quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Esperando o Sol Negro passar...




É curioso que eu só tenha começado a assistir Space: 1999 justamente agora, no ano da pandemia. Há tempos ouço falar dessa cultuada ficção científica de Gerry e Sylvia Anderson, mas acabava sempre deixando pra depois, afinal meu foco aqui é o horror gótico, não ficção científica vintage. Mas aí o nobre Paulo Morgado chamou minha atenção para o fato de que uma co-produção Inglaterra/Itália, em plenos anos 70, com estrelas-convidadas do naipe de Christopher Lee , Peter Cushing, Catherine Schell, Joan Collins e outras figurinhas carimbadas do gótico britânico não poderia deixar de ter um pézinho no horror. E, de fato, Martin Landau, Barbara Bain e Barry Morse tendem a ser "assombrados" por ameaças bem mais "sobrenaturais" do que Jornada nas Estrelas e seus derivados. Fantasmas, possessões, cemitérios espaciais, planetas cobertos de fog, naves abandonadas e decadentes flutuando pelo espaço como velhos castelos góticos, enfim, conflitos e mistérios de uma natureza um tanto mais metafísica, até espiritual, no limiar entre a fé e a ciência, quase sempre deixados sem resposta no fim do episódio. Não é bem horror cósmico, está mais pra ficção científica gótica mesmo, tipo O Planeta dos Vampiros ou O Planeta Proibido, com um tom poético e contemplativo a la 2001 - Uma Odisseia no Espaço (apesar da abertura space opera deliciosamente cafona). Mas o que me pegou de fato foi a premissa: um terrível desastre nuclear arrancou a lua de sua órbita e os 311 colonos da Base Lunar Alpha se veem repentinamente arremessados para os confins do cosmos. Isolados e sem ter como controlar a trajetória do ex-satélite, tudo o que os alphans podem fazer é lidar com as situações surreais que vão surgindo e torcer pra que a lua passe por um planeta habitável antes que o suporte de vida falhe de vez. Só uma coisa é certa: o mundo que conheciam ficou para trás. Dessa convicção desoladora, mas de algum modo transcendente, "Space: 1999" encontra um tipo singular de voz (por vezes sublime) que acabou se tornando um inesperado conforto nas minhas noites solitárias de quarentena, dividindo um vinho seco e amargo como a vida com o comandante John Koenig e o Prof. Victor Bergman, enquanto aguardamos a inexorável passagem do Sol Negro. Cheers. 🍷



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