Ghost Stories for Christmas - Pequenas Joias do Horror Gótico Britânico

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É curioso como mudanças colossais vão acontecendo tão rápido que nem nos damos conta, não é? Aí, do nada, me cai a ficha do quão recente é esse lance de encontrar e baixar quase que qualquer obra da história do cinema na internet. Ainda me lembro de como era ler sobre certos filmes cults, clássicos ou obscuros em revistas (de papel!) especializadas e me conformar apenas com as resenhas e fotografias, já que a chance de material assim dar as caras em locadoras (gente... locadoras!) ou mesmo ser exibidos em alguma madrugada maldita de TV aberta, não era nem mesmo remota, era meio que sem esperança. E nem estou falando de obras tão raras assim (as raras de verdade ainda exigem algum esforço e conhecimento técnico por parte do internauta para serem encontradas), falo de filmes como Suspiria, de Dario Argento, ou Freaks, de Tod Browning, os primeiros títulos que procurei no velho Emule. Sim, Emule!! Semanas (as vezes meses) baixando releases medonhos em DviX de 700 megas, mas hiper feliz por finalmente ter acesso a filmes que eu sonhava tanto assistir!

Hoje, ambos estão disponíveis em vários formatos diferentes, pequenos, grandes, Xvid, x264, x265, DVDrip, BlurayRip, diferentes traduções de legenda (até mesmo com as famigeradas inserções de "dublagens clássicas", que causam ojeriza em qualquer cinéfilo que se preze, mas, enfim, tem quem goste). A possibilidade de baixar praticamente tudo (ênfase no "praticamente") se tornou tão corriqueira, que toda uma cultura de legenders e ripadores acabou se sistematizando numa lógica que quase se poderia chamar de empresarial, se não fosse sem fins lucrativos (ao menos financeiros). O hábito de baixar filmes e séries se naturalizou a tal ponto que tendemos mesmo a esquecer o quão extraordinária é essa mudança. Como é revolucionário ouvir falar de uma obra e, independente dos caprichos do mercado, ser capaz de encontra-la com uma simples pesquisa. Ter acesso! Evidente que nem tudo é tão achável como um "Avengers" da vida, mas não é mais uma impossibilidade absoluta como nos meus tempos de cinéfilo juvenil. Manter a memória de como as coisas eram no passado me parece importante, afinal, toda revolução precisa ter sua história registrada para as novas gerações.

Estava divagando sobre isso enquanto babava diante da TV, assistindo ao assunto do presente post. Ghost Stories for Christimas foi uma série de curta-metragens especiais de Natal produzidos pela BBC do final dos anos 60 até o final dos anos 70 (com um revival a partir de 2009 e vários media metragens relacionados, a listagem completa pode ser consultada aqui). Como se sabe, os britânicos levam seus fantasmas muito a sério. Narrar histórias arrepiantes para entreter os amigos na noite de Natal é um costume tão antigo quanto os periódicos literários do final do século XIX, entre os quais o célebre Household Words editado por Charles Dickens, famoso por suas edições extras de Natal. A série da BBC é uma intencional continuidade dessa tradição tão charmosa (infinitamente preferível do que assistir Roberto Carlos Especial enquanto o tio reaça conta piadas homofóbicas, vocês devem concordar), inicialmente adaptando alguns dos contos mais famosos de M.R James, mas chegando depois em Dickens, Sheridan Le Fanu, Henry James, Dennis Wheatley e até alguns roteiros originais.

Não sei dizer se esses especiais chegaram a ser exibidos no Brasil, seja na TV aberta ou a cabo. Suponho que, talvez, os revivals modernos, mas não tenho certeza. Certamente os episódios dos anos 70 nunca saíram por aqui em DVD, muito menos bluray e são aquele tipo de material que não se acha facilmente numa busca direta num PirateBay da vida. É necessário garimpar em fóruns fechados, tracker russos, blogs empesteados de malwares e coisas do tipo, mas, independente da dificuldade, é possível! E, mediante algumas iniciativas coletivas e/ou individuais, pode se tornar mais acessível de uma hora pra outra... tipo... agora. =)

Só consegui reunir três adaptações em releases DVDrip de boa qualidade (duas das quais eu mesmo ripei de DVDs full) e uma quarta em alta resolução. Não havia legendas em português para nenhuma das quatro, então tomei a iniciativa de traduzir eu mesmo as legendas em inglês presentes nos releases, deixando-as disponíveis na minha conta no OpenSubtitles (Whistle and I'll Come to You até tinha uma legenda em português circulando na net, mas a tradução era tão ruim que foi necessário refazer quase inteira). Com isso e mais as resenhas nessa postagem, espero dar minha contribuição para que essas preciosidades se tornem mais acessíveis para os interessados na tradição do horror gótico em geral.

DETALHE IMPORTANTE: Estou disponibilizando links pra baixar dada a raridade do material e o fato de estarmos falando em acesso e compartilhamento, mas esse não é um blog de downloads, não fiquem mal acostumados, ok? ;)


Whistle and I'll Come to You (1968) de M. R. James, adaptado e dirigido por Jonathan Miller

Embora seja, na verdade, um episódio da série de documentários sobre arte Omnibus, da BBC, que nem ao menos foi exibido no Natal em sua primeira exibição, "Assovie e Eu Virei Até Você" é comumente referenciado como uma espécie de "piloto" para a série que só começaria oficialmente três anos depois. Sem dúvida o estilo e as características fundamentais dos demais especiais (ao menos os setentistas) já batem ponto aqui com clareza: a ênfase na sugestão, o ritmo propositalmente lento, a atmosfera sinistra sendo construída num crescente de pequenos detalhes e insinuações que um espectador distraído talvez até passe batido, a (aparente) simplicidade do enredo que deixa todos os mistérios da narrativa para serem especulados pela imaginação, enfim... o profundo respeito às fontes literárias, pois essas são, acima de tudo, as características dos próprios contos de M.R. James, considerado um dos mais importantes autores (e disseminadores) de histórias de fantasmas nas letras britânicas. Não é por acaso que os cinco primeiros dos oito especiais dos anos 70 são adaptações de sua obra.

O que não significa que o roteiro se prenda mais do que seria saudável ao texto original. Jonathan Miller enxuga os personagens e concentra a narrativa na figura excêntrica (e, por vezes, hilária) de Michael Hordern. O veterano ator cria um personagem bastante diferente do protagonista do conto, porém ainda mais notável, um catedrático de meia idade cheio de manias e esquisitices, hospedado em férias num hotel em algum lugar na costa anglicana. Numa caminhada nas ruínas de um antigo cemitério de cavaleiros templários, próximo ao oceano, o Prof. Parkin encontra um curioso apito num dos túmulos e, na solidão de seu quarto, a noite, decifra uma inscrição incrustada nas laterais. É óbvio que se trata do título do conto e é óbvio que o cético professor vai mesmo assoprar pra ver no que dá.

Miller cria um bizarro microcosmo de figuras esquisitas que parecem sofrer de uma patológica dificuldade de socialização. Velhos eruditos tão ensimesmados que mal conseguem projetar a voz para que um interlocutor os entenda (o "diálogo" entre o Prof. Parkin e o dono do hotel nos primeiros minutos chega a ser surreal!). Horden, particularmente, compõe o Prof. Parkin como um tipo tão hermético que poderia causar hemorróidas em quem chegasse muito perto, incapaz de entender uma pergunta antes da terceira repetição, mas habilíssimo em fazer longos discursos para os próprios botões ou para qualquer infeliz que invente de lhe dar corda, digamos perguntando alguma coisa como: "Acredita em fantasmas?". Uma versão extrema (e nonsense quase a la Monty Python) do tradicional protagonista da literatura gótica: o arrogante homem civilizado secular, que despreza como bobagem as experiências e saberes externas aos seus próprios círculos consagrados, até ser pego de jeito por forças que não está preparado para lidar. O episódio apresenta essa estrutura clássica de forma maravilhosamente didática, quase arquetípica, ainda que de forma até mais sutil do que o conto (que é uma das principais fontes literárias da famosa imagem do fantasma envolto num lençol!). Não conheço outra obra audiovisual que traduza com tamanha perfeição aquele sensação que, certamente, todos nós já experimentamos, de estar semi-desperto na escuridão do quarto, no meio da madrugada, e - mais do que ouvir - sentir que há mais alguma coisa lá com você. Uma gema rara a se conhecer e apreciar.



A Warning to the Curious (1972) de M. R. James, adaptado e dirigido por Lawrence Gordon Clark

Agora sim um episódio "oficial" da série (o segundo), "Um Alerta aos Curiosos" é, desde o título, inteiramente focado nessa tradição que citei acima dos protagonistas céticos (e arrogantes) que deveriam mesmo prestar um pouco mais atenção nos avisos dos moradores locais. No caso um arqueólogo amador investigando a costa de Norfolk em busca de uma das lendárias coroas perdidas de Anglia, que só compreende tarde demais que as insinuações de um padre, um antiquário e outras figuras pitorescas a respeito de um suposto guardião da coroa não deveriam ser desconsideradas assim tão levianamente.

Também adaptado de M. R. James, o episódio foi o menos interessante dessas quatro adaptações, ao menos pra mim, mas admito que é uma preferência pessoal (pra começo de conversa, nem todos os amigos que assistiram comigo concordam). Bem menos sutil, ele assume claramente o formato da velha e boa vingança sobrenatural, mas compensa essa obviedade com sua caracterização saborosa do universo folk inglês. Toda a série, de fato, é produzida com esmero, mesmo que com orçamentos modestos, e a beleza melancólica das paisagens enevoadas do campo inglês é motivo mais do que suficiente para apreciar o curta. Infelizmente não tive acesso a uma tradução do conto original, mas as informações no IMDb e Wikipedia dão a entender que houve muitas mudanças e ajustes no processo de adaptação.

Aproveitando o ensejo, já que estamos falando tanto sobre acesso aqui, é válido mencionar o absurdo de nenhuma editora brasileira (nem mesmo as que se dizem especializadas em horror e no fantástico em geral) ter se dignado até hoje a publicar decentemente um autor da importância de M. R. James. Alguns de seus trabalhos até podem ser encontrados em coletâneas, mas não há (até onde sei) nenhum volume dedicado inteiramente a sua obra. Pra piorar, os mesmos dois ou três contos aparecem repetidos em livros de editoras diferentes, enquanto a maioria permanece inédita. Um problema bastante comum em coletâneas e que acaba se tornando ainda mais recorrente no caso de autores de literatura gótica old school como James, que era famoso por jamais definir categoricamente a natureza dos seres sobrenaturais de suas histórias, fazendo com que um mesmo conto ora apareça num livro sobre vampiros, ora num de fantasmas, e por aí vai. Algo bem frustrante para colecionadores, devo dizer. A sensação é de nunca sair da largada, não importa o quanto se garimpe.



The Signalman (1976) de Charles Dickens, adaptado por Andrew Davies e dirigido por Lawrence Gordon Clark

E, falando em publicações recorrentes, "O Sinaleiro" de Dickens é arroz de festa em quase todas as coletâneas de histórias de fantasmas. Duvido que um colecionador tenha menos do que umas três traduções diferentes, não se quiser adquirir contos mais raros que, via de regra, acabam saindo no meio de um volume com uns 70% de contos repetidos. Dá pra entender o quão irritante acaba sendo essa mania de editores e organizadores nunca levarem em consideração as coletâneas das concorrentes? Me vem a mente agora o recente "Sombras de Carcosa", que nos brindou com vários clássicos inéditos do horror cósmico, mas deixou de lado, por exemplo, Os Salgueiros, de Algernon Blackwood enquanto incluía pela enésima vez A Cor Que Veio do Espaço, de Lovecraft. "Ah, mas é uma obra prima desse subgênero!" Sim, é, isso ninguém discute, mas... poxa... já tem um monte de traduções disponíveis por aí, em papel ou online! Enfim... divago...

Voltando ao assunto principal, ao contrário dos dois episódios já comentados, essa adaptação é rigorosamente fiel ao original de Dickens (exceto apenas por alguns ajustes necessários pela mudança de mídia). Pra quem conhece bem o conto, chega a ser desconcertante a recriação em imagens do cenário do posto ferroviário próximo da entrada de um túnel sinistro, encravado no interior de uma ravina. Denholm Elliott (que a maioria conhece como o Prof. Marcos Brody, da Trilogia Indiana Jones) está comovente como o solitário funcionário responsável por controlar manualmente os desvios e rotas, que se vê atormentado por um espectro que surge de tempos em tempos sob a luz de alerta do túnel. A cada aparição, algum tipo de tragédia acontece, levando o dedicado sinaleiro ao desespero diante da expectativa do que ainda possa estar por vir.

Não raro apontado como o melhor curta da safra dos anos 70, "O Sinaleiro" é uma demonstração exemplar de um argumento no qual sempre costumo insistir em meus textos sobre o gênero: que a melancolia é tão ou mais importante para o horror gótico quanto o medo. O arrepio na pele que sentimos ao ouvir o lamento angustiado do fantasma na ravina é uma mistura de medo do desconhecido com uma profunda tristeza, potencializada pelo uivo do vento nos fios do telégrafo e pela neblina que nos fecha, junto com o pobre Elliott, numa espécie de bolha fora do tempo e do espaço, tão densa que pode facilmente nos fazer esquecer que alguma vez houve qualquer coisa além dela, como nos sugere o próprio sinaleiro (numa das poucas falas inéditas em relação ao conto): "Nos primeiros dias, eu tentava encontrar tempo para subir, ver à luz do sol, mas... O trabalho estava sempre aqui me chamando, meu rosto podia estar ao sol mas minha mente estava aqui embaixo no escuro e nas sombras."



Schalcken the Painter (1979) de Joseph Sheridan Le Fanu, adaptado e dirigido por Leslie Megahey.

Finalmente, aquela que, na minha opinião, é a joia da coroa, se não da série, ao menos desses segmentos que tive oportunidade de assistir. A impecável adaptação de:“Um Estranho Incidente na Vida do Pintor Schalken” (também conhecido pelo título mais sucinto de Schalken, o Pintor). Sheridan Le Fanu é outro autor muito mal publicado no Brasil, as editoras em geral parecem satisfeitas em apenas re-traduzir Carmilla (só na minha estante tenho quatro traduções diferentes, sendo que uma das mais recentes se gaba de ser a primeira em português). Não que Carmilla não mereça essa atenção, afinal estamos falando de uma das mais importantes novelas da literatura vampírica (minha favorita), mas nem de longe as obras primas de seu autor se esgotam por aí.

Considerado pelo próprio M.R. James como o pai das histórias de fantasmas modernas, Le Fanu era um mestre no poder da insinuação. Em seus textos tanto os personagens quanto o leitor se veem perdidos num mistério sobrenatural cuja solução está sempre além dos poderes de apreensão humanos. Há coisas que espreitam na escuridão, coisas que jamais poderemos compreender ou sequer sonhar em enfrentar. Seja o macaco espectral que assombra o Reverendo Jennings em "Chá Verde" ou o ser invisível que persegue o Capitão Barton em "O Demônio Familiar". Mas foi ao associar sua escrita com a obra do pintor holandês Godfried Schalcken, uma espécie de antepassado espiritual, que Le Fanu criou um de seus contos mais significativos. Schalcken, como muitos de seus contemporâneos, era um estudioso das técnicas de captura de fontes de iluminação difusa, sua obra é uma evocativa galeria de figuras semi-ocultas numa escuridão que a tênue luminosidade de uma vela nunca é capaz de penetrar. O conto traduz o poder de evocação dessas imagens numa melancólica história de fantasmas (ou vampiros, ou demônios, Le Fanu, como James, raramente fecha o fantástico em definições) que faz o leitor se sentir literalmente imerso na escuridão, vagando nas sombras numa tentativa vã de alcançar a luz bruxuleante de um simples candeeiro.

A adaptação em longa metragem (70 minutos) não faz parte da "série oficial" das Ghost Stories For Christmas. Assim como "Whistle and I'll Come to You" trata-se de um episódio especial de Omnibus, o que explica a estrutura em formato de docudrama. Como Omnibus é uma série comumente dedicada a documentários sobre arte, as bases históricas do conto forneceram uma oportunidade perfeita para ir a fundo tanto na reconstituição da época de ouro da pintura holandesa quanto do melodrama gótico irlandês. Inspirado no cineasta europeu Walerian Borowczyk, o diretor Leslie Megahey se vale de iluminação natural e uma fotografia de alta granulação para recriar a estética das pinturas de Schalcken, compondo um verdadeiro balé de sombras onde os personagens surgem e desaparecem das trevas, constantemente capturados no interior de molduras formadas por batentes de portas e janelas que vão se sobrepondo nos enquadramentos da câmera. Quadros dentro de quadros dentro de quadros onde, a qualquer momento, formas horrendas podem ser vistas ou imaginadas (no contexto do filme é até difícil saber a diferença).

A trama extrapola a biografia conhecida de Schalcken estabelecendo um affair do pintor com a sobrinha de seu mestre Gerrit Dou, um esboço de romance tragicamente interrompido quando um certo Lorde  Vanderhausen of Rotterdam, surge literalmente do nada com a intenção de comprar a moça para ser sua esposa. Para desespero de Rose, não só o ganancioso tio cede com mínima resistência ao dote oferecido pelo lorde, como seu suposto enamorado revela-se um covarde egocêntrico, não movendo um dedo para enfrentar o rival. Tudo isso já seria aterrador o suficiente, mas a culminação do horror vem do fato de que Vanderhausen parece ser qualquer coisa menos parte do mundo dos vivos.

Atmosférica, lúgubre, angustiante e profundamente melancólica (gótica até a medula, portanto), a adaptação preserva (e, em certa medida) amplifica a ambiguidade do conto original. Os debates sobre a real natureza do misterioso Vanderhausen sem dúvida prosseguirão até o juízo final e o destino final de Rose é um enigma que se enterra profundamente no coração de cada espectador/leitor. As últimas sequencias coroam o mistério com uma das melhores representações em audiovisual que já tive oportunidade de assistir do arquétipo da dama fantasma, tão importante para o gênero. "Schalcken the Painter" é uma pequena obra prima que não pode deixar de ser conhecida seja por apreciadores do horror gótico, cinéfilos ou amantes das belas artes em geral, o que demonstra com clareza o quão revolucionário é esse poder de acesso que a internet nos possibilitou nesses últimos anos.



Espero, com o tempo, ter condições de ir atualizando essa postagem com outros curtas da série, conforme for encontrando releases e legendas nos territórios bravios da internet. Por agora, reunir todas as Ghost Stories for Christmas parece uma possibilidade remota... mas o mesmo podia se dizer de Suspiria e Freaks, não é? ;)