segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

As "Franquias" da Hammer Films: Conde Drácula


A vida toda eu ouvi as pessoas dizerem: "hoje em dia não tem nada de novo no cinema de horror, só tem continuações". No anos 80 se referiam aos intermináveis Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo, nos anos 90 a Jogos Mortais ou Pânico, e agora não é nada incomum ouvir queixas semelhantes em relação ao Invocação do Mal, Annabelle e coisas do tipo. Dá pra entender, mas é meio injusto, porque desde que o cinema existe o horror SEMPRE abusou das continuações. O próprio Drácula do Bela Lugosi e o Frankenstein do Boris Karloff que, para todos os efeitos, inauguraram o gênero em 1931, não só tiveram uma penca de continuações cada um, como até desembocaram numa série de crossovers no final dos anos 40 (ou você achava que universos compartilhados tinham qualquer coisa de novidade?). Antes de repetir o clichê de que "hoje em dia só tem continuação" é sempre bom lembrar que "voltar da morte" está nas entranhas do gênero, pro bem ou pro mal. Em algum momento lá do final dos anos 80, eu me lembro de ter lido num desses almanaques de vídeo da vida que "Freddy Krueger nada mais era que o Drácula da atual geração", e é bem isso.😉

Imagem síntese da série, em
Dracula 1972 AD.
Agora, admito que uma coisa é certa: os anos 80 e 90 extrapolaram demais na repetição de ideias que já seriam simplórias até para um filme, quanto mais dúzias. Foram sequencias e mais sequencias sem maiores ambições exceto a repetição ad nauseum dos mesmos enredos dos filmes originais, com, no máximo, um ou outro acréscimo para pirotecnia e efeitos. Nesse ponto, não há comparação possível entre um Jason da vida, ou mesmo um Michael, e as longas séries que a Hammer Films produziu no decorrer dos anos 60 e 70. Não há dúvida de que a Hammer foi uma empresa que nunca teve o menor pudor em explorar até o limite aquilo que hoje nós chamamos de "franquias". Foram NOVE filmes de Drácula, SETE do Barão Frankenstein, quatro da Múmia, três de Carmilla, sem contar as séries menores como She, Quatermass ou as infames Cave Girls. Mas mesmo que a principal motivação fosse (como sempre) pura e simplesmente grana, as continuações da Hammer jamais poderiam ser taxadas como meras repetições das fórmulas dos filmes originais (embora, na época, muito gente o fizesse, eram tempos mais sofisticados😜). Há um surpreendente frescor de originalidade na abordagem de cada produção, que chega quase a se sobrepor (ou mesmo se contrapor) à necessidade básica de dar continuidade às histórias. As mudanças de foco e variações inusitadas levam cada filme a ter uma identidade bastante particular, com os seus próprios temas e subtextos, não raro até contraditórios entre si, algo que pode se tornar exasperante pra quem tem TOC por cronologia e coerência, mas que, pra mim, faz parte daquilo que torna cada um desses filmes fascinante por si só, de uma forma que nenhuma das "franquias" intermináveis dos anos 80 e 90 jamais conseguiu (ou, sendo justo, sequer tentou).

Pra refletir um bocadinho sobre isso dou início aqui a uma série de textos sobre as principais franquias da Hammer, começando pela mais longa e mais conhecida, o Conde Drácula de Christopher Lee. Não se trata propriamente de "críticas". O que não falta na internet são resenhas de todo tipo para cada um desses filmes. O que quero fazer aqui são observações pessoais, de fã passional para fã passional, tentando destacar os pontos que me parecem mais interessantes e, quiça, não tão mencionados. Sigamos, então, pela ordem...


1958: Dracula AKA Horror of Dracula
(O Vampiro da Noite)
Direção: Terence Fisher
Roteiro: Jimmy Sangster

Tem muita coisa que as pessoas acham que sabem sobre os filmes da Hammer antes mesmo de vê-los, principalmente por conta de alguns chavões que se convencionou repetir em artigos e matérias sobre o cinema de horror em geral. Um desses chavões é a suposta fidelidade aos clássicos da literatura gótica britânica. Não é raro que a Hammer seja citada como um exemplo de respeito aos cânones, sempre que alguém quer criticar uma adaptação mais moderninha como, sei lá, aquela seriado do Drácula que ninguém viu (alguém lembra?). É bem irônica essa fama, já que desde o começo a Hammer nunca fez a menor questão de ser fiel aos enredos de nenhuma de suas adaptações literárias. Muito pelo contrário, parecia haver uma intenção consciente de "sacudir" a poeira dos clássicos e criar roteiros mais orientados à ação e ao choque, virando os livros de ponta cabeça no processo. A principal preocupação do roteirista Jimmy Sangster ao "adaptar" o romance de Bram Stoker era dar um jeito para que a "ação vampírica" pudesse acontecer o mais rápido possível, sem perda de tempo, mantendo a plateia eletrizada do início ao fim. Daí a "dança das cadeiras" com as personagens do livro trocando de papéis e relações, o encurtamento geral das distâncias, e a simplificação dos acontecimentos do romance de modo a obter um filme acelerado (para os padrões da época, claro) e enxuto, com menos de 90 minutos de duração (se a Hammer tiver cinco filmes com mais de 100 minutos, aliás, já é muito!).

Peter Cushing, o mais icônico
Van Helsing da história do cinema.
O fato desse ter sido o primeiro filme de vampiros filmado em cores (e que cores!😍) é bastante comentado, mas curiosamente ainda há quem se espante ao saber que essa foi a primeira vez que as plateias de cinema viram as presas de um vampiro em tela (ao menos numa produção de larga distribuição internacional, Drakula Istanbul'da e Valkoinen Peura são precursores célebres, mas obscuros até pras audiências de hoje, imagina na época). Esse ponto, por si só, já dá uma noção do impacto que Christopher Lee provocou em 1958, e manter isso em mente pode ser interessante para ao menos tentar resgatar um pouquinho desse prazer para as plateias contemporâneas. Ao rodar o vídeo abaixo, tente imaginar que você nunca viu os dentes afiados de um vampiro antes. Que tudo o que já viu na vida foi o Bela Lugosi envolvendo a sua vítima lentamente com a capa, e deixando pra sua imaginação o que quer que fosse acontecer depois. Agora note como Terence Fisher constrói a cena de modo a ir revelando muito lentamente as presas de Valerie Gaunt, em close, se aproximando mais e mais do pescoço indefeso do pobre (e fofo) John Van Eyssen. Agora, imagine a galera nos anos 50 arregalando os olhos pouco a pouco diante da revelação dessa imagem, a respiração suspensa, mal acreditando no que estão vendo. Até que, numa inesperada e absoluta convulsão de horror, a câmera corta para a boca ensanguentada e sibilante de Christopher Lee! Percebe como a Hammer não estava de brincadeira ao entrar de sola no mercado do cinema de horror?😉


O filme é cheio de sacadas visuais como essa, que hoje, inevitavelmente vão nos parecer clichês. Desde o sangue vermelho e berrante que respinga sobre o caixão nos créditos de abertura, até o antológico momento em que Peter Cushing corre por cima da mesa e junta os dois castiçais para obter uma cruz diante do espantado vampiro. Outras ideias já não me parecem funcionar tão bem e, talvez por isso, tenham sido abandonadas sem cerimônia nos filmes posteriores, como as insinuações pseudocientíficas do Prof. Van Helsing de que o vampirismo seria uma espécie de doença (alergia à luz do sol?🤔) e que as transformações em lobos e morcegos nunca passaram de superstições e folclore (Drácula virou morcego trocentas vezes nas continuações, mas lobo, pelo visto, continuou um pouquinho acima da média dos orçamentos da Hammer😅).

Melissa Stribling, sucumbindo à sedução do
novo Drácula (é "sedução" sob hipnose?🤔)
Também me parece um tanto prejudicial, por mais esquisito que isso possa soar para quem for purista, que o filme ainda tente sustentar um certo "lastro", por assim dizer, com o livro original. Uma hesitação entre preservar ou abandonar os acontecimentos e personagens do romance, deixando o enredo meio desajeitado em vários momentos. Tipo, chacoalhar o papel de Jonathan Harker, e os seus objetivos no castelo do conde, de modo a dar aquela acelerada na ação vampírica como o Jimmy Sangster queria, é um ponto de partida curioso, mas que rapidamente me parece se esgotar num beco sem saída. Eu me pergunto: não teria sido mais sensato chutar o pau da barraca logo de cara, e simplesmente cortar fora o personagem, antecipando a entrada do Prof. Van Helsing de Cushing? Eu não sei... pra mim, quando mais a Hammer foi se "libertando" de quaisquer sentimentos de "obrigação" para com os clássicos, mais arejados, intrigantes e bem desenvolvidos os filmes foram se tornando, tanto na série do Drácula, quanto em Frankenstein.

Sim, estou dizendo que gosto mais das continuações (lide com isso!😜) Sem esquecer, é claro, de tudo o que torna Horror of Dracula e The Curse of Frankenstein os clássicos incontornáveis que eles de fato são, responsáveis por explodir as fronteiras do gênero e revitalizar o horror gótico cinematográfico depois de um longo e desesperador período de dormência, desde o final da era de ouro dos Monstros da Universal. Mas, talvez pelo próprio pioneirismo, esses filmes só podiam ir até um certo ponto, primeiro abrindo as portas, e apontando os novos caminhos, para aí sim os filmes seguintes se verem livres pra trilha-los com mais ousadia e desenvoltura. É é nesse sentido, mais do que qualquer outro, que são, sem dúvida, obras clássicas. O Conde Drácula diabolicamente "sedutor" de Lee (ainda é "sedução" quando você tem poderes hipnóticos?🤔) e o Barão Frankenstein charmosamente inescrupuloso de Cushing evidenciam logo de cara o seu potencial para, digamos, uma rica continuidade criativa, muito mais do que quaisquer das grandes franquias que acabariam surgindo no cinema de horror nas décadas posteriores. E não demorou para que a Hammer começasse a explorar as possibilidades... ainda que com alguns percalços no caminho...



1959: Brides of Dracula
(As Noivas do Vampiro AKA As Noivas de Drácula)
Direção: Terence Fisher
Roteiro: Jimmy Sangster, Peter Bryan, Edward Percy, Anthony Hinds

A necessidade, como dizem, é a mãe da invenção. O sucesso estrondoso de Drácula tornava imperativa a produção de uma continuação o mais rápido possível. Mas, ao contrário da série Frankenstein, aqui a Hammer tinha um pequeno problema técnico: o tio Christopher Lee não estava mais interessado em ser o "monstro" do estúdio. Algo perfeitamente compreensível, pra ser bem sincero. Até esse ponto, Lee já tinha feito o monstro de Frankenstein, o Drácula, a Múmia, e estava de saco cheio de usar maquiagem pesada e se machucar nas cenas de ação (tinha recentemente deslocado o ombro ao derrubar uma porta cenográfica e dado um jeito nas costas ao carregar a atriz Yvonne Furneaux por um pântano lamacento, tudo isso só nas filmagens de A Múmia), sem contar o medo bastante real de ficar estigmatizado como "aquele cara grandão que faz papel de monstro".

Andree Melly, a mais icônica
das Noivas de Drácula.
Para não perder o timing, a Hammer apelou para o sempre ponta firme Peter Cushing, fazendo de seu Van Helsing o elemento de continuidade entre os dois filmes. E assim, a primeira continuação do Conde Drácula da Hammer Films acabou sendo feita... sem o Drácula. Claro que isso é mais do que suficiente pra qualquer um torcer o nariz, e é justamente pra evitar que você cometa esse erro que me outorgo ao direito de atestar, de forma firme e categórica, que Brides of Dracula não só é um dos melhores filmes da série, como da Hammer como um todo, compensando lindamente a ausência de Lee com um verdadeiro festival de ideias inusitadas e imagens deslumbrantes, sustentadas por uma trama completamente livre de qualquer "lastro" para com o romance original. E se o roteiro tem lá seus furos e inconsistências, isso quase nem faz diferença diante de tamanha beleza gótica.🥀 Uma atmosfera de sonho, nem um pouco naturalista, cuidadosamente construída por uma direção de arte estilizada que empresta ao filme a qualidade etérea de um conto de fadas dark. O tipo de requinte estético que é praticamente destruído no seu primeiro lançamento em bluray que inexplicavelmente mutilava o aspect ratio original de 1.66:1 para 2.00:1, algo que não faz o menor sentido, a não ser que a intenção fosse mesmo estrangular os enquadramentos de Terence Fisher!😡 (se, por acaso, você souber onde tem pra baixar o releases mais recentes em 1.66:1 da Shout Factory, por favor me dê um toque nos comentários🙏).

Se Freda Jackson manda você
sair do túmulo, você sai!
Não que todo mundo admire o filme tanto quanto eu. O principal ponto dos detratores é que o Barão Meinster não é lá muito impressionante como o arqui-vampiro da vez. Até concordo em parte. De fato, David Peel não tem a imponência de Lee, mas sua performance é perfeitamente adequada pra premissa de um "filhinho de papai" vampiro, o herdeiro indolente e egoísta dos senhores feudais do passado, que acaba se tornando incontrolável até para os próprios tutores, algo bem de acordo com a tradição mais simbólica da imagem do vampiro, seja na literatura ou no cinema fantástico. Independente disso, gosto de chamar a atenção para o fato de que o título do filme, afinal, é Brides of Dracula! Se, por um lado, é meio propaganda enganosa (se não tem Drácula, imagina as suas noivas😅), por outro são mesmo as mulheres que carregam essa história. Se não necessariamente pelo roteiro (que, é claro, se estrutura mais em torno do "duelo de paus" entre Van Helsing e o Barãozinho Boy Lixo), definitivamente pelo desempenho marcante das suas intérpretes. Peel pode não ser lá muito memorável, mas a cena em que Yvonne Monlaur (simplesmente encantadora como a nossa nova protagonista e dama gótica da vez) o avista da sacada em meio a um enquadramento que mescla matte painting e perspectiva forçada, revela-se um quadro tão majestoso que chega a tirar o fôlego. Martita Hunt mal precisa se esforçar para evocar a sensação de despeito e ameaça que emana de sua Baronesa Meinster, e Freda Jackson eleva a expressão "varrer o cenário" para um outro patamar com as gargalhadas absurdas e a poderosíssima presença em cena da sua desvairada criada/feiticeira Greta. E não dá pra esquecer da absolutamente mesmerizante Andree Melly, que apesar do pouquíssimo tempo em tela, acabou se tornando uma das vampiras mais queridas e icônicas da história do cinema de horror.

Peter Cushing, o Errol Flynn dos detetives
do oculto, e Yvonne Monlaur, nossa
encantadora heroína gótica da vez.
E fazendo escada pra essa mulherada poderosa toda, está o bom e velho Peter Cushing, num desempenho ainda mais vibrante do que no filme anterior. Pode parecer bizarro para as plateias de hoje em dia, mas o fato é que, nessa época, o Van Helsing de Cushing era, para todos os efeitos, um "herói de ação". Combinado o senso de aventura e maravilhamento dos filmes de capa e espada a la Errol Flynn com as deliciosas parafernálias místico-científicas dos detetives do oculto da literatura pulp. Não tem como não se encantar com a verdadeira "aula de primeiros socorros para casos de mordida de vampiro", ou com a inacreditável sequencia final no moinho, que tem uma das sacadas visuais mais geniais que já tive chance de ver em toda essa minha vidinha de garimpeiro de horror gótico old school (e que, claro, não revelarei aqui, porque spoiler não tem data de validade, e ninguém merece ser privado do prazer que tive quando fui surpreendido por essa cena pela primeira vez😜). É pena que Cushing só voltaria para a série na década de 70, e não mais como o Van Helsing desses dois primeiros filmes, mas sim uma espécie de "descendente distante". Ao contrário do clichê típico das reportagens superficiais sobre a Hammer Films, falando dos "eternos conflitos entre Drácula e Van Helsing", o fato é que Cushing e Lee só trabalharam juntos em três dos nove filmes da série, e sendo que só no primeiro o conde enfrentou o Van Helsing original. Um desperdício e tanto por parte da Hammer.😐 O próprio Cushing, no documentário Flesh and Blood: The Hammer Heritage of Horror, dá a impressão de não saber ao certo porque isso aconteceu. Mas, enfim, voltaremos nisso depois, quando o tio também voltar para a série.




1966: Dracula, Prince of Darkness
(Drácula, o Príncipe das Trevas)
Direção: Terence Fisher
Roteiro: Jimmy Sangster, Anthony Hinds

A reticência de Lee em retornar ao personagem que o consagrou durou longos oito anos, durante os quais teve muitas oportunidades de diversificar seus papéis, tanto dentro quanto fora da Hammer (sua performance de bon vivant em The Two Faces of Dr. Jekyll, de 1960, sempre foi mencionada como um dos seus papéis favoritos, provavelmente por ser o exato oposto de tudo aquilo que havia feito para o estúdio até então). Talvez por isso, mais as ditas "chantagens emocionais" que dizia que a Hammer fazia com ele ("já vendemos o filme com você nele, se não topar olha quantos profissionais vão ficar sem trabalho!") sem contar a consciência de que o mercado de cinema de baixo orçamento nunca foi estável o bastante para se permitir ao luxo de dispensar jobs indefinidamente, acabou por fim cedendo e topando vestir a capa novamente. E que bom que o fez: Dracula, Prince of Darkness, na minha modesta opinião, é o filme que verdadeiramente define o Drácula ao estilo Hammer e, por tabela, a figura do vampiro para o restante do século XX. Se não tivesse existido, até teríamos um clássico em Horror of Dracula, porém mais como uma notável reinterpretação do romance de Bram Stoker, em contraposição à versão clássica da Universal de 1931. A partir daqui, o Conde Drácula de Christopher Lee se tornaria um ícone em seus próprios termos (e a despeito até do próprio Lee, que nunca entendeu realmente o potencial desse "novo" Drácula, para além da sua "infidelidade" ao personagem original).

Nasce o legítimo Drácula
da Hammer Films.
Não que a Hammer necessariamente soubesse o que estava fazendo. O modus operandi do estúdio sempre teve mais a ver com improvisos inspirados, e sacadas de última hora com vistas ao orçamento. Até a ideia do vampiro não falar, expressando-se apenas por sibilos e interjeições, algo tão fundamental neste filme, é difícil de se rastrear até uma origem (Lee sempre afirmou que os diálogos eram péssimos demais para serem ditos, Jimmy Sangster jura que o roteiro já não tinha diálogos, escolham a versão que mais lhes diverte😉). Independente disso, o resultado é um personagem que nega à audiência qualquer elemento de conexão, ou mesmo identificação. Uma presença fria, autoritária e dominadora, com a qual nenhuma forma de conciliação é possível. Um ser puramente mal, incapaz de empatia ou de realizar qualquer ação que não seja a mais vil e mesquinha, movido unicamente por caprichos, desejos e impulsos, como uma criança egomaníaca, dotada de poder para fazer valer as suas vontades. Mesmo que o conde voltasse a ter diálogos nos filmes posteriores, essa imagem quase totêmica de um tipo de princípio do mal em estado bruto se manteve, tornando-se o padrão da série desse ponto em diante. Pode parecer pouco para uma audiência mais acostumada com os vampiros humanizados e (hiper)carregados de subjetividade, a la Anne Rice. O Drácula de Lee pode, realmente, ser definido como superficial. Ele é um monstro, e ponto. Talvez um dos monstros mais absolutos da história do cinema de horror. Mas é justamente essa superficialidade que constitui sua potência. Ele é pura alteridade. O supremo "outro". Um vazio significativo capaz de adensar em si os diversos temas que cada roteiro buscaria tratar. Mas, acima de tudo, um vácuo capaz de tragar, como um buraco negro, a subjetividade dos personagens... e da audiência.


Não por acaso, o enredo inteiro de Dracula, Prince of Darkness parece girar em torno da arrebatadora sequencia em que vemos o conde renascer das cinzas pela primeira vez, num dos mais extraordinários efeitos de sobreposição de imagem já produzidos para o cinema. Lee, literalmente, se materializa diante dos nossos olhos, camada por camada de ossos, músculos e pele, em meio a um lodaçal de sangue, tudo num (aparente) plano único, sem cortes perceptíveis. Para além do triunfo técnico, a cena é simbolicamente poderosíssima. Não só expressa o "nascimento" desse "novo" Drácula da forma mais visceral possível, como sub-repticiamente insinua a absoluta impossibilidade de vencer o mal. Mesmo que se revele frágil em inúmeros aspectos (afinal, um simples mergulho na água corrente pode "matá-lo", mas falaremos mais disso no próximo filme😉), nada parece superar a infinita capacidade do mal de "reciclar". Basta um afeto baixo (e um pouco de sangue), e o ciclo começa outra vez.

Barbara Shelley, fazendo jus ao seu papel
de diva do gótico britânico
, ao tirar
uma casquinha da Susan Farmer.
A ironia (como a galera mais atenta já deve ter até se ligado) é que essa abordagem não deixa de nos levar de volta a Stoker. Mais até, talvez, do que várias das versões ditas como fiéis. Elementos chave do livro, como o estupro simbólico de Mina, ou o papel da servidão voluntária (e basicamente sadomasoquista) no ciclo de renovação do vampiro, vão dando seu jeitinho de se reencaixar numa trama que, a princípio, seria tão livre daquele "lastro" para com o clássico quanto Brides of Dracula. É fato que Peter Cushing faz bastante falta (ainda mais com a sua memória tão bem "evocada" pela recapitulação do prólogo), mas a presença imponente (e apropriadamente ambígua) de Andrew Keir, como o Padre Sandor, preenche bem o vazio deixado pelo velho Van Helsing. O novo elenco, na real, é tão fofo que nós realmente torcemos (em vão) para que todo mundo escape da fúria do conde, especialmente a diva Barbara Shelley, que com o seu desempenho circunspecto e comovente como a única pessoa sensata do grupo (aquela que passa o filme inteiro insistindo que ideias como aceitar pernoitar num castelo desconhecido não vai dar bom, apenas para ser sistematicamente ignorada e tachada de reprimida por todo mundo, inclusive a audiência😜), consegue não apenas nos fazer lamentar pelo seu terrível destino, como meio que redime toda aquela galera que, como eu, sabe muito bem que a vantagem do pessimismo é só ter surpresas boas.😜 Em suma, Dracula, Prince of Darkness, fecha maravilhosamente a "trilogia de abertura" (ou também poderíamos dizer, trilogia Terence Fisher) do Conde Drácula da Hammer. A partir daqui, não dá pra dizer que os filmes mantenham o mesmo nível de qualidade, ou mesmo de respeito crítico, mas decerto cada um tem o seu espacinho garantido no seleto panteão das obras cult. Merecidamente, como veremos...


1968: Dracula Has Risen from the Grave
(Drácula, o Perfil do Diabo)
Direção: Freddie Francis
Roteiro: Anthony Hinds

Talvez a primeira curiosidade a ser ser dita sobre Dracula Has Risen from the Grave (título maravilhosamente autoexplicativo, não?) é que esse é o favorito pessoal do Tim Burton.😉 E é fácil de entender o porquê, basta dar uma olhada nas matte paintings vertiginosamente expressionistas que surgem sempre que os personagens saltitam pelos telhados da vila no meio da noite. É de chorar de tão lindo.😍 A Hammer, bem de acordo com a tradição gótica, sempre preferiu a beleza imagética ao mero realismo, e tendo em mãos um diretor como Freddie Francis que, antes de mais nada, era um grande fotógrafo, essa qualidade de conto de fadas pôde se destacar com ainda mais força. Dracula Has Risen from the Grave é o filme mais caleidoscópico da série, um show de cores primárias e cenários de sonho, que ajudam a compensar uma trama que já começava a ter dificuldade pra escapar da repetição.

Todas as cores do mal.
Veronica Carlson e, claro, Christopher Lee.
Pela primeira vez, Drácula abandona seu "lugar de poder" e sai em perseguição de um bispo (Rupert Davies) que ousou selar a entrada do castelo com uma gigantesca cruz abençoada. Aqui você poderia dizer que bastaria ordenar ao servo humano para que tirasse a cruz de lá. Afinal, é pra isso que os servos humanos... servem, não? E ok, pode muito bem ser só um furo de roteiro, como muitos que a Hammer deixava passar. Mas, se me permitem, eu acho mais interessante (e muito mais divertido) encarar esse ponto como um elemento a mais da caracterização egomaníaca e quase infantil que foi sendo desenvolvida para o conde a partir do filme anterior. A ideia que o vampiro é tão... hiper-focado, que simplesmente não lhe passa pela cabeça que a tal vingança só serve para lhe colocar em risco, literalmente obrigando-o a mocozar seu caixão nos esconderijos mais fuleiros, e a depender cada vez mais dos eventuais escravos humanos.

É uma curiosa extrapolação, quase caricatural, do paradoxo que parece atravessar essa ideia de um "mal" que se corporifica em criaturas sobrenaturais, não apenas nessa série, mas na ficção gótica como um todo. Ainda que poderosos e, no limite, impossíveis de erradicar de forma definitiva (como bem insinua o filme anterior) os vampiros se revelam pateticamente... frágeis. Vulneráveis às coisas mais prosaicas. Alho, símbolos religiosos, a necessidade de dormir em caixões, a impossibilidade de cruzar água corrente, enfim, toda uma lista de "regras" que parece interminável, acumulada por mais de cem anos de convenções literárias e cinematográficas. E diferente de nós, pobres mortais, tão bons em contornar e dar nossos pulos, vampiros simplesmente não podem burlar as regras! Eles não entrarão na sua casa a menos que você convide. Por que não? O que os impede? Nada. Regras. Eles podem nos seduzir, podem até trapacear para que os deixemos entrar, mas no fim precisam de nós. Para convidá-los. Para servi-los. Para salvaguardar uma existência tão antinatural que se torna frágil como a chama de uma vela. Não importa, o mal vai seguir suas regras. Pois sabe que pode contar conosco, nós que caminhamos ao Sol, e fazemos nossas próprias regras, para acender a vela novamente.

As deslumbrantes matte paintings que
tanto fizeram a cabeça do Tim Burton.
Esse não é bem o "foco" do roteiro de Anthony Hinds, se é que havia um, mas me parece que o atravessa sempre que o conflito desemboca num jogo de "pode ou não pode", de "não vou até aí,  você vem até aqui", de risco calculado e regras se esgarçando e, pouco a pouco, se embolando, conforme o tema que, aí sim, me parece intencional, começa a se destacar em meio a trama: a questão da fé. Barry Andrews é um herói atípico. Sendo ateu, ele simplesmente não consegue se valer das regras com a mesma desenvoltura dos protagonistas anteriores. A cruz é apenas um objeto. Orações são palavras vazias. E a própria existência do vampiro já o põe em xeque com todo um sistema de lógica e de valores. Do outro lado, nós temos o padre, dolorosamente interpretado por Ewan Hooper, que definitivamente é um homem de fé, mas fraco demais para sustenta-la diante do mojo de Christopher Lee. Diferente de Andrews, ele conhece as regras, acredita nelas, mas não tem coragem de usá-las. Sua fé não tem sustentação na vontade, e não pode salvá-lo de se tornar outro servo de Drácula. É no conflito entre esses dois polos, orbitando em torno desse "princípio do mal" encarnado em Drácula, que o filme encontra um foco, uma razão de ser, e algo para dizer. Sobre encontrar a fé naquilo que é maior do que você mesmo (o ateu que acha a prova da existência de Deus no confronto com o sobrenatural), e a (re)descoberta da fé em si mesmo, que o padre tanto precisa para quebrar o domínio do vampiro. Tudo bem que não dá pra esperar um tratado sobre esses temas tão complexos (é um filme da Hammer, não do Ingmar Bergman😅). Mas, já empresta à Dracula Has Risen from the Grave uma identidade (e dignidade) pra além do Drácula dando uns malhos em aterrorizando a Barbara Ewing, ou perseguindo a Veronica Carlson, desfilando pelos telhados da vila com sua camisola esvoaçante. Pro Tim Burton já valeu.😅




1970: Taste the Blood of Dracula
(O Sangue de Drácula)
Direção: Peter Sasdy
Roteiro: Anthony Hinds

Depois de passar tantos anos resistindo a voltar ao papel, em 1970 o tio Lee aparentemente tocou o "foda-se". Não só topou fazer dois filmes pra Hammer no mesmo ano, como foi até a Alemanha interpretar uma versão mais fiel ao livro, com o diretor espanhol Jesus Franco, e ainda achou um tempinho para vestir a capa em uma comédia dirigida pelo Jerry Lewis, ironicamente chamada One More Time!😶 Que coisa, né? Na verdade, não é difícil entender. Nessa época a Hammer já estava começando a entrar na sua fase dita como "decadente", penando pra encarar a concorrência com o ascendente e furioso terror setentista americano, que acabaria por enterrar o estúdio poucos anos depois. Não era hora para ser seletivo, por mais que Lee detestasse os roteiros cada vez mais distantes das palavras de Stoker. Até imagino que topar fazer o filme do Franco tenha sido uma tentativa de provar seu ponto pra Hammer. Segundo ele, El Conde Dracula era "um filme problemático por uma série de razões", mas lhe permitiu ser o único ator a interpretar Drácula exatamente como foi descrito no livro: "um velho aristocrata, de cabelo e bigode brancos, inteiramente vestido de preto, sem o menor sinal de cor".

Anthony HigginsLinda Hayden,
o poder da juventude.
Mas se você não for tão purista quanto o tio, poderá encontrar muitas qualidades nesse quinto exemplar da série. De fato, Taste the Blood of Dracula é um dos meus favoritos. Não que eu teime em defende-lo numa análise crítica mais fria frente aos muito superiores três filmes iniciais dirigidos pelo Terence Fisher, mas para além de uma direção de arte impecável, e uma cara de pau deliciosa para atalhos dramatúrgicos (eu AMO o padre doidinho na carruagem😅), essa é, sem dúvida, uma produção com identidade e um tema de fundo que a torna particularmente marcante, em especial nesse período de transição entre os anos 60 e os anos 70: os pecados dos pais assombrando as vidas dos filhos.

Geoffrey Keen, Peter Sallis e John Carson são três... cavalheiros de fino trato. Sabe o tipo? Meia idade, bem sucedidos, ricos? Brancos, héteros e cis? É por aí! Do tipo que impõe aquele moralismo ferrenho e castrador diante do desabrochar da sexualidade de seus filhos (e particularmente, filhas) enquanto satisfazem os vícios nos bordéis de luxo da cidade, justificando os gastos como doações para obras de caridade. Cidadãos de bem. Até que, numa dessas esbórnias, particularmente entediados com os opções de rotina, acabam caindo na conversa de um lordezinho metido a besta (Ralph Bates, sabendo ostentar muito bem aquilo que os coaches chamariam de "aura de sucesso e relevância") que os envolve num bizarro ritual improvisado para trazer Drácula de volta a vida (não me perguntem pra que, sei lá o que se passa na cabeça de milionário aristocrata😅) e claro que dá merda. O conde, mais egocêntrico e ranheta do que nunca, se irrita por alguma razão não particularmente bem justificada pelo roteiro, e jura perseguir os burgueses safados até a morte.

Linda HaydenIsla Blair,
tocando o terror nos veteranos.
Mas aí é que vem o pulo do gato: o vampiro não os persegue diretamente, mas sim através dos seus filhos. Corrompendo-os, e tornando-os ferramentas sádicas para atormentar os progenitores. É curioso. Nunca antes na série essa imagem do conde como uma espécie de "representação arquetípica do mal" se mostrou tão efetiva. Basicamente, Drácula se torna a encarnação viva da influência nefasta dos mais velhos maculando a pureza da juventude. E não me refiro a pureza no sentido de "pudico" ou "celibatário", afinal tudo o que os jovens queriam era ter a liberdade de se curtir livremente, sem as interdições hipócritas impostas pelos pais. Numa pegada bem de acordo com os movimentos sociais do período, o filme se coloca numa posição de defesa da sexualidade livre, saudável e "orientada pelo amor" dos jovens, em contraposição a luxúria predatória, regida por relações de poder e dinheiro, dos "cavalheiros" da alta sociedade. Claro que não exatamente sem contradições. O tropos da mocinha virgem e doce que se torna uma vampira agressiva e voluptuosa segue firme e forte, obrigado (Linda Hayden, estou falando com você❤️), mas, de alguma forma, isso é relativizado pela quase completa subversão das típicas figuras de autoridade representadas pelos "grandes matadores de vampiro" que, aqui, não teriam como ser mais duvidosos. Não é de se espantar que, dessa vez, o covil de Drácula seja justamente uma igreja profanada. Que cenário seria mais apropriado para um duelo final entre o "bem" e o "mal" (ou seria entre o velho e o novo) tão maravilhosamente ambíguo?

É um plot surpreendentemente atípico pra Hammer, que, no geral, sempre tendeu a ser mais conservadora (compare com The Devil Rides Out, de dois anos antes, com sua "juventude perdida" constantemente resgatada das "más companhias" dos satanistas, por aristocratas sábios e virtuosos). Nesse sentido, Taste the Blood of Dracula (ao lado de Twins of Evil) acaba sendo uma das mais interessantes tentativas de "modernizar" o estúdio, mesmo que o resultado final acabe sendo meio irregular. O roteiro nem fazia parte da série Drácula originalmente, mas acabou sendo adaptado para incluir tanto o conde quanto o Ralph Bates, que a Hammer queria muito vender como o seu novo "astro" na época. Provavelmente isso explica as várias inconsistências que vão se acumulando no decorrer da projeção, e só podemos especular como a história teria ficado se fosse produzida como foi concebida. Mas, levando tudo em conta, me parece apropriado ver o Drácula de Lee no papel desse "símbolo corruptor da juventude". Funciona. Faz sentido. E enriquece a série bem mais do que ficar caçando formas de reencaixar falas de Stoker, como o tio certamente teria preferido.😏






1970: Scars of Dracula
(O Conde Drácula)
Direção: Roy Ward Baker
Roteiro: Anthony Hinds

Pra quem achava que reboots são coisa de hoje em dia, a dobradinha Scars of Dracula e Horror of Frankenstein foi uma tentativa frustrada da Hammer de "reiniciar" as suas mais longevas franquias numa sessão dupla duvidosamente alardeada por materiais promocionais tais como o lobby card acima. A ideia, basicamente, era ignorar os filmes anteriores e criar um ponto de partida para uma nova audiência, mas enquanto Horror of Frankenstein teve a ousadia de trocar Peter Cushing por Ralph Bates (que, como eu comentei acima, estava em pleno processo de "construção de estrelato") e, efetivamente, recomeçar a história do zero, Scars of Dracula se mostra bem mais tímido como um pretenso reboot. A presença marcante de Lee, de cara já impede que a plateia se desconecte do passado recente da série (bem recente, aliás, o último filme tinha saído naquele mesmo ano!) e a "nova" dinâmica, com o conde de volta ao seu velho castelo nos Cárpatos (com direito até a uma ou outra fala mais ou menos no estilo do Stoker, pra deixar o tio mais feliz) torna inevitável uma sensação de deja vu. De todos os filmes da série, Scars é, sem dúvida, o mais próximo daquele padrão de continuações que nos acostumaríamos da década de 80 em diante. Pouco mais que mera repetição de ideias, com algum acréscimo de violência e gore, uma diminuição generalizada da sutileza e, pela primeira vez na série, até um poquito de nudez gratuita (feminina, óbvio).

Jenny Hanley, a nossa bela
mocinha da vez.
Claro que daria pra sermos mais condescendentes com essas repetições se a gente pudesse encarar o filme como um remake de Horror of Dracula, assim como Horror of Frankenstein é um remake de The Curse of Frankenstein. Muita coisa do primeiro terço remete ao filme original de Terence Fisher, com um Drácula super refinado e cavalheiro, recebendo Christopher Matthews em seu castelo com toda pompa e cortesia, apenas pra se revelar bastante rápido como aquele mesmo monstro egomaníaco que já conhecíamos dos filmes anteriores. Tem até uma "noiva", vivida por Anouska Hempel dessa vez, que fica se alternando entre ameaça e aliada para o suposto protagonista. O problema é que a Hammer já "mata" a possibilidade dessa leitura com um prólogo visivelmente improvisado em que um morcego genérico traz Drácula de volta a vida dando uma cuspidinha de sangue nas suas cinzas (sim, até eu tenho vergonha alheia... e olha que sou bonzinho😖), o que deixa bem claro que deve ter rolado muita bateção de cabeça nos bastidores para decidir o que esse sexto filme deveria de fato ser: Um remake? Um reboot? Continuação? E é claro que, no fim, quem quer que entrasse no cinema naquele finalzinho de 1970, veria o filme como a única coisa que ele indiscutivelmente é: mais um Drácula com Christopher Lee.

Patrick Troughton, demonstrando
como é negociar com o seu patrão.😝
Não que o resultado seja um "desastre". Dificilmente um filme da Hammer deixa de ser, no mínimo, agradável, por mais fraquinho que seja. Mas não tem como negar que sobra pouco de memorável após o fim da sessão. Especialmente se comparado aos filmes anteriores (e mesmo posteriores). Rolam bons momentos aqui e ali, como o ataque dos morcegos na igreja (supondo-se, é claro, que depois de cinco filmes você já esteja hábil na arte de abstrair os barbantes😜), o emparedamento do herói da vez na câmara selada onde o vampiro repousa (finalmente dando ao Drácula da Hammer a habilidade de rastejar pelas paredes como uma lagartixa, igual ao romance original de Stoker), sem contar a performance intensa de Patrick Troughton, nosso eterno Doctor Who, como o atormentado servo Klove (que, ao que parece, não é o mesmo Klove que Philip Latham interpretou em Dracula, Prince of Darkness, mas, se for ver, tanto faz). Entre uma coisa e outra, a finesse habitual da Hammer segura as pontas, enchendo nossos olhos com aquela extravagância gótica em cores primárias que a gente tanto aprendeu a amar, e que, de fato, veríamos cada vez menos nos filmes que viriam, conforme o estúdio foi abandonando as suas origens, e se deixando atravessar pela estética mais "realista" da década de 70. Dá até pra dizer que, nesse sentido, Scars of Dracula funciona como uma espécie de "canto do cisne" da fase áurea do estúdio, ao menos dentro do contexto da série, mas isso me parece pouco pra dotá-lo de uma identidade própria, e um senso de propósito que consiga extrapolar a mera necessidade comercial de seguir adiante com a franquia até os últimos estertores. Se tivesse acabado aqui, teria sido um "final" bem melancólico. Ainda bem que as "emendas" acabaram saindo (relativamente) melhor que o soneto.😉




1972: Dracula A.D. 1972
(Drácula no Mundo da Minissaia)
Direção: Alan Gibson
Roteiro: Don Houghton

Fala a verdade: Drácula no Mundo da Minissaia não é o melhor título que você já viu? É sério! Não me olhe assim, eu adoro mesmo!😁

Caroline Munro, se entregando (quase
que literalmente) ao Conde Drácula
de Christopher Lee.
Pro bem ou pro mal, dessa vez não dá pra negar que a Hammer realmente sacudiu a série. E com uma ideia que, se for ver, era até meio óbvia, mas em grande medida inevitável: catapultar o velho conde direto para a Londres do século XX, em plena era do swinging! Ou, mais precisamente, um pouco depois da era do swinging, o que meio que foi fatal pro filme, que praticamente já estreou datado.😅 Não que isso faça tanta diferença quando você assiste quarenta ou cinquenta anos depois. Para mim, Dracula A.D. 1972 é um verdadeiro desbunde!🥰

Dadas as devidas proporções, é claro. No que se refere aos objetivos da Hammer, a coisa toda foi um fiasco inacreditável. Me pergunto se o roteirista Don Houghton realmente achava que a melhor maneira de se conectar com as audiências da época seria retratando a juventude setentista como um bando de cabeças de vento que, ao fim e ao cabo, teriam que ser resgatados pelos mais velhos, exatamente como rolava em The Devil Rides Out, por exemplo. É uma visão tão "de fora" da efervescência sócio-cultural do período, que quase poderia ser vista mais como sátira de costumes do que como um filme de horror. E não deixa de ser. O ponto é que "funciona"... se você puder se manter no espírito "certo". O ritual despirocado regido pelo Christopher Neame é um bom exemplo: pode-se rir dele, ou com ele. Mas, quer seja satírica ou não, a cena é um verdadeiro tratado das esquisitices ocultistas do período, deliciosamente nonsenseover do over. É sexo, drogas e música experimental psicodélica, bicho! Tem como ser mais groovy? E eis que, do meio dessa pataquada toda, Christopher Lee ressurge das profundezas, e você se dá conta, e em choque, que essa foi, na verdade, uma das melhores (e mais arrepiantes, se não exatamente assustadoras) ressurreições de Drácula de toda a série.😮

Com ele por perto, ninguém precisa temer
o mal. Peter Cushing, com sua "neta",
Stephanie Beacham, de volta à série pela
primeira vez desde Brides of Dracula.
É fácil, eu acho, se deixar levar pelos defeitos mais óbvios de Dracula A.D. 1972. Ele erra feio o alvo pretendido pelo estúdio, é caricato, é cafona (isso é defeito?🤔), e, em grande medida, faz propaganda enganosa, já que Drácula nunca interage realmente com a Londres do século XX (algo que espelha as próprias reticências de Lee para com a ambientação contemporânea, mas quando é que o tio deixou de implicar com alguma coisa?). O lance é que muito do que o filme entrega, tem real impacto. Lee não sai daquela igreja profanada, ok, mas tudo o que ele faz lá dentro é, no mínimo, poderoso. Desde o Dracula, Prince of Darkness não o vemos tão demoníaco. Tão legitimamente assustador. Caroline Munro adorava dizer que entrou em pânico de verdade no set. "Ele apareceu, com aquele rosto branco, tão alto, aqueles olhos negros, e avançou na minha direção. Eu juro, não precisei atuar. No que me diz respeito, minhas reações eram reais. Eu estava sendo mordida pelo Drácula!" Exagero (ou fantasia?😜) de uma atriz que sempre pareceu meio ingênua nas entrevistas? Pode ser. Mas o lance é que, quando nós vemos a cena, a gente realmente acredita!😉

E acreditamos em Peter Cushing também, é claro. Enfim retornando a série, para enfrentar o conde vampiro pela segunda vez desde 1958. Ok, não é mais aquele Van Helsing de Horror of Drácula e Brides of Drácula, e sim o seu "descendente", mas quem é que tá ligando pros pretextos? O que importa é ver os dois juntos de novo. A presença de Cushing é tão "certa", que é quase como se ele sempre tivesse estado lá. A própria Hammer parece fazer um mea culpa desse inexplicável desperdício do ator e do personagem, com um prólogo que, pela primeira vez, desconsidera totalmente a "morte" de Drácula no filme anterior, e insinua todo um histórico nunca antes visto de confrontos entre os dois célebres inimigos. Picareta, sim, mas adequado. Cushing, acima de tudo, é quem "vende" essa ideia de um Drácula vingativo à solta nos anos 70. Algo que renderia à série não apenas os seus dois únicos filme com uma continuidade direta, como um tipo de "desfecho" (ou quase) com alguma dignidade.




1973: The Satanic Rites of Dracula AKA Count Dracula and His Vampire Bride
(Os Ritos Satânicos de Drácula)
Direção: Alan Gibson
Roteiro: Don Houghton

The Satanic Rites of Dracula talvez seja o filme mais desprezado da série, a começar pelo próprio Lee, que o considerou a gota d'água para abandonar a capa de vez. E de forma bem melodramática, jurando nunca mais interpretar Drácula novamente. É um filme problemático, sem dúvida. Com alguns momentos inacreditáveis de tão constrangedores, como a cena em que o Drácula estupidamente mete a mão numa bíblia que o Van Helsing tinha acabado de mocozar na sua escrivaninha. Mas, no somatório geral, e com uma revisão mais cuidadosa, essa continuação direta de Dracula A.D. 1972 (direta mesmo, é o único filme da série que trás de volta outros personagens além do Drácula e do Van Helsing, tipo o detetive vivido nos dois filmes por Michael Coles, e Jessica, a neta do professor, interpretada anteriormente por Stephanie Beacham e aqui por Joanna Lumley) é bem mais interessante do que parece, até superando, em alguns aspectos, a primeira incursão do conde vampiro nos anos 70.

Joanna Lumley, prestes a se tornar mais uma
das (acorrentadas🤨) noivas de Drácula.
Pra começo de conversa, o vampiro não apenas sai da tal igreja profanada dessa vez, como se apropria muito bem, obrigado, das idiossincrasias do século XX. Meros dois anos após os eventos do último filme, Drácula ressurge como um grande empreendedor, um poderoso magnata do ramo imobiliário, dono de um império que, socialmente, lhe equivale à posição de senhor feudal de suas origens aristocráticas. Por mim faz todo sentido. E não me espanta que tenha sido tão rápido, dada a persona hiperfocada e egomaníaca estabelecida pela série. Esse ser incapaz de empatia, ou de realizar qualquer ação que não seja a mais vil e mesquinha (é o capitalismo, estúpido!😜). Esquisito mesmo, é o plano de usar esse seu poder e influência justamente para extinguir a espécie humana com uma nova variedade da peste negra. Sem se importar, pelo visto, com o pequeno inconveniente de perder de uma vez toda a sua fonte de alimentação. Parece absurdo, é fato, mas só até Peter Cushing, com sua habilidade única de fazer soar plausíveis até as premissas mais sem noção, fazer a gentileza de explicar tudo pra nós, enquanto nos oferece um charuto e uma xícara de chá: "Talvez, inconscientemente, seja a morte o que ele quer, o fim de tudo. Ele foi condenado à imortalidade, a uma existência de violência, medo e horror. Suponhamos que queira descansar em paz levando todo o universo com ele, a vingança suprema. Milhões morrendo pela peste, a própria figura da morte. Conde Drácula. É a profecia bíblica que ele quer." Não sei vocês, mas pra mim não soa nada mal para um finale. Não é à toa que Marv Wolfman também se valeu desse "desejo de morte" inconsciente do conde, quando chegou a hora de concluir a sua celebrada HQ, A Tumba de Drácula. Afinal como você dá um fim definitivo para um vilão cuja maior habilidade sempre foi, justamente, voltar dos mortos?😉

Peter Cushing, pensando seriamente
se já não é hora de virar a mesa.
Claro que Wolfman teve toda a fase final da revista para desenvolver a sua ideia. Com 90 minutos, num filme que sequer foi produzido com o objetivo de ser um finale, o resultado não poderia deixar de ser meio torto. Mas acabou se tornando o finale mesmo assim, considerando que o filme seguinte pode, no máximo, ser visto como um adendo, quase um spin-off. E para um finale... bem, digamos que poderia ter sido muito pior. The Satanic Rites of Dracula tem um dos duelos mais memoráveis entre Drácula e Van Helsing, mas muito do que o filme "acerta" depende da disposição da plateia. Alan Gibson, e o roteirista Don Houghton, decerto se saem bem melhor, dessa vez, na tarefa de conectar o velho conde ao élan dos anos 70. A ironia é que, pra isso, acabam entregando o filme mais sujo que a Hammer já tinha feito até então. Uma pegada de sordidez e decadência que só encontraria paralelo com Uma Filha para o Diabo, de dois anos depois. Vampiras alucinadas acorrentadas juntas num porão, uma longa cena com uma virgem nua (e sedenta) se regozijando no altar de sacrifício, tudo isso não era nada para o cinema exploitation e o eurohorror da época, mas, num filme da Hammer, com certeza era algo esquisito. Eu adoro. Para mim é fascinante essa guinada final para o horror urbano e o cinismo apelativo setentista. Abraçar o inimigo que lhe derrota, e dançar com ele a sua última valsa. Mas entendo quem, como Lee, enxegue nisso apenas a queda de um outrora respeitado estúdio no mais puro desespero e baixaria. Tudo bem. Também é isso.




1974: The Legend of the 7 Golden Vampires AKA The Seven Brothers Meet Dracula
(A Lenda dos Sete Vampiros)
Direção: Roy Ward Baker, Cheh Chang
Roteiro: Cheh Chang, Don Houghton

Sejamos francos, a única razão pra engolir The Legend of the 7 Golden Vampires como parte da série Drácula é a presença do Peter Cushing. Mas o filme faria muito mais sentido se tivesse seguido o exemplo de Brides of Dracula e fosse simplesmente uma aventura solo do Prof. Van Helsing (o original, ao que parece, já que dessa vez o filme se passa em 1905, ainda que a cronologia não faça o menor sentido). Meter um Drácula genérico (John Forbes-Robertson) só para substituir o Christopher Lee por uns dois ou três minutos no prólogo e no epílogo é muita forçação de barra, e, de cara, já cria uma certa indisposição. Teria sido mais digno simplesmente assumir que o monge Kah (Shen Chan) é o arqui-vampiro da vez (como o Barão Meinster, em Brides), sem essa pataquada do Drácula ter que "possuir" alguém pra poder sair do castelo!🤨 De onde é que tiraram isso, Batmá!?😅

Antes o monge vampiro desconhecido
que um Drácula genérico.😝
Essa atitude meio "tanto faz" do roteiro é o que mais me tira a graça de curtir o filme, na real. Mesmo pelo seu, vá lá, "fator trash" (detesto esse termo, que hoje em dia já não quer dizer mais nada, não quando você vê gente por aí chamando até O Planeta Proibido e A Mosca de trash😣). 7 Golden Vampires é, na verdade, um filme "jogado". Sequer dá pra dizer "improvisado". Tudo nem exala aquele clima de "barata voa" de uma Hammer desesperada para seguir em frente quando já não tinha mais nem a parceria Warner-Seven Arts com quem contar. O fato de ainda ser agradável, apesar de tudo (um testemunho da finesse que o estúdio, bem ou mal, quase sempre conseguia imprimir nos seus filmes, não importa o quão duvidosos) não disfarça a sensação de que ninguém respeitava o projeto, nem como um "trabalho a cumprir". Tudo é rápido, direto, conveniente. Van Helsing na China? Por que não? Os Seven Brothers vieram da vila infestada por vampiros? Por que não? Precisamos financiar a expedição? Tudo bem, Julie Ege é podre de rica! Mas e aqueles thugs que andam atrás dela? Ora, sacos de pancada para o David Chiang e família! Não é uma co-produção Shaw Brothers? Mete uma luta aí! E assim vai. E mal dá pra dizer que as coreografias tenham ido muito além da mediocridade. Também pra que? A festa já tinha virado um velório (o que, pra Hammer, chega até a ser engraçado). O negócio era fechar o caixão e tocar logo esse enterro.🪦

Um elenco simpático, pelo menos.
Robin Stewart, o tio CushingDavid Chiang,
e as lindíssimas Szu Shih e Julie Ege.

Falando assim, parece até que odeio o filme, e nem é bem isso. É mais a tristeza pelo "fim" tão melancólico. Não precisava ser assim. Nesse mesmo ano, o Barão Frankenstein de Cushing se despediu de forma bem mais altiva com Frankenstein and the Monster from Hell, meio que se apropriando do clima de fim de feira, e usando-o como o seu principal combustível criativo. Claro que lá eles tinham o Terence Fisher, mas o Roy Ward Baker poderia ter feito melhor em circunstâncias menos restritas. Não obstante, é óbvio que se tornou uma obra cult, e não é pouca gente que admira a sua mistura tresloucada de kung fu e terror gótico. Ver o tio Cushing ostentando seu chapeuzinho orgulhosamente estereotipado de grande explorador britânico é o tipo da coisa que, por si só, já quase vale a sessão, e não deixa de ser curiosa a tentativa (tímida e igualmente estereotipada) de explorar algumas das peculiaridades dos vampiros do folclore chinês, como aquele lance de ficar marchando aos pulinhos.😅 Que mais? Bom, tem aquele lance de subverter as expectativas (da época), com a formação de dois casais interraciais (Julie Ege, diferente do que sinaliza o primeiro ato, acaba ficando com David Chiang, e não com Robin Stewart, que, por sua vez, se apaixona por Szu Shih), ainda que o destino final de cada casal, faça a gente se questionar sobre os limites desse tipo de sinalização de virtude (sem contar aquela velha história de que é sempre mais fácil lembrar de não parecer racista do que de não parecer sexista, não é mesmo, Star Trek?😜).

Mas, enfim, seja como for, é assim que se encerra uma saga que atravessou toda a história da Hammer Films, e que, para além das suas idiossincrasias, continua encantando novas gerações de fãs pelo mundo todo. No somatório geral, acho difícil negar que a "Franquia Drácula" seja mesmo um tanto inferior ao Frankenstein de Peter Cushing, mas, ainda assim, absurdamente mais interessante do que a maioria das grandes franquias dos anos 80, que tanto fizeram a minha cabeça da infância à adolescência. São filmes que parecem crescer na mente e no coração conforme vou envelhecendo, enquanto os Sexta-Feiras 13 e Elms Street da vida vão encolhendo cada vez mais. Talvez porque, mesmo em seus piores momentos, a Hammer nunca deixou de fazer cinema de horror para adultos, com seus heróis de terceira idade, e a valorização da sabedoria ao invés da mera esperteza, enquanto que os anos 80 fecharam de vez o foco do cinemão mainstream no mercado adolescente. A Hammer poderia ter tido mais heroínas? Decerto, ponto pro horror moderno.😅 Mas sejamos nós meninas, meninos ou menines, o fato é que não estamos ficando mais jovens.😉 Eu sempre brinquei que, quando crescesse, queria ser o Peter Cushing... e a grande verdade é que... eu ainda quero.😊



5 comentários:

  1. Excelente matéria, essa franquia é a minha favorita da Hammer, gosto muito da saga de Frankenstein também mas Dracula tem um lugarzinho no meu coração.

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  2. Parabens ótima analise dessa antologia que eu tanto admiro.

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  3. Gostei muito. tenho em hd externo todos os filmes com Lee, mais as noivas do vampiro e as filhas do vampiro, esse último não comentado nessa apresentação. Senti falta, já que Crushing está no filme. De qualquer modo, bom trabalho. Procurarei ver outros, caso haja, dos seus comentários acerca dos filmes da Hammer. Até.

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    1. Apesar do título brasileiro, "As Filhas de Drácula" (Twins of Evil) não faz parte da série Drácula da Hammer, mas sim da Trilogia Karnstein, então nem faria sentido inclui-lo nesse artigo. Mas, mais cedo ou mais tarde, vou acabar escrevendo alguma outra postagem sobre ele, pois é, de fato, um dos meus favoritos do período setentista da Hammer.

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