quinta-feira, 25 de março de 2021

Moças Decentes...



Há uma cena em Museu de Cera (House of Wax), de 1953, na qual Phyllis Kirk pergunta ao noivo, toda encabulada, se o show de can-can onde ele a trouxe é mesmo lugar pra uma moça decente. A cena é curiosa porque sua única função narrativa parece ser (re)afirmar a "decência" da "mocinha", um detalhe que sempre me passou batido, até que resolvi fazer uma double feature caseira com a versão original de 1933, Os Crimes do Museu (Mystery of the Wax Museum), e aí o "sentido" da cena meio que salta à vista: ASSEGURAR para as audiências dos anos 50 que a nova heroína não tem NADA A VER com a jornalista Florence Dempsey que Glenda Farrell interpretou nos anos 30. Não é destemida, não é desbocada, não é independente, não fica pentelhando seus acomodados colegas de redação, muito menos apontando o dedo na cara de policiais ineptos e NUNCA, JAMAIS seria vista embolsando garrafas de uísque recuperadas numa batida! ("É minha comissão, pombas!") Na-na-não, podem ficar sossegados, pessoas de bem: Sue Allen é uma "moça decente"! Até parece que ela teria a audácia de responder a um pedido de casamento com "Quanto de grana você tem?" Quem caça marido rico em 53 é a Carolyn Jones que, não por acaso, já vira estátua de cera antes da metade! A versão de 33, todavia, nunca tenta condenar as falas e atitudes da debochada jornalista. Em nenhum momento o roteiro a "pune" por ser quem ela é. Muito pelo contrário, repórteres e detetives a tratam com respeito e camaradagem e, no fim das contas, é ela que desvenda o caso do Museu de Cera, motivada exclusivamente por tenacidade e faro jornalístico (enquanto que Sue só entra na história porque a vítima era sua amiga). Pois é, de todas as diferenças entre as duas versões, essa é sem dúvida a mais significativa ao evidenciar quão profundamente a antiga Hollywood foi afetada pelo advento do Código Hays e o fim da II Guerra Mundial, quando as mulheres foram "gentilmente convidadas" a voltar para seus devidos lugares. A versão de 53 pode até ser um filme superior em muitos aspectos (tipo Vincent Price), mas é a Srta. Dempsey de Farrell que segue nos provocando quando a sessão acaba, mesmo após quase 90 anos, nos lembrando do quanto ainda temos a superar... e de como é fácil retroceder.

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