação de sons em estúdio, tipo esmagar uma melancia para obter o "splash" de uma cabeça rachada) e a dublagem dos diálogos, no caso em italiano, como era comum no período para atender aos vários mercados distribuidores (mais detalhes no meu artigo Afinal, qual é o áudio original?).

Antonio Mancino consegue tornar o diretor Giancarlo Santini mais creepy
do que qualquer goblin.
Chegando ao estúdio o retraído técnico, que antes só fizera documentários sobre natureza e filmes para crianças, descobre (para seu desgosto) que vai trabalhar num filme de horror, e a partir daí tem início um verdadeiro pesadelo kafkiano conforme Gilderoy vai sendo enredado numa rotina de trabalho labiríntica na qual simplesmente não tem força para não se afogar. De cara o simples ato de receber reembolso pelas passagens de avião ganha ares de missão impossível, com o pobre desgraçado (com sua eterna expressão de "chute-me") sendo sistematicamente despistado por todo mundo, desde a secretária até o contador, ora com grosseria gratuita, ora com falsa condescendência. Quem já teve chance de trabalhar em produções artístico/culturais (Brasil ou Itália, tanto faz) não demora a reconhecer certos padrões nada incomuns, como a efusiva broderagem do produtor e do diretor, cheia de amabilidades, tapas nas costas e discursos apaixonados sobre "visão artística", "trabalho de amor", "somos um time", enfim, os códigos habituais para o famoso "se bobear não te pago" e a correria incessante que tende a confundir a hierarquia e as reais funções, com cada funcionário fazendo seu melhor para passar as batatas quentes para quem for bobo o bastante de pegar.

O filme dentro do filme.
E o fascinante (e assustador) disso tudo é constatar o quanto esse pesadelo logístico funciona! Jamais vemos as imagens do filme dentro do filme (exceto os créditos de abertura que, numa bela sacada metalinguística, substituem os créditos do longa que estamos de fato assistindo), mas conforme vamos reconhecendo aquela sonoridade fantasmagórica e surreal que já ouvimos em tantos góticos e gialli dos anos 70 (prestem atenção no clip abaixo), pouco a pouco vamos sentindo "Il Vortice Equestre" tomando forma em nossas mentes. É uma experiência extasiante para qualquer fã, mas ao mesmo tempo profundamente perturbadora, já que o que estamos de fato testemunhando é o trabalho dos técnicos e atores que criam esses sons, não necessariamente apaixonado e, muitas vezes, ostensivamente abusivo. Mas, ainda assim... é mágico... e é horrível... e é lindo... e é grotesco... tudo ao mesmo tempo. E, no interior desse conflito, o estúdio de som Berberian, aos olhos de Gilderoy (e aos nossos olhos), vai se transfigurando lentamente num espaço sobrenatural, assombrado e aterrorizante. Um lugar fora do tempo e do espaço, isolado do Sol, da vida e do mundo, onde as vozes das bruxas desmortas e dos demônios lascivos conjuram sortilégios que aprisionarão tudo e todos num círculo de dor e culpa que o luz divina jamais poderá alcançar.


Strickland é muito sagaz ao conceber "Il Vortice Equestre" quase como um filme-síntese do que o horror italiano sempre teve de melhor... e de pior. Um giallo/gótico (como Seven Deaths in the Cat's EyesThe Perfume of the Lady in Black ou mesmo Suspiria) sobre bruxaria, inquisição e tortura que, mesmo sendo protagonizado apenas por mulheres, foi concebido e executado por dois carcamanos que poderiam tranquilamente figurar em qualquer cartilha didática sobre masculinidade tóxica: o produtor/cavalão Francesco Coraggio e o diretor egomaníaco Giancarlo Santini ("Este não é um filme de horror, é um filme de Santini!"), o que nos permite não apenas ter uma visão privilegiada da misoginia brutal que as atrizes passavam atrás das câmeras (especialmente as quase anônimas dubladoras que, na maioria das vezes, apenas emprestavam suas vozes para as atrizes que de fato apareciam nos créditos) como também ouvir, com todas as letras, a enunciação do típico discurso hipócrita que costumava justificar as repetidas re-encenações de imagens de mulheres sendo sadicamente torturadas filme após filme: "Verdade, os filmes de Santini são violentos. Eu sei. Mas isso é a vida. É parte da condição humana. Essas coisas aconteciam. Isso é história. E um diretor de cinema deve ser honesto. Eu odeio o que fizeram com estas lindas mulheres. Sério, eu odeio. Mas é meu trabalho mostrar."

Masculinidade tóxica é quase um pleonasmo.
E Gilderoy/Strickland/Nós ouvimos esse discurso, embasbacados, quase em transe diante do inegável magnetismo de Santini, e não conseguimos desviar nossos olhos. "Cuidado com Santini", nos avisa a atriz Silvia, a única a tratar Gilderoy com verdadeira empatia, "Aquele sorriso de bebê não está lá a toa". Mas Gilderoy, por mais compadecido com o sofrimento infligido às mulheres tanto na irrealidade do filme quanto na realidade do estúdio ("Não deixe que nos machuquem, Gilderoy" repete a voz em seus pesadelos) é fraco e covarde demais para se libertar do mojo da potência masculina dominadora e escravizante. E o trabalho prossegue, cada vez mais intenso, cada vez mais doloroso, até que as fronteiras entre ficção e realidade começam a se esgarçar e, antes de nos darmos conta, estamos perdidos, falando com uma voz que não é nossa e que nunca sincroniza perfeitamente com o que nossos lábios tentam expressar.

Um dos pôster vintage de
Berberian Sound Studio.
Pode-se argumentar que Strickland compôs um quadro exageradamente negativo dos bastidores do cinema italiano, talvez até preconceituoso. De fato a caracterização de Gilderoy como alguém que literalmente não mataria uma aranha em seu quarto, preferindo leva-la até a janela, e que recebe regularmente cartas da mãe carinhosa que mora no campo, não é lá muito sutil. Cheguei a topar com comentários na internet afirmando que o diretor apenas reencena a pretensa superioridade moral britânica diante dos primitivos italianos e, por tabela, do restante da Europa. Essa análise, entretanto, desconsidera que antes de qualquer coisa, Berberian Sound Studio é um filme de horror, não apenas um filme sobre o cinema de horror, trabalhar com os extremos e focar nos aspectos mais negativos é o métier do gênero. Mais do que isso, ao optar pelo horror ao invés de um formato mais documental/realista, Strickland claramente não está tentando superar a ambiguidade que motiva o projeto, mas justamente deixa-la fluir até às últimas consequências. Seu filme se vale de todos os truques estético/narrativos do próprio horror italiano para salientar o horror que haveria por trás do horror italiano, (com perdão dos trocadilhos). É um verdadeiro curto circuito conceitual: uma entrega à paixão e à repulsa, simultaneamente, o que torna aquele final (que muita gente considerou "esotérico" ou até absurdo) não apenas perfeito mas inevitável.

Se me perguntarem, eu diria que Berberian Sound Studio é o filme que Strickland precisava fazer para encontrar um equilíbrio para si mesmo, entre o fã apaixonado (e grato) por tudo que experienciou e aprendeu e o artista consciente das contradições em suas referências e das problematizações necessárias para releituras contemporâneas bem sucedidas nessa nossa cultura vintage antropofágica. Talvez não seja de se estranhar que seu filme seguinte, The Duke of Burgundy (disponível no Netflix) pode ser lido tanto como uma brilhante releitura do cinema erótico europeu setentista, quanto como um belíssimo e lascivo (neo)giallo, com toda a exuberância estética e perversão fetichista do gênero... porém sem a violência... e sem homens.

Ou quase, já que o diretor é um homem. Não disse que o conflito provavelmente é insolúvel? 



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