Beijos no Escuro: "A Coisa no Hall" (E. F. Benson)

"Desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos." Jorge Luis Borges 
UMA BREVE INTRODUÇÃO AOS "BEIJOS NO ESCURO": É uma curiosa contradição... ao mesmo tempo em que tantos de nós se queixam (mais ou menos com razão) de não ter tempo pra nada, quanto mais para ler livros inteiros, nessa época em que dez linhas no facebook já são classificadas como "textão", os best-sellers da moda não apenas incham em número de páginas como multiplicam-se em séries de trocentos volumes. Ainda assim, suponho que sem o estímulo do hype e das inevitáveis adaptações para cinema e seriados, tornou-se mesmo cada vez mais difícil o comprometimento com longas leituras. Não tanto pelo receio do tamanho dos livros, mas sim pela necessidade da escolha. Passar dias, semanas ou meses debruçado sobre um único volume significa abrir mão de inúmeros outros, não é? Ou dispersar-se começando ao mesmo tempo uma dezena de títulos só para acabar não terminando nenhum. Falando pessoalmente, foi-se o tempo em que o tio aqui tinha tempo, paciência ou neurônios suficientes para devorar (com profundidade) 800 páginas em uma semana e, prontamente, saltar para o próximo título. Mais comum tornou-se ler metade do primeiro capítulo e travar no "Será que vale a pena continuar esse? Não seria melhor aquele outro? Ou aquele outro? Ou aquele? Ou aquele?" (ser libriano também não ajuda).

Certa vez o velho Stephen King (que sempre admitiu sofrer de elefantíase literária) escreveu que ler um romance é como estar casado com ele. Curiosa metáfora para esses tempos líquidos. Estaríamos sem condições de dar conta tanto de relacionamentos profundos quanto de grandes leituras? Parece mesmo haver certas similaridades: a necessidade de se entregar, de mergulhar, de ter paciência, perseverança, perder-se, encontrar-se, fazer escolhas, enfrentar consequências... tudo isso na era do DDA. Porém, no mesmo texto, King afirma que, por outro lado, contos são como beijos roubados no escuro. Algo fugaz, mas marcante... talvez até determinante. Afinal contos e narrativas breves não foram sempre algo tão vital para a literatura de horror? Muitos dos grandes mestres do gótico (como o próprio M.R. James) sequer escreveram vastos volumes, apenas contos e noveletas. O equivalente literário a contar histórias macabras ao redor da fogueira do acampamento a noite, narrar "causos" sob a luz do luar ou sussurrar sombrias canções de ninar enquanto as crianças se cobrem até o nariz. Sim, é uma imagem interessante: o horror nos beija quando estamos em nossos lugares escuros... uma imagem tão maravilhosamente cafona que se torna irresistível... afinal, que seria do gótico sem a cafonice? 😉

A proposta, então, da nova seção "Beijos no Escuro" será tecer pensamentos sobre narrativas curtas de horror: contos, novelas, noveletas, tratadas em sua individualidade. Ao invés de resenhar coletâneas inteiras, pinçar delas contos específicos que trazem em si algo que valha a pena ser dito, que estimule a reflexão, algo que ressoe... e aproveitar a oportunidade para indicar onde - na internet ou no papel - cada história pode ser encontrada por possíveis interessados.

Dito isso... vamos ao nosso primeiro beijo no escuro:





A COISA NO HALL (E. F. Benson)

Os mais velhinhos devem se lembrar que nos anos 70 e 80 não faltavam quadrinhos brasileiros de horror nas bancas de jornal (e os mais novinhos podem aprender muito a respeito nesse artigo aqui) e foi numa dessas publicações que tive contato pela primeira vez com a coisa no hall. Mais especificamente na edição número 1 do "Almanaque Histórias Reais de Drácula", do selo Capitão Mistério da Editora Bloch. "Histórias Reais", você me pergunta? É... digamos que nessa época, já por volta de 1987, com a hiperinflação e tudo mais, o mercado editorial brasileiro já não andava muito bem das pernas e precisava chamar atenção dos leitores da forma que pudesse. Pra ser justo, havia sim algumas "histórias reais", não do Drácula, é claro, mas sim do folclore nacional, especialmente a maravilhosa série esporádica de "causos" de Edmundo Rodrigues (nessa edição em particular tinha dois: "A Praga da Boiúna" e "O Fumeiro de São Bento").

"A Coisa" nos desenhos de (provavelmente)
Nilton Mendonça.
Mas o que realmente me pegou nessa edição (que no geral, tirando esses causos, era bastante fraca) foi uma HQ secundária chamada "A Coisa no Hall". Em breves 9 páginas tínhamos uma estranha história sobre dois médicos flertando com o espiritualismo até atrair algo mais do que espíritos dos mortos. Como era comum nas HQs nacionais que a Bloch publicava na época, tudo era meio truncado e corrido, com um trabalho de colorização no mínimo inapropriado (a paleta de cores da Bloch era praticamente randômica). É quase certo que Nilton Mendonça (que acredito ser o desenhista, a julgar pela assinatura na página 1, a Bloch não tinha muita preocupação em creditar seus autores) devia estar lutando contra prazos impossíveis e ganhando pouco, como era típico na época, assim o resultado raramente tinha chance de ser mais que passável. Ainda assim, havia uma ressonância nessa HQ, algo que a destacava do conjunto do almanaque, um tipo de estranhamento, uma nota mais sinistra. Me dei conta de que não conseguia tirar da cabeça uma frase em particular e a ilustração que a acompanhava, que por mais que possa parecer simples (até simplória para o senso estético de alguns) me assombrava por suas implicações:
"Desperto com o ruído de batidas e vejo, sentado nas sombras de um dos cantos do quarto, algo mais substancial que uma sombra."
Aqui permitam-se fazer uma rápida confissão: "Inspirado" como estava, acabei escrevendo aquele que, na época, eu considerava como meu primeiro conto, "O Visitante", plagiando essa pequena obscuridade quadrinista na mais completa e pura cara de pau (ou, vá lá, inocência juvenil). Cheguei a ser elogiado por colegas de escola e parentes que não tinham nenhum hábito de leitura e, se não me engano, acho que cheguei até a fazer um registro de direitos autorais na Biblioteca Nacional! Que moleque abusado (e besta) eu era! Mas não se preocupe, mundo, não existe mais nenhuma cópia do infame "O Visitante" solta por aí, podem ficar sossegados. Se algum masoquista tiver curiosidade sobre minhas pífias tentativas de escrever ficção, os únicos esforços que não me envergonho (tanto) de manter online estão aqui mesmo no blog, aqui, aqui e aqui. 😁

A notável coletânea de 1958 da Editora Cultrix, que
inclui "A Coisa no Hall".
Enfim, só não me sinto tão culpado por esse lapso da juventude porque, como diz o velho ditado: "ladrão que rouba ladrão...". Demorou anos, mas acabei descobrindo que "A Coisa no Hall" era, de fato, uma adaptação de um conto do autor britânico Edward Frederic Benson. A Bloch apenas "esqueceu" de mencionar esse pequeno detalhe (como também "esqueceu" que "Ilha dos Mortos", na mesma edição, nada mais era que uma versão livre de "A Ilha do Dr. Moreau"). Fiz essa descoberta ao folhear por acaso na biblioteca o livro "Maravilhas do Conto Fantástico", publicado em 1958 pela Editora Cultrix, que recomendo veementemente que não pense duas vezes em adquirir caso o encontre em algum sebo. Uma mais que notável coletânea que inclui desde Hoffmann e Lafcádio Hearn até Carlos Drummond de Andrade, com seu arrepiante "Flor, Telefone, Moça"!

Com certeza "Maravilhas do Conto Fantástico" devia ser livro de cabeceira de mais de um autor que trabalhava na Bloch naqueles idos de 1987 e (como na brincadeira do telefone sem fio) a coisa no hall foi pulando de plágio em plágio até cair nas minhas mãos para reapresenta-la aqui no blog com um pouco mais de justiça. Benson, como já ficou claro, é outro dos inúmeros autores do período áureo da literatura gótica britânica (final do século XIX e começo do XX) pouco traduzido e, portanto, quase desconhecido no Brasil, citado inclusive por H.P. Lovecraft no seu clássico O Horror Sobrenatural na Literatura. Só consegui encontrar mais dois dos seus contos em português: "O Quarto da Torre" (por sinal também excelente), incluído em Contos de Vampiros, da Pocket Ouro e "A Confissão de Charles Linkworth" na coletânea portuguesa Histórias de Arrepiar (Série Pêndulo #54), que não tive oportunidade de ler (ainda).

"The Thing in the Hall", publicado originalmente em 1912 no volume "The Room in the Tower, and Other Stories" funciona, antes de mais nada, pela forma simples e direta com que "vai no osso", por assim dizer, desconcertando o leitor ao introduzir repentinamente o elemento fantástico no mais prosaico dos diálogos:
— Você devia dar um jeito de pôr um abafador na aldraba — disse-lhe — pelo menos na hora das refeições. 
Louis recostou-se na cadeira e riu. 
— Não há mais nenhuma aldraba — respondeu-me. — Você se assustou na semana passada e disse a mesma coisa. De modo que resolvi retirar a aldraba. As cartas agora entram por uma fenda. Mas você ouviu uma batida, não ouviu?
— E você, não ouviu? — perguntei. 
— Certamente. Mas não era o carteiro. Era a Coisa. Não sei o que é e isso a faz tremendamente interessante.
E nessa pegada do "desconhecido tremendamente interessante" vamos acompanhando a tradicional dupla da literatura gótica, o ocultista e o cético, enquanto realizam experiências de "espiritualismo superior" para atrair e determinar a exata natureza dessa "coisa" que vem durante a noite para bater à porta, ainda que, sabiamente, exceto por vagas insinuações, nem os personagens e nem os leitores cheguem sequer perto de fechar essa questão. A "coisa" é descrita ora como um "visitante noturno que não suporta a luz", ora como um "elemental" (o que me remete a um dos mais hilários e assustadores segmentos do portmanteau da Amicus Productions, "From Beyond the Grave", chamado justamente "The Elemental"), mas nunca conseguimos compreender de fato o que é a "coisa", exceto algo semi-material, viscoso e frio ao toque, com uma sombra vagamente semelhante a uma lesma.
Sempre encarei os assuntos espiritualísticos imparcialmente. Aprendi a esperar, a abrir as portas da alma e a dizer: "Quem quer que seja, pode entrar." E penso que Algo aceitou o convite. (...) Não pedi, nem peço, que apareçam apenas os bons espíritos. Não quero ouvir nenhum hino eclesiástico tocado em caixinhas de música. Assim como não quero um Elementar: limito-me a abrir a porta. Acredito que a Coisa tenha vindo à minha casa e estabelecido comunicação comigo. Oh, quero ir até o fim, por mais vil que seja. Que é a Coisa? Em nome de Satã, se necessário, quem é? Quero saber.
No fim das contas a "adaptação" em quadrinhos era até bastante fiel ao enredo do conto, pecando apenas por resumir demais os detalhes e, quando se trata de horror, detalhes muitas vezes são tudo o que importa. Benson não tem a finesse de M.R. James (nem acho que almejava ter), mas seguia o mesmo princípio de tentar imprimir no inconsciente do leitor o conceito indistinto (e por isso mesmo poderoso) de uma "presença invisível intolerável" desumanizando completamente a figura tradicional do "fantasma". Podemos não saber o que a coisa é, mas com certeza sabemos o que não é: ela não é um simples (e, até certo ponto, reconfortante) espírito desencarnado de alguém que morreu. Ela é algo que "nunca andou por esse mundo sob forma humana", para usar o slogam que James Wan anda tentando estabelecer no seu recente universo compartilhado de horror pop (exceto pelo fato de que Wan está se referindo simplesmente a demônios; Absentia, de Mike Flanagan trabalha o conceito de "presença inumana desconhecida" de forma muito mais efetiva). A Coisa é o indeterminado, o amorfo, o arquetípico vulto no canto escuro do quarto utilizado na sua forma mais essencial. De uma trama sobre espiritualismo e fantasmas quase clichê o conto salta, de forma hábil e repentina, para o patamar do horror cósmico, nos prostrando, sem defesas, diante da ideia dessa "coisa" incompreensível que pode nos seguir pelas ruas e invadir nossas casas ao seu bel prazer, envenenando nosso sangue com um simples toque.

E uma vez que esse tipo de conceito, como um vírus, se instala no inconsciente... bem, digamos que dormir sozinho num quarto escuro se torna uma experiência bem mais emocionante. 😉

Onde encontrar:
José Paulo Paes & Fernando Correia da Silva (Org.)
Ano: 1958 / Páginas: 285
Tradução: PT/BR 
Editora: Cultrix
(ESGOTADO)

Opção online:
(Escaneado do meu exemplar)

Adaptação em Quadrinhos:

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