segunda-feira, 26 de agosto de 2019

As Mil Mortes de Jack London

O horror é um gênero com uma curiosa tendência de gerar obsessões. Todo fã sabe disso, mesmo que você seja do tipo que fala "assisto e leio de tudo", certamente sua galera já se refere a você como "fã de horror" não deixando que se engane. Veja o caso desse singelo bloguinho que, no começo, achava mesmo que trataria de temas gerais de cultura pop (dá uma fuçada nos textos mais antigos), mas a paixão pelo horror mais cedo ou mais tarde acaba tomando tudo. Não por acaso, o horror tende a gerar artistas que acabam se identificando de tal forma com o gênero que se tornam indissociáveis dele. Escritores como Poe, Lovecraft e Stephen King, atores como Barbara Steele e Vincent Price, diretores como John Carpenter, Wes Craven ou mesmo James Wan. Figuras que, em algum momento, descobriram que quaisquer trabalhos com outros gêneros passaram a ser classificados como exceções e curiosidades, não raro avaliados à sombra de sua produção de horror. E não adianta muito lutar contra isso, como Christopher Lee tentou com mais ou menos força no decorrer de sua carreira, a "mácula" do horror é tão permanente e definitiva quanto a letra escarlate. Aceita que dói menos. 😉

Mil Mortes e Outras Histórias, de Jack London.
Disponível no site da Editora Penalux.
Por outro lado, quando autores que não tem essa identificação com o gênero se põem a produzir obras de horror sempre acabam causando um certo frisson entre os iniciados. Pois é fato, o lado ruim da "mácula" do horror é a tendência a se aferrar a fórmulas, regras e lugares-comuns, algo mais facilmente "quebrável" por autores "de fora" do que pelos especialistas, talvez habituados demais para sequer perceber que sacudidas ocasionais são desejáveis. O horror conta com algumas notáveis obras primas que, para todos os efeitos, são completas exceções nas obras de seus respectivos autores. Pense em William Friedkin, que era famoso por grandes thrillers de ação, tomando o mundo de assalto com O Exorcista em 1973. Ou o clássico O Médico e o Monstro de R.L.Stevenson que sempre foi muito mais conhecido por seus romances de aventura. Um dos contos de horror mais assustadores que já li na vida, O Quarto Vermelho, é quase uma ovelha negra em meio à produção scifi/social-política de H.G. Wells e poucos imaginariam que em meio à vasta obra de Rudyard Kipling e, veja só, Machado de Assis, haveria material suficiente para encher coletâneas específicas de contos fantásticos. Ainda que nem todo "conto fantástico" seja efetivamente horror, a leitura de A Marca da Besta ou Um Esqueleto não sairá tão cedo da cabeça até do mais ferrenho "especialista" no gênero.

E isso tudo nos leva à pequena, mas notável, coletânea da Editora Penalux: Mil Mortes e Outras Histórias, de Jack London.

Jack London, viajante, aventureiro
e até mesmo pirata!
O nome Jack London evoca como nenhum outro os cenários das tundras inóspitas cobertas de gelo ou a vastidão do oceano ameaçando engolir o leitor em sua pequenez e insignificância. Ele mesmo um aventureiro e andarilho (até pirata, a certa altura) não teria como ser identificado de outra forma senão como um dos maiores escritores de aventura das letras americanas. "Aventura" não no sentido juvenil e leve que o cinema acabou cunhando, mas no seu sentido mais amplo de jornada épica, tanto física quanto espiritual, extrapolando peripécias e perigos e atingindo aquele paradoxo no qual o horizonte distante equivale às profundezas da subjetividade íntima. Suas obras mais lembradas provavelmente são aquelas protagonizadas não por personagens humanos, mas por cães selvagens, como O Chamado da Floresta ou Caninos Brancos, onde a temática da eterna relação de amor/ódio entre o humano e a natureza atinge proporções filosóficas que só encontram paralelo na obra de outro grande iconoclasta das artes, o cineasta Werner Herzog. Pessoalmente, fui arrebatado por outro grande clássico de London, O Lobo do Mar, obra prima que coloca em xeque nossos valores civilizatórios na figura monstruosa, mas indiscutivelmente fascinante, do Capitão Wolf Larsen, verdadeira encarnação da "lei do mais forte", tanto em força bruta quanto em espírito.

Experimentos científicos praticamente
patafísicos em A Sombra e o Raio.
Todos esses clássicos estão disponíveis por aqui a muito tempo, em trocentas edições diferentes (luxuosas ou de bolso) e inúmeras traduções. O material que a Penalux trouxe em Mil Mortes e Outras Histórias, entretanto, é inédito no Brasil: quatro contos longos em que Jack London flerta em maior ou menor grau com o horror e, como descrito acima sobre autores não "especialistas", tensiona as "regras" do gênero de acordo com suas próprias obsessões. A ambivalente e tensa relação entre o ser humano e a natureza marca forte presença em todas as histórias, porém dessa vez transubstanciadas pela abordagem fantástica. Diferente dos citados Kipling e Wells, o horror não é exatamente o foco inicial, a porta de entrada de London se dá pela via da ficção científica e por uma certa "racionalidade" aplicada aos elementos fantásticos, mas como costuma acontecer na maior parte de sua obra, a "racionalidade" tem sérias dificuldades para de fato se impor com a devida convicção, cedendo paulatinamente para visões pessimistas e tétricas, permitindo que o horror percole pela abordagem scifi até vira-la de ponta-cabeça, deixando ao fim da leitura as perspectivas mais funestas.

No caso das narrativas que abrem o volume, a própria Mil Mortes e A Sombra e o Raio, a perspectiva científica apresentada é praticamente patafísica (me lembrando muito as tresloucadas experiências do Barão Frankenstein de Peter Cushing com seus experimentos para captura de almas), de certa forma são apenas meios para que o autor consiga levar a narrativa até os pontos e imagens que realmente lhe interessam, no caso a insana situação de um filho sendo sistematicamente morto e ressuscitado de todas as formas possíveis pelo próprio pai (que sem dúvida nos remete à tensa relação paterna do autor) e a delirante imagem de um duelo entre duas forças primais da natureza encarnadas em formas humanas (ou trans-humanas): a "faísca divina" e a "absoluta ausência de luz". São imagens que até poderiam ser obtidas por meios puramente fantásticos, mas a abordagem (ir)racionalista de London parece amplifica-las de forma ao mesmo tempo macabra e irônica.

Livre adaptação cinematográfica do conto
Mil Mortes.
Como em O Lobo do Mar, as peripécias dos personagens tornam-se ressonâncias para reflexões no mínimo inquietantes. Onde estaria o "espírito" do protagonista na escuridão entre cada morte? Aprisionado nos restos mortais? Haveria realmente alguma coisa depois que a putrefação reduzisse o cadáver a nada? Que tipo de "não-existência" teria sido o destino final dos protagonistas de A Sombra e o Raio? Incidentalmente, essa rivalidade quase transcendental entre os dois cientistas, que acaba levando-os a perseguir obsessivamente aquilo que, no limite, seria seu próprio desaparecimento, lembra bastante o melhor (e menos celebrado) filme de Christopher Nolan, The Prestige, no qual um duelo semelhante também empurra os personagens para além dos limites das possibilidades físicas, rompendo as fronteiras do fantástico.

(E, falando em filmes, Mil Mortes chegou a ganhar uma versão cinematográfica em 1939, livremente adaptada com o título de Torture Ship e dirigida por Victor Halperin, do clássico White Zombie.)

Não tão delirante, Planchette é uma noveleta bem mais próxima do que esperaríamos de um conto de horror clássico, ao estilo de Arthur Conan Doyle. Fantasmas influenciando o destino dos vivos, sessões espíritas, um nebuloso mistério do passado jamais revelado, um romance marcado por um destino trágico. Aqui, sem dúvida, estamos em território mais familiar no qual London transita com elegância, sem porém deixar de inserir, quase sub-repticiamente, seus tópicos favoritos, no caso as complexas relações entre humanos e animais, expressa através da simbiose quase mística do casal de protagonistas com os cavalos... e destes com estranhas forças para além daquilo que é visível.

Capa vintage para a arrebatadora O Vermelho.
Mas nenhuma dessas histórias nos prepara para o impacto da joia da coroa do volume, a arrebatadora O Vermelho. Aqui, para além da ficção científica, London adentra o território do horror cósmico bem antes de H.P. Lovecraft refinar o subgênero e estabelecer seus padrões para o século XX. A saga de um navegante perdido numa ilha hostil, caçado por nativos violentos e assombrado por uma obscura força alienígena é um impressionante tour de force de ritmo, angústia e crueldade. A obsessão do autor pela insignificância humana diante das forças titânicas da natureza e o eterno conflito entre os impulsos animalescos e civilizatórios é extrapolado para os abismos infinitos do cosmos, muito além de nossos limitados mecanismos de apreensão e interpretação da realidade, sejam eles civilizados ou primitivos, racionais ou instintivos. O limite entre o humano e o animal é implacavelmente colocado em xeque e, ainda que o racismo (e misoginia) do protagonista (e do autor) tente desesperadamente forçar a nossa simpatia para o lado do branco/civilizado, o que parece de fato permanecer conosco após a leitura, muito mais até do que o mistério do Vermelho, é o fascinante retrato do feiticeiro defumando cabeças decepadas. No lento e paciente girar dos crânios sobre a fogueira, talvez ainda preenchidos com memórias e histórias que apenas o bruxo sabe como ouvir (evocando as Confissões de uma Máscara, da obra prima de Alan Moore, A Voz do Fogo), sentimos vibrar algum tipo de ponto primal nas profundezas de nossa psique, onde ainda ressoam as memórias ancestrais de antigos mistérios, magia e terror sagrado, que nos acalentavam na escuridão das cavernas. De certo modo, o horror cósmico de London parece ter mais em comum com Robert E. Howard do que com Lovecraft. Sua abordagem é mais visceral e, talvez, mais enigmática. Enquanto os personagens eminentemente racionais de Lovecraft nada mais podem fazer senão enlouquecer diante das forças titânicas sob as quais o humano torna-se insignificante, os de Howard e London parecem reencontrar nesse confronto algum outro tipo de entendimento, talvez pré-humano. E deixa, como sempre, ao leitor, os riscos (e a responsabilidade) de interpretar o que se pode entrever nesse estranho espelho que nos oferecem.

Conversas sábias e profundas perante o lento e paciente
defumar de cabeças decepadas em O Vermelho.

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